19/05 – Twin Peaks regressa, loucuras de 1968, e jazz.

Mais um directo do mês de Maio!

Começámos com dois nomes do jazz: primeiro, Ryo Fukui, cujo disco Scenery aparece recorrentemente nas recomendações do Youtube, e depois, Chet Baker, com dois exemplos de dois discos distintos. Seguiu-se uma jornada pelo hip-hop, com nomes contemporâneos e desses, um enorme peso-pesado: Oddisee com o seu novo disco deste ano, e milo com duas faixas antigas; como sabem, nutrimos uma predilecção especial por este último. Terminámos com Death Grips, do seu Money Store.

Dado que se aproximava o lançamento da nova temporada de Twin Peaks, comemorámos a ocasião ao revisitar a interpretação de Xiu Xiu desta magistral banda sonora – mesmo que tenhamos ido ao engano numa das vezes.

E antes de fechar a emissão com uma pouco-escutada versão da Amar Pelos Dois (esta foi a primeira emissão após termos ganho o festival), passámos por música lançada no louco ano de 1968. Primeiro, a recomendação da Porto Calling trouxe-nos os Silver Apples, grupo minimal que se orientou predominantemente na electrónica rudimentar, pese embora fizessem coisas incríveis; logo de seguida, um grupo que por aqui já passou e nunca é demais relembrar: os The United States of America, um dos nomes mais famigerados desta década, que produziram apenas um disco e podiam ter feito mais dois ou três. É uma loucura. Deviam ouvi-lo.

Assim passámos a hora da semana.

1. Ryo Fukui – It Could Happen To You (Scenery, 1976)
2. Chet Baker – Baby Breeze (Baby Breeze, 1964)
3. Chet Baker – She Was Too Good to Me (She Was Too Good to Me, 1974)
4. Oddisee – Built By Pictures (The Iceberg, 2017)
5. milo – Sophistry and Illusion (Cavalcade, 2013)
6. milo – sweet chin music (Things That Happen at Day, 2012)
7. Death Grips – Hustle Bones (The Money Store, 2012)
8. Xiu Xiu – Into the Night (Plays the Music of Twin Peaks, 2016)
9. Xiu Xiu – Laura Palmer’s Theme (Plays the Music of Twin Peaks, 2016)
10. Silver Apples – Oscillations (Silver Apples, 1968) | sugestão da Porto Calling.
11. The United States of America – I Won’t Leave My Wooden Wife For You, Sugar (The United States of American, 1968)
12. Salvador Sobral – Amar Pelos Dois (ao piano, num programa de televisão)

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À conversa com José Cid, de olhos postos no Espaço, e no futuro.

[ARTIGO ORIGINALMENTE REDIGIDO PARA O ARTE-FACTOS; COLABORAÇÃO COM JOSÉ RAPOSO]

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Mencionar José Cid, hoje, é mais do que falar de um músico: evocamos uma personagem. Começando na célebre fotografia em nu frontal, uma provocadora exibição do seu disco de platina, passando pelo recente desaguisado mediático com as gentes transmontanas, recolhemos sintomas de alguém que não teme abrir a boca para dizer o que pensa. Mais ainda, não teme ser julgado por tudo o que fez. José Cid é capaz de representar Portugal na Eurovisão, compor vários marcos da história da música nacional, e, num dos raros momentos em que Portugal conseguiu, por entre a bruma de indefinição pós-25 de Abril, olhar além-fronteiras, imaginar um disco que ombreia, hoje, com o que de melhor foi feito nesse período a nível mundial. À conversa com o próprio mestre, recordámos 10.000 Anos Entre Vénus e Marte, sempre em frenética marcha entre o passado e o presente.

Em retrospectiva, é difícil enquadrar um trabalho tão distinto no resto da sua discografia, mas Cid recorda uma fase “onde gravava mais rock sinfónico: primeiro, em 1975, o ‘Cantamos Pessoas Vivas’ [com os Quarteto 1111], e em 76 ‘Vida: Sons do Quotidiano”. Será depois, entre 76 e 77, que se lança a escrever o seu novo trabalho, mas sempre intercalado com outros trabalhos mais comerciais e populares, como ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, ou ‘A Minha Música’.

Em 76/77, quando escrevi o 10.000 Anos, estávamos na iminência de guerra nuclear como estamos agora. Havia uma predominância nuclear da URSS sobre os EUA, como agora… bem, toda a gente agora tem o poder nuclear. As coisas com este Donald Trump podem disparar de repente. A verdade é esta: assumi a ideia de que o mundo poderia ter tido uma Terceira Guerra Mundial em 1976, na qual o planeta desaparece, e um cosmonauta e a companheira fogem para o espaço e, através de uma viagem mais instrumental do que poética, voltam, na última faixa, como novos Adão e Eva, começando tudo de novo.”

Recordemos como, por essa altura, já o rock progressivo estava bem lançado. Os Pink Floyd tiveram o Dark Side of the Moon, em 1973 – a quem o disco parece aludir, com as vozes da última faixa – e já antes deles editavam os King Crimson. Os próprios Genesis, os Emerson, Lake & Palmer, os Yes: perde-se a conta aos projectos que pegaram no rock, ou nos instrumentos do rock, para os levar a outras paragens. Em Portugal, essa corrente foi tímida e não tinha, sequer, mercado possível: pelo menos, assim julgou a Orfeu, que lançava Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, e mais tarde José Cid. Para que o disco pudesse chegar ao público, ofereceu os direitos à editora; a tiragem dos exemplares foi extremamente curta. “Gravámos o disco, que foi considerado como não comercial e não teria qualquer sucesso, e ofereci-o para editarem sem quaisquer encargos – incluindo direitos de autor.” E assim foi editado em Portugal. Só passados quase vinte anos o disco teria uma reedição, pela americana Art Sublime, em 1994. Portugal rejeitara um disco vanguardista – demasiado para a época, é certo – ao qual o tempo faria justiça.

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O MiniMoog

Ainda assim, o disco não vive apenas do seu conceito futurista, nem tão só de meritoriamente ser cantado em português: é um dos poucos casos, embora de longe o mais mediático, da utilização do sintetizador Moog e do Mellotron em discos nacionais. À altura, eram instrumentos extremamente recentes, uma novidade: “uma linguagem nova – mas era um teclado! O primeiro em Portugal a comprar um foi sem dúvida o Miguel [Graça Moura] que o usava como um instrumento de música clássica. Eu tocava-o como um músico de rock.” Tanto o Moog como o Mellotron “eram os sons de vanguarda no mundo inteiro”, e vieram justamente a propósito duma era que se virava para o espaço e para os segredos do Universo. Hoje, soam majestosos, titânicos: absolutamente intemporais.

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Os Quarteto 1111. António Moniz Pereira, Michel Silveira, José Cid e Mário Rui Terra (fotografia de Rui Coelho Dias)

Quem procurar pelo catálogo de José Cid por momentos semelhantes, pouco irá encontrar além do já mencionado período do rock sinfónico; mas terá provas que havia quem, em Portugal, olhasse e tentasse emular (e apropriar) o que se fazia lá fora. No Quarteto 1111, que teve há pouco tempo uma reedição de muito do seu material, temos momentos como ‘Os Monstros Sagrados’, bem direccionado ao psicadelismo sinónimo de liberdade, ou a ‘Ode To The Beatles’, momento para os portugueses coabitarem a música dos britânicos – “como se fosse um rappel na história feito com uma pequena frase dos Beatles”; e mesmo já em nome próprio, apresentou no Festival da Canção da RTP ‘O Meu Piano’, algo puxado ao que se fazia na América contemporânea – “foi o princípio da “dance”; estamos em 1978 ou 79 e já há, nos Estados Unidos, os Bee Gees e essa gente toda a fazer música de dança e achei giro surpreender, no Festival da Canção, com uma coisa ritmicamente mais à frente”. 

O que admirava nos Beatles era o talento e a criatividade. A execução? Eram perfeitinhos, mas nenhum era um supermúsico, a não ser o Paul McCartney que tocava baixo a um nível acima da média. O Ringo Starr era um péssimo baterista, mas lá se ia defendendo. O George Harrison era o mais genial, e talvez seja o que mais gosto. O John Lennon era um rebelde com boas ideias e estética.”

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Zeca Afonso, o músico cujo catálogo continua a ser (re)descoberto.

No sentido inverso, da música de cá que pode ir para fora, revê-se no trabalho da Vodafone FM e Antena 3, que “apoia gerações jovens que são mais honestas e puras a escrever, que têm uma grande originalidade dentro de si, e que arriscam”, enquanto evita outras rádios mais mediáticas, não vá apanhar-se a “ouvir kizomba, que acho uma coisa horrorosa, esterco poético por cima de música feita em computador”. Por entre a música regional que pauta a diferença entre a nossa geografia, destaca o jazz que se pode descobrir no imenso repertório de Zeca Afonso – “o José Afonso escreveu uma grande parte da sua obra em 6/8, e é um extraordinário compositor de jazz sem as pessoas se apercebam.” Como tantos outros, acredita que a chave para desbloquear a nossa música lá fora se encontre nas nossas raízes musicais, no que, em verdade, nos distingue de todos os outros.

“No meu projecto de jazz, o Acid Jazz Project, toco dois temas dele, “Milho Verde” e “A Morte Saiu À Rua” – mas haveria muitos outros temas do Zeca para tocar. É um compositor que surpreende por ser absolutamente “bluesy”; ele compõe temas de world music tão próximos dos blues como um fado tradicional. São coisas que estão interligadas em termos de inspiração, de criatividade, daquilo que são as raízes e essência da própria música – seja portuguesa ou negra. Há uma proximidade muito grande, que vejo e consigo e consigo executar.”

Passando em revista a última década, sabemos que se fez justiça ao 10.000 Anos Entre Vénus e Marte. As vozes críticas e reaccionárias foram esquecidas e remetidas para o seu devido lugar: o caixote do lixo preconceituoso e ideológico pós-PREC. As novas gerações, despidas de óculos de preconceito ideológico-musical, e no seguimento do interesse a que a Internet estrangeira (bem como alguns bravos nativos que nunca se esqueceram do valor da obra) dedicou ao disco, ajudam a encher as Aulas Magnas e Coliseus, na busca de um demasiado tardio testemunho da genialidade da odisseia sónica de José Cid e companhia. Fez-se, portanto, justiça, ainda que muito, muito tarde e com a ajuda de ouvidos estrangeiros. Só não lhe peçam é para ir tocar ao Japão, que “é um país chato até às orelhas. Hiper-organizado, são chatos e o mais interessante são as japonesas, porque de resto é um país muito chato.”

As falsas vanguardas críticas e políticas de fins de setentas, na sua infinita cobardia e ignorância, por pouco não enterraram o bom que por cá se fazia. Este disco foi quase como um Yoda musical, desterrado num Dagobah, mas estimado por muitos Luke Skywalkers que o ouviam. Em 2017 e com meio século a dar-nos música, Cid desdobra-se em discos e projectos, nunca olhando, segundo o próprio, para o seu rico passado – “eu sou todo aquariano, estou-me cagando para o passado!”. Do fado ao jazz, nada o move mais do que continuar a escrever e a actuar – assim se vive e assim se rejuvenesce a cada ano que passa. Meio século sem retrovisores, salvo para apreciar a paisagem cósmica entre Vénus e Marte. Assim é José Cid, músico bem português e com um fôlego infindável.

Além dos dois concertos agendados para este mês – dia 1 de Maio na Aula Magna, e dia 6 na Casa da Música, há uma reedição do disco original remasterizado em Abbey Road, juntamente com uma gravação do concerto em Lisboa. É uma óptima edição! Mais informação em https://www.facebook.com/dezmilanosdepois.

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Fotografia de Andreia Santos.

Emissão de 01/04 – Os ratos de Zappa, pop que cruza eras, e a morte.

Para esta semana, e motivados pela efeméride do dia das Mentiras, iniciámos a hora de uma forma diferente – um pequeno resumo do mês de Abril; e ainda antes da primeira música, ficámos com um pequeno excerto do filme Diner, que introduz o ‘maior saxofonista de todos os tempos’, Charlie Parker. Regressa às emissões ainda com Dizzy Gillespie, com quem gravou sessões compiladas no disco Bird and Diz. Seguimos, pela música deste ano, com Charli XCX – nova mixtape – e novo single de Frank Ocean – que entretanto lançou mais dois. Mas o grande destaque da emissão encontra-se na década de 60: primeiro, os britânicos Kaleidoscope, autores de pop psicadélica cuja estética tem sido recuperada nos últimos anos (Tame Impala, MGMT, Temples, e tantos outros); e logo de seguida, com o enorme Frank Zappa, um dos mais camaleónicos, experimentais, exploradores músicos do século XX, e de quem ouvimos três músicas de dois dos seus discos. A cargo da Porto Calling, duas óptimas recomendações: primeiro, o calypso produzido por Van Dyke Parks e da autoria de Mighty Sparrow – amostra de uma corrente exótica que o americano havia de importar no seu disco Discover America – e, logo de seguida, a colaboração entre Tess Parks e o veterano Anton Newcombe (The Brian Jonestown Massacre). É obrigatório visitar o site da loja, em portocalling.com. Já na recta final, um brevíssimo devaneio pela electrónica dos 101 Strings (andamos à procura de complementos ao Plantasia de Mort Garson no nosso compêndio de avant-garden), para depois fecharmos com a música de Mount Eerie. Phil Elverum apresentou este novo disco depois da morte da sua esposa, Geneviéve, e é um dos mais poderosos exercícios que recordaremos deste ano. Antes de o introduzirmos, passámos, como muleta, pela música de Sun Kil Moon, e em particular o último disco Benji: o estilo stream of consciousness, que na altura (2014) tinha constituído uma lufada de ar fresco no panorama dos cantautores, constitui a mais saliente característica do álbum. A par de Kozelek, Elverum também utiliza um estilo semelhante para abordar o tema da morte – e fá-lo de uma forma extraordinariamente franca. Mais do que falado, o disco deve ser ouvido. Fica a recomendação, embora não seja fácil de digerir. 

  1. Prelúdio ao programa: informações pertinentes sobre o mês de Abril (duração do mês, feriados, provérbios populares)
  2. Charlie Parker & Dizzy Gillespie – An Oscar For Treadwell (Bird and Diz, 1950, introduzidos por um diálogo do filme Diner, de 1982)
  3. Charli XCX – ILY2 (Number 1 Angel, 2017)
  4. Frank Ocean – Chanel (2017)
  5. Kaleidoscope – Kaleidoscope (Tangerine Dream, 1967)
  6. Kaleidoscope – Dive Into Yesterday (Tangerine Dream, 1967)
  7. Frank Zappa – Peaches en Regalia (Hot Rats, 1969)
  8. Frank Zappa – Little Umbrellas (Hot Rats, 1969
  9. Frank Zappa & The Mothers of Invention – Can’t Afford No Shoes (One Size Fits All, 1975)
  10. Mighty Sparrow – More Cock (Hot and Sweet, 1974)
  11. Tess Parks & Anton Newcombe – Mama (I Declare Nothing, 2015) | recomendação da Porto Calling.
  12. 101 Strings – Where Were You in 1982? (Astro-Sounds From Beyond The Year 2000, 1968)
  13. Sun Kil Moon – Ben is my Friend (Benji, 2014)
  14. Mount Eerie – Real Death (A Crow Looked at Me, 2017)

