Um pequeno roteiro do Semibreve 2016.

[ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA TRACKER MAGAZINE]

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O Festival Semibreve, evento referência do panorama cultural de Braga – e, porque não afirmá-lo, até a nível nacional – já tem o seu cartaz completo e todos os bilhetes esgotados. Como já nos ensinou noutros anos, ao longo dos três dias dedicados à sexta edição do Semibreve, os limites e convenções artísticas são desafiados; a música bate-se em pé de igualdade com outras manifestações visuais; os espaços da cidade são reapropriados, e as suas características integram a arte circundante. Mais do que um festival de música – e de várias exposições e instalações artísticas abertas ao público – é uma reunião anual de ideias de vanguarda, um satélite permanentemente atento a acontecimentos relevantes na área. Decorre entre 28 a 30 de Outubro.

1º Dia

Ao primeiro dia, unem-se na sala principal do Theatro Circo as forças de Kara-Lis Coverdale, a artista canadiana que se afirmou no ano passado com os trabalhos Aftertouches e Sirens (e, já em 2016, colaborou em Virgins, do conterrâneo Tim Hecker) e o artista visual Marcel Weber (MFO), que se tem especializado no complemento visual a peças musicais – entre as quais se contam peças de natureza distinta entre si, como sejam a música de Roly Porter e Ben Frost, ou as apresentações da Ópera Nacional de Paris.

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Kaitlyn Aurelia Smith

No seguimento, temos Kaitlyn Aurelia Smith, com disco novo este ano, EARS, que sucede a Euclid (2015), um trabalho de assumida inspiração na geometria euclidiana. Devota ao sintetizador Buchla e à simplicidade matemática dos seus osciladores (ao vivo, utiliza um modelo mais recente, o Buchla Music Easel), é sensível a tudo o resto que o possa complementar: a voz e um conjunto de sopros são recorrentes ao longo do disco, evocando simultaneamente a música de uma das suas referências, o minimalista Terry Riley, assim como a natureza da ilha de Orcas, onde viveu e se refugia amiúde.

Depois, ao virar da meia-noite, temos o nova-iorquino Ron Morelli no pequeno auditório do Theatro Circo. Morelli é fundador da L.I.E.S. (Long Island Electrical Systems), uma editora de música electrónica afecta, mas não circunscrita, ao house e techno; no entanto, os seus dois registos discográficos (Spit (2013) e A Gathering Together (2015), editado pela label do artista Prurient) não o aproximam necessariamente dessa tradição, e parecem relacionar-se como críticas, ou respostas formais, enquanto se movem pelo noise e terrenos industriais. O seu espectáculo será, então, um possível cruzar entre estes dois mundos, nas suas intersecções, e, talvez mais ainda, onde se encontrarem as suas diferenças. E, já agora, será também o seu primeiro concerto neste formato.

A noite termina no gnration, onde recebemos primeiro Andy Stott e o novo disco este ano, Too Many Voices, que virá apresentar, e depois Nidia Minaj, pertencente à editora/colectivo Príncipe Discos, que tem espalhado o caos em Portugal e siderado a imprensa especializada a nível internacional.

2º Dia

Como já aconteceu no ano transacto, a publicação britânica de referência The Wire vem a Braga para as Q&A Sessions: um momento de conversa com os músicos, conduzidos por jornalistas da revista, e abertos às perguntas do público. Este ano, um dos contemplados será Tyondai Braxton, porventura mais conhecido por ter formado e integrado os Battles até o ano de 2010; mais recentemente, 2015 deu-nos HIVE1, um registo discográfico duma instalação artística que correu mundo em 2013. A sessão terá lugar na Casa Rolão (partilha o edifício da Livraria Centésima Página).

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Hans-Joachim Roedelius, na Q&A Session do ano transacto. (foto retirada do Facebook do Semibreve)

Ainda fora do Theatro Circo, teremos o concerto de Christina Vantzou, um dos mais aguardados do festival, na Capela Imaculada do Seminário Menor. A artista opera no domínio ambient, afecto a alguns instrumentos da música clássica – talvez mais esclareça dizer que já colaborou com os The Dead Texan, e edita pela Kranky, ambos referências deste género. Neste concerto, juntam-se-lhe os bracarenses Ensemble Harawi.

