Breves considerações sobre músicas.

A propósito da rubrica semanal do Arte-Factos, as Músicas da Semana, aproveitámos para discorrer sobre cinco artistas extraordinariamente relevantes.

Kendrick Lamar – FEEL.

039eed0758eb3aa30f050c77e7bbdc1e-1000x1000x1Tomei a última semana para degustar, ao sabor do tempo, o fresquíssimo novo disco de Kendrick Lamar. Temia, e percebo agora que sem nenhum fundamento, que lhe custasse apontar a um qualquer rumo depois do épico To Pimp a Butterfly, ora não se sentisse que esse disco de 2015 fora um muito maduro trabalho, conceptual e musicalmente num patamar à parte dos seus contemporâneos. Quanto a DAMN., o novíssimo disco, não conjecturo ainda ilações do estilo. Diz-me uma primeira impressão que é música que se toma mais pelo seu valor individual do que pela soma das suas partes; e além de contrariar o que havia, nesse sentido, feito em To Pimp a Butterfly e até no anterior, cinemático Good Kid, M.A.A.D City, coaduna-se com o actual panorama musical quando apresenta, ao longo das suas 14 faixas, uma hora de jabs directos provenientes de um universo lírico no qual se sente mais que confortável. Deste disco, FEEL. é um dos vários possíveis destaques: começa com uma alusão ao vazio religioso, apanágio de Kendrick desde há algum tempo para cá, e discorre sobre tudo o que o rapper tem sentido nos últimos tempos, em palavras que se sentem, aqui e em todo o restante disco, serem dirigidas a toda uma América. Um exercício auto-centrado, também se poderá dizer, mas sabemo-lo há já algum tempo que Kendrick não tem problema algum a considerar-se o topo do game, ao lado de grandes como Tupac Shakur. E DAMN. advém dessa elevação.

Tim Buckley – Hallucinations

timbuckley-300x300Há já alguns meses que me insiro, lenta mas assertivamente, no curiosíssimo universo de Tim Buckley. Certamente o seu nome trará à memória, em primeiro lugar, a carreira do filho Jeff, autor de Grace, disco de 1994, que ressuscitou – e imortalizou devidamente – a Hallelujah de Leonard Cohen. E esta herança musical do seu filho é argumento para justificarmos que o talento corria, de facto, nas veias da família. Tim, que editou ao longo das décadas de 60 e 70, produziu trabalhos distintíssimos entre a folk de traços psicadélicos, perfeitamente coerente e alinhada com os seus contemporâneos, como foi, com o passar do tempo, reinventando a sua música e abraçando outras estéticas; Starsailor, de 1970, é o culminar de um trajecto com rumo traçado ao experimental e ao místico, onde a sua voz (que portento!) revela toda a força e multiplicidades; mas logo de seguida, em Greetings from L.A. (1972), entrega-se à sensualidade do funk e da soul com a maior das naturalidades. Por entre todos os altíssimos momentos da sua discografia – editou, em menos tempo que o seu filho e por ironia e triste fatalidade desta estranha linhagem, nove (!) discos entre 66 e ’74 – destaco Hallucinations, do disco Goodbye and Hello (1967), seu segundo disco e provavelmente o melhor ponto de entrada no mundo de um artista que palmilhou ora o belo categórico, como em Song to the Siren, como se entregou, com a mesma determinação, ao onírico, ao perverso, ao feérico. De tudo isto, é Hallucinations exemplo. E categoricamente belo também.

Björk – Where Is The Line

Breve passagem pela islandesa Björk, tão homogénea, e ainda assim tão interessante. O disco é de 2004 e utiliza a voz como expressão e simultânea composição: a cantora canta por cima de instrumentais que não o são em boa verdade, dado que se compõem maioritariamente por sobreposições de outras linhas vocais, como uma expansão do original e imutável conceito de a cappella com auxílio da electrónica. Obrigatório!

Brian Eno – Spider and I

Quem acompanha as minhas aventuras melómanas, terá presente a alta estima com que considero o britânico Brian Eno, dono de um autêntico toque de Midas no que à mi0000900770produção musical diz respeito – que o digam os portugueses The Gift, que o recrutaram para produzir o seu novo disco e, com ele, se elevaram a onde ainda não haviam chegado. Spider and I é tema conclusão do disco Before and After Science, de 1977, e que se segue a Another Green World (1975) , um trabalho que me é bem mais familiar. Na sua música, tudo está presente, independentemente da linguagem que usemos para a enquadrar – caso não seja claro o que pretendo com a expressão, basta que consideremos por amostra o seu legado na década de 70. Before and After Science tem apenas 40 minutos divididos ao longo de 10 faixas; mas sentimo-lo expandir-se além desta limitação temporal. Escolhi Spider and I, como poderia ter figurado virtualmente qualquer outra das canções.

