A(s) semana(s) em cinema (12 a 23 de mar)

Ah, como seria óptimo conseguir cumprir com a rotina cinéfila, e evitar passar sem um filme durante toda uma semana! Desde o último Close-Up, seguiram-se sete dias até ao filme seguinte, que inicia a sequência de hoje. Ainda assim, tenho colmatado essa falha com algumas reflexões sobre o cinema, no âmbito académico. Por isso, é provável que comecem a surgir filmes que de outra forma não os teria visto; o caso flagrante da sequência será Morte em Veneza, que vi acompanhado pela leitura do livro de Thomas Mann, para estudar a sua adaptação.

rashomon-movie-poster-1951-1010418124羅生門 (Rashomon, Akira Kurosawa, 1950) – Este é apenas o segundo filme que vejo da (importante!) filmografia de Kurosawa, porventura o maior, ou mais influente no mundo ocidental, cineasta japonês. Depois de Ikiru, retrato existencial da vida de um funcionário público, Rashomon relata as reflexões de dois cidadãos que assistiram a estranhos depoimentos, todos de uma perspectiva diferente, dos vários intervenientes de um crime. “Já vi tantos homens a serem mortos como insectos, mas nem eu alguma vez ouvi história tão horrível como esta. Desta vez, posso ter finalmente perdido a esperança na alma humana”. Esta é a conclusão final, que nos chega no início por meio de uma analepse, e são palavras previdentes para o resto da trama: das várias perspectivas que são oferecidas, cabe-nos a nós encaixar os motivos contrastantes, o que realmente aconteceu, e, através deste exercício, deslindar os traços profundamente morais deste conto. A narrativa é adaptada de um conto pré-existente, mas há muito mais por explorar na dimensão formal do filme – e é por isso que Kurosawa é tão apreciado. O uso da luz, de inovadoras técnicas e gestos de câmera, devedores ao cinema mudo, e o próprio uso do som: é como um pequeno guia para o cinema, preparado pelo cineasta japonês, que sobrevivem com excelência ao teste do tempo. Rashomon projectou o cinema nipónico além das suas fronteiras aquando de passagens pelo Festival de Veneza, em 1951, ou nos Óscares de 1952, e chega-nos hoje, mais de sessenta anos depois, como se fora produto do nosso tempo.

1fd505f2a0d1056ac632ca4e24880c06Morte a Venezia (Luchino Visconti, 1971) – Esta obra veio a propósito de um estudo sobre adaptações cinematográficas de trabalhos literários; A Morte em Veneza é, originalmente, um pequeno, intenso conto de Thomas Mann. Sempre na alçada da experiência do escritor Gustav von Aschenbach (que no filme, é um músico), há um relato da sua estadia em Veneza; aí, apaixonar-se-á pela figura de Tzadio, um jovem adolescente de uma beleza helénica, por quem a obsessão levará à doença. No livro, a parca narrativa está impregnada de várias considerações sobre a beleza e a arte, citando a Grécia Antiga, através dos textos platónicos, até à filosofia de Nietzsche, embora se omitam essas passagens na transposição para o cinema. Ora, narrar sobre a acção, no cinema, é uma instituída proibição – recordemos a regra de ouro ‘show, don’t tell’  – e ciente das propriedades formais de cada um dos dois media, Visconti contornou essa limitação ao introduzir flashbacks concretos da memória de Aschenbach e da sua carreira como músico. Assim, não só manteve o verdadeiro norte desta história como até complementou o conto original. De resto, A Morte em Veneza é, poder-se-á dizer, uma espécie de súmula do que o autor alemão procuraria em A Montanha Mágica, com muitos elementos em comum: a fuga da vida na metrópole em busca de outro lugar, mais mágico, ou onírico; a convalescença e a dicotomia que existe com a saúde viril; o encantamento com o mundo das ideias (donde, na montanha de Davos, Hans Castorp está literalmente mais perto); e, até, a própria finitude da vida, ou melhor dizendo, a morte. Para os que apreciam um cinema pausado, rico em símbolos e figuras, têm aqui um óptimo pouso; melhor ainda se o acompanharem com a leitura.

A70-3721Kes (Ken Loach, 1969) – O britânico Ken Loach, experiente cineasta, voltou à ribalta mediática devido a I, Daniel Blake, lançado no ano passado, vencedor da Palma de Ouro e que também consideramos ao longo deste texto: conta a história de um homem em luta com a máquina burocrática e desumanizante como símbolo explícito do declínio do Estado Social no Reino Unido. Por esta e outras aventuras narrativas – e outras de natureza manifestamente política – foi conotado com a imagem de um homem ‘profundamente de esquerda’. Mas recordemos o início da carreira de Ken Loach que leva já várias décadas, da qual Kes é um dos seus primeiros trabalhos. Tal como em I, Daniel Blake, cujas personagens têm o genuíno sotaque do interior britânico, Kes empresta os dialectos de Barnsley, uma vila em South Yorkshire, onde a vida é mais pacata que no cosmopolita frenesim londrino; assim, faz-se a ponte para um cinema mais genuíno, que integra as raízes das pessoas e das situações que pretende filmar. A casa do jovem Billy, um miúdo reguila de apenas doze anos que vive com a mãe, doméstica, e o irmão, mineiro, é uma casa pobre que carece de uma figura paternal, orientadora; o quotidiano é pautado pelo sacrifício, e começa ainda de madrugada: Billy entregará alguns jornais ainda antes dos compromissos escolares, embora longe esteja de ser um aluno mediano. Em boa verdade, a escola não lhe interessa muito, e nem os seus colegas parecem apreciar a sua presença; e não ajuda que o corpo docente seja constituído por gente incompreensiva e, até, ridícula: numa das cenas mais icónicas, o professor de educação física promove um jogo de futebol entre hipotéticos Manchester United e Spurs – onde até a câmera será cúmplice, seguindo o resultado como se de uma verdadeira transmissão televisiva se tratasse – e age com uma mesquinhez provinciana, na qual podemos entrever a frustração de uma vida que ficou aquém da sua realização. Ora, o impetuoso voo de um falcão, a sua digna liberdade, inspirará Billy a domar um pequeno francelho, a dominar literatura sobre o feito, e voará o falcão sob o seu comando. É a vitória do extraordinário sobre o banal, do sonho sobre a realidade; mais uma vez, o motivo do coming-of-age assombra a narrativa. Mas, tal como em I, Daniel Blake, parece haver uma falha do indivíduo em relação ao sistema (porque recusou Daniel o emprego honesto que lhe foi oferecido? Justifica-se, inteiramente, pela sua doença cardíaca?), que deita por terra tudo o que até aí havia sido construído. É um óptimo filme, genuíno, que acompanha perfeitamente I, Daniel Blake no cânone da carreira de Ken Loach.

Ainda houve Irrational Man (Woody Allen, 2015), um dos mais recentes trabalhos do americano com Emma Stone e Joaquín Phoenix; a crítica não é, de todo, favorável, e embora me custe alinhar no discurso negativo, parece-me que o filme apenas se justifica como um auto-crítico, auto-irónico exercício de comédia levada a cabo por quem já não tem grande coisa a perder: os diálogos iniciais, o set-up foleiro, a maneira brejeira como tudo é filmado, parece tudo advir da leviandade de um filme pornográfico; a narrativa evolui a partir de um momento fortuito e captado de uma forma deselegante; e as próprias personagens parecem recicladas ora de clichés que já não fazem grande sentido, ora de obsessões narrativas que noutros filmes seus foram melhor construídas: a personagem de Emma Stone carece de qualquer tipo de interesse (além da bela figura feminina, cândida, como em muitos dos seus outros trabalhos) e a de Phoenix parece uma paródia ao homem em crise existencial (como o é Woody, actor, em Hannah and Her Sisters, por exemplo). Posto isto, caso se faça vista grossa a todas estas características, não deixa de ser um filme que entretém e diverte fruto da sua patetice, mas não é de todo necessário à filmografia de Woody Allen.

