06/10 – O século XX na música; a pop e a experimentação.

Esta emissão foi muito baseada em dois livros aos quais tive acesso nessa semana, e que representam, cada um, duas épocas distintas do século passado. O primeiro, Tomorrow Never Knows da autoria de Nick Bromell, incide no período a partir da década de 50, partindo do blues e da sua apropriação por parte de Elvis Presley, passando pelos Beatles e por Bob Dylan, dissecando, em simultâneo, a influência da erva e outros psicotrópicos na definição de um sentimento geral para a época. O segundo, mais académico e abrangente, reúne vários artigos de diferentes personalidades ligadas à música, desde StockhausenEdgar Varèse Brian Eno Merzbow; chama-se Audio Culture: Readings in Modern Music, editado por Christopher Cox e Daniel Warner.

Ouvimos os Fleet Foxes por causa de uma segunda parte da canção muito interessante, e que remete para o cânone do free jazz; domínio ao qual pertence Albert Ayler Trio. 

“A vida antiga era toda silêncio. No séc. XIX, com a invenção das máquinas, nasceu o Noise. Hoje, o Noise é triunfante e reina de forma soberana sobre a sensibilidade do Homem” Luigi Russolo (1885-1947), The Art of Noises

Depois, enquadrando as peças com algumas citações do livro Audio Culture, passámos de Tim Buckley, experimentalista do lado do jazz e da voz, Edgar Varèse, pioneiro da electrónica e do primitivo processo de colagem.

“Quando novos instrumentos me permitirem escrever música como a idealizo, o movimento de massas-de-som, de planos inconstantes, serão claramente perceptíveis no meu trabalho, tomando o lugar do contraponto linear. Quando estas massas-de-som colidirem, o fenómeno de penetração ou repulsão vai ocorrer. Alguns transmutações a dar-se em certos planos parecerão projectadas noutros planos, movendo-se a velocidades e ângulos distintos. […] Todo o trabalho fluirá como flui um rio”. Edgar Varèse, em 1936.

No fundo, esta emissão foi apenas uma breve introdução a algumas ideias determinantes para explicar a necessidade de experimentar novas ideias no século XX. Para terminar, a ideia de Murray Schaffer parece especialmente forte. Dele ouvimos uma composição coral, Snowforms.

Não vou argumentar a importância do ouvido. O Homem moderno, que parece estar a meio dum processo de auto-ensurdecimento, aparentemente considera-o um mecanismo trivial. No Ocidente, o ouvido cedeu terreno ao olho, no que toca ao órgão de maior importância perceptiva” R. Murray Schaffer

1. Elvis Presley – One-Sided Love Affair (Elvis Presley, 1956)
2. Elvis Presley – I Love You Because (Elvis Presley, 1956)
3. Bob Dylan – Honey, Just Allow Me One More Chance (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1961)
4. Bob Dylan – From a Buick 6 (Highway 61 Revisited, 1965)
5. The Beatles – Helter Skelter (The Beatles, 1968) | sugestão da Porto Calling.
6. Fleet Foxes – Argument (Helplessness Blues, 2011)
7. Albert Ayler Trio – Ghosts: First Variation (Spiritual Unity, 1965)
8. Tim Buckley – Jungle Fire (Starsailor, 1970)
9. Edgar Varèse – Ionisation
10. R. Murray Schafer – Snowforms

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 29 de Março a 5 de Abril

Na ressaca de mais uma (atribulada) semana, chega finalmente o resumo cultural. Mas não é tudo! Para esta semana, na emissão da próxima madrugada de segunda-feira (dia 13, às 2h, na Rádio Universitária do Minho), temos uma emissão diferente: em vez da habitual escolha de música, escolhemos para ouvir uma peça de teatro radiofónica difundida, originalmente, pela BBC Radio 2, e baseada no álbum Dark Side of the Moon (1973), álbum seminal dos britânicos Pink Floyd. O resto é surpresa, mas estão convidadíssimos a fazer-nos companhia. Até já!


A Mosca – 57º Emissão

Esta emissão d’A Mosca pauta-se, inicialmente, por terras americanas. Primeiro, os Steely Dan, cujo álbum Aja (1977) foi excelsamente produzido e é, ainda hoje, um marco no mundo da música; e, logo a seguir, o funk negro dos Funkadelic, e uma amostra do seu álbum Maggot Brain (1971). Segue-se Ryley Walker que nos traz um dos trabalhos mais interessantes que ouvimos este ano, uma infusão de várias vertentes da música tradicional americana, reunidos no álbum Primrose Green (2015). Peter Broderick foge ao seu registo usual na faixa que dele ouvimos, e logo a seguir ouvimos o mais recente trabalho de David Thomas Broughton, que já conhecemos do seu álbum The Complete Guide to Insufficiency (2005) – é um álbum fantástico, recomendado a todos! De seguida, entramos num período mais calmo e contemplativo, pela mão de Kathryn Joseph, cujo álbum de 2015, Bones You Have Thrown Me and Blood I’ve Spilled, de uma singular beleza e simplicidade, tem passado, injustamente, algo despercebido. E logo depois da canção intimista ao piano de Nils Frahm, oportunidade para ouvir parte de um dos álbuns mais interessantes dos últimos tempos: trata-se de Cass. e o seu registo Magical Magical (2015), experiência do género ambient, que não se fecha em si próprio, sendo acessível e envolvente. Há ainda tempo para uma incursão pelo noise abrasivo dos Yellow Swans, que nos mostram o potencial do som além da música, e terminamos em beleza, com a ingenuidade confessional dos britânicos The Smiths, e o clássico intemporal ‘Please Please Please Let Me Get What I Want’. Foi uma boa semana.

