The Big Short – Adam McKay

Todos os anos, por esta altura, coincide o calendário cinematográfico com a entrega dos mais mediáticos prémios de Hollywood – os Oscars. E por isso, embora estejamos algo atrasados em relação aos Estados Unidos, são estes os meses mais apropriados, e aconselhados, para visitar as salas de cinema em Portugal. Falo das grandes cadeias, claro, porque as mais pequenas, e nos quais incluo os cineclubes, profissionais ou amadores, são muito mais consistentes, e em melhor serviço da sétima arte, ao longo de todo o ano. Divago.

De entre todos os filmes que têm feito mexer as nossas expectativas – The Revenant, do mexicano Alejandro González Iñárritu, que conseguiu converter Hollywood à sua visão de blockbusterCarol, de Todd Haynes, do qual há muito ouço falar maravilhas; Room, de Lenny Abrahamson, que já por aqui passou e convenceu, etc. – havia ainda um que se propunha a contar uma história verídica, como tem sido moda ultimamente, sobre o maior escândalo financeiro dos últimos anos,  ou  desde que Wall Street se tornou uma autêntica máquina de mexer e fazer dinheiro.

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The Big Short parte de uma premissa interessante. A não ser que nos últimos anos tenham vivido numa bolha, saberão decerto – ou pior, terão até vivido – as consequências do choque da falência bancária das maiores instituições americanas. Elas caíram e como um efeito dominó, provocaram danos que ricochetearam para o resto do mundo globalizado, afectando outras instituições financeiras. Os ecos sentiram-se na Europa, como também em Portugal. Por isso, The Big Short aproveita uma história verídica, e simultaneamente, sem perigo de redundância, real: é uma história sobre o hoje, o presente, na qual somos visados e temos também uma palavra a dizer.

Tendo uma narrativa, que é naturalmente cativante, põe-se uma outra questão, sobremaneira importante no cinema: como a apresentar? A opção do realizador Adam McKay, alguém com trabalho feito na comédia, recaiu sobre não se levar demasiado a sério na parte dramática/documental, nem perder as estribeiras de forma a que a sua forte mensagem não transparecesse em entrelinhas cómicas: deambula neste “terreno de ninguém”, quebrando a fourth wall com explicações culinárias do chef Anthony Bourdain, e sem medo de introduzir, e explicar, algum jargão técnico financeiro. Funciona perfeitamente neste formato, que não sendo completamente dramático, nem cómico, está sólido. Completo. Quanto ao elenco de estrelas (Brad Pitt, Steve Carell, Christian Bale, e Ryan Gosling), podia ter-se feito bem mais. Carell brilha, Bale quase surpreende, e os outros cumprem. Não há problema.

Especulo, por  momentos: o sinal verde para a realização do filme terá beneficiado do sucesso de outros projectos, tanto de cinema como de televisão, entre os quais incluo necessariamente a série da USA Network, Mr. Robot.  Não sendo fã do resultado final, confronta frontalmente a sociedade actual e a própria demografia para a qual estava direccionada, em moldes não comuns nas grandes cadeias de produção americanas. Talvez não haja nenhuma correlação, mas há alguns pontos comuns entre os dois: esta abertura para falar de questões fracturantes, sem papas na língua, e com um apurado sentido de moralidade. Aqui, não é a audiência que escolhe um lado, como é usual, entregando ao filme a responsabilidade de que se estabeleça uma relação emocional entre nós e as personagens – aqui, nós, a audiência, somos esse lado,  escolhidos pelo filme. A ligação emocional está feita, porque é uma história sobre nós e o nosso tempo, e é explorada visualmente através das vinhetas reais (que são preponderantes, também, em Mr. Robot), que foram captadas no mundo real (não-ficcionado).

The Big Short está um passo além do típico drama baseado em factos reais, porque é inteligente na forma como se sustenta nesses factos; apresenta-nos as questões essenciais de uma forma prática, sem complicar nem perder o interesse do público – que, afinal, quer entretenimento, e não uma aula financeira; e, por último, dramatiza com eficácia toda a situação, para que tenha sucesso comercial. Ganhou a aposta. Temos filme!

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P.S.: a não esquecer, porém, que The Big Short não é um documentário. Sobre esta matéria, há um bem interessante e naturalmente completo: chama-se Inside Job (2010), da autoria de Charles H. Ferguson.

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 15 a 22 de Março

Para esta semana, as atenções repartem-se entre a música, o cinema, e também a televisão – sobre a qual falaremos mais tarde, ainda esta semana. Até lá, há nova emissão d’A Mosca para ouvir, e duas sugestões de cinema.