R-4799776-1411439632-7024.jpeg.jpgDe volta à Sala Principal, a oportunidade imperdível de ouvir Rashad Becker, que teve o seu primeiro grande impacto há uns anos, em 2013, quando lançou Traditional Music of Notional Species Vol. I. É um trabalho extremamente hermético, longe da experimentação melodiosa de Kara-Lis, por exemplo, com base nos sons do trombone e barulhos avulsos. Redefine, sem dúvida, a própria noção de música. Com ele, teremos Moritz von Oswald, multi-instrumentista cuja carreira teve maior expressão nos anos 90 como produtor. A música fica à responsabilidade de ambos, com o foco da atenção conjunta no som do piano: um drone que se transforma, manipula e multiplica. Música exploratória, como nos relatam desde o Berlin Atonal – festival para o qual foi comissionada esta apresentação – que não deixa, ainda assim, de ser contemplativa.

O supramencionado Tyondai Braxton completa o programa da sala principal, e Jonathan Saldanha termina as festividades no pequeno auditório do Theatro Circo. Porventura, já o conhecerão como mentor dos HHY & The Macumbas (ou até de um projecto menos mediático, Fujako), mas, desta vez, temo-lo a solo e com o palco a seu cargo, a explorar ecos e detritos sonoros. Dadas as boas referências que temos dos seus outros projectos, depositamos-lhe a maior confiança.

halo624Já no gnration, Laurel Halo entrará, a julgar pelas suas mais recentes incursões discográficas, no mundo do techno e na electrónica mais esclarecida (como seria bom que retornasse para um segundo volume do seu fantástico disco de 2012, Quarantine!). A esperança é a última a morrer: a artista apresentará música que pertence ao seu próximo disco a sair no ano de 2017. Depois, termina a noite com Ron Morelli, desta vez no formato de dj set.

3º Dia

O último dia não é necessariamente um dia de menor intensidade, como já o ano passado se provou com o concerto de Oren Ambarchi. Mais uma vez, a The Wire organiza uma Q&A Session, desta feita com Kara-Lis Coverdale. Depois, voltamos ao Theatro Circo, com as duas propostas finais do festival. Primeiro, Oliver Coates, músico que se tem envolvido numa série de projectos acompanhado pelo seu violoncelo (participou, até, em colaborações com Jonny Greenwood e os inevitáveis Radiohead). No Semibreve, e aproveitando as condições únicas do festival, propõe um exercício, no mínimo, singular: ao som de uma peça para o violoncelo (não necessariamente nas práticas usuais da música clássica), introduz-nos ao mundo de Lawrence Lek, um artista visual alemão cuja obra consiste em criar mundos virtuais tridimensionais exploráveis, como se de um videojogo se tratasse, satíricos e críticos da nossa realidade hiper-tecnológica e consumista – não será descabido traçar semelhanças com alguma da estética/filosofia do vaporwave.

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Em Unreal Estate, Lawrence Lek supõe a compra da Royal Academy of Arts por um investidor privado.

E a seguir, a fechar o festival, a aguardada presença de Paul Jebanasam & Tarik Barri, compositor e artista visual, respectivamente, que em conjunto apresentarão Continuum, disco editado no presente ano; um registo épico, intenso e exploratório, intimamente ligado às ideias físicas que regem o nosso mundo imediato, e, simultaneamente, o universo: rígidas, definitivas, e imutáveis; por outro lado, Continuum é um caótico rendilhado entre cordas, coros, feedback e resíduos digitais, errático e estruturalmente ingovernável – uma assumida dicotomia (filosófica) que ambos atacarão ao longo do espectáculo. Para a componente visual, Tarik criou um software específico para estas apresentações. Mediante o comportamento de certos algoritmos que manipulam leis físicas virtuais, projecta um universo orgânico e reajustável mediante a alteração dos mesmos parâmetros; e devido à natureza aleatória e volátil do seu programa, o resultado será, para eles também, uma novidade. Com eles, encerra-se a sexta edição do Semibreve.

Com tudo isto, não esqueçamos as instalações artísticas expostas no Theatro Circo e gnration ao longo de festival. Mais uma vez, temos, em Braga, um dos melhores festivais do mundo. Vejamo-nos por lá!

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O meu 2015.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO ARTE-FACTOS]

Ah, agora sim! Desta vez, não me limito ao cinema de 2015, e permito-me a uma reflexão sobre o ano que agora termina. Escolhi duas mãos cheias de destaques dos últimos doze meses, e que a mim me encheram o mundo – uns mais que outros, claro, e houve algumas batotas pelo meio. Conta a intenção! Além disso, optei por não os ordenar de forma específica. Embora não sejam todos equivalentes, foram todos, à sua maneira, essenciais para o último ano. Comecemos!

1.  O primeiro destaque vai para o espaço semanal “Já Vi Este Filme”, na RTP2, que, desde Setembro, tem feito alguns ciclos de cinema mais alternativos aos Sábados, com comentário prévio e posterior ao filme. Por lá, já passaram estreias de Roberto Rossellini, Yasujirō Ozu, etc. Esta atenção à cultura não é de agora – embora me pareça que tem havido algum desinvestimento nesse sentido – e fico feliz por saber que todas as semanas há um filme novo, em sinal aberto, para os que se interessam. Se são muitos ou poucos, já são outros quinhentos, mas fica a intenção – oxalá a reforcem!

Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de 'Dog Day Afternoon'.
Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de ‘Dog Day Afternoon’.

2.  E, já que falamos de cinema, só este ano vi pouco mais de 150 filmes. Fiz algum esforço para manter o ritmo ao longo do ano, por ser um meio que muito me interessa (e daí que me tenha juntado ao projecto do Arte-Factos!). Desses, pouquíssimos foram os filmes contemporâneos, já que a maior parte pertence ao século passado, e já desisti da ideia de organizar a lista dos favoritos: são demasiados. Mas descobri e aprendi muita coisa, e espero poder, ao longo dos próximos tempos, transmitir um pouco que seja deste meu fascínio. Para que este ponto não passe como apenas um devaneio egoísta, deixo-vos a recomendação do livro Making Movies, de Sidney Lumet, um realizador americano que, infelizmente, parece ser caracterizado como um cineasta de “segunda linha”, e que redigiu um óptimo livro sobre a feitura de um filme, intercalado com momentos de análise e explicação técnica de cenas do seu próprio trabalho.

43091-art-angels3. Felizmente, não só de cinema viveu o meu 2015. Antes pelo contrário! Em relação à música deste ano, de entre os óptimos discos que foram saindo (o incontornável To Pimp a Butterfly, Simple Songs de Jim O’Rourke, a colaboração entre Colin Stetson e Sarah Neufeld, etc.), há um que tenho que destacar: Art Angels, da americana Grimes. Ora, não é o melhor álbum que ouvi este ano, mas apanhou-me de surpresa com o assumido ataque à pop açucarada, irrequieta, e esquizóide, e que veio para não mais me deixar em sossego. Sou agora uma vítima do poptimism que tem assolado a imprensa especializada nos últimos tempos, na senda de encontrar, no comercial e no efémero, um retrato do nosso contemporâneo (a Hotline Bling não entra nesta recensão). Não é – repito – o melhor que ouvi este ano, mas deixou-me intrigado e instigou-me a reformular a minha abordagem a certos artistas e géneros. Sempre bom.

4. Ainda na música, e numa posição diametralmente oposta à do último destaque, recupero o concerto de Oren Ambarchi, na última edição do festival Semibreve, em Braga. Mesmo sem acompanhar de perto a carreira do artista australiano, havia ouvido a sua colaboração com Jim O’Rourke, no disco Behold, e era o seu concerto que mais ansiava neste ano de Semibreve. Não me desapontou. O seu trabalho improvisacional na transfiguração (e desfiguração) da guitarra, e a edificação de algo tão intenso, energético e opulento, tudo isso foi amplamente contemplado, e escrutinado, no assalto à nossa audição durante os cerca de 50 minutos de concerto. Não sei se alguma vez conseguiu replicar essa experiência em disco. Não sei, sequer, se vale a pena tentar. Guardo a repetição da experiência para um breve futuro!

Retirado do Facebook do Gnration.
Retirado do Facebook do Gnration.

5. E já que falámos do Semibreve, quero relembrar a sessão de conversa com Hans-Joachim Röedelius, patrocinada, no âmbito do festival, pela publicação britânica The Wire. Se a mim me fascinou, e apenas o conheço há relativamente pouco tempo, imagino os que de certa forma cresceram na companhia da música dos Cluster e da electrónica que parece de outro mundo mas, não, que afinal vive bem perto, na Alemanha. Falou-nos de tudo um pouco. E foi, realmente, um ano de boas conversas: atém do alemão, é impossível esquecer-me da entrevista que fiz ao B Fachada, e muito nervosa e inexperimentemente, ao Peter Kember, ambas em Braga; e também ao Allen Halloween, que me provou ser uma das personalidades mais importantes deste último ano (a não esquecer o seu álbum Híbrido!).