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Cinema

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Talk Radio
(Oliver Stone, 1988) – A semana começa com Talk Radio, um filme de Oliver Stone que trata, precisamente, sobre uma estação de rádio  e o polémico locutor Barry Champlain. No seu programa, aberto às intervenções da audiência, tudo se critica – embora nem sempre devidamente argumentado – em temas tão diversos como a sociedade americana ou a negação do Holocausto; mas as forças executivas da rádio querem impor-lhe limites, quando se coloca a possibilidade de ter o seu programa estatal difundido à escala nacional. Não fosse este um entrave suficiente à liberdade de expressão de Barry, a sua carreira complica-se ainda mais quando a sua natureza judaica e ideologias antinazis entram em confronto com parte do seu auditório – e serão estas discussões que nos permitem traçar fielmente o retrato intelectual do locutor. A realização de Stone é competente, ao transformar as paredes dum estúdio (onde se desenrola a maior parte da acção) num espaço amplo e de alguma liberdade, e o filme tem, certamente, alguns bons momentos. Fica a recomendação para quem goste de rádio, filmes baseados em diálogo, ou personagens de fortes convicções.

The_Divine_Comedy_(film)A Divina Comédia (Manoel de Oliveira, 1991) – É com muito pesar que nos damos conta da morte do cineasta português, e também com vergonha, em igual medida, por só em tão lamentável circunstância chegarmos ao seu cinema. Como foi amplamente discutido e assumido na semana da sua morte, Manoel teve sempre um estilo muito próprio – ao qual se associa, justamente ou não, a dimensão temporal das cenas e o ritmo extremamente pausado da acção – e que se traçou paralelamente ao cinema popular/comercial a que estamos tão habituados. A Divina Comédia passa-se no interior de uma espécie de hospital psiquiátrico, no qual habitam pacientes pouco ortodoxos. Entre eles, há dois que se julgam Adão e Eva, outros que discutem aguerridamente Deus e religião, tudo envolto numa sobriedade que nunca resvala para a patetice – ou se o faz, fá-lo com uma certa classe e um requintado sentido de humor. Para além disso, A Divina Comédia, embora não encaixe completamente neste estereótipo, dá a conhecer algumas das características que se associaram aos filmes do cineasta: as cenas pausadas, de filmagem delicada, colorida, e um surrealismo capaz de alienar grande parte do seu público; mas aqui, o ritmo inerte é subtilmente contrastado pelos diálogos, vívidos e energéticos, que não sendo baseados na obra de Dante, lhe pediram emprestada a veia literária, buscando referências a personagens de Dostoiévski e Tolstoi. Percebo agora o porquê de vermos o percurso de Manoel como paralelo à nossa cultura e ao cinema convencional, ou não fosse o seu cinema, realmente, algo de especial. Futuramente, revisitaremos a sua carreira, para nos aproximarmos de si; lá fora, foi devidamente reconhecido: A Divina Comédia venceria o Grand Special Jury Prize no reputado Festival de Veneza.

saul-bass-the-shining-film-poster-1The Shining (Stanley Kubrick, 1980) – Como estaria a cabeça de Kubrick, o génio por trás do incrível 2001: Odisseia no Espaço, enquanto preparava The Shining? Dificilmente alguma vez teremos uma resposta definitiva. A história, relativamente baseada numa obra de Stephen King, documenta a jornada de uma família num hotel isolado, no topo de uma montanha. Este hotel esconde alguns segredos – entre outros, foi construído sobre um cemitério indígena – e a sobrenatural influência do edifício não tarda em manifestar-se no pai de família, que perde, progressivamente, a sua sanidade mental, para mais tarde tentar o homicídio da esposa e filho. Sim, a história é macabra, mas… o elenco é absolutamente fantástico, com destaque às prestações de Jack Nicholson e Shelley Duvall (e só ela saberá o que sofreu neste papel…), como todo o filme é um deleite visual: o hotel, tão eximiamente decorado, é de tal forma aproveitado que parece ser, ele próprio, uma personagem por si só, com os seus infinitos corredores, as cores vibrantes e expressivas, e a energia, intangível, que exerce através das suas paredes. Tal como nos habituara em 2001, Kubrick não se expressa apenas pela imagem e pelo som tangíveis aos sentidos; isto é, os seus filmes escondem sempre outros significados, e abrem-se, como árvores, em infinitas possíveis interpretações. O pulso de ferro com que gere a feitura do filme, a qualidade objectiva da sua filmagem, e, paradoxalmente, o desprendimento de uma mensagem específica na sua arte – uma versatilidade que é uma virtude, nunca um defeito – tudo isto o separa da gama de bons realizadores, para que se eleve, merecidamente, a um lugar entre os melhores.