O passado mês em cinema – Fevereiro.

Aqui me têm de novo, finalmente liberto da azáfama dos últimos tempos, repartidos e revezados entre estudo, afazeres académicos, e infrutífero ócio (minto: houve também alguma leitura, que será explicitada num futuro post). Deste a última vez que escrevi sobre cinema, remontando a finais de Janeiro, tive um muito parco mês de Fevereiro: vi apenas 7 filmes, sem grande critério de selecção. Volvido já bem mais que um mês, vou tentar deixar algumas impressões.

All_the_president's_menHavia algum tempo que o tinha referenciado, e uma qualquer referência – talvez a propósito de Spotlight, galardoado nos Oscars – me levou de novo a considerá-lo. All The President’s Men (1976), uma referência do cinema americano, com Dustin Hoffman e Robert Redford à cabeça, discrimina todo o processo jornalístico que desencadeou num dos escândalos políticos mais mediáticos das terras do Uncle Sam. Infelizmente, é necessário, ao longo do filme, que tenhamos esse contexto histórico/político bem presente; doutra forma, a história é apenas uma vaga impressão que cruza nomes, datas, e lugares, relevantes para a história americana. Por isso, é uma relutante recomendação. É um óptimo filme, mas é necessário, para quem não viveu aquelas décadas, ter a página da Wikipedia sobre o Watergate à mão.

Depois, L’Argent (1983) de RobertL'argent Bresson. O segundo filme que vejo do realizador francês, está ainda centrado no estilo muito próprio que lhe vi em Pickpocket (1959) – não querendo com isto dizer que seja repetitivo ou formulaico. A narrativa parte de uma nota forjada que vai de mão em mão, enquanto acompanha as consequências da ganância e da imoralidade nas pessoas que com ela se cruzam. Uma espécie de conto moral, que não o é realmente, num estilo de edição pouco ortodoxa, com resquícios de uma estratégia mais evidente em Pickpocket: cenas justapostas respeitando a linearidade, mas dadas à omissão temporal de várias acções intermédias. Entre os dois, ambos interessantes, Pickpocket é talvez a escolha mais acertada para um primeiro filme de Bresson.

220px-Rope2Ainda no cinema de outros tempos, dediquei-me a mais dois filmes de Albert Hitchcock. Primeiro, Rope (1948) dedica-se à exploração de duas ideias: uma narrativa, e uma técnica, tendo o tempo privilegiado dado maior importância à segunda. O filme desenrola-se numa única sala, onde dois colegas universitários discutem um assassínio que levaram a cabo. O cadáver jaz dentro duma arca, nessa mesma sala, que dará lugar a uma festa com vários familiares e amigos do morto. A componente narrativa, quase inexistente,  explora muito o diálogo (filosófico por vezes, raramente erudito) e uma espécie de ensemble casting, com muita gente a partilhar as cenas num dado momento; por outro lado, o factor que perpetua Rope como um interessante feito técnico prende-se com a opção de o filmar como se fosse um take ininterrupto, tal como Birdman (2014). Desta forma, Hitchcock julgava manter a tensão entre todas as cenas, e fê-lo usando transições inteligentes, contornando as limitações técnicas da altura (os rolos de filme tinham, no máximo, cerca de 10 minutos de filmagem). Salva-se o gesto técnico, e os belíssimos minutos finais – vale a pena ver.

dial-m-for-murder.12183Além de Rope, vi também um outro clássico, Dial M For Murder, este de 1954. Em comum, os dois filmes partilham a ideia de uma história passada numa divisão, e, mais especificamente, uma espécie de fetichismo requintado pelo acto de assassínio, marca que, afinal, tinge grande parte do oeuvre do realizador britânico, e que é primorosamente explorada neste último filme. Aqui, como mais tarde, em Psycho, Hitchcock prepara uma narrativa onde um dos twists não é, como se espera, a conclusão da história, mas sim o seu próprio início – a aparentemente pacata e convencional cena marital entre James Stewart e Grace Kelly dá lugar, em pouquíssimos minutos, a um rocambolesco e diabólico plano de assassínio. Perversões do status quo a que Hitchcock nos foi habituando ao longo da carreira. Depois, o filme desagua na fantasia de muitos escritores de policiais, duma forma inteligente e bem conseguida. Sem dúvida, um dos pontos altos da carreira do britânico – ou, melhor dizendo, um dos vários pontos altos.