A Mosca – 55º Emissão

Esta semana, demos, nos primeiros minutos, destaque a três álbuns conceptuais: o primeiro é de Marvin Gaye, um clássico da soul e da música social consciente, de nome What’s Going On (1971), que nos conta a perspectiva de um veterano da guerra do Vietname. Logo a seguir – e sem qualquer necessidade de grandes apresentações – chegam os Pink Floyd com uma canção de Dark Side of the Moon (1973), e para terminar este ciclo, o músico português José Cid. Antes de enveredar pela música popular, foi em tempos um dos músicos mais respeitados da cena do rock progressivo, e o seu álbum 10.000 Anos Entre Vénus e Marte (1977) atesta a qualidade da sua música, tão assente em texturas sintetizadas e espaciais. Fez-se ainda ouvir Brainticket, os krautrockers alemães, e o seu álbum Cottonwoodhill (1971). Nesta emissão pudemos ouvir as novidades do mundo do hip-hop, com os novos trabalhos de Kendrick Lamar, sobre o qual escrevemos na passada semana, e os experimentais Death Grips, de quem ouvimos o single do seu último álbum Jenny Death. Entrando na fase da electrónica, temos a presença de Holly Herndon com uma novíssima faixa, como também James Blackshaw e Ryosuke Miyata, ambos com álbuns que datam de 2015. A emissão fecha com Leafcutter John, e a promessa de que para a semana há mais música curada pel’A Mosca. Até já!

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Cinema

Ordet_La_palabra-480454657-largeOrdet (Carl Th. Dreyer, 1955) – Para abrir a semana, mergulhei no cinema lento e convoluto de Carl Dreyer. Este realizador dinamarquês, um dos mais reputados e estimados do género, é porventura mais conhecido pelo seu filme mudo de 1928 The Passion of Joan of Arc, uma referência para vários cineastas por esse mundo fora. Ora, não foi esse que aqui me trouxe, mas sim Ordet, que data do ano de 1955. O filme, cuja narrativa é baseada numa obra dinamarquesa, trata uma pacata família rural, na qual o patriarca, cristão devoto, vive com os seus três filhos: um ateu, um outro que se apaixona pela filha dum mentor da congregação religiosa local, e o último, Johannes, a braços com um distúrbio na sua sanidade mental, e que julga ser a reencarnação de Jesus Cristo. As cerca de duas horas de fita dão tempo para que as personagens se desenvolvam e expressem os seus pontos de vista, para que quando chegue o apogeu narrativo – o complicado parto da esposa do filho ateu – haja um conflito entre os vários pontos de vista, tão enraizados, quase dogmáticos, e díspares. A atmosfera do filme pauta-se pelos planos lindíssimos de Dreyer, com a câmera que plana circularmente pela casa, e os jogos de sombras – a dicotomia de luz e escuridão – tão amplamente aproveitados e potenciados neste filme a preto e branco; assim se reúnem as condições para albergar os longos e filosóficos diálogos, onde reside a verdadeira alma desta obra. Ordet começa em andamento lento e assertivo, envolvendo-nos sorrateiramente no seu mundo; no final, despoleta em nós uma ténue mudança, não superficial, mas uma que remete ao nosso âmago e que nos desafia para uma reflexão, como o germinar de uma semente que em nós se plantou. Não é um filme necessariamente cristão – muito menos católico – mas um que trata a fé com uma frontalidade impressionante (como o faria mais tarde Ingmar Bergman com o tema da mortalidade). Fica, assim, a memória de um fantástico filme, incrivelmente belo, e a vontade de conhecer o restante da sua filmografia.

478Le Mépris (Contempt) (Jean-Luc Godard, 1963) – Custa-me escrever sobre filmes que não creio entender na totalidade, ou, pelo menos, quando as suas intenções não me são razoavelmente claras. E não conhecendo muito bem o trabalho de Godard, Le Mépris deixou um travo agridoce quando o vi. O início do filme levanta uma curiosa história, com um litígio entre um produtor de cinema e o seu argumentista Fritz Lang – sim, o realizador alemão a representar-se a si próprio. Para resolver o imbróglio, é contratado um outro escritor, que está, por sua vez, casado com a bela Camille (interpretada pela lindíssima Brigitte Bardot), que em pouco tempo estará irremediavelmente atraída pelo produtor americano. Ora, Le Mépris tem mais substância para além desta premissa banal. Há uma aura de sátira e uma espécie de auto-crítica que percorre todo o filme, e que não tenta, de todo, ser subtil: note-se os créditos iniciais, narrados em vez de lidos, enquanto que se filma a própria rodagem de um filme, ou a estranhíssima relação entre todas as personagens. Ainda assim, o filme é estranhamente cativante e tem momentos muito bem conseguidos, como uma cena decorrida entre o casal num apartamento (memorável, e ainda hoje estudada por amantes do cinema ou estudantes de arquitectura), ou o humor meio pateta de algumas acções das personagens. No ar fica a dúvida: será este um falhanço de Godard, ou um dos seus filmes mais geniais? É difícil ficar-lhe indiferente. Le Mépris provavelmente fará mais sentido, e espero entender melhor as suas intenções, vendo-o uma segunda vez, depois de outros filmes do realizador francês.

A Mosca, e notas de uma semana passada – 21 a 28 de Fevereiro

Para esta semana, retorno com a crónica que pode vir a tornar-se um sério caso de recorrência. Os últimos sete dias foram, infelizmente, parcos em momentos de sossego e cultivo; ainda assim, quando se proporcionou, foram bem aproveitados. Para a semana, em princípio, há mais. Até lá, ficam estas minhas recomendações.