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Retirado do Facebook do Gnration.

6. E tudo isto vem a propósito porque quero destacar, de uma forma mais abrangente, o último ano cultural que tivemos em Braga. Não destaco nenhum nome em particular porque me esqueceria, inevitavelmente, de alguém, mas tivemos um óptimo ano de concertos para todos os gostos e idades, além de uma série de iniciativas ligadas à música e à cultura em geral. E no âmbito do cinema, que a mim me interessa sobremaneira, foi interessante (com muita margem para mais), sobretudo devido ao trabalho realizado no Theatro Circo – pena a sessão única, e esgotada, das Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes.

©Alfred Dunhill
©Alfred Dunhill

7. Salientei algumas entrevistas, mas nem sempre uma conversa se faz de diálogo: às vezes, ganhamos muito mais se soubermos escutar. Acontece que ao longo deste último ano, explorei, a espaços, a eclética carreira do músico Brian Eno (ele fez de tudo! Basta atentar nos anos de 1977-1978), que foi convidado pela BBC Radio a conduzir uma palestra sobre a arte e a cultura, num evento de homenagem ao radialista John Peel. Ao longo de uma hora, discorreu sobre o papel da arte, da cultura, e a nossa forma de lidar com a criação artística, e tem considerações bem interessantes a fazer sobre o tema. Por vezes, neste tipo de díalogos, corre-se o perigo de os tornar herméticos e algo inacessíveis, e desta vez não aconteceu: Eno fez muito bem o seu trabalho de casa, e foi claro e divertido ao longo de toda a conversa. Foram momentos muito bem passados e, por isso, destaco-a aqui.

8. Também aconteceu de, este ano, finalmente ter abraçado algumas novas tecnologias de difusão de conteúdos, principalmente os podcasts e os e-books (tenho, finalmente, um e-reader – e não, não é um kindle). No primeiro caso, é uma consequência lógica da minha actividade em rádio, e que me ajudou a perceber (e a produzir) uma outra forma de trabalhar o áudio. Não vou à procura de programas de música – devia? há sugestões? – mas sim de programas de conversa e que saibam aproveitar as capacidades da sonoplastia. Quanto aos e-books, usufruí, sobretudo, de literatura em inglês, devido à falta de oferta: no nosso país, é um formato extremamente mal aproveitado, chegando, por vezes, ao ridículo de nos ser oferecida a versão digital mais cara que a versão física. Não se enganem: eu adoro livros em papel. O cheiro, o tacto, o peso de um livro, são insubstituíveis. Contudo, isto é algo a rever pela indústria nos próximos tempos, e oxalá seja para breve.

9. Isto leva-nos ao único destaque literário que tenho para este ano. Li algumas coisas – não tanto quanto devia – e, entre os pouco mais de dez livros (que podiam ser cem, ou mil), há um que sobressai: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Comprei-o depois de uma breve sugestão, não sei bem a propósito de quê, porque, em boa verdade, ainda não havia lido nada thomas mann montanha magicacomo a obra do alemão. E falo tanto da componente narrativa, como da própria dimensão do tomo. A premissa é simples: Hans Castorp, homem de engenharia, prático e mundano, planeia passar três semanas num sanatório onde se tratam doenças do foro respiratório, e “acaba por lá ficar sete anos, nem longos, nem breves, herméticos tão-só”. Segue-se um romance na tradição de bildungsroman, documento da passagem e da formação humana de Castorp nessa montanha. As minhas palavras, mais por parca capacidade do que risco de redundância, não lhe fazem justiça. Aprendam sobre a vida e sobre o tempo, com Castorp e Mann.

10. Para terminar, permito-me uma consideração sobre o espírito crítico que tentei desenvolver, ao longo deste último ano, na apreciação do meu consumo cultural. A cultura – e, por extensão, a arte – podem-no ser de várias formas e por vários motivos, mas dificilmente as consideraria como um meio de escape ao nosso quotidiano. A arte vive, também, da intensidade da experiência humana e, como tal, é dela indissociável. Consumi-la leva-nos sempre um passo adiante no conhecimento em relação à nossa história, e intrínsecas motivações, e, para mim, é algo demasiado valioso para   que não a tente apreender ao longo dos dias.