Para terminar, uma breve referência a かぐや姫の物語 (The Tale of Princess Kaguya, Isao Takahata, 2013), mais um filme de animação nipónica proveniente dos Studio Ghibli, numa narrativa mágica e mística que adapta um conto popular japonês – recomendadíssimo a quem aprecia o género, e dado como uma simpática sugestão a quem quer descobrir este lado pueril do cinema japonês.

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 22 a 29 de Março

O atraso da publicação é lamentável, de facto, mas a qualidade do conteúdo é inegável: A Mosca traz uma óptima emissão, e o cinema – fora uma pequena desilusão – é do melhor que aqui tem passado. Encontramo-nos para a semana. Até já!


A Mosca – 56º Emissão

Nesta emissão, demos, nos momentos iniciais, destaque ao hip-hop. A abrir, milo com uma amostra do seu trabalho Things That Happen at Day, de 2012. O rapper americano, que se move pela cena independente, tem na sua música uma bem sucedida mistura de letras cuidadas, fruto do seu passado como estudante de Filosofia – é frequente apoiar-se nos textos de Nietzsche ou Schopenhauer. Para quem gostou, é obrigatório ouvir o seu EP. Os Outkast têm direito a trazer-nos uma faixa cantada por Andre 3000, assim como também pudemos ouvir Mos Def a espalhar magia numa canção do álbum Black on Both Sides (1999). A seguir, os ecléticos japoneses Boredoms, que já fizeram quase tudo ao longo da carreira. Aqui ouvimos uma amostra do álbum conceptual Vision Creation Newsun, também de 1999, que desperta a curiosidade para o resto do álbum; e como já lhes sentíamos a falta, passámos também pelo mundo de Hail to the Thief (2003), o álbum que precede In Rainbows (2007) na carreira dos Radiohead. É um fantástico álbum – como o são todos, afinal! Para o resto da emissão, reduzimos a velocidade e planamos na música de Bonnie ‘Prince’ Billy e Jessica Pratt, duas óptimas amostras de folk intimista e óptimos cantautores. Depois, seguem-se os misteriosos e experimentais The Residents, a mostrar uma faixa de um dos álbuns mais enigmáticos de sempre, aos quais sucedem os The Grubby Mitts – numa fantástica faixa que terão mesmo que ouvir. Acaba a emissão com Fennesz e as suas composições que parecem suspensas nas teias do tempo.

Mas além da (boa) música, esta emissão contou também com uma experiência diferente: ao longo do programa, ouvimos excertos do documentário Música em Pó, da autoria de Eduardo Morais. Tem cerca de uma hora de duração, e permite-nos espreitar as incríveis colecções de vinil em território nacional. Além disso, são imperdíveis as histórias e as opiniões dos intervenientes, num filme que é, simultaneamente, uma autêntica carta de amor à música e ao formato icónico do vinil. Podem vê-lo aqui – vale mesmo muito a pena.