Cinema

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Inherent Vice (Paul Thomas Anderson, 2014)  – Se é para começar a semana, façamo-lo em grande estilo, e de preferência numa sala de cinema. Tinha uma enorme expectativa para este filme já desde o final do ano passado, numa estóica resistência aos formatos piratas que já haviam sido libertados na internet, e sobretudo porque o mais recente trabalho de Thomas Anderson dá a impressão de ser o projecto de sonho do americano – mas, em boa verdade, não sentimos o mesmo ao ver There Will be Blood, Magnolia, ou, numa perspectiva diferente, Punch-Drunk Love?. Desta vez, recupera Joaquín Phoenix e pede emprestada a narrativa ao misterioso escritor americano Thomas Pynchon, o mesmo que nos seus contos retrata uma América disfuncional e descoordenada, como que ressacando dos efeitos da contra-cultura dos anos 60. O filme em si é para ser degustado como o realizador americano já nos habitou; de passagem, sem tentarmos puxar uma linearidade à história, atentando, ao invés, nas acções e motivos das personagens, assim como na atmosfera tão icónica dos film noir, pilares dos primórdios da história do cinema, e à qual se junta aqui um forte travo psicadélico. Nas entrelinhas, pode encontrar-se uma crítica ao sistema americano, mostrando a fealdade moral e os absurdos que se escondem por detrás da fachada do american dream. Influências da escrita de Thomas Pynchon? Talvez. Felizmente, o filme, além de ser, por si só, um marco do cinema mais comercial do ano passado, é uma excelente e respeitosa adaptação do mundo que Thomas Pynchon tão bem cria através da sua escrita. Vale por isso, e muito mais. Estará nos cinemas durante os próximos tempos.

VAmDpt4All That Jazz (Bob Fosse, 1979) – Um clássico. Bob Fosse faz de All That Jazz uma espécie de autobiografia romantizada das suas próprias experiências como coreógrafo, actor, e realizador, num filme embrulhado em forma de musical, ou, melhor ainda, performance artística. A narrativa acompanha o quotidiano do coreógrafo Joe Gideon, por uma específica sucessão de eventos, entre os quais a preparação de um especáctulo de dança, a sua conturbada vida amorosa, ou até o confronto com a sua própria mortalidade. As referências contantes à  própria vida pessoal e profissional do realizador Bob Fosse contribuem para que este seja um dos filmes mais meta de sempre (por exemplo, tanto Fosse como a personagem Joe Gideon editaram um filme sobre um artista de stand-up comedy), onde a fina linha entre a verdade e o fictício, e a realidade e o mundo onírico, fica cada vez mais turva, sem nunca confundir o espectador (ou pelo menos, mais do que tinha suposto nas suas intenções). Para além disso, All That Jazz ficou também na história pelo seu fantástico trabalho de edição; isto é, pela maneira como as cenas são cortadas e encadeadas entre si, o que permite intercalar os vários períodos da vida de Gideon, assim como dar outro dinamismo às cenas de dança. A premissa pode não parecer muito interessante à primeira vista, mas All That Jazz engloba muito mais do que aparenta, e recomendo-o, vivamente e da mesma forma, a entusiastas do cinema de entretenimento como também aos que o procuram estudar dum ponto de vista mais formal.

incendies-posterIncendies (Denis Villeneuve, 2010) – Dos três, Incendies é, indubitavelmente, o mais pesado. Denis Villeneuve propõe a história de dois irmãos que, após o falecimento da mãe, recebem a  inusitada missiva de descobrir o seu verdadeiro pai, assim como um irmão que havia sido mantido em segredo. Assim se motiva a viagem entre o Canadá e a zona do Médio Oriente, numa narrativa que decorre paralelamente aos flashbacks da vivência da sua mãe. Assim, nós, público, seguimos encadeados em duas histórias que se vão interceptando a espaços, sendo-nos fornecidas as pequenas pistas que culminam no clímax do grande final. Mas não morre aí a mensagem da história: extende-se a problemas de raça e religião, numa época marcada pela instabilidade social e falta de paz e um porto seguro. É um muito sólido filme pela mão de quem, em 2013, também deu imagem a Homem Duplicado, a adaptação da obra de José Saramago – se tiver continuado no caminho que Incendies ajudou a traçar, será uma aposta ganha.

A Mosca – 52º Emissão

Para esta semana, abrimos com os krautrockers alemães Can, recordados com a ajuda de Paul Thomas Anderson e o supracitado Inherent Vice. Seguiu-se um dos álbuns da semana: Cryptograms, dos Deerhunter. Dual na sua sonoridade, fruto de duas distintas sessões de gravação, tivemos a oportunidade de conferir as suas diferenças ao longo desta emissão. A representar o shoegaze de 2015, temos o novo trabalho dos Cheatahs, num registo extremamente polido e extremamente competente, que perde assim alguma identidade lo-fi – uma desvantagem para os que a apreciam. As singer-songwriters ficaram devidamente representadas: primeiro, com Natalie Mering, a voz por detrás do projecto Weyes Blood, a mostrar um álbum de perturbações americanas contemporãneas envolvas numa instrumentação antiga, sem soar datada; seguidamente, com Joanne Robertson, cujo trabalho já conhecemos nas últimas colaborações com Dean Blunt. Segue-se o nipónico Ayuo e a sua espécie de world-music embebida nas tradições musicais e culturas orientais, e, logo a seguir, King Crimson e o grande clássico In The Court of the Crimson King. Os Animal Collective mostram-nos o primeiro registo da sua longa, psicadélica carreira, e Four Tet explora os plunderphonics numa das suas melhores canções. Ainda na recta final, pudemos ainda recordar dois fantásticos álbuns: o primeiro, da autoria de The Caretaker, que no álbum In an Empty Bliss Beyond This World explora as consequências da doença do Alzheimer nos seus portadores, através de uma música evocativa de tempos passados, e ainda Matana Roberts, que editou este ano o terceiro volume da sua saga COIN COIN, intimamente ligado ao conceito de história e de ancestralidade, e de música rendilhada entre field recordings, o seu saxophone, e declamações de vozes perdidas no tempo. É recomendado ouvir este seu álbum. Foi esta a emissão da semana, com sugestões para ouvir até à próxima madrugada de segunda-feira. Até já!

