28/04 – Rock e pop do sótão, e breves experimentações.

Depois de uma Sexta-feira Santa e de uma das emissões mais absurdas d’A Mosca de que há memória – e que ficará incógnita neste blog, por uma questão de dignidade – voltámos ao usual e às emissões em directo para a Rádio Lisboa.

Desta vez, quase metade do programa foi dado a conhecer pelo trabalho de campo da label Light In The Attic, que recentemente se especializou em recuperar gravações perdidas, ou fora de circulação, para que possam chegar a novos ouvidos. Assim, conhecemos o trabalho da Betty Davis, uma autêntica força da natureza do funk e do rock, que esteve, durante um curto espaço de tempo, casada com Miles Davis. Ouvimos duas das suas músicas, e seguimos, sem quebrar a toada, com Lizzy Mercier Desclouxnossa conhecida e repetente no programa. Fazemos uma pausa nas descobertas da Light quando trouxemos os DEVO (produzidos por Bri…enfim, já o saberão decerto), para logo depois voltarmos ao grupo The Free Design, que fazem lembrar uns Carpenters caso tivessem enveredado pela vida hippie comunitária, e a Rodriguez, o mais mediático caso de sucesso desta editora. E embora já tenhamos ouvido vários trabalhos do britânico, tivemos que mencionar o seu disco Before and After Science, um dos poucos do seu período pop que ainda nos faltava; e completámos a jornada de cantautores com Serge Gainsbourg, sugestão da Porto Calling, que, camaleónico, foi dar uma perninha junto da Jamaica e do reggae. Guardámos os momentos finais para alguma experimentação: primeiro, os Throbbing Gristle, endiabrados britânicos afectos à música perversa; depois, Jenny Hval, que actuaria no dia seguinte em Braga; e terminámos com o footwork impressionista do japonês Foodman. Uma semana de emissão difícil, em parcas condições vocais, pelas quais pedimos antecipadamente as possíveis desculpas.

1. Betty Davis – You Won’t See Me in the Morning (Betty Davis, 1973)
2. Betty Davis – Come Take Me (Betty Davis, 1973)
3. Lizzy Mercier Descloux – Fire (Press Color, 1979)
4. DEVO – Uncontrollable Urge (Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, 1978)
5. The Free Design – Canada in Springtime (There Is A Song, 1972)
6. The Free Design – My Very Own Angel (Heaven / Earth, 1969)
7. Rodriguez – I Think Of You (Coming From Reality, 1971)
8. Brian Eno – Here He Comes (Before and After Science, 1977)
9. Serge Gainsbourg – Aux Armes et caetera (Aux Armes et caetera, 1979) recomendação da Porto Calling.
10. Throbbing Gristle – Hot on the Heels of Love (20 Jazz Funk Greats, 1979)
11. Jenny Hval – Conceptual Romance (Blood Bitch, 2016)
12. Foodman – Hikari (Ez Minzoku, 2016)
13. Foodman – Waterfall (Ez Minzoku, 2016)

capa mosca.png

 

 

 

Breves considerações sobre músicas.

A propósito da rubrica semanal do Arte-Factos, as Músicas da Semana, aproveitámos para discorrer sobre cinco artistas extraordinariamente relevantes.

Kendrick Lamar – FEEL.

039eed0758eb3aa30f050c77e7bbdc1e-1000x1000x1Tomei a última semana para degustar, ao sabor do tempo, o fresquíssimo novo disco de Kendrick Lamar. Temia, e percebo agora que sem nenhum fundamento, que lhe custasse apontar a um qualquer rumo depois do épico To Pimp a Butterfly, ora não se sentisse que esse disco de 2015 fora um muito maduro trabalho, conceptual e musicalmente num patamar à parte dos seus contemporâneos. Quanto a DAMN., o novíssimo disco, não conjecturo ainda ilações do estilo. Diz-me uma primeira impressão que é música que se toma mais pelo seu valor individual do que pela soma das suas partes; e além de contrariar o que havia, nesse sentido, feito em To Pimp a Butterfly e até no anterior, cinemático Good Kid, M.A.A.D City, coaduna-se com o actual panorama musical quando apresenta, ao longo das suas 14 faixas, uma hora de jabs directos provenientes de um universo lírico no qual se sente mais que confortável. Deste disco, FEEL. é um dos vários possíveis destaques: começa com uma alusão ao vazio religioso, apanágio de Kendrick desde há algum tempo para cá, e discorre sobre tudo o que o rapper tem sentido nos últimos tempos, em palavras que se sentem, aqui e em todo o restante disco, serem dirigidas a toda uma América. Um exercício auto-centrado, também se poderá dizer, mas sabemo-lo há já algum tempo que Kendrick não tem problema algum a considerar-se o topo do game, ao lado de grandes como Tupac Shakur. E DAMN. advém dessa elevação.