Morton Feldman – Rothko Chapel

Para terminar, um nome de outra dimensão. Morton Feldman, compositor americano, foi um dos nomes mais proeminentes do século passado na linhagem clássica, que, traços gerais, teve uma espécie de crise após a vaga romântica, muito expressiva, que lhe precedeu. E aproveito para o enquadrar à luz do que escrevi sobre Eno: sobre este último, mantenho que soube orientar-se fosse na pop, no rock, ou nas deambulações electrónicas que pautaram grande parte das suas explorações minimalistas, e usei o termo linguagem. Sigam-me: caso consideremos ritmo, harmonia, melodia, como parte de uma linguagem, como interpretaremos então as composições de Feldman, e esta Rothko Chapel em particular, que quando assim comparada nos parece amorfa, indefinida, inconclusiva, um exercício nebuloso que dura por mais de trinta minutos? Feldman foi muito próximo de outra figura definidora do século, o compositor John Cage, e Rothko, a quem se refere explicitamente no título da obra, é o pintor autor de icónicos estudos sobre cor e textura; e a interpretação que vos trago está incluída num disco que a enquadra com Cage e o francês Erik Satie.

De volta às analogias, ponhamos lado a lado um quadro naturalista e uma pintura de Rothko: o que há em comum? Da mesma forma, equipare-se Eno, por exemplo, e esta composição de Feldman. Poder-se-á dizer, no primeiro caso, que se partilha a cor, ou o fenómeno visual; no segundo, o som, puro e desprovido de outros encantos que lhe são acrescidos (o ritmo, melodia, harmonia). Caso vos interesse, abram as portas à capela de Feldman, ainda que desconheçam onde vos levará. Para uma viagem mais completa, pode fazer-se escala num ponto que, ora vejamos, não nos é desconhecido de todo.

Emissão de 24/03 – Novas de 2017, Jeff Buckley pós-Grace, e muita aleatoriedade.

Continua o trabalho de arquivo das passadas emissões na Rádio Lisboa. Todas as semanas, a partir da meia-noite de sexta para Sábado, temos a antena por nossa conta durante uma hora; juntem-se a nós na próxima!

Na última emissão de Março, começámos com as palavras de Diane Cluck, e logo depois seguimos com um endiabrado exercício de música pop por parte dos Quarteto 1111, um dos mais carismáticos grupos dos anos 60 portugueses (a quem havemos de voltar em breve). Seguiram-se três trabalhos de 2017, embora intercalados por uma canção mais antiga de Kendrick Lamar (não fazemos ideia do que fará em 2017…), e atracámos num disco de 2016: Let It Be You, de Joan as Police Woman & Benjamin Lazar Davies, que nessa semana haviam actuado no Theatro Circo, em Braga. Depois de algumas considerações sobre o disco e a carreira de Joan, seguimos em busca das assumidas influências no disco – por isso, fomos parar ao Gana, com uma compilação de 2002. Ainda nessa jornada, aproveitámos a recomendação da Porto Callingcom o dub espacial de Phil Pratt. Já perto do final, ficámos com uma óptima canção de Jeff Buckley. Temos dado mais atenção ao seu pai, ultimamente, mas mesmo fora do seu trabalho maior – Grace, de 1994 – há belíssimos momentos. A terminar, mais uma vez a voz de Diane Cluck e fechámos com um pequeno excerto de um disco que nos transporta aos primeiros programas d’A Mosca, ainda na RUM e com o nosso Paulo Rodrigues: são os Les Rallizes Denudés, grupo experimental japonês, cujo groove é profanado pelas terríveis condições de captação do som em ’77 Live – embora tudo isso, claro, contribua para o charme do disco.

As emissões que entretanto gravámos seguirão para o blog em breve. Até lá, fiquem com esta!

  1. Quarteto 1111 – Fantasma Pop (A Lenda de El Rei D. Sebastião, 1967)
  2. Gorillaz – Andromeda (feat. D.R.A.M.)
  3. Kendrick Lamar – The Heart Part 4
  4. Kendrick Lamar – untitled 6 (untitled, unmastered, 2016)
  5. King Gizzard and the Lizard Wizard – Doom City (Microtonal Flying Banana, 2017)
  6. Joan As Police Woman & Benjamin Lazar Davies – Broke Me In Two (Let It Be You, 2016)
  7. The Apagya Show Band – Kwaku Ananse (Ghana Soundz: Afro-Beat, Funk and Fusion in 70s Ghana, 2002)
  8. Ebo Taylor – Heaven (Ghana Soundz: Afro-Beat, Funk and Fusion in 70s Ghana, 2002)
  9. Phil Pratt – African Communication (Star Wars Dub, 1978) | recomendação da Porto Calling
  10. Jeff Buckley – Everybody Here Wants You (Sketches for My Sweetheart the Drunk, 1998)
  11. Diane Cluck – Real Good Time (Monarcana, 2006)
  12. Les Rallizes Dénudés – Enter The Mirror (’77 Live, 1991)

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Nota: para cada uma destas emissões, e por forma a diferenciá-las das emissões normais, tentámos fazer capas diferentes das habituais. É uma brincadeira para a qual não temos, evidentemente, qualquer tipo de talento; por isso, esta semana profanámos um quadro da autoria de Hieronymus Bosch, um pintor holandês, ou de alguém da sua escola, um dos seus discípulos artísticos – resta a dúvida quanto à autoria e até ao próprio nome do quadro, que parece ser algo como ‘A Visão de Tondal’. Caso alguém tenha mais informação sobre o quadro, escrevam nos comentários! Podem ler mais sobre Bosch aqui.

 

Barry Jenkins filma uma vida, à luz da raça e do seu meio: eis Moonlight.

r-2436278-1283951326-jpegA referência a Every Nigga is a Star, que ouvimos antes de uma qualquer imagem, dificilmente é inocente: no início de 2015, no disco To Pimp a Butterflya voz de Boris Gardiner também foi apropriada por Kendrick Lamar; um não subtil aviso que denunciava a mensagem central do excelente trabalho do rapper americano. O mesmo se pode dizer do filme de Barry Jenkins: intencionalmente precedido pela mensagem de Gardiner, lança-se no ataque à raça e à identidade pessoal do indivíduo; e depois de terminado Moonlight, dele saímos com a história de um homem, generalizada para além da sua negritude, mas estudada à luz da sua raça e do seu meio.

MoonlightPoster02.jpgE este filme, também ele, é um produto de quem é Barry Jenkins, o seu realizador. Um negro que reflecte no seu trabalho a luta histórica, violenta e actual de um povo e de uma cultura nos Estados Unidos da América – e que se estende, pelas palavras de uma das suas personagens, a todos os negros do mundo. Um problema centenário, e tremendamente interessante dum ponto de vista cultural: no último século, dele advieram duas das ramificações musicais mais relevantes dos últimos cem anos, o jazz, e o hip-hop, e que carregam uma enorme dimensão histórica fruto da sua própria singular origem. Quanto ao primeiro, vejamos como a discussão sobre La La Land, outro fortíssimo candidato aos Oscars deste ano, foi contaminada pela falta de noção histórica deste género musical: reclamou-se a ironia de salvar o jazz através da visão de um branco (a personagem de Ryan Gosling), num filme sobre brancos, realizado pelo branco Damien Chazelle; e com o hip-hop, jazz partilha o berço, uma íntima consequência do trajecto e da história dos negros em reflexão e revolta. É frequente falar-se de uma luta, que em inglês se torna struggle, e que difere do termo fight – mais visceral, mais físico, e mais comprometido com a violência.

Em Moonlight, há uma omissão de todos estes problemas, pelo menos de uma forma explícita, para aparecerem mascarados em vários pontos do seu enredo. A acção está localizada em Miami, num bairro suburbano onde a droga se vende de dia, na rua, e as moradias abandonadas são pontos de consumo de crack. Decorre num período incerto, mas por muitos factores dedutível, algures na década de 80, ou 90. Chiron, ainda um menino, conhece Juan depois de fugir de alguns bullies, e entabula-se uma forte amizade que lhe proporciona a experiência de um pai que nunca teve.

Juan, que é na verdade um emigrante cubano, vai simbolizar alguns dos temas recorrentes ao longo do filme. É ele que introduz Chiron ao mar, à sua imensidão de espaço e ao distinto marulhar das suas ondas, o ensina a nadar e assim a dominá-lo; logo após, incute-lhe a responsabilidade de descobrir quem ele é, de edificar a sua personalidade, sem a influência de outros. Mas há um momento, quando Chiron é confrontado com a sua homossexualidade – mesmo que através de uma violência que não consegue entender, quando, na escola, lhe chamam faggot -, que recorre à cuidadosa explicação de Juan; mas, ainda no mesmo jantar, confronta-o com o facto de ser o dealer que vende o crack à mãe do menino, que, por sua vez, é a causa de precisar fugir de casa recorrentemente.

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Esta manifesta hipocrisia não é um problema simples nem será tema explícito de Moonlight – que prefere acompanhar a vida de Chiron até à idade adulta, num intervalo temporal que ultrapassa o normal coming of age, tal como Boyhood o havia alargado, em 2014, no mais ambicioso filme de Richard Linklater – mas este tema geral está sempre presente e permanentemente aludido a, como a consequência que, a seu tempo, será também a sua causa: a comunidade que se canibaliza a si própria. E Chiron seguirá, adolescência fora, em confronto com o fantasma da droga e da sexualidade, até que chega finalmente ao estado da idade adulta. O filme, esse, convida-nos a aferir o seu crescimento, de menino a homem feito, e confrontar a pessoa que se formou.

d47a5880Curiosamente, o disco a que alude (ainda que inconscientemente, embora seja improvável que a referência a To Pimp a Butterfly tenha passado despercebida ao realizador) estabelece a mesma metáfora na sua narrativa: a lagarta que haverá de se tornar borboleta num mundo feio, incoerente e impuro. Por isso, não é descabido que se considere Moonlight juntamente com a obra de Kendrick Lamar, dado que provêm de lugares semelhantes. Mas almejarão um destino, ou até uma mensagem, igual também? Em comum, há a questão do orgulho, tanto do indivíduo como da sua raça e da sua cultura, mas a mensagem será porventura mais complexa nas letras do rapper (basta recordar o monólogo no final de I Love Myself, agressivo e realista para com a actualidade dos negros da América). Dado o final de Moonlight, parece haver redenção para o indivíduo, mas não para a comunidade – e talvez se possa supor que uma não está necessariamente ligada à outra.

É interessante que o filme levante estas questões, e defendo que este subtexto paralelo é intencional. Caso o vejamos como obra solitária, não deixa de haver uma série de méritos do filme e do seu realizador, Barry Jenkins. À primeira vista, será evidente o cuidado com a fotografia, abrangente e expressiva, que em momento algum se limita a cumprir o suficiente; a câmera joga com semelhante responsabilidade, e temo-la sabedora dos limites da sua expressão: vibra e oscila despreocupadamente nos momentos de maior liberdade de Chiron (quando corre e brinca, quando nada, com Juan, no mar de Miami), mas restringe-se, quase se intimida, nos momentos de maior tensão. Os três actores funcionam magistralmente seja a manifestarem as lutas interiores de Chiron, como quando articulam todos os sentimentos no arco maior que engloba as distintas fases da vida da personagem; e todo o restante elenco nivela por cima a sua tarefa. Há coragem no representar de duas minorias em simultâneo (os negros, e os homossexuais), e inteligência na forma como permite que a maior história da comunidade perpasse a narrativa da vida de Chiron.

Com interesse, se segue agora o consequente contraste entre Moonlight La La Land na contenda dos Oscars. São filmes profundamente distintos mas com uma linha comum na realidade que representam da América, ainda que menos intencional no trabalho de Damien Chazelle. Este drama à parte, Barry Jenkins filmou algo do qual se poderá justamente orgulhar, um trabalho que será relevante seja hoje, amanhã, ou nos vários anos de vida que lhe adivinhamos.

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To Pimp a Butterfly – Kendrick Lamar

Só o ouviríamos na próxima semana, mas o álbum chegou mais cedo aos serviços de streaming e vendas digitais. Ei-lo! To Pimp a Butterfly é o terceiro registo de estúdio do americano Kendrick Lamar, depois da sua afirmação como uma das vozes mais autênticas do hip-hop americano no trabalho good kid, m.A.A.d city (2012), onde expõe a dura realidade da vida no bairro de Compton, nunca caindo no erro de glorificar o estatuto de gangster. O seu novo álbum prossegue a linha de hip-hop consciente do seu anterior registo, sendo que o grande destaque é a maturidade lírica que se espalha por todo o seu trabalho e que lhe vale a comparação com os grandes nomes da época dourada de 90. A dimensão deste álbum revela-se nas repetidas audições, e é um dos melhores que 2015 tem para oferecer.

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O hype para um novo álbum de Kendrick ganhava força quando trouxe o single i ao programa americano SNL, e constatámos o som cheio, funky q.b., a transbordar uma irrequieta energia. Para este novo trabalho, há um esforço para regressar às origens, tanto do género do hip-hop, como da história musical negra, evidente nas diversas incursões pelo jazz, Rn’b e funk; consequentemente, estas influências fazem de To Pimp a Butterfly um álbum muito dinâmico sonicamente, ao qual se juntou a fantástica produção, mais madura que no registo anterior. Tematicamente, contam-se mais semelhanças que diferenças: em GKMC, questionava a brutalidade das vida nos guettos dum ponto de vista extremamente sincero e quase existencialista, mas agora extendem-se os seus horizontes e intervém a favor da justiça social, apelando à dignidade racial dos negros e ao equilíbrio social. Este orgulho pelas suas raízes é posto em maior destaque logo no sample que abre a primeira faixa (“Every nigga is a star”), da autoria do cantor jamaicano Boris Gardiner, e por demais evidente no segundo single do álbum, The Blacker the Berry, onde, em rimas cantadas entusiasticamente, a profunda aceitação da raça negra confronta o seu público. Esta gradual maturação lírica permite que o seu olhar atento atente noutros problemas superiores, como a religião ou verdadeira motivação da vida, de uma forma mais frontal e menos metafórica do que nos habituámos no seu álbum anterior (“I’ve been lookin’ for you my whole life, appetite / For the feeling I can barely describe, where you reside? / In a woman, is it in money, or mankind?”).  Tanto a frontalidade como a destreza lírica fazem de Kendrick uma das vozes mais temidas e respeitadas na cena, mas parte do próprio a iniciativa de revelar as suas próprias fraquezas, expondo tanto o seu complexo messiânico de querer ser a voz de uma geração (“Want you to love me like Nelson [Mandela]/ want you to hug me like Nelson”) como as acutilantes dúvidas do americano em relação à complexidade da religião e também à certeza da sua mortalidade – terá aliás sido desde a intervenção no single de You’re Dead!, a canção Never Catch Me, que se lhe nota um maior à vontade por outros terrenos musicais, assim como a curiosidade por uma qualquer figura divina, uma metafísica entidade religiosa.

O álbum corre durante uma titânica hora e vinte minutos, e há, à passagem do tempo, skits nos quais Kendrick declama uma espécie de poema, juntando-lhe progressivamente mais um e outro verso. O seu significado vai-se desdobrando, e com ele seguimos nós, guiados até um final estrondoso e de uma ambição inqualificável – uma conversa com o ídolo Tupac. Para sentir o verdadeiro impacto da presença do falecido rapper americano, é preciso recordar a sua importância no meio do hip-hop nos anos 90, assim como a sua influência para as gerações seguintes. Kendrick terá crescido a ouvir Tupac, e presta-lhe aqui uma das mais fortes e geniais homenagens que já se ouviu no mundo da música. Mortal Man, a última canção, documenta este hipotético encontro e serve como exposição do conceito por trás de To Pimp a Butterfly, uma espécie de resumo da matéria dada que liga todas as pequenas peças do puzzle que Kendrick preparou para nós.

Poder-se-á dizer que a luta política e social se une a uma consciencialização do artista como pessoa, as duas contribuindo para as dúvidas e incertezas de quem quer apenas continuar fiel a si próprio. Para Kendrick, as maiores preocupações são o seu papel no mundo do Hip-Hop, a rejeição dum mundo falso e materialista que não cessa de o seduzir, e –  mais urgente que todos os outros – a noção do verdadeiro poder da sua voz. E puxando a  metáfora do casulo e da borboleta, o americano é agora como um insecto a bater as asas e a fazer-se ao mundo, ciente da sua fragilidade como pessoa e efemeridade como artista. To Pimp a Butterfly documenta-o em brutal honestidade, e esta fraqueza torna-se uma força. Em Março, descobrimos um fortíssimo candidato a álbum do ano, enquanto que ninguém lhe rouba o estatuto de instant classic no género do hip-hop.

Flying Lotus – You’re Dead!

You’re Dead! Assim é o categórico primeiro contacto que temos com o mais recente trabalho de Flying Lotus. Do produtor americano já podemos contar com, entre outros, Cosmogramma (2010) e Until The Quiet Comes (2012), e não nos esqueçamos de mencionar o seu alter-ego Captain Murphy, do qual já ouvimos o trabalho Duality (2012). No entanto, este afigura-se um álbum totalmente diferente dos demais: a capa, com corpos vários sob um fundo laranja, e circundando uma face que parece expandir-se, sugere uma visão colorida e animada, ainda que paradoxalmente mórbida. Neste seu último trabalho, Steven Ellison propõe-se a uma questão milenar, tormento do Homem consciente: a morte, acontencendo, é literal e inevitável. E sabendo que que não seremos eternos, o americano julgou pertinente saber que caminhos calcaremos no depois. O que há para além da vida? A resposta vem pela forma de 38 minutos. E há que ouvi-la – afinal, mortos, temos todo o tempo do mundo.

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Ao seu quinto álbum, mantém-se o registo de faixas curtas, de traços exploratórios e abstractos, viajando sem predilecções nem complexos pelas várias iterações musicais do hip-hop, jazz e soul. São tantos os apontamentos, que se torna redundante a tentativa de catalogar um trabalho que poderia ser um género em si mesmo. Nos primeiros momentos do álbum encontramo-nos no seio de umas detalhadas muralhas, rodeados por uma ímpar grandiosidade sonora, entre as quais se descortinam breves laivos musicais aos quais nos agarramos, desesperadamente. Sejam estes o electrizante baixo de Thundercat, ou as frenéticas teclas de Herbie Hancock (sim, ele mesmo), que não nos passe pela cabeça tentar apreender tudo o que se passa de uma vez só. Este é um álbum exploratório, e Flying Lotus estimula a nossa audição duma forma que jamais ousámos em todos os cinco sentidos. As duas colaborações que Fly-Lo enceta com Kendrick Lamar e Snoop Dogg, ainda antes de chegarmos à metade do álbum, afiguram-se fulcrais para a temática de You’re Dead!, e são mais que meros dispositivos narrativos. Primeiramente, Kendrick personifica a voz da nossa própria consciência – temos em nós todas as dúvidas em relação ao bem, ao mal, ao amor e à eternidade, e sobretudo, o potencial e a crença de, agora mortos, sermos uno com o universo. Com Snoop Dogg, a confirmação da nossa fatalidade, mas também referências a J Dilla e Freddy Mercury, como se os quatro se juntassem, fora do tempo e espaço terrenos, para conviverem na eternidade. Esse encontro dar-se-á no espaço reservado às lendas da música, onde, aguardando o sobrinho, estão também John e Alice Coltrane, orgulhosos da ambição e mestria do descendente.

Porque é mesmo essa a definição deste álbum: ambicioso. Antes do mais, e o mais é talento, criatividade, e trabalho, é necessária coragem, para empreender algo desta magnitude. Steven Ellison, no alto das suas trinta primaveras, cumpre desígnios enraizados na sua natureza ao arcar a responsabilidade de abordar algo tão definitivo, incomensurável e incompreendido como a morte e suas consequências. E o resultado não se define por menos de fantástico. São, ao todo, 19 faixas encadeadas num eixo sem pausas, e, cada uma, peça fulcral da visão que Flying Lotus nos transmite. Aceitar este viagem implica deixar-mo-nos levar por um mundo desconhecido, mas simultaneamente estimulante, no qual a sapiência do americano se evidencia: não só no detalhado espectro sonoro pelo qual somos engolidos, como também na acutilante inteligência emocional – espiritual, até? – da sua música, que nunca impõe um dado estado de espírito ao ouvinte, exigindo de nós uma interpretação, de menos razão e mais sensação, de tudo o que nos rodeia.

Em final, You’re Dead! engloba em si todo o percurso musical de Flying Lotus e expande-o – não numa linha recta, mas como as ondas circulares que se formam ao atirar uma pedra a um charco. As minhas palavras não farão, certamente, justiça a um trabalho de tão singular lugar no mundo artístico  – porque a nossa experiência com a música é, muitas vezes, algo de intangível e inexpressável – mas na auto-denominada função de escriba, creio no valor da divulgação de obras como a do americano Steven Ellison. Quanto ao futuro, é difícil prever qual o seu próximo passo (que aguardo, ansiosamente!), mas não tenho a mínima dúvida em relação ao lugar do americano aquando da sua morte: será, claro, junto aos seus, junto aos maiores da música.