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 14 a 21 de Fevereiro

Escrever n’O Coprófago é uma necessidade, embora uma necessidade deveras trabalhosa. Nada me dá mais gozo do que conseguir expressar, umas vezes melhor que outras, a minha admiração para com um bom filme, ou livro, ou álbum, mas o esforço que dispendo entre cada reflexão, um labutar inglório na procura das mais adequadas palavras, não me permite mencionar tudo o que por mim passou durante a semana. Assim sendo, é desta forma que tento colmatar essa falha: a cada sete dias, proponho uma retrospectiva da semana que passou. Junto, fica também a emissão semanal d’A Mosca, a hora semanal de música com tudo o que não ouviram no fim-de-semana.

Não podendo prometer regularidade, veremos como corre.

Comecemos.


Cinema

la_piel_que_habitoLa Piel Que Habito (Pedro Almodóvar, 2011) – O primeiro filme que vejo do realizador espanhol tomou-me de assalto para duas horas de uma macabra história sobre um cirurgião plástico e as suas obsessões; a história não linear é um dos seus pontos fortes, levantando, aos poucos e delicadamente, o véu que repousa sobre a complexidade da trama, que não poupa esforços em deixar-nos estranhamente desconfortáveis. De qualquer forma, é um filme muito bem conseguido por parte de Almodóvar, e fica a curiosidade para o resto do seu trabalho.

love-and-deathLove and Death e Manhattan (Woody Allen, 1977 e 1979) – É difícil que Woody Allen nos desiluda. Primeiro, em Love and Death, uma bizarra comédia que parodia a literatura Russa de Dostoiévski e o cinema sueco de Ingmar Bergman, ambos grandes influências do americano. As referências ao longo do filme são incontáveis, mas o filme ganha, precisamente, no encanto de nunca se levar demasiado a sério; aliás, característica basilar do inconfundível humor de Woody. Quanto a Manhattan, retrata a vivência de um grupo de adultos na icónica cidade americana, numa abordagem sempre assente no diálogo rápido e pseudo-intelectual, como até à data o americano nos havia habituado. Recomendaria mais este Manhattan que Love and Death para o primeiro contacto com o realizador, embora os mais recentes Midnight in Paris (2011), ou o arrojado Vicky Cristina Barcelona (2008) sejam também boas opções.

3_women.dvd_3 Women (Robert Altman, 1977) – De Paul Thomas Anderson a Robert Altman, apenas um pequeno passo os separa. A história das três distintas mulheres conta-se, não por meio de uma narrativa convencional, mas sim através de nuances nos seus comportamentos, pela forma como, a seu tempo, assimilam uma misteriosa troca de personalidades reminiscente do clássico Persona (1966). Tudo isto é complementado por uma cinematografia que parece planar sobre a acção sem grandes turbulências, contribuindo, assim como a desconcertante banda sonora, para toda a aura onírica do filme – não admira saber que o conceito desta obra tenha vindo a Altman através de um sonho. Para quem gosta de Thomas Anderson, tem aqui uma boa aposta. The Master, poder-se-á dizer, é apenas uma versão menos abstracta de 3 Women.

Para terminar, houve ainda tempo para rever Waking Life (Richard Linklater, 2001), que cimentou o seu lugar como um dos meus favoritos de sempre. Pelas fantásticas imagens, pela temática tão bem aproveitada, pelas maravilhosas intervenções de algumas das personagens. Se o deixarmos, Waking Life é inspirador e inquisitivo, daqueles que se recorda por muito tempo e ao qual se volta, eventualmente, para um refrescar de ideias e novos pontos de vista. É mesmo fantástico, ainda que não seja para qualquer um.

A Mosca – 51º Emissão

Quanto à emissão semanal d’A Mosca, começámos com o clássico álbum dos britânicos Slowdive, Souvlaki (1993). Passando pelo psicadelismo dos Love e do seu trabalho Forever Changes (1967), conhecemos os The Incredible String Band, cujo álbum The Hangman’s Beautiful Daughter (1968) é uma enorme influência do folk. Recomenda-se a sua audição! Quanto ao resto, todos conhecem os Boards of Canada, assim como os The Velvet Underground. O mesmo já não se poderá dizer dos Sweet Trip, que ao seu terceiro álbum de estúdio, velocity : design : confort (2003), propõem uma mistura da componente etérea do shoegaze com a electrónica esquizofrénica digna de um Aphex Twin. Não terminamos sem ouvir Ian William Craig e um exerto do registo A Turn of Breath (2014), o qual merece uma escuta na íntegra, e homenageando também o nosso Zeca Afonso, que hoje se assinala a triste efeméride da sua morte. É uma personalidade incontornável que vive muito mais além que Grândola Vila Morena, e a seu tempo lhe faremos a homenagem condizente. Esta é a hora de música que propusemos para a madrugada de segunda-feira, mas que se extende para o resto da semana. Até já!

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Damien Chazelle – Whiplash

whiplashDe vez em quando, há filmes que traçam o seu caminho alheios às regras e padrões da indústria cinematográfica, ganhando um reconhecimento, digamos assim, mais meritoso. Neste caso, estávamos em finais do ano passado, e via-se, aqui e ali, burburinhos cibernéticos sobre a next-big-thing, um projecto de baixo orçamento (3.000.000$) que tomou Hollywood de assalto; daí aos Óscares foi um pequeno passo, dado com a maior das facilidades. O seu nome é Whiplash, ao que em português se justapôs Nos Limites, e estreou esta semana passada em território luso.

Assim começa: Andrew encontra-se no final da adolescência e ambiciona entrar na elite mundial dos bateristas de Jazz; uma proposição com tanto de heróica como de improvável, pelo que a sua dedicação é exaustiva, no limiar da obsessão. A ascensão ao topo dava-se a um passo lento mas assertivo, até ao dia em que um exigente e louco professor do conservatório, Fletcher, lhe anuncia a possibilidade de se juntar à sua banda. É este o tónico da narrativa, traiçoeiro na sua simplicidade. Porque embora este tipo de situação – um rapaz banal almeja o topo, superando as dificuldades em busca de um final feliz – esteja sobejamente retratado, Damien Chazelle é incansável na fuga ao cliché e à história linear, justificando a crítica extremamente positiva à história que escreveu.

No entanto, muitas boas histórias morrem na praia à custa de medianas execuções, um erro ao qual Chazelle fugiu com mestria. Num filme assumidamente musical, há a tentação de entrar no facilitismo e utilizar as cenas musicais como meros dispositivos narrativos, nos quais o protagonista é intocável, onde nada demais acontece além de uma confirmação do seu progresso. Em Whiplash, estas cenas são fulcrais. Além de serem imprevisíveis, houve mestria na sua filmagem e edição, pautando-se por uma intensidade fora do comum que também contribui para o próprio desenvolvimento das personagens: é assim que conferimos a determinação obsessiva de Andrew, como também a loucura e a exigência dos métodos do mentor Fletcher. Como tal, junta-se a boa premissa a uma execução condizente, dando azo a um filme cujo passo seguinte não é sempre o mais óbvio.

E no final – depois de nos recompormos daqueles brutais últimos 20 minutos – levanta-se a questão: será Andrew vítima de um abuso incomensurável, tal como os restantes membros da banda, ou justifica-se a extrema insanidade de Fletcher como uma requisito para chegar ao topo? Tematicamente, acaba por haver algumas semelhanças com Frank, do qual já aqui falamos. E ainda que não interessasse este último dilema, Whiplash, por seu próprio mérito, cimenta-se como uma grande surpresa de 2014 e mais dinâmico e imprevisível que muitos filmes de acção. Fica, para mais tarde recordar, a fantástica actuação de J.K. Simmons no papel de Fletcher, que inclusive lhe poderá valer um Oscar, e também a expectativa pelo próximo trabalho do realizador Damien Chazelle. Whiplash estará nos cinemas durante os próximos tempos. Vejam-no!

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Paul Thomas Anderson – The Master

Paul Thomas Anderson é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes do cinema americano contemporãneo. Dele, temos o épico Magnolia (1999), uma tocante e épica história de várias vidas; Punch-Drunk Love (2001), o sublime, pouco ortodoxo retrato de uma história de amor, e com um surpreendente Adam Sandler no papel principal; mais recentemente, There Will Be Blood (2007), uma jornada pelos Estados Unidos no final do século XIX, num conto moral que de justo modo se tornou num clássico moderno. O seu toque de Midas não gera ouro literal, mas filmes de uma simplicidade enganadora, de subtilezas, segredos e significados meticulosamente espalhados nas várias camadas interpretativas do seu cinema. A seu tempo, exploraremos melhor a sua carreira. Por hoje, dirigimos a nossa atenção a The Master, filme de 2012, com as fantásticas prestações do trio composto por Joaquín Phoenix, Amy Adams, e o enorme Philip Seymour Hoffman.

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A narrativa desenrola-se no período pós-Segunda Guerra, na qual Freddy Quell lutou como marinheiro. As consequências traumáticas da guerra são inconclusivas, ainda que se perceba que Quell não está são; é um homem irremediavelmente bêbedo, de comportamentos animalescos e erráticos, e ganha a vida numa série de empregos meniais, ainda que não os consiga manter por muito tempo. Absolutamente deslocado da sociedade, certa noite cruza destinos com Lancaster Dodd, autoproclamado filósofo, físico, comandante do navio Alethia e líder da Causa, uma organização de culto religiosa, que lhe ganha um certo afecto e o toma debaixo da sua asa. Quell torna-se “o protegido e cobaia” e Dodd, que tenta reprimir-lhe o lado animalesco e educar as suas emoções, como que o doma, digamos assim, e tenta ser o seu mestre.