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Um encontro com crocodilos ao ritmo de Pernadas; concerto no gnration.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE]

É costume dizer-se que bom filho a casa torna. Na verdade, pode não ser o provérbio mais apropriado: nem Pernadas é bracarense, nem o gnration – onde se estreou a actuar -, será uma referência para o músico. No entanto, há cerca de um ano, ocupou o palco do Theatro Circo, no Festival Para Gente Sentada, que decorreu em Braga, para proporcionar um dos concertos mais surpreendentes da noite. Com a sua trupe de sete músicos em palco, o mote foi How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, o primeiro disco em nome próprio, de uma sonoridade eclética, bem preenchida, mas extremamente acessível.

Pois bem: um ano volvido, Braga foi novamente anfitriã da sua música. Desta vez, precisamente no gnration, o músico propôs Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them, um dos dois discos que lançou no passado dia 23 de Setembro. A expectativa poderia medir-se pela afluência ao concerto: à hora marcada, a Blackbox estava muito bem preenchida e o seu palco, habituado a não mais que três ou quatro músicos de uma assentada só, pareceu multiplicar-se (uma ilusão, apenas) para albergar toda a parafernália; uma bateria, dois saxofones, uma flauta e trompete, guitarras várias, sintetizador, e baixo eléctrico. Para os manejar, um ensemble de dez músicos, incluindo o próprio Pernadas, encarregue da guitarra e, simultaneamente, o nosso mestre-de-cerimónias.

Ainda assim, o público respondia sem considerar as chatas questões de composição. Depois da avalanche rítmica de “Problem Number 6”, viajámos para “Valley In the Ocean” a soar como uma balada de outros tempos como se tivesse sido composta na plácida contemplação intergaláctica, o seu sintetizador meloso como orientador da viagem. Quando, através dele, Margarida modula a sua voz para um belíssimo efeito, todos agradecem a si próprios a decisão de ali estar, presentes na constatação de que a música é uma grandiosa arte e fantástico veículo de emoções. Ciente do singular momento, Bruno Pernadas toma os interregnos para apresentar o disco, a banda, e o nome de cada canção. Aproveitou e agradeceu ao técnico de som e a Luís Fernandes, director do gnration, pela – perguntámos entretanto a razão – aposta num grupo tão numeroso.

No palco, o grupo reunido por Bruno Pernadas é exímio; mais do que interpretar as canções, esta reunião tomou contornos de “festa”, um encontro entre amigos sob o pretexto de dar vida a este disco. Se, ao ouvi-los em casa, nos arrebatamos com a imensa variedade da música, o intangível sentimento de maravilha – como se fôssemos crianças outra vez a descobrir sons e melodias -, em concerto podemos, além de a ouvir, constatar o crescimento das canções, ou a sua materializaçãoEvidentemente, a escola na composição que o jazz proporcionou, mais o facto de serem todos músicos competentes, faz com que tudo, esta espécie de química entre todos os intérpretes – a comunhão musical -, pareça extraordinariamente fácil. E a sua diversidade é imensa: quando, em “Galaxy”,passámos pela marcha dos sopros e as vozes, em coro, hipnóticas, tudo um bom revivalismo de uma época musical passada, custa crer que é o mesmo grupo a puxar a brasa ao rock em “Ya Ya Breathe” com uma intensidade pulsante que suplantaria muitos aspirantes a shoegazers. Isto não é jazznem pop: é um statement de devoção à música, mais uma vez, como arte.

Edição 88 – The Life of Pablo, a irreverência de Annette Peacock, e o activismo entre o jazz e o hip-hop.

Voltámos!

Os últimos tempos não têm sido fáceis no que toca à gestão do tempo. Como tal, dedicámos o início do programa ao disco que marcou o início de Fevereiro: The Life of Pablo, de Kanye West. Ficámos com a primeira música do disco, assim como a opinião sobre o trabalho e, também, a análise ao que pode mudar depois de um lançamento tão inusitado. Depois, a vez de ouvir Donnie Trumpet & The Social Experiment, juntamente com a voz de Chance The Rapper, no trabalho Surf de 2015. De volta ao corrente ano, espreitámos Painting With dos Animal Collective (que havia sido antecipado há algumas edições atrás).