Tim Buckley – Hallucinations

timbuckley-300x300Há já alguns meses que me insiro, lenta mas assertivamente, no curiosíssimo universo de Tim Buckley. Certamente o seu nome trará à memória, em primeiro lugar, a carreira do filho Jeff, autor de Grace, disco de 1994, que ressuscitou – e imortalizou devidamente – a Hallelujah de Leonard Cohen. E esta herança musical do seu filho é argumento para justificarmos que o talento corria, de facto, nas veias da família. Tim, que editou ao longo das décadas de 60 e 70, produziu trabalhos distintíssimos entre a folk de traços psicadélicos, perfeitamente coerente e alinhada com os seus contemporâneos, como foi, com o passar do tempo, reinventando a sua música e abraçando outras estéticas; Starsailor, de 1970, é o culminar de um trajecto com rumo traçado ao experimental e ao místico, onde a sua voz (que portento!) revela toda a força e multiplicidades; mas logo de seguida, em Greetings from L.A. (1972), entrega-se à sensualidade do funk e da soul com a maior das naturalidades. Por entre todos os altíssimos momentos da sua discografia – editou, em menos tempo que o seu filho e por ironia e triste fatalidade desta estranha linhagem, nove (!) discos entre 66 e ’74 – destaco Hallucinations, do disco Goodbye and Hello (1967), seu segundo disco e provavelmente o melhor ponto de entrada no mundo de um artista que palmilhou ora o belo categórico, como em Song to the Siren, como se entregou, com a mesma determinação, ao onírico, ao perverso, ao feérico. De tudo isto, é Hallucinations exemplo. E categoricamente belo também.

Björk – Where Is The Line

Breve passagem pela islandesa Björk, tão homogénea, e ainda assim tão interessante. O disco é de 2004 e utiliza a voz como expressão e simultânea composição: a cantora canta por cima de instrumentais que não o são em boa verdade, dado que se compõem maioritariamente por sobreposições de outras linhas vocais, como uma expansão do original e imutável conceito de a cappella com auxílio da electrónica. Obrigatório!

Brian Eno – Spider and I

Quem acompanha as minhas aventuras melómanas, terá presente a alta estima com que considero o britânico Brian Eno, dono de um autêntico toque de Midas no que à mi0000900770produção musical diz respeito – que o digam os portugueses The Gift, que o recrutaram para produzir o seu novo disco e, com ele, se elevaram a onde ainda não haviam chegado. Spider and I é tema conclusão do disco Before and After Science, de 1977, e que se segue a Another Green World (1975) , um trabalho que me é bem mais familiar. Na sua música, tudo está presente, independentemente da linguagem que usemos para a enquadrar – caso não seja claro o que pretendo com a expressão, basta que consideremos por amostra o seu legado na década de 70. Before and After Science tem apenas 40 minutos divididos ao longo de 10 faixas; mas sentimo-lo expandir-se além desta limitação temporal. Escolhi Spider and I, como poderia ter figurado virtualmente qualquer outra das canções.

Morton Feldman – Rothko Chapel

Para terminar, um nome de outra dimensão. Morton Feldman, compositor americano, foi um dos nomes mais proeminentes do século passado na linhagem clássica, que, traços gerais, teve uma espécie de crise após a vaga romântica, muito expressiva, que lhe precedeu. E aproveito para o enquadrar à luz do que escrevi sobre Eno: sobre este último, mantenho que soube orientar-se fosse na pop, no rock, ou nas deambulações electrónicas que pautaram grande parte das suas explorações minimalistas, e usei o termo linguagem. Sigam-me: caso consideremos ritmo, harmonia, melodia, como parte de uma linguagem, como interpretaremos então as composições de Feldman, e esta Rothko Chapel em particular, que quando assim comparada nos parece amorfa, indefinida, inconclusiva, um exercício nebuloso que dura por mais de trinta minutos? Feldman foi muito próximo de outra figura definidora do século, o compositor John Cage, e Rothko, a quem se refere explicitamente no título da obra, é o pintor autor de icónicos estudos sobre cor e textura; e a interpretação que vos trago está incluída num disco que a enquadra com Cage e o francês Erik Satie.