A nós, mais não se pede do que a nossa atenção para tudo o que à nossa frente se desenrola, porque as várias interpretações possíveis prendem-se nos detalhes. The Master é assumidamente ambíguo e misterioso nas suas pretensões e mensagem, embora haja referências evidentes a instituições e problemas actuais (a Causa, por exemplo, é acutilantemente semelhante ao conceito da Igreja da Cientologia). Mas faltam-nos as respostas para outro tipo de questões: o que move Freddy Quell? Quem é, realmente, Lancaster Dodd? Quanto poder detém na verdade, e quais as reais motivações de Peggy? Há pistas e indícios nas acções, expressões, e diálogos – as subtilezas que acima mencionei -, embora nunca uma resposta definitiva. The Master não se enquadra como um filme linear e de respostas fáceis, optando Thomas Anderson pela via da experiência, da intuição, de uma viagem a bordo dum navio do qual ele é o capitão – ora não fossem a viagem e a mudança motifs recorrentes na sua filmografia. Assim, não caiamos no erro fácil de julgar um filme pelo seu enredo, e atentemos, digamos assim, no grande plano.

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Falemos então da fantástica cinematografia, que frequentemente isola Quell de um mundo que teima em não o aceitar; nos maravilhosos planos marítimos, deleite máximo dos que os puderam experienciar no cinema. Ouçamos outra vez a banda sonora, que tal como no anterior There Will Be Blood (2007), ficou à responsabilidade de Johnny Greenwood, que marcará presença também em Inherent Vice, a estrear ainda este ano em Portugal. Recorde-se a fantástica química do trio de actores: Phoenix e Amy encontrar-se-iam um ano depois em Her, enquanto que Seymour Hoffman cimenta o seu lugar como um dos mais queridos, e versáteis actores de que há memória. E, finalmente, recordemos cenas como a da prisão, ou mesmo o último diálogo entre Dodd e Quell. Fantásticos momentos.

Não será um filme que recomendo a todos – há sequer filmes assim, universais? Mas The Master, utilizando qualquer um dos seus fortes argumentos, convida-nos para uma viagem, e deixamo-nos ficar porque nos agrada o cheiro a maresia, o ímpeto de mudança; partimos, tal como Freddy, despreendidos e sem destino. O cinema de Thomas Anderson ensina-nos, não a comparar o início e o fim, mas sim a olhar o meio – assistir à evolução da metamorfose. A isso se propõe The Master, mais um marco da fantástica carreira deste realizador americano.

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Nicolas Winding Refn – Only God Forgives

Only-God-Forgives-Character-Poster-Ryan-GoslingHouve, no ido ano de 2011, um filme que se destacou dos demais pela sua irreverência, fantástica história e cinematografia, e uma icónica banda sonora – foi Drive, um bem sucedido exercício de cinema por parte de Nicolas Winding Refn, com um irrepreensível Ryan Gosling no seu papel principal. Mantendo Gosling como protagonista deste Only God Forgives, as expectativas para o seguinte filme do realizador dinamarquês tornaram-se demasiado altas, e no rescaldo do seu lançamento, temos uma crítica predominantemente negativa e um público confuso quanto à real mensagem do filme: ingredientes suficientes para se considerar um fracasso.

A sinopse: Julien e Billy, erradicados numa soturna e misteriosa Banguecoque, mantêm um clube de muay-thay como fachada para um negócio de tráfico de droga. Entretanto, Billy mata uma jovem de 14 anos, despoletando uma surreal cadeia de vingança e contra-vingança, envolvendo um chefe de polícia corrupto, Chang, e Crystal, mãe dos dois irmãos. A história desenvolve uma aura de tragédia grega, onde tudo tem proporções épicas e determinantes. No lado técnico, aperfeiçoa-se em Only God Forgives o estilo cinematográfico de Drive – longos, bonitos planos e com predominância da cor, complementados pelos icónicos néons de Banguecoque, e, claro, a apropriadíssima banda sonora, que goza de um maior protagonismo na história. Gosling cumpre num papel que não exigia muito de si, assim como o resto do elenco.

Muitas das desilusões advieram de querer que Only God Forgives fosse um Drive 2, mas há uma decisão consciente de Nicolas Winding Refn para que não o seja. Aqui, o realizador não apostou na fórmula fácil e arriscou um meio termo entre as brutais e gratuitas cenas violentas de Tarantino, e o simbolismo pausado e metódico de David Lynch – do início ao fim, há uma forte dicotomia entre Chang (Deus) e Crystal (Diabo), além das  imensas referências ao complexo de Édipo, assumindo-o como uma temática central e indissociável à compreensão da obra. Vejamos; nas interacções de Crystal com Julian pressente-se uma estranha, incómoda tensão sexual, tanto na possessiva interacção física como nas considerações que tece quanto à sua relação com o irmão (“…Billy era o irmão mais velho e tinha uma pila maior…a do Julian nunca foi pequena, mas a do Billy…era enorme!”); há várias cenas simbólicas, presumidamente no imaginário de Julian, nas quais vemos mãos ao encontro da vagina, e posteriormente ao útero, para mais tarde consumar essa acção no próprio corpo de Crystal, assassinada; e, finalmente, sabemos por Crystal que Julian fugiu dos Estados Unidos por ter morto o próprio pai. Estas conclusões só são possíveis tendo conhecimento de antemão da psicologia Freudiana (que está, de resto, presente como motif em muitos exercícios de cinema), necessárias para a compreensão de várias cenas de Only God Forgives. Fosse Nolan o responsável por este filme, e garantiam-se trinta minutos adicionais de psicologia, como um manual de instruções – Refn, fiel ao lema ‘show, don’t tell’, esperava uma maior capacidade de interpretação por parte do seu público.