Desta vez, a recomendação da Porto Calling traz-nos os The Music Machine, grupo que editou o seu primeiro disco em 1966. Uma mistura de composições originais com covers, a pedido da editora, apresentam-nos uma das primeiras iterações pelo garage rock. É a sugestão da melhor loja de vinil do país, no Porto.

Seguimos com a música da americana Annette Peacock, nome essencial dum jazz experimental, sem medo de se ligar a outras correntes da música – entre as quais a força do blues, e a irreverência do rock. Começou a gravar nos finais da década de 60, juntamente com Paul Bley – outro enormíssimo músico – e é de um dos seus primeiros trabalhos gravados que ouvimos A Loss of Consciousness. Um disco pioneiro no que toca ao uso do sintetizador Moog na modulação da voz. Vale a pena ouvir! Seguimos com uma outra música do seu álbum mais marcante – I’m The One, de 1972.

A descoberta da semana ficou dividida entre Annette Peacock e a fantástica colaboração entre dois grandes nomes contemporãneos: Vijay Iyer, músico de jazz, e Mike Ladd. Inspirados num manifesto escrito por Jafar Panahi, realizador iraniano (com uma carreira obrigatória, desde The Mirror a Taxi), que teve problemas com os serviços de imigração nos EUA, criam um vívido cenário no disco In What Language?, de 2003, sobre multiculturalidade e a globalização. Um poderoso portento musical dirigido por Iyer e pautado pelas cortantes letras Ladd.

Para terminar, não esquecer que no próximo dia 4 de Março, há concerto na Casa da Música, com a Sinfonia Nº1 em Ré Maior, Titã, Lieder eines fahrenden Gesellen, todas elas composições de Gustav Mahler; depois, a leitura de um breve poema de Manuel Alegre, ‘Cão Como Nós’; e, para terminar em grande, uma música do novíssimo disco dos peixe : avião, que partilha o nome do álbum: Peso Morto.

Foi assim que passámos uma belíssima hora. Espero que gostem, e que voltem para a próxima! Até já.

88

A Mosca – 68º Edição

Já não conseguimos viver sem A Mosca.

Esta semana, o mote foi lançado pela revista britânica The Wire, especializada em música experimental, periférica e alternativa, e que é sempre um óptimo ponto de partida para refrescar os ouvidos. Na contracapa de uma das emissões que nos chegou, este mês, vi um álbum que prontamente me despertou a atenção: Nu Yorica! Culture Clash in New York City, com o explicativo subtítulo Experiments in Latin Music 1970-77. Como o nome indica, é uma compilação de nomes que, na década de 70, se destacaram no enorme melting pot nova-iorquino, numa fusão entre as influências latinas dos imigrantes, e a própria cultura americana. Daí, estavam lançadas as bases para irmos descobrir Sly & The Family Stone, nome basilar do funk (e de outras coisas também, a explorar numas próximas empreitadas), e recuperar os Parliament; embora já repetentes no programa, o ímpeto de os ouvir foi mais forte – e vem a propósito, também, do concerto de George Clinton no último Glastonbury (actuou ao mesmo tempo que Kanye West). Seguiram-se Nujabes, o lendário beatmaker nipónico cuja carreira é um marco no hip-hop instrumental, e, na mesma onda, descobrimos Floyd the Locsmif. Bem talentoso! A partir daqui, deixamos as batidas para trilhar territórios diferentes – uma das proposições essenciais deste projecto. Primeiro, passámos pela obra de Steve Reich – dose dupla, neste programa – a propósito de uma antologia que reúne vários trabalhos do compositor contemporâneo americano. Neste seu registo, é possível constatar a enorme flexibilidade musical que apresenta, e fica prometido voltarmos à sua carreira em breve. Também em dose dupla, tivemos Vashti Bunyan, outra repetente no programa; em primeiro lugar, uma colaboração com os Animal Collective: dois nomes singulares no mundo da música e cuja colaboração merece muito ser ouvida. Para terminar, passagem pelos obrigatórios Radiohead, e, para terminar, outra vez Steve Reich. Que óptima semana. E já falta pouco para a próxima emissão! Até já.