De volta às analogias, ponhamos lado a lado um quadro naturalista e uma pintura de Rothko: o que há em comum? Da mesma forma, equipare-se Eno, por exemplo, e esta composição de Feldman. Poder-se-á dizer, no primeiro caso, que se partilha a cor, ou o fenómeno visual; no segundo, o som, puro e desprovido de outros encantos que lhe são acrescidos (o ritmo, melodia, harmonia). Caso vos interesse, abram as portas à capela de Feldman, ainda que desconheçam onde vos levará. Para uma viagem mais completa, pode fazer-se escala num ponto que, ora vejamos, não nos é desconhecido de todo.

Edição 91,5 – Em directo na Rádio Lisboa, com escolhas de Brian Eno.

Infelizmente, não foi esta semana que ouvimos a edição 92 d’A Mosca. Como tal, recorremos a uma batota inédita, e recuperámos a emissão em directo na Rádio Lisboa, desta última madrugada de sexta-feira para Sábado, no dia 15 de Abril.

Baseada na lista que Brian Eno deu à The Quietus, e da qual tentámos passar grande parte das músicas, partimos numa viagem dentro desse imaginário. Tudo o que nos permita compreender melhor a sua música e as suas influências é obrigatório, ora não fosse Eno uma das grandes referências musiciais dos últimos anos.

E, portanto, aqui a temos: edição 91 e meia! Talvez recorramos a este método mais vezes, sempre que o mérito da emissão o justificar. Para que não tenham que esperar pela reposição em podcast – que nem sempre é garantida nas emissões em directo – podem ouvir nas madrugadas de sexta-feira para Sábadoa partir da meia-noite, em http://radiolisboa.pt. 

91,5.png

Como subscrever A Mosca

O meu 2015.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO ARTE-FACTOS]

Ah, agora sim! Desta vez, não me limito ao cinema de 2015, e permito-me a uma reflexão sobre o ano que agora termina. Escolhi duas mãos cheias de destaques dos últimos doze meses, e que a mim me encheram o mundo – uns mais que outros, claro, e houve algumas batotas pelo meio. Conta a intenção! Além disso, optei por não os ordenar de forma específica. Embora não sejam todos equivalentes, foram todos, à sua maneira, essenciais para o último ano. Comecemos!

1.  O primeiro destaque vai para o espaço semanal “Já Vi Este Filme”, na RTP2, que, desde Setembro, tem feito alguns ciclos de cinema mais alternativos aos Sábados, com comentário prévio e posterior ao filme. Por lá, já passaram estreias de Roberto Rossellini, Yasujirō Ozu, etc. Esta atenção à cultura não é de agora – embora me pareça que tem havido algum desinvestimento nesse sentido – e fico feliz por saber que todas as semanas há um filme novo, em sinal aberto, para os que se interessam. Se são muitos ou poucos, já são outros quinhentos, mas fica a intenção – oxalá a reforcem!

Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de 'Dog Day Afternoon'.
Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de ‘Dog Day Afternoon’.

2.  E, já que falamos de cinema, só este ano vi pouco mais de 150 filmes. Fiz algum esforço para manter o ritmo ao longo do ano, por ser um meio que muito me interessa (e daí que me tenha juntado ao projecto do Arte-Factos!). Desses, pouquíssimos foram os filmes contemporâneos, já que a maior parte pertence ao século passado, e já desisti da ideia de organizar a lista dos favoritos: são demasiados. Mas descobri e aprendi muita coisa, e espero poder, ao longo dos próximos tempos, transmitir um pouco que seja deste meu fascínio. Para que este ponto não passe como apenas um devaneio egoísta, deixo-vos a recomendação do livro Making Movies, de Sidney Lumet, um realizador americano que, infelizmente, parece ser caracterizado como um cineasta de “segunda linha”, e que redigiu um óptimo livro sobre a feitura de um filme, intercalado com momentos de análise e explicação técnica de cenas do seu próprio trabalho.

43091-art-angels3. Felizmente, não só de cinema viveu o meu 2015. Antes pelo contrário! Em relação à música deste ano, de entre os óptimos discos que foram saindo (o incontornável To Pimp a Butterfly, Simple Songs de Jim O’Rourke, a colaboração entre Colin Stetson e Sarah Neufeld, etc.), há um que tenho que destacar: Art Angels, da americana Grimes. Ora, não é o melhor álbum que ouvi este ano, mas apanhou-me de surpresa com o assumido ataque à pop açucarada, irrequieta, e esquizóide, e que veio para não mais me deixar em sossego. Sou agora uma vítima do poptimism que tem assolado a imprensa especializada nos últimos tempos, na senda de encontrar, no comercial e no efémero, um retrato do nosso contemporâneo (a Hotline Bling não entra nesta recensão). Não é – repito – o melhor que ouvi este ano, mas deixou-me intrigado e instigou-me a reformular a minha abordagem a certos artistas e géneros. Sempre bom.

4. Ainda na música, e numa posição diametralmente oposta à do último destaque, recupero o concerto de Oren Ambarchi, na última edição do festival Semibreve, em Braga. Mesmo sem acompanhar de perto a carreira do artista australiano, havia ouvido a sua colaboração com Jim O’Rourke, no disco Behold, e era o seu concerto que mais ansiava neste ano de Semibreve. Não me desapontou. O seu trabalho improvisacional na transfiguração (e desfiguração) da guitarra, e a edificação de algo tão intenso, energético e opulento, tudo isso foi amplamente contemplado, e escrutinado, no assalto à nossa audição durante os cerca de 50 minutos de concerto. Não sei se alguma vez conseguiu replicar essa experiência em disco. Não sei, sequer, se vale a pena tentar. Guardo a repetição da experiência para um breve futuro!

Retirado do Facebook do Gnration.
Retirado do Facebook do Gnration.

5. E já que falámos do Semibreve, quero relembrar a sessão de conversa com Hans-Joachim Röedelius, patrocinada, no âmbito do festival, pela publicação britânica The Wire. Se a mim me fascinou, e apenas o conheço há relativamente pouco tempo, imagino os que de certa forma cresceram na companhia da música dos Cluster e da electrónica que parece de outro mundo mas, não, que afinal vive bem perto, na Alemanha. Falou-nos de tudo um pouco. E foi, realmente, um ano de boas conversas: atém do alemão, é impossível esquecer-me da entrevista que fiz ao B Fachada, e muito nervosa e inexperimentemente, ao Peter Kember, ambas em Braga; e também ao Allen Halloween, que me provou ser uma das personalidades mais importantes deste último ano (a não esquecer o seu álbum Híbrido!).

roedelius em braga
Retirado do Facebook do Gnration.

6. E tudo isto vem a propósito porque quero destacar, de uma forma mais abrangente, o último ano cultural que tivemos em Braga. Não destaco nenhum nome em particular porque me esqueceria, inevitavelmente, de alguém, mas tivemos um óptimo ano de concertos para todos os gostos e idades, além de uma série de iniciativas ligadas à música e à cultura em geral. E no âmbito do cinema, que a mim me interessa sobremaneira, foi interessante (com muita margem para mais), sobretudo devido ao trabalho realizado no Theatro Circo – pena a sessão única, e esgotada, das Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes.

©Alfred Dunhill
©Alfred Dunhill

7. Salientei algumas entrevistas, mas nem sempre uma conversa se faz de diálogo: às vezes, ganhamos muito mais se soubermos escutar. Acontece que ao longo deste último ano, explorei, a espaços, a eclética carreira do músico Brian Eno (ele fez de tudo! Basta atentar nos anos de 1977-1978), que foi convidado pela BBC Radio a conduzir uma palestra sobre a arte e a cultura, num evento de homenagem ao radialista John Peel. Ao longo de uma hora, discorreu sobre o papel da arte, da cultura, e a nossa forma de lidar com a criação artística, e tem considerações bem interessantes a fazer sobre o tema. Por vezes, neste tipo de díalogos, corre-se o perigo de os tornar herméticos e algo inacessíveis, e desta vez não aconteceu: Eno fez muito bem o seu trabalho de casa, e foi claro e divertido ao longo de toda a conversa. Foram momentos muito bem passados e, por isso, destaco-a aqui.

8. Também aconteceu de, este ano, finalmente ter abraçado algumas novas tecnologias de difusão de conteúdos, principalmente os podcasts e os e-books (tenho, finalmente, um e-reader – e não, não é um kindle). No primeiro caso, é uma consequência lógica da minha actividade em rádio, e que me ajudou a perceber (e a produzir) uma outra forma de trabalhar o áudio. Não vou à procura de programas de música – devia? há sugestões? – mas sim de programas de conversa e que saibam aproveitar as capacidades da sonoplastia. Quanto aos e-books, usufruí, sobretudo, de literatura em inglês, devido à falta de oferta: no nosso país, é um formato extremamente mal aproveitado, chegando, por vezes, ao ridículo de nos ser oferecida a versão digital mais cara que a versão física. Não se enganem: eu adoro livros em papel. O cheiro, o tacto, o peso de um livro, são insubstituíveis. Contudo, isto é algo a rever pela indústria nos próximos tempos, e oxalá seja para breve.

9. Isto leva-nos ao único destaque literário que tenho para este ano. Li algumas coisas – não tanto quanto devia – e, entre os pouco mais de dez livros (que podiam ser cem, ou mil), há um que sobressai: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Comprei-o depois de uma breve sugestão, não sei bem a propósito de quê, porque, em boa verdade, ainda não havia lido nada thomas mann montanha magicacomo a obra do alemão. E falo tanto da componente narrativa, como da própria dimensão do tomo. A premissa é simples: Hans Castorp, homem de engenharia, prático e mundano, planeia passar três semanas num sanatório onde se tratam doenças do foro respiratório, e “acaba por lá ficar sete anos, nem longos, nem breves, herméticos tão-só”. Segue-se um romance na tradição de bildungsroman, documento da passagem e da formação humana de Castorp nessa montanha. As minhas palavras, mais por parca capacidade do que risco de redundância, não lhe fazem justiça. Aprendam sobre a vida e sobre o tempo, com Castorp e Mann.

10. Para terminar, permito-me uma consideração sobre o espírito crítico que tentei desenvolver, ao longo deste último ano, na apreciação do meu consumo cultural. A cultura – e, por extensão, a arte – podem-no ser de várias formas e por vários motivos, mas dificilmente as consideraria como um meio de escape ao nosso quotidiano. A arte vive, também, da intensidade da experiência humana e, como tal, é dela indissociável. Consumi-la leva-nos sempre um passo adiante no conhecimento em relação à nossa história, e intrínsecas motivações, e, para mim, é algo demasiado valioso para   que não a tente apreender ao longo dos dias.

Este foi o meu primeiro ano de Arte-Factos, e espero ter contribuído positivamente para uma comunidade à qual nada falta para se tornar uma referência. A eles, e a vocês, um muito obrigado, e que 2016 seja tão bom, ou melhor ainda, que este último ano!

A palestra de Brian Eno sobre o papel da arte e cultura.

BrianEno_EBJohn Peel foi uma enormíssima personalidade da rádio britânica BBC, a quem muitas vezes se comparou o “nosso” António Sérgio na capacidade de trazer música diferente aos seus ouvintes. Em sua honra, a BBC organiza, anualmente, uma palestra onde convida uma personalidade musical a discutir música, ou assuntos relacionados com cultura; e para este ano, depois de nomes como Iggy Pop ou Pete Townshend, foi a vez de Brian Eno.

O artista britânico tem uma das carreiras mais importantes na história da música moderna – ou melhor, de toda a história da música -, com um contributo enorme na definição do silêncio como elemento activo, a atenção à produção da sua música, e as imensas colaborações com outros artistas. A exemplo da sua polivalência musical, basta reparar que, no ano de 1978, foi autor de um dos álbuns mais influentes da música ambientMusic For Airports 1, como foi responsável pela curadoria da compilação No New York, um dos marcos do movimento musical no-wave. E podemos também mencionar o seu trabalho como produtor de David Bowie, ou no álbum Remain In Light, dos Talking Heads.

Como tal, a palestra do último dia 27 de Setembro tinha tudo para ser algo realmente especial. E foi! Eno dedicou grande parte da sua hora ao tema da cultura e da arte. Definiu esse conceito de uma forma genial – a arte é “tudo o que não temos que fazer” – e expôs todo o consequente raciocínio de uma forma clara, envolvente, e progressivamente mais abrangente: ao longo da palestra, abordou temas como a errada percepção de que a arte e a cultura são menores, em contextos financeiros e de progresso da sociedade, em relação à ciência; da necessidade humana de recuperar a imaginação livre e recreativa da infância, através do sentimento de abstracção que, por exemplo, a leitura de um livro nos concede; a capacidade que o ser humano tem de desenvolver empatia com outras realidades de vida por meio da arte; e, para finalizar o rol de exemplos, o seu positivismo refrescante em relação ao futuro da humanidade, repleta de automação e tecnologia, onde todos serão artistas por não terem nenhuma outra necessidade mais imediata.

A gravação da conversa ficou documentada em áudio, e está, durante os próximos 22 dias, disponível em streaming no site da BBC. Podem ouvi-la aqui; se preferirem, a transcrição completa em formato texto também está online aqui. Além disso, na próxima emissão d’A Mosca, vamos recuperar alguns momentos da sua carreira, assim como alguns excertos desta sua palestra.

“When you go into a gallery, you might see a most shocking picture. But actually you can leave the gallery. When you listen to a terrifying radio play you can switch the radio off. So one of the things about art is it offers a safe place for you to have quite extreme and rather dangerous feelings.”