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Cinema

blue-is-the-warmest-color-posterBlue is the Warmest Color (Abdellatif Kechiche, 2013) – Digamo-lo antes de mais nada: Blue is the Warmest Color é um grande filme – mas um que será também polémico, desconfortável e desafiante. Seja como for, este trabalho do tunisino Abdellatif Kechiche venceu a reputada Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2013, e rapidamente fomentou o grandioso estatuto que o levou à entrada directa na colecção Criterion, em DVD e Blu-ray, uma espécie de arquivo digital que compila marcos clássicos e contemporãneos do cinema. Ora, é evidente que o mundo se rendeu quase unanimamente a este filme, narrativa que acompanha a jovem adolescente Adèle no seu último ano da escola secundária, e, simultaneamente, no primeiro da grande descoberta de si própria; urge, portanto, ir além da superfície da narrativa e identificar a sua substância, identificando os motivos pelos quais Blue is The Warmest Color é tão grandioso. Quando nos é apresentada Adèle vemo-la levianamente bonita, uma aluna cumpridora e leitora nos tempos livres, mas a sua curiosidade, embora inquisitiva como consequência da idade, não avança além da zona de conforto – até que um dia se cruza com Emma, a rapariga do cabelo azul, a cor que marca indelevelmente a normalidade da vida de Adèle e o início de uma jornada de descoberta, sensual e sexual, apaixonada e apaixonante. Um dos pontos fortes de Blue is the Warmest Color está em não se embandeirar na representação carnal do amor a que se propõe (as fortíssimas cenas lésbicas são longas e mais substanciais que muita pornografia rasca), optando por um fiel retrato do desabrochar de uma relação; a metamorfose de Adèle é explícita, no desinibir dos seus preconceitos físicos, como implícita, nas pequenas mudanças que lhe entrevemos através da fantástica cinematografia do filme, nos planos longos e intimistas, reveladores do frenesim invisível que a sua pele esconde; o encanto de uma óptima narrativa alia-se a cenas que são simplesmente belas – como o primeiro encontro entre as duas mulheres, o contraste físico entre o aprisionamento de uma, e a liberdade de outra; ou o revigorante banho de Adèle na imensidão do mar francês, azul como a imensidão do céu, que a engole e a envolve como o azul do calor de Emma. Blue is The Warmest Color é mais do que um filme romântico-dramático, sincero e provocador na sua intensa frontalidade, exímio na sua execução; é sobretudo um retrato no qual se turvam os tão predominantes preconceitos de género, para que no final se lembre apenas a titânica complexidade do amor que só interessa a quem o viveu. Fantástico filme.

15Ikiru (Akira Kurosawa, 1952) – Ikiru, japonês para o verbo viver. É este o mote do filme de Kurosawa, o primeiro que vi do lendário realizador, porventura mais conhecido pelo seu trabalho Seven Samurai (1954). A história é nobre: Kenji Watanabe trabalha num movimentado escritório no Japão, típico empreendimento burocrata sem alma nem sentido. A rotina quotidiana não o atormenta, até à fatídica notícia de um cancro, que lhe permite apenas seis meses de vida. O choque de Watanabe leva-o à desenfreada procura por um sentido de vida, um último objectivo que traga paz ao seu espírito – não é esta uma questão que com todos nós se relaciona? Ikiru, embora carregue o peso da sua idade quinquagenária, tem em si muito de actual; o que por si só atesta a intemporalidade do cinema do realizador japonês, seja em termos narrativos como cinematográficos (e as cenas de Ikiru são quase sempre recheadas com movimento em toda a dimensão do ecrã, na periferia do habitual ponto de atenção do espectador) Poderá ser complicado convencer um amigo a ver este filme, pelos seus longos planos, de ritmo oposto ao frenético cinema americano, e pontilhados por diálogos crípticos e existenciais – merecedores de uma especial atenção – mas Ikiru é mesmo um filme belíssimo. Fica a promessa de voltar, em breve, ao cinema do japonês Akira Kurosawa.

men-women-children-posterMen, Women and Children (Jason Reitman, 2012) – Não me quero alongar com este filme. Muito sucintamente, Jason Reitman é o realizador por trás de Juno (2007), um dos primeiros filmes que me conquistou. Volvidos oito anos, ainda não conseguiu um feito de semelhante importância, o que é uma pena. Men, Women and Children começa até com a premissa interessante de explorar os problemas da enorme presença da tecnologia nas nossas vidas, mas as suas personagens, todas vítimas da mesma maleita, caminham constantemente numa corda que balança entre o engraçadinho e o ridículo, ao que se junta o desenvolvimento cliché da narrativa. Não desgostei completamente do filme, que foi, certamente, muito bem intencionado; mas neste caso, a ideia não transpareceu da melhor forma para o cinema e daí resulta um filme estranho, com demasiados pontos baixos, e que interessa apenas a fãs devotos de filmes coming-of-age, a quem ainda procura a irreverência sloppy de Juno, ou, em último caso, quando nada de mais interessante está a passar na televisão.