11170770_oriCronologicamente, temos ainda Hot Fuzz (2007), uma paródia de acção com selo de produção britânica. Há alguns bons momentos, e é um filme divertido se não julgarmos demasiado a sua história apatetada e muito silly. Aliás, vi-o apenas por recomendação de um excelente canal de video essaysEvery Frame a Painting, obrigatório para quem aprecia análises visuais de filmes; impossível esquecer, também, o novíssimo de Tarantino, Hateful Eight (2015). the-hateful-eight-poster-2O que dizer? Dentro do que têm sido as trademarks do seu cinema, o americano teceu uma narrativa hermética, onde explora muito o diálogo – como tem sido, ao longo da carreira, um dos seus pontos fortes – e a caricatura de uma América que, embora se julgue perdida, tem as raízes bem soltas e à vista na sociedade de hoje. Peca, talvez, na distribuição pouco equilibrada do seu “andamento”: começa lento, pianíssimo, apanha trote no seu meio, e culmina num fantástico terceiro acto, um clímax narrativo e visual – autêntico deleite cinematográfico, apetece dizer. Se será, ou não, dos seus filmes mais bem cotados, apenas o tempo saberá julgar; por agora, não é uma pergunta muito relevante.

andrei-rublyov.15176Para terminar, o final do mês reservou-me uma bela surpresa no Theatro Circo, em Braga. Andrei Rublev (1966) é equiparável, em dimensão, àqueles livros divididos em tomos que lemos num trago, e os queremos de novo mal o acabamos; no meu caso, devido ao muito que fica por apreender nas entrelinhas. A acção passa-se no século XV, mergulhada numa história relativa às características e idiossincrasias da Rússia da época. Os diálogos – e permitam-me uma breve nota de apreço à tradução, que me parece ter sido extremamente competente, além de que sem a qual muito do encanto do filme estava irremediavelmente perdido – dizia eu, os diálogos, ao longo de todo o filme, são extremamente ricos em ideias relativas à religião, ao propósito humano, à arte, à labuta, etc. e ao mais complementados pela própria mise en scène, à qual o dedo mágico de Tarkovsky deu especial atenção, com imagens recorrentes ao longo do filme – basta pensarmos nos cavalos, um animal elegante, poderoso, muito acarinhado pelo russo nos seus filmes, que aqui aparecem amiúde, com uma forte carga simbólica – e outros artifícios visuais e narrativos, os quais, na minha limitada bagagem cinematográfica, não consigo ainda apreender. No entanto, retive do filme muita da parte final, com o poderoso último acto, comovente, entre o jovem dos sinos e Andrei Rublev, que nos acompanha bem para lá do termo do filme. Fica devida uma segunda sessão, no futuro, depois até de ter estudado as várias referências históricas às quais Tarkovsky remete. Na verdade, e agora divago, do pouco que conheço da cultura russa, parece-me que  algumas obras dos seus artistas remetem automaticamente para uma noção histórica muito enraizada, como se fosse realmente uma necessidade de olharem para si próprios, e julgar esse passado – Andrei Rublev é certamente uma dessas obras, como também o é, certamente, O Mestre e a Margarida, icónico livro de Mikhail Bulgakov, que muito se alimenta, mais do que o normal, do contexto temporal em que está inserido.

Perdoem-me a longa dissertação! Volto, em breve, e desta vez com devaneios literários.

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 1 a 7 de Março

Mais uma semana, e mais uma crónica. Desta vez, um filme ficou de fora: Citizenfour (Laura Poitras, 2014). É um impressionante documentário sobre o gigante polvo que é a agência de inteligência americana (NSA), mas que terá o seu devido destaque numa data próxima. Assim sendo, ficam aqui as recomendações para esta semana.


A Mosca – 53º Emissão

Nesta semana, decidimos explorar África e as raízes de um género que cuja influência atravessou continentes e parámos na Nigéria de Fela Kuti, cuja música foi determinante na identidade do género do afrobeat. É com ele que começa a nossa emissão, para depois passarmos na música psicadélica dos The Zombies e do escocês Donovan. De seguida, conhecemos o trabalho musical da artista Joanna Newsom, ao ouvir a primeira faixa do seu épico de 3 discos, o álbum Have One On Me (2010). A electrónica fica muito bem representada pelos esforços do sempre energético Thundercat, baixista colaborador de longa data de Flying Lotus, e também de Nicolas Jaar, a cujo álbum Space Is Only Noise (2010) prevejo um merecidíssimo lugar na história dos grandes álbuns do género. A partir daqui, entramos em caminhos mais introspectivos: primeiro, com o instrumental japonês de Toshifumi Hinata, para logo a seguir sermos surpreendidos pela honestidade brutal de Benjamin Clementine, que lançou um álbum este ano. A terminar, David Sylvian traz uma amostra do seu álbum Blemish (2003), mas as honras de fecho de emissão ficam a cargo de Delia Derbyshire. O fantástico trabalho que desempenhou como radialista e sonoplasta na BBC Radio não poderá nunca ficar esquecido e avivamos a memória colectiva ao trazer uma das suas criações, Inventions For Radio: Dreams (1964), ao meio onde seriam originalmente difundidas – a rádio. É esta a nossa proposta para esta semana. Espero que gostem!

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Cinema

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Burn After Reading (The Coen Brothers, 2008) – Para abrir a semana, revi um filme que já havia visto por volta de 2008. No entanto, tinha uma pequena ideia – que se veio a confirmar – de que Burn After Reading é uma das mais incríveis, idiotas comédias que já vi. Colaborando com os irmãos Coen, está uma enorme lista de actores de primeira linha (George Clooney, Brad Pitt, John Malkovich, etc.), cujas personagens dão por si envoltas numa paranóica trama sobre documentos confidenciais – embora os mesmos documentos não sejam assim tão importantes. Parar para pensar não é uma característica de nenhuma das personagens, e o que sucede é o típico efeito bola de neve, de acções e consequências cada vez mais hilariantes e bizarras. Embora seja uma pequena paródia às vidas idiotas das personagens de Burn After Reading, há uma subtil crítica a um estilo muito americano de vida, mas o filme ganha precisamente por nunca levar essa ideia muito a sério. Para quem gosta de boas comédias, ou de francas tentativas, tem aqui uma boa aposta. E façam-no, quanto mais não seja pelas geniais prestações de todo o seu elenco.

CapaYestasemanaArena, Cerro Negro e Rafa (João Salaviza; 2009, 2012 e 2012) – Esta passada semana, Braga teve a oportunidade de acolher o realizador português João Salaviza, no Cineclube Aurélio da Paz dos Reis. Consigo, trouxe as suas três curtas (Arena, que mostra um dia na vida de alguém em prisão domiciliária; Cerro Negro, a documentar o encontro de dois emigrantes brasileiros; e, finalmente, Rafa, a história de um rapaz cuja mãe foi presa) que compõem uma trilogia. E qual a temática comum? Pessoalmente, diria que se tratam de curtas metragens sobre pessoas marginalizadas, portugueses num âmbito mais geral que a mera nacionalidade, e sobre os quais não rezam os livros de história. Simultaneamente, são a confirmação de um olhar muito particular no mundo do cinema português e exigem toda a atenção para o resto da sua carreira. Ainda este ano, sairá, em princípio, a sua primeira longa-metragem. Cá estaremos para a ver!

The_Great_Dictator

The Great Dictator (Charlie Chaplin, 1940) – Numa jornada ao passado do cinema, encontrei-me com o famoso filme de Charlie Chaplin. O actor, que também realiza esta obra, representa duas personagens distintas: uma, a do barbeiro judeu, e a outra, a do implacável ditador do país imaginário de Tomainia, numa altura em que os judeus começavam a ser perseguidos na Alemanha em prol da supremacia da raça ariana. Surpreendeu-me a actualidade do humor de Charlie Chaplin, uma certa magia nos seus desajeitados movimentos e que, felizemnte, aguentou o teste do tempo. Mas são outros motivos que colocam este filme num lugar muito especial da história do cinema: tendo demorado cerca de dois anos em produção, a ideia principal de satirizar a pessoa de Hitler foi reconsiderada quando o ditador alemão procedeu à invasão da França e Dinamarca. Ainda assim, Chaplin, motivado por Roosevelt, foi avante, e ainda bem que o fez, pois foi difundida a fenomenal mensagem do final, sob a forma de um discurso da autoria de Charlie Chaplin – que, verdade seja dita, desencarna completamente a personagem de barbeiro judeu. Mais tarde, foi sabido que Hitler terá visto o filme – não só uma, mas duas vezes – e Charlie Chaplin admitiu dar tudo para saber a sua opinião. Nunca chegou a saber, mas é difícil imaginar que não tivesse tido impacto algum no ditador alemão. O filme recomenda-se pela inocência do seu enredo, pela descoberta da história do cinema, e ainda recomendo, aos que gostaram, The Kid e City of Lights, também da autoria do realizador americano.

leviathan_poster1Leviathan (Andrey Zvyagintsev, 2014) – O cinema russo, fruto da sociedade restrita e opressiva que de certa forma representa, tem tendência a ser extremamente metafórico e com uma faceta muito interpretativa. Neste caso, Andrey Zvyagintsev opta por uma abordagem mais directa e filma o que, no meu entender, é a ingrata vida de muita da população russa. Kolya, pai de família, vive com o filho e a namorada numa pacata casa junto à lagoa, uma propriedade construída pela família e da qual é, em pleno direito, proprietário. Tudo muda quando as pressões autárquicas, corruptas na sua essência, exercem a influência necessária para ficar com o terreno, e fica desta forma dado o mote para o filme. O que vemos a seguir é um retrato acinzentado, e muito bem filmado, da decadência desta família, numa alegórica referência bíblica que se desenrola, principalmente, na segunda parte da trama. Não ter conhecimento destas referências não impede, de forma alguma, a fruição do filme, que apenas pela sua narrativa possui uma mensagem fortíssima e de imensa importância, sobretudo no panorama da actual política russa.