O grande problema da recepção crítica a Only God Forgives foi a ponte, ou a falta dela, entre público e realizador; foi dado um passo em frente (ou dois, ou três) quando muitos queriam que andasse para o lado e seguisse uma fórmula que se provou vencedora. Nicolas seguiu o seu instinto e fez o filme que queria fazer, em contraste com o que a audiência queria ver. Para mim, é um bom filme, que peca na surrealidade de alguns momentos e na falta de clareza nas suas intenções. A seu favor jogará o tempo; basta a Refn que continue traçando o seu caminho, para que daqui a uns anos se olhe para este filme com outros olhos – e com outras expectativas.

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Thomas McCarthy – Win Win

Eu, caros leitores, adoro cinema. Reconheço-lhe o potencial de contar uma história como nenhum outro meio consegue, e mantemos uma relação, a meu ver, bastante saudável. Quando as circunstâncias o permitem, dedico-lhe a minha atenção e dele espero um mundo. A possibilidade desta imersão é característica inerente a um bom filme – apreciar a sua história, como também as nuances da sua realização; desmontar as várias cenas, apreciar os diálogos, descobrir as várias interpretações da série de simbolismos que acarreta, invariavelmente, uma boa amostra de cinema. No entanto, não me custa entender que esta admiração não seja comum a toda a gente – afinal, antes de ser arte, o cinema era entretenimento -, como também o sei que poucas serão as ocasiões nas quais há tempo, e sobretudo, paciência, para empreender em filmes que não sendo pretensiosos, têm a sua complexidade.

Recuperando a premissa inicial do cinema, mas já sem a graça de novidade de outros tempos, há muito entulho produzido, cujas finalidades são preencher infinitas prateleiras de video-clubes e ocupar as grelhas de fim-de-semana dos canais generalistas. São ferramentas de conteúdo vago e inócuo, desprovidos de alma, que se esquecem tão facilmente como vieram sem que ninguém lhes sinta a falta. Uma espécie de cinema de marca branca, portanto. No entanto, de vez em quando há pequenas pérolas que nos surpreendem: falo, por exemplo, do trabalho de Thomas McCarthy, Win Win.

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A história acompanha o dia a dia de um professor de luta-livre, advogado e pai de família, numa casa que poderia ser a de qualquer um de nós. O seu quotidiano altera-se com uma prova de fogo à estrutura moral do protagonista, e a improvável chegada de um jovem à cidade, que rapidamente se integra no seio familiar. Daí, desenvolve-se numa improvável mescla de drama, comédia, e luta-livre, esplanando-se por cerca de duas horas. Não há muito mais a acrescentar a esta curta sinopse. Nos papéis principais, temos Paul Giamatti, com uma sólida prestação, e o novato Alex Shaffer, que surpreende q.b.

Ora, ainda que a narrativa pudesse, por si só, ‘fazer o filme’, foi nas entrelinhas que justificou a minha admiração. As doses certas de drama e comédia conferem-lhe a capacidade de passar uma mensagem sem cair no erro de se levar demasiado a sério, e o andamento do filme é adequado, explorando correctamente as diferentes vertentes da narrativa – fazê-lo de forma mais precipitada torná-lo ia um quanto ou tanto esquizofrénico. Tecnicamente, nada de muito transcendente se fez em Win Win (e, simultaneamente, nada de gritante a apontar), ainda que a sua fotografia seja, em algumas cenas, bastante agradável.

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Nada de especial se perderá ao fazer vista grossa a este filme. Faz, precisamente, parte do seu charme assumir a leveza da sua história e da sua entrega –  na sua companhia, são um par de horas bem passadas na simplicidade de ver algo ao qual carinhosamente se chama slice of life. Mas não nos enganemos ao julgar que não vale a pena vê-lo! Há lugar para estes filmes no nosso mundo. Que nos arrancam sorrisos depois de breves, mas necessárias, consternações. Por vezes, faz-nos falta um filme que incendeie a nossa paixão cinéfila; neste caso, temos uma espécie de acolhedor e brando lume – a uns, lembrá-los-á do bom que é ver um filme para ser entretido (sem nos sentirmos estupidificados), e a outros talvez desperte o amor pela arte do filme. Isto sim, é de valor.

Trilogia Before, Linklater e sua filosofia.

Há imensas maneiras possíveis de comparar dois tipos de cineastas. Podemos falar, geralmente, dos bons, e dos maus (embora não ouse atribuir a mim essa autoridade), dos mágicos ou dos realistas. Dos que imprimem um estilo muito característico ao filme, contrastando os com que preferem assumir uma postura mais discreta, chamando mais atenção para factores como o enredo, ou os protagonistas. Dentro desta infinidade de dicotomias, haverá os one trick ponies, ou seja, com apenas uma ideia bem sucedida, e os que não têm dificuldade em sair duma zona de conforto para produzir uma série de bons filmes. São reflexões que surgem como consequência do trabalho do americano Richard Linklater, que se prepara para lançar Boyhood (estreia dia 9 de Outubro em terras lusas).

Com um curtíssimo orçamento e muita ajuda da sua cidade natal, o independente Slacker é lançado em 1991, apenas o segundo trabalho da sua carreira. Filmado, como o seriam outros, em Austin, introduz uma característica basilar no cinema de Linklater: a falta de um enredo convencional (princípio, meio e fim) dando mais ênfase aos diálogos e interacções entre as diferentes personagens. Somos observadores de pessoas e não de uma história, que se desenrola lentamente ao longo de hora e meia, saltando de rua em rua e pessoa em pessoa. Um método que aperfeiçoaria para o seu Dazed and Confused, recriando, em 1993, o último dia de ensino secundário da turma de 1973. Já que o próprio Linklater integrava essa turma, o filme é parte exercício autobiográfico nostálgico, parte bíblia cinéfila para a geração de 70′; e juntando-lhe a fantástica banda sonora, tão bem representativa dos tempos idos, criou-se um filme divertido, despretensioso, com a diversão como mote principal. Merece, indiscutivelmente, o estatuto de filme de culto que ainda hoje ostenta (e terá direito a uma sequela espiritual).

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São os princípios que alicerçam estes dois trabalhos a grande base do seu Before Sunrise, lançado no ano seguinte, um dos motes deste artigo. A premissa é simples, e por pouco era possível confundi-la com um qualquer banal filme romântico; Jesse, um solitário americano de passagem pela Europa, conhece Celine, a parisiense que está de regresso a casa. É precisamente no comboio que se dá o encontro dos dois; a leitura serve como desbloqueador de conversa, e num instante, acabam por almoçar juntos na carruagem-bar. O resto é história. Decidem sair ambos em Viena, e viver, por um dia e uma noite, a concretização de um impulso e um sonho – atrás deles seguimos nós, dentro do sonho emprestado.

O que separa Before Sunrise de um outro qualquer filme romântico? Uma pergunta perfeitamente natural. Começo pelo que será mais óbvio, e aqui figura a sua originalidade. Em termos mecânicos, apraz também dizer que, ao contrário do que se possa pensar, e por muito incrível que pareça, nada, absolutamente nenhuma parte do diálogo é improvisada! Faz pensar no trabalho de casa que os dois actores, Ethan Hawke e Julie Delpy, desenvolveram conjuntamente com Linklater (o enredo foi trabalho pelos três, simultaneamente). Isto não chega, contudo. Para além do visível – para além da acolhedora Viena, para além dos sorrisos cúmplices dos protagonistas, para além da interacção com as várias facetas de uma cidade que prontamente os acolheu – reside algo para o qual Linklater parece ter uma especial sensibilidade, e permitam-me, por favor, o desleixo do cliché, um autêntico je ne sais quoi que o torna muito consciente da condição humana, dos medos, das emoções. Este filme, um clássico de pleno direito, continua com a aventura dos dois nas sequelas Before Sunset e Before Midnight (adianto que deve ser das poucas trilogias que mantém uma qualidade constante). Quanto à filosofia de Linklater, teve direito a explanar-se no também ele fantástico…

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Waking Life, um filme que se reaproxima da estrutura de Slacker, viu a luz do dia no ano de 2001. Produzido inteiramente segundo a técnica da rotoscopia, é esta a primeira impressão que temos com a peça – parece que vemos um esquizofrénico desenho animado, linhas muito ténues que separam as pessoas do restante cenário, o que imprime uma identidade surrealista à imagem. Em comum com o filme de 2001, as várias cenas deambulam entre vivências das várias personagens, mas desta vez sempre muito incisivas nas temáticas filosóficas. Há, no entanto, uma espécie de novelo que reúne todas as pontas soltas que nos são dadas, quase como um elo de ligação entre as várias cenas do filme: o seu protagonista, do qual nunca sabemos o nome, está a sonhar. Neste sentido, creio ser um conceito mais acessível e palpável que Slacker. Aqui, tudo se discute: passamos pela ideologia do existencialismo, para a génese do amor e ligação emocional, não esquecendo a teoria do cinema de Bazin; embora seja um filme, tal como o disse, filosófico, funciona como uma espécie de ‘porta’ para várias ideias, expostas acessivelmente para que o seu público possa experienciar cada uma delas e escolher a sua predileta.

Linklater fez parte da turma retratada no filme Dazed and Confused, conheceu uma mulher numa situação de moldes parecidos com os de Before Sunrise, e não será surpresa quando o próprio diz que a experiência retratada em Waking Life – de saltos consecutivos entre vários planos oníricos – é 100% autobiográfica. Tem o condão de pegar numa história mundana, ou num momento singular, e transformá-los em coisas maiores, que nos vão ao âmago – e este é precisamente o encanto de um bom contador de histórias. O seu último trabalho, Boyhood, acompanha a vida de um rapaz, em tempo real, dos 6 aos 18 anos. Cá o espero.

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