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A Mosca – 67º Edição

Mais uma emissão d’A Mosca! Infelizmente, o tempo foi o nosso maior inimigo, e convocámos a boa música para o derrotar. Abrimos o programa com o novo trabalho de Thundercat, editado na passada semana. A seguir, uma visita a uma das suas influências pelo lado funk e no trabalho de sintetizadores, o grande Stevie Wonder, e a nova música continua com Ducktails, que nos surpreenderam, em 2013, com o seu The Flower Lane. Voltando à velha guarda do jazz, recuperámos um trabalho de Alice Coltrane (que óptima família, estes Coltrane!); logo a seguir, um trabalho que há muito pedia destaque no nosso programa: os gigantes Godspeed You! Black Emperor. Deles ouvimos Static, do épico Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven (2000). Para terminar, uma curta incursão pelo imaginário de Bob Desper, cantautor esquecido dos anos 70, e, para fechar, a primeira Gnossienne do francês Erik Satie. Mais uma semana. Para a semana há surpresas!

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A Mosca (63º, 64º, 65º e 66º Edições) – Podcasts em dia!

Tardou, mas chegaram! Aqui ficam disponíveis os quatro últimos podcasts das emissões d’A Mosca, programa pertencente à antena da Rádio Universitária do Minho. Neste último mês, fomos verdadeiramente ecléticos: poucos foram os géneros onde não deitamos a atenção. Na 63º emissão, contamos logo a abrir com a soul sensual de Marvin Gaye, para seguirmos em agradáveis terrenos de jazz e funk (destacam-se os Mahavishnu Orchestra e Curtis Mayfield, respectivamente). Depois, krautrock da melhor formada – cortesia dos Can – passando por dois incontornáveis, mas de discretas carreiras em vida, nomes da música folk, nomeadamente Jackson C. Frank e Nick Drake.

Na emissão 64º, recordações de bons concertos no NOS Primavera Sound (entre outros, ouvimos Slowdive, que voltam este ano a Portugal, no Festival Paredes de Coura!), deitando também um olho à country americana de Neil Young e da incrível Karen Dalton, cujo álbum In My Own Time (1971) já tem um lugar cativo nas nossas emissões.

Chegados à semana seguinte, perdemos a cabeça e embarcamos numa erudita excursão com grandes nomes do experimentalismo e do “pensar-fora-da-caixa”. Primeiro, os alemães Einstürzende Neubaten (dos melhores do NPS 2015), seguindo-se a trindade Frank Zappa, Miles Davis, e Herbie Hancock. Do primeiro, ouvimos-lhe um dos seus mais acessíveis e celebrados trabalhos – Uncle Meat (1969) -, enquanto que para os outros dois, entidades basilares do jazz, enveredámos em projectos seus mais periféricos. Do primeiro, o seu álbum On The Corner (1972), de recepção mista na crítica; quanto a Hancock, ouvimos Sextant (1973), no qual aborda, em ritmos exóticos e experimentais, uma mescla entre a electrónica e o jazz. Curiosamente, foram dois álbuns que precederam registos aclamadíssimos na carreira de ambos – falo de Bitches Brew e Headhunters, respectivamente. Esta foi uma emissão muito interessante – eclética, como sempre – em que passámos, mais tarde, pela música de Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Vale a pena ouvir.

Finalmente, na 66º emissão, algo mais ortodoxo. A entrada deve-se aos akron/family, que teimam em não desiludir, seguindo-se a música africana de Dorothy Ashby  (vale muito a pena ouvir o seu trabalho) e King Sunny Adé. Representamos também o hip-hop, através de Dr. Dre e o trabalho de estreia de Donny Trumpet & The Social Experiment, no qual contribui o nosso conhecido Chance The Rapper. Pelo caminho, Portishead, Joan Baez, o futurismo optimista de Squarepusher, e, para terminar, plunderphonics para uma vida melhor da autoria de People Like Us & The Jet Black Hair People.

Temos, assim, os nossos podcasts em dia e prometemos uma maior assiduidade nesse sentido. Foram, realmente, semanas complicadas e de muita atribulação. Em Julho, conto ter novidades em relação ao projecto do blog, como ao próprio programa, pelo que, até lá, têm imenso tempo para por a matéria em dia. Vamos entrar na maior força.

A próxima emissão d’A Mosca é na próxima Segunda-feira, a partir da 1h da madrugada – mas antes, no Domingo, às 21h, há emissão da Quintessência, com Duarte Matos e a música clássica. Agenda preenchida!

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Excerto da entrevista a Kamasi Washington [Pitchfork]

Kamasi Washington, músico natural de LA, que lançou, recentemente, o seu registo de nome The Epic; tal como o nome indica, estamos perante um trabalho diferente. The Epic tem quase três horas – ! – de música, em permanente expansão criativa tendo como epicentro o jazz. Além disso, editou pela Brainfeeder, liderada por Flying Lotus, e participou, também, no último álbum de Kendrick Lamar, To Pimp a Butterfly. Aqui, um excerto da sua entrevista à publicação americana Pitchfork, que pode ser lida na íntegra aqui.Screen Shot 2015-06-13 at 13.33.26

A Mosca – 60º Edição

O início da emissão ficou entregue ao americano Gil Scott-Heron. O seu segundo álbum, Pieces of a Man (1971), foi uma das descobertas dos últimos dias e pôs-me em contacto com toda a sua carreira, e consequente importância no mundo musical e social. Já está prometido revisitar a sua carreira – rica e extensa -, mas até lá recomenda-se este álbum: um registo sincero, socialmente consciente e quase confessional, nos quais a extravagante instrumentação está no topo de forma. Prosseguindo a linha da soul, seguem-se Cody ChestnuTT Mayer Hawthorne, sendo que a este último cheguei através do documentário Our Vinyl Weighs a Ton, do qual falei na passada semana. Há sempre espaço para ouvir um dos álbuns da minha vida – In Rainbows (2007), dos britânicos Radiohead, e do qual se ouviu Nude – e complementámo-lo devidamente com a francesa Colleen e a sua delicada música com base em loops, que se afirmam inocentes e contemplativos. Havendo uma linha delineadora da emissão, traça-se aqui, porque se segue uma jornada pelo jazz de 2015. Primeiro, os The Breathing Effect apresentam o seu registo, muito sólido, que não puxa tanto ao virtuosismo como apenas nos pede um pouco da nossa atenção, mas logo de seguida, um dos álbuns do ano: Kamasi Washington, que já conhecemos de dois outros registos que por aqui passaram (To Pimp a Butterfly You’re Dead!), preparou um épico de quase três horas (!) e cuja completa digestão é demorada, mas nunca penosa – antes pelo contrário. Uma verdadeira viagem que marcou, seguramente, esta emissão. Na ressaca deste fantástico álbum passámos por um outro que será, também, um dos pontos altos do ano: o trabalho, muito recente também, da americana Timbre. De seu nome Sun and Moon, lida com a dualidade dos dois astros, reflectindo-se, claro, na música e na sua abordagem. Um duplo registo que merece a nossa atenção o mais rápido possível. Para terminar, recorda-se o sempre bem-vindo Tim Hecker – desta vez, o mote terá sido o seu registo de 2012, Ravedeath, 1972. Foi mais uma semana. Volto, com mais uma óptima hora de música, na próxima madrugada de segunda para terça-feira. Até já!

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