Este foi o meu primeiro ano de Arte-Factos, e espero ter contribuído positivamente para uma comunidade à qual nada falta para se tornar uma referência. A eles, e a vocês, um muito obrigado, e que 2016 seja tão bom, ou melhor ainda, que este último ano!

Roedelius à conversa com a Wire Magazine, em Braga.

Cole+Roedelius3_(Credit_Camillo Roedelius)

O Festival Semibreve vai na sua quinta iteração e esta parece ser, em definitivo, a sua afirmação como um evento de referência na música electrónica, experimental, e de uma forma mais abrangente, nas digital arts. Nesse sentido, reforçou o seu raio de acção nas instalações artísticas – como já o tinha feito nas edições anteriores – e, também, em colaboração com a publicação britânica Wire Magazine, a conversas em locais públicos com músicos convidados.

A primeira conversa teve como destaque Hans-Joachim Roedelius, e foi conduzida pela jornalista Frances Morgan. O local escolhido, a Casa Rolão (onde se firma a livraria Centésima Página) cedo se encheu de curiosos espectadores, e muitos deles estrangeiros, num ambiente realmente propício ao conhecimento e à troca de ideias.

Falou-se, sobretudo, do seu interessantíssimo e recheado passado. Roedelius, sempre num registo muito pessoal, privou-nos alguns pormenores sobre a sua carreira, as influências, as circunstâncias, e as intenções subjacentes aos álbuns que iam sendo mencionados; soubemos dos tempos vividos na floresta, a cortar lenha para sobreviver; das brincadeiras com Dieter Moebius, e do encontro criativo com Brian Eno. Segundo ele, a sua música funcionou, a espaços, como um diário de emoções. Reforçou, também, a simplicidade da sua música – que nem sempre o terá sido! – e a pureza que, passados tantos anos de carreira, continua a ambicionar. “I’m a big child!”, disse, já nas despedidas.

Ter Roedelius desta forma ao nosso dispor é uma tentação. Afinal, o seu nome é indissociável de um dos mais interessantes e influentes movimentos culturais, o krautrock, que se deu entre o final dos anos 60 e inícios dos 70. Erroneamente, costuma falar-se em género musical. Não o é, e torna-se evidente quando se escutam alguns dos vários projectos musicais que aqui proliferaram (Tangerine Dream, Neu!, Amon Duul II, etc.), porque não há uma clara definição ou padrão para a sua sonoridade; pelo contrário, o krautrock foi uma espécie de contra-cultura alemã, absolutamente underground e sem sucesso comercial, que nos últimos anos tem suscitado uma nova vaga de interesse. No caso específico de Roedelius, participou em imensos grupos importantes, dos quais destaco os Cluster, na companhia de Dieter Moebius (a não confundir com os Qluster e Kluster, grupos que têm Hans-Joachim como elemento comum, embora com discografias independentes entre si), e os Harmonia, com Moebius, Roedelius, e Michael Röther, integrante dos Neu!.

No entanto, uma personalidade como a do alemão não se cinge à música. A sua influência, e a era do krautrock, são permeáveis e transversais à própria cultura contemporânea. Nesse sentido, os contornos de uma Alemanha fragmentada foram decisivos e não se esquivou a perguntas sobre o pós-guerra. E, já no tempo destinado a perguntas do público, tinha uma pergunta a fazer-lhe: o krautrock e a música kosmische são, actualmente, um dos marcos históricos da música periférica europeia, de uma importância incontornável. Terá a Alemanha noção desse fenómeno, e adoptado essa contra-cultura como integrante da sua história? A resposta não surpreendeu: Roedelius sente que, mesmo nos dias de hoje, esse movimento cultural está algo esquecido na história alemã, fruto, talvez, do trauma pós-fascista que traumatiza as sociedades.

No final da hora designada, havia ainda imenso para falar. Nunca se poderia espremer a sua carreira em tão pouco tempo. Para a memória, fica o encontro com um dos mais respeitados músicos dos últimos 50 anos, cheio de uma singular vivacidade e que promete não parar de compor a sua música. A nós, cabe-nos apenas agradecer.