A Mosca, e notas de uma semana passada – 14 a 21 de Fevereiro

Escrever n’O Coprófago é uma necessidade, embora uma necessidade deveras trabalhosa. Nada me dá mais gozo do que conseguir expressar, umas vezes melhor que outras, a minha admiração para com um bom filme, ou livro, ou álbum, mas o esforço que dispendo entre cada reflexão, um labutar inglório na procura das mais adequadas palavras, não me permite mencionar tudo o que por mim passou durante a semana. Assim sendo, é desta forma que tento colmatar essa falha: a cada sete dias, proponho uma retrospectiva da semana que passou. Junto, fica também a emissão semanal d’A Mosca, a hora semanal de música com tudo o que não ouviram no fim-de-semana.

Não podendo prometer regularidade, veremos como corre.

Comecemos.


Cinema

la_piel_que_habitoLa Piel Que Habito (Pedro Almodóvar, 2011) – O primeiro filme que vejo do realizador espanhol tomou-me de assalto para duas horas de uma macabra história sobre um cirurgião plástico e as suas obsessões; a história não linear é um dos seus pontos fortes, levantando, aos poucos e delicadamente, o véu que repousa sobre a complexidade da trama, que não poupa esforços em deixar-nos estranhamente desconfortáveis. De qualquer forma, é um filme muito bem conseguido por parte de Almodóvar, e fica a curiosidade para o resto do seu trabalho.

love-and-deathLove and Death e Manhattan (Woody Allen, 1977 e 1979) – É difícil que Woody Allen nos desiluda. Primeiro, em Love and Death, uma bizarra comédia que parodia a literatura Russa de Dostoiévski e o cinema sueco de Ingmar Bergman, ambos grandes influências do americano. As referências ao longo do filme são incontáveis, mas o filme ganha, precisamente, no encanto de nunca se levar demasiado a sério; aliás, característica basilar do inconfundível humor de Woody. Quanto a Manhattan, retrata a vivência de um grupo de adultos na icónica cidade americana, numa abordagem sempre assente no diálogo rápido e pseudo-intelectual, como até à data o americano nos havia habituado. Recomendaria mais este Manhattan que Love and Death para o primeiro contacto com o realizador, embora os mais recentes Midnight in Paris (2011), ou o arrojado Vicky Cristina Barcelona (2008) sejam também boas opções.

3_women.dvd_3 Women (Robert Altman, 1977) – De Paul Thomas Anderson a Robert Altman, apenas um pequeno passo os separa. A história das três distintas mulheres conta-se, não por meio de uma narrativa convencional, mas sim através de nuances nos seus comportamentos, pela forma como, a seu tempo, assimilam uma misteriosa troca de personalidades reminiscente do clássico Persona (1966). Tudo isto é complementado por uma cinematografia que parece planar sobre a acção sem grandes turbulências, contribuindo, assim como a desconcertante banda sonora, para toda a aura onírica do filme – não admira saber que o conceito desta obra tenha vindo a Altman através de um sonho. Para quem gosta de Thomas Anderson, tem aqui uma boa aposta. The Master, poder-se-á dizer, é apenas uma versão menos abstracta de 3 Women.

Para terminar, houve ainda tempo para rever Waking Life (Richard Linklater, 2001), que cimentou o seu lugar como um dos meus favoritos de sempre. Pelas fantásticas imagens, pela temática tão bem aproveitada, pelas maravilhosas intervenções de algumas das personagens. Se o deixarmos, Waking Life é inspirador e inquisitivo, daqueles que se recorda por muito tempo e ao qual se volta, eventualmente, para um refrescar de ideias e novos pontos de vista. É mesmo fantástico, ainda que não seja para qualquer um.

A Mosca – 51º Emissão

Quanto à emissão semanal d’A Mosca, começámos com o clássico álbum dos britânicos Slowdive, Souvlaki (1993). Passando pelo psicadelismo dos Love e do seu trabalho Forever Changes (1967), conhecemos os The Incredible String Band, cujo álbum The Hangman’s Beautiful Daughter (1968) é uma enorme influência do folk. Recomenda-se a sua audição! Quanto ao resto, todos conhecem os Boards of Canada, assim como os The Velvet Underground. O mesmo já não se poderá dizer dos Sweet Trip, que ao seu terceiro álbum de estúdio, velocity : design : confort (2003), propõem uma mistura da componente etérea do shoegaze com a electrónica esquizofrénica digna de um Aphex Twin. Não terminamos sem ouvir Ian William Craig e um exerto do registo A Turn of Breath (2014), o qual merece uma escuta na íntegra, e homenageando também o nosso Zeca Afonso, que hoje se assinala a triste efeméride da sua morte. É uma personalidade incontornável que vive muito mais além que Grândola Vila Morena, e a seu tempo lhe faremos a homenagem condizente. Esta é a hora de música que propusemos para a madrugada de segunda-feira, mas que se extende para o resto da semana. Até já!

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Thomas McCarthy – Win Win

Eu, caros leitores, adoro cinema. Reconheço-lhe o potencial de contar uma história como nenhum outro meio consegue, e mantemos uma relação, a meu ver, bastante saudável. Quando as circunstâncias o permitem, dedico-lhe a minha atenção e dele espero um mundo. A possibilidade desta imersão é característica inerente a um bom filme – apreciar a sua história, como também as nuances da sua realização; desmontar as várias cenas, apreciar os diálogos, descobrir as várias interpretações da série de simbolismos que acarreta, invariavelmente, uma boa amostra de cinema. No entanto, não me custa entender que esta admiração não seja comum a toda a gente – afinal, antes de ser arte, o cinema era entretenimento -, como também o sei que poucas serão as ocasiões nas quais há tempo, e sobretudo, paciência, para empreender em filmes que não sendo pretensiosos, têm a sua complexidade.

Recuperando a premissa inicial do cinema, mas já sem a graça de novidade de outros tempos, há muito entulho produzido, cujas finalidades são preencher infinitas prateleiras de video-clubes e ocupar as grelhas de fim-de-semana dos canais generalistas. São ferramentas de conteúdo vago e inócuo, desprovidos de alma, que se esquecem tão facilmente como vieram sem que ninguém lhes sinta a falta. Uma espécie de cinema de marca branca, portanto. No entanto, de vez em quando há pequenas pérolas que nos surpreendem: falo, por exemplo, do trabalho de Thomas McCarthy, Win Win.

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A história acompanha o dia a dia de um professor de luta-livre, advogado e pai de família, numa casa que poderia ser a de qualquer um de nós. O seu quotidiano altera-se com uma prova de fogo à estrutura moral do protagonista, e a improvável chegada de um jovem à cidade, que rapidamente se integra no seio familiar. Daí, desenvolve-se numa improvável mescla de drama, comédia, e luta-livre, esplanando-se por cerca de duas horas. Não há muito mais a acrescentar a esta curta sinopse. Nos papéis principais, temos Paul Giamatti, com uma sólida prestação, e o novato Alex Shaffer, que surpreende q.b.

Ora, ainda que a narrativa pudesse, por si só, ‘fazer o filme’, foi nas entrelinhas que justificou a minha admiração. As doses certas de drama e comédia conferem-lhe a capacidade de passar uma mensagem sem cair no erro de se levar demasiado a sério, e o andamento do filme é adequado, explorando correctamente as diferentes vertentes da narrativa – fazê-lo de forma mais precipitada torná-lo ia um quanto ou tanto esquizofrénico. Tecnicamente, nada de muito transcendente se fez em Win Win (e, simultaneamente, nada de gritante a apontar), ainda que a sua fotografia seja, em algumas cenas, bastante agradável.

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Nada de especial se perderá ao fazer vista grossa a este filme. Faz, precisamente, parte do seu charme assumir a leveza da sua história e da sua entrega –  na sua companhia, são um par de horas bem passadas na simplicidade de ver algo ao qual carinhosamente se chama slice of life. Mas não nos enganemos ao julgar que não vale a pena vê-lo! Há lugar para estes filmes no nosso mundo. Que nos arrancam sorrisos depois de breves, mas necessárias, consternações. Por vezes, faz-nos falta um filme que incendeie a nossa paixão cinéfila; neste caso, temos uma espécie de acolhedor e brando lume – a uns, lembrá-los-á do bom que é ver um filme para ser entretido (sem nos sentirmos estupidificados), e a outros talvez desperte o amor pela arte do filme. Isto sim, é de valor.