Regresso dos Ermo com Lo-Fi Moda, espelho para o ser humano contemporâneo.

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Considere-se o conflito quotidiano a que nos submetemos a todo o momento: o choque violento entre a nossa individualidade, e tudo o que o mundo lhe atira indiscriminadamente. O Homem do presente século viu e aceitou que se lhe impusesse um ritmo frenético de atenção e disponibilidade, a única forma possível de acompanhar o incessante cavalgar da informação global. O smartphone é o necessário portal (uma extraordinária muleta!) que descodifica tudo o que em redor se manifesta: o tweet é a nova microexpressão; a selfie autoafirma; a imagem em movimento, tenha cinco segundos ou quatro minutos, subjuga o olhar e a atenção a seu bel-prazer, e torna-nos incapacitados. Estamos reféns deste paradigma. O que resta do humano após o assalto do digital?

O novo trabalho dos Ermo, Lo-Fi Moda, não é necessariamente uma resposta, mas insere-se certamente num espaço que se abre entre nós e a máquina, seja esse fruto de um empurrão ou de um abraço – de repulsa, ou de aceitação. Diz-nos a sua press release que o disco “retrata o comportamento humano, engolido pelo mundo digital”, ficando em aberto a mesmíssima questão. Lembrando Vem Por Aqui (2013), o registo que nos colocou em reflexão sobre Portugal e fruto directo de uma vida à parte da nação centralizada, percebemos-lhe um sentimento colectivo; Amor Vezes Quatro (2015) cantou sobre a multiplicidade do amor, entreabrindo assim uma porta para a experiência individual; agora, em Lo-Fi Moda, parece termos entrado definitivamente numa subjectividade ilimitada: o âmago de um ser pensante, e contemporâneo.

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“Não achamos que seja um afunilar das nossas preocupações, porque parece bué isso: começámos num colectivo e estamos num prisma cada vez mais pessoal [no Lo-Fi Moda]”. Ouço-os através do Skype, acabados de chegar à Madeira, onde actuariam – “e por esse mesmo motivo acreditamos que se possa aplicar ainda um maior número de pessoas.” Independentemente do destino último do seu caminho, em direcção a uma maior ou menor abrangência, o trajecto tomou contornos mais ininteligíveis e abstractos. “Acho que agora conseguimos fazer realmente músicas que conseguem suscitar diversos tipos de interpretação. […] quando entras em territórios mais pessoais e quando começas a falar em termos mais subjectivos, acabas por encontrar algo que também é colectivo na maneira como pode ser interpretado.

Este novo Lo-Fi Moda, editado pela sublabel NorteSul sob a alçada da Valentim de Carvalho, promete um choque a vários níveis com quem os segue desde o repto do último disco. ‘Vem nadar ao mar que enterra’, faixa que o abre, oferece-nos uma voz mergulhada em auto-tune, um instrumental abrasivo, espasmódico e desconcertante, e palavras que são, ainda assim, um convite para “molhar os pés na areia”. O confronto de dois elementos distintos, numa base simultaneamente profunda e movediça, e a impressão de nunca ser terra firme onde assentar os pés; é como uma preparação para o que aí vem. As paisagens de índole nomádica, a instrumentação esparsa que permitia terreno privilegiado à voz – já aqui não estão. O conforto é um privilégio do qual abdicaram definitivamente.

 “A cena da temática não foi definida; foi algo que veio ao nosso encontro. Algo que queríamos dizer, que estávamos a sentir. Foi uma fase de transição também nas nossas vidas, e isso reflecte-se também no disco.”

Habituaram-nos, noutros registos, a participar numa espécie de dissidência contra um mal comum, e nós do lado onde nos era fácil perpetrar a identificação. Mas desta vez a voz de Lo-Fi Moda é mais confrontacional e deixa pouca margem para a empatia. “É um disco com uma personagem redonda. São sempre as mesmas pessoas, e embora não digam sempre as mesmas cenas, é a mesma forma de falar das coisas”. O seu sujeito, embora polifónico e distinto de música para música, tem uma génese comum; é uma voz trespassada pela desconfiança e cinismo, a fazer lembrar o homem das Notas do Subterrâneo de Dostoiévski, em vertiginoso descontrolo emocional; mantém-se a toada verrinosa, mas partindo de um sujeito que já é ele próprio condicionado pelo que o atormenta. “Pusemos mais de nós no disco”, salientam, em relação a trabalhos anteriores, e com um método de trabalho diferente. A tour ao Brasil “foi um momento em que reparas que estiveste de olhos fechados nos últimos anos, e não estás no sítio onde querias estar”; um choque frontal com o que podiam dar, à distância apenas de uma injecção de profissionalismo. Talvez, especulamos, tenha sido essa a grande diferença; um método de trabalho que lhes invadiu o quotidiano e lhes permitiu captar o sentimento intrínseco da sua experiência imediata. Chegaram onde haviam apenas tocado a superfície em tentativas anteriores.

Simplesmente, agora embrenhámo-nos mais no que estávamos a fazer, por isso talvez soe tudo mais junto”. Dificilmente encontraremos, como foi seu objectivo, alguma referência explícita a uma influência do mundo digital nas suas letras, mas talvez seja possível fazê-lo na arquitectura sonora deste disco – talvez seja a altura na sua carreira em que a música e a lírica melhor se complementaram, e esta era, como dizem, uma “das metas que tínhamos para este segundo disco: ter sons cada vez mais complexos; crescer em termos líricos, também, para que deixasse de ser tudo tão óbvio. Fazer com que as músicas não fossem de sentido único”. O extenso uso do auto-tune, presente em virtualmente todas as músicas, aproxima o homem da máquina e desumaniza-o, e a electrónica fragmentada, dissonante, segue a toada preconizada por Holly Herndon, Oneohtrix Point Never, Arca – e até numa noção mais conceptual, partilham terreno com o colectivo da PC Music e a génese do vaporwave – e coloca-os em diálogo directo com os pensam o confronto entre estes dois mundos; é algo que está a acontecer agora mesmo, na música contemporânea.

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Os Ermo estão absolutamente sintonizados com o que acontece na cena internacional, o que é interessante quando contrastado com o início da sua carreira. A música pop – por quem admitem ser permeados embora “não vamos apontar para lá, nem vamos dizer que não vamos mergulhar lá – mas é um lá, e é possível lá estar” – é uma perniciosa intromissão nas nossas vidas, e cada vez de mais nebulosa definição: somos obrigados a considerar nela nomes como Drake e grande falange do hip-hop, a infindável torrente de trap supérfluo, e quase tudo o que lide com a impressão egoísta do ser humano. A música e a sua indústria são agora regidas por outras influências, e tendências pouco ortodoxas. Lo-Fi Moda reclama em justo direito ser incluído nesse cânone incerto, mesmo que a partir de um lugar periférico.

“Tentar deitar algo cá para fora que fale profundamente dum lugar que seja nosso. Talvez por isso seja mais difícil compreender uma linha geral que atravesse todas as músicas. Veio directo de experiências pessoais e daquilo que queríamos dizer, sem rodeios. É menos literatura, e mais literal; não dissidência política, mas derrame pessoal, um conjunto de insatisfações.

Vem Por Aqui assumiu-se como uma condensação e progressão lógica do que haviam feito desde o seu início até então; e Amor Vezes Quatro foi um exercício que nos devia ter chegado bem mais cedo, mas que se complicou em vários impasses de edição. Seguiu-se um interregno criativo desde 2015, no qual um disco inteiro foi para o lixo, e uma tour recente ao Brasil. A renúncia ao passado, tanto a nível musical como temático, faz parte do processo de constante reinvenção. “Um dos princípios que temos desde o início e que nos esforçamos por manter é que cada trabalho tem que ser diferente, e no próximo disco, que não existe ainda, vai ser uma abordagem diferente de certeza. Dentro do que é o Lo-Fi Moda, já demos as nove canções que tínhamos a dar, com a formula explícita de todas as maneiras possíveis, e por isso vamos tentar uma cena nova e diferente no próximo trabalho”. Depois de um primeiro disco que foi, ele próprio, a afirmação de uma enorme capacidade, tudo o que adveio e advirá de seguida será sempre a afirmação de uma outra coisa qualquer; mas nunca a afirmação do projecto, que se consumou há muito. Até que nos troquem as voltas mais uma vez, ficamos com Lo-Fi Moda, esta espécie de espelho abstracto que reflecte algo informado pela nossa individualidade. E o que vemos não é bonito, mas, enfim!, é o que somos.

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Memórias e resenha de um NOS Primavera Sound 2017.

Mais um ano volvido, e mais uma obrigatória peregrinação ao Parque da Cidade, em Junho, para o ver transformado em recinto de um dos mais relevantes festivais da Europa; transforma-se o Parque, e o Porto também, para destino de reencontros e novos conhecimentos, descoberta e _______. O festival contou a sua sexta edição, um número já respeitável e que obriga à retrospectiva de anos anteriores. Aqui está: fomos imensamente felizes, no passado. Também o fomos, este ano.

Como habitual, o alinhamento para o irmão catalão, donde provêm todos os artistas com destino ao Porto, deixou-nos a esperança de que pudéssemos receber junto de nós nomes que nunca por cá passaram, e outros que justificavam um regresso: não houve Arcade Fire, Annette Peacock, os Zombies, a própria Solange e Frank Ocean – este, nem em Barcelona apareceu -, mas tivemos Flying Lotus, na ressaca do extraordinário You’re Dead!; Aphex Twin, que poucos acreditaram possível; Death Grips, que haviam cancelado o concerto na primeira iteração do festival na cidade Invicta, no longínquo 2012. E outros, menores ou tão grandes como estes, que fizeram de 2017 uma edição obrigatória.

Por entre as emissões diárias do programa que se sobrepuseram a vários concertos, a azáfama habitual e as pausas necessárias para o comer e beber, cortámos nas gorduras e fomos directos ao que se afigurava relevante. Neste formato louco no qual assenta o Primavera, com horários repletos, pontuais, e concertos ligeiramente mais curtos que o habitual, guardamos, por outro lado, a vantagem de nos serem garantida prestações intensas, com todos os minutos contados.

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O primeiro dia, o que habitualmente reserva apenas dois palcos principais em alternância, traria, ao dobrar da meia-noite, um dos nomes que mais antecipámos: Flying Lotus, o nome sob o qual actua Steven Ellison, na sua segunda viagem pelo nosso país – esteve no Super Bock Super Rock, ainda no Meco, no ano de 2012.  E quando, do outro lado do recinto, se fizeram ouvir os primeiros momentos de Theme, faixa inicial do seu mais recente disco, You’re Dead! – contamos já 3 anos desde que o lançou, e é a base para o seu set, a cuja arquitectura jazz, alicerçada nos teclados ondulatórios de Herbie Hancock, volta por entre as deambulações electrónicas dançáveis noutros discos e horizontes – outros, como nós, rapidamente acudiram à chamada, de tal forma que o palco secundário pareceu pequeno para tamanha manifestação. Mesmo nos momentos iniciais, fora do espectro da sua discografia, ouviu-se o convite à música de Angelo Badalamenti, o guru que arquitectou a identidade sónica de Twin Peaks, remisturada e recontextualizada para o universo electrónico. Um dos raros momentos que denunciam a contemporaneidade de Steven Ellison, que afinal habita e vive o mesmo espaço e tempo que os restantes. Fisicamente, a sua figura fica no intervalo deixado em aberto entre uma tela transparente colocada à sua frente e as costas do palco, onde projectará – com notável capacidade técnica – psicadelismos vários e excertos do seu novo filme Kuso, a estrear (talvez não por cá) este ano, que refere a conteúdos mais gráficos, e de uma índole provocadora: recordamos figuras humanas que se envolvem e encetam actos grotescos, gore e violência gratuita musicadas pelo seu último disco. Foi demais para alguns. E que mais dizer? Desde há já algum tempo que estamos profundamente encantados com esta personagem: divide-se em Lotus e em Captain Murphy, a partir do qual se lança para cantar rimas; gere a sua própria editora, a Brainfeeder, e influencia, ainda que subliminarmente, as carreiras de Kendrick Lamar, Kamasi Washington, e outros tantos, como uma espécie de guru espiritual, sempre um passo à frente dos restantes, um navegador do astral plane que regressa de quando em vez para partilhar as novidades intergaláctico-espaciais; e aqui, no Porto, constatamos a sua mestria como artista não circunscrito apenas à música, mas devoto à imagem, ao flow do concerto, ao mundo em redor – por isso, um artista proficiente nos sete ofícios.

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Ouviu-se material de Cosmogramma, um dos seus trabalhos mais experimentais de 2011, e uma especial atenção às batidas – a dada altura, admite que “uma miúda no backstage pediu que tocasse os beats” -, mas sem esquecer as pinceladas do jazz, orgânicas e complementares à electrónica, embora sempre num plano abstracto, de inefáveis contornos. Havia proposto exactamente isto em You’re Dead!, e sabíamos já ao que vínhamos: extravasar os limites do humano, pensar-nos depois da morte, desprovidos do físico, desgarrados do intelecto: e restamo-nos com exactamente o quê? O onírico e o espiritual são aqui sinónimos, e axiomas pelo qual se rege o universo de Ellison. Somos tentados, ainda assim, a projectar alguma positividade na sua música, e se não alegria, pelo menos encanto, ou algo ainda menos concreto, ao qual nos agarramos. Fechou o concerto ao som de Never Catch Me, colaboração com Kendrick Lamar que teve uma reacção extraordinária, e depois despediu-se ao som de The Protest: “We will live on, forever, and ever” , que parece o chavão ideal para terminar a actuação.

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Capa de You’re Dead!

Se Flying Lotus é uma espécie de peregrinação espiritual, Aphex Twin agarra-nos na cloud nine da nossa paz de espírito e coloca-nos num outro sítio. Ininteligível; mais abstracto e paranóico; cerebral, igualmente provocador. Estamos agora no terceiro e último dia, e para nós o último concerto, aguardado num lugar relativamente próximo ao palco principal – bastante maior, e com mais público, que o palco de Steven. Atrás duma eventual mesa de mistura, nas costas do coordenador-de-cerimónias inglês, uma mão cheia de telas dispostas sob intencional geometria, de distintos tamanhos, permitiam imaginar a parede interior de um pavilhão industrial, as telas como janelas, e Richard D. James como anfitrião de um ambiente que lhe será certamente familiar. Afigura-se difícil a tentativa de reconstruir o concerto de memória, sobretudo quando se trata de um artista cujo catálogo não me é de todo reconhecível; um incauto como eu julgaria que fôssemos ouvir obras do seu catálogo discográfico, mas sei agora que se cingiu aos remixes e a criações mais underground. Nada contra. Recordo-me da maquinalidade da sua música, pouquíssimo orgânica, e das imagens que nos eram dirigidas; uma experiência intensa, mesmo a um nível físico – mais uma vez, e como aconteceu ao longo dos dias em vários concertos, socorremo-nos de tampões auditivos para evitar males maiores.

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Engoliam-nos as batidas e os pontuais momentos melódicos, devedores a uma série de microcosmos electrónicos, e as figuras projectadas revelavam-se abstractas, desaguando, por vezes, no símbolo característico do projecto do britânico. Após várias iterações e mutações deste processo, surgiam caras – caras humanas – que se actualizavam não à habitual velocidade fílmica dos 24fps, mas pausadamente, lentamente, profanadas pelo glitch, percorrendo o que julgámos ser o público das primeiras filas. Talvez não fosse. Mas, levados pela paranóia, pelo drone vermelho e verde que nos sobrevoava perniciosamente, imaginámo-nos susceptíveis ao olho que tudo vê, imortalizados num fugaz momento para um palco NOS repleto. Ainda envoltos no universo de Richard D. James, bombardeados pela viciosa circularidade da música (?) que nos debitava, vimos: uma das faces projectadas, atrelada a uma camisola com o símbolo icónico de Aphex Twin, mostrou-se sorridente; a marcha interrompeu-se. Momentos depois, dadas mais algumas voltas neste circuito circular sonoro, o mesmo vulto estava agora irreconhecível, e no lugar do seu sorriso, uma horrível contracção da face pontuada por uma súbita violência na música.

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Se essa pessoa ali estivesse, naquele preciso momento, seria uma autêntica expressão de dor e sofrimento; e a rápida justaposição entre as duas facetas relativizou todo o espectáculo do britânico, a sua ambiguidade emocional, e deixou descoberta uma possível opinião sua sobre quem actualmente somos e o nosso desmesurado culto da mediatização e da imagem. O ângulo confirmou-se mais tarde, quando surgiram os rostos de várias personalidades portuguesas, desde Salvador Sobral a Lili Caneças, passando por Jorge Jesus, e o Emplastro. Ou então não: talvez seja tudo uma conjectura levada demasiado longe. De qualquer forma, ficámos com a sua música, e a experiência, e os seus discos, e tudo se completa mutuamente e isso é mais que suficiente.

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Há um termo que albergará estes dois primeiros nomes: residem ambos sob o espectro da música electrónica, seja o que isso for no século XXI, porque, curiosamente, ainda há espaço e argumentos para lhe encaixarmos também os Death Grips. E não será o único ângulo comum entre os três.

Estes americanos são muito provavelmente um dos mais estranhos, absurdos, erráticos projectos artísticos que conseguiram irromper pelo mainstream adentro, mas não aquele que se julga pela métrica de discos vendidos, e seguidores no Facebook; o mito dos Death Grips habita nos sussurros entre conhecidos – “já ouviste aquilo?” -, na internet e seus derivados, numa contra-cultura cada vez mais relevante oposta à, generalizemos, condição humana pós-capitalista. E o encontro estava marcado para o palco . (ponto, ex-palco ATP), uma espécie de portal físico para as mais inclassificáveis experiências neste festival: aqui, já havíamos visto Swans e Shellac, a redefinir os limites, linguagem, e languidez do rock, e seguir-se-iam os The Make-Up, para nos purificar a alma e perdoar os pecados. A própria geografia do palco remete para algo único, envolvendo-o, circunscrito, por uma muralha de árvores, e suficiente tempo despendido neste espaço – uma medida distinta para entidades distintas – há-de fazer duvidar que estamos num dos mais mediáticos festivais europeus, que se pagou para aqui estar, que a escassas centenas de metros há música que vai bem com o momento de selfie, instagram-ável, e há uma ironia demasiado óbvia que não chega sequer a ter o encanto da subtileza entre tudo isto e a vincada identidade dos Death Grips.

A expectativa pré-concerto não durou muito, e nem nos foi dado muito tempo para regozijar a chegada dos três integrantes do projecto; prontamente se dissolveu a integridade da organização humana nas fileiras mais próximas do palco, por culpa das imediatas movimentações tectónicas que se deram, a um ritmo alucinante, em todas as direcções a partir de um centro comum. Éramos gente, pessoas, antes de tudo isto começar; agora, apenas massa, em constante movimento e transmissão – não apenas libertação – de energia. Nada mais. Sem que haja qualquer tipo de interacção com o público, tanto no espectáculo como fora dele, estabelece-se esta comunicação de contornos quase primitivos, íntimos e simultaneamente extrínsecos, em ambos reduzida ao essencial, entre o grupo e a sua audiência. E é algo de estranho mas muito interessante de acompanhar, caso por hipótese ainda nos reste essa presença de espírito. Impressiona a energia e a força de Zach Hill na percussão, e a importância que tem a justaposição do seu contributo com o de Andy Morin, responsável por toda a componente electrónica: tudo muito alto, muito visceral e violento, erguem-se autênticas muralhas de barulho indiscernível, nas quais mergulham a voz de MC Ride, complemento à sua densidade, e até as luzes de palco pretendem ignorar a impossibilidade física do acto e contribuem para esta amálgama de desorientação física, psicológica, e ao que tudo indica até existencial. Tudo isto é absolutamente único: dias antes, no palco principal, os Run The Jewels lidavam com uma audiência de superior magnitude, mas qualquer indício que tenham deixado de rebeldia ou atitude contra-sistema se afigura ridícula junto do que estes três representam e levam a cabo: os Death Grips tiveram toda a gente sob o seu domínio e comando, e o resultado foi um caos apenas ligeiramente controlado. Não ficámos até ao fim do ritual; um pouco antes do final, aproximámos as mãos ao chão para reunir os cacos da nossa personalidade; aferimos o nome nos documentos oficiais, para confirmar; e finalmente, saímos renovados – ou algo do género.

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Parque da Cidade, início de Junho de 2017, Porto: destino de reencontros e novos conhecimentos, descoberta e _______. Três dias atípicos enquadrados numa espécie de limbo, já que é demasiado cedo para se pensar em férias, e tarde o suficiente para que reste a impressão de um Verão despreocupado, de horários flexíveis, de gáudio e lazer e tudo o que daí advém de mais positivo. A praia oferece-se para um curto banho de Sol ainda antes de se pensar numa sombra do Parque, e provavelmente já se arriscou uma mariscada do outro mundo, em Matosinhos. O dia, cujo início deixou a impressão de alvorada, promete.

O Domingo convida a reflexões invariavelmente banhadas por uma estranha nostalgia, fresca e ainda detalhada, passível de uma reorganização, e de comparações com outras experiências. Trocam-se impressões das decisões difíceis, tomadas por impulso e intuição, ao longo dos últimos dias.

O NOS Primavera Sound, embora dê a impressão de estar cada vez maior, ainda é – e esperemos que assim continue – um belíssimo sítio para se estar. A lotação quase sempre esgotada dá margem de manobra para não nos sintamos claustrofóbicos na confusão; os quatro palcos operam em simultâneo e obrigam ao constante fluxo de gente a navegar de um lado para o outro – desmistifica-se a ideia de um concerto total, do início ao fim, para uma mais flexível rotina de rotação entre diferentes espectáculos. Só assim se torna possível que, em simultâneo, possa haver algo muito próximo de um motim com os Death Grips, e, a apenas algumas centenas de metros, Weyes Blood e a sua folk pastoral, próxima de uma América que se perde na translação, e ainda os Metronomy, no palco principal, a puxar dos galões para se leve a sério a leviandade que a todos oferecem; dum lado os Swans em meditação profunda, visceral, apocalíptica, do outro Bon Iver com pretensões de transformar a geografia do palco num casulo íntimo, de proximidade, e a candura emo de Julien Baker – tão sozinha para um espaço tão grande a circundá-la, exposta de uma forma que poucos ousam, e há mesmo algo de especial naquilo que nos traz, estamos dispostos a justificar.

Tudo tido em conta, seis edições desde, e incluíndo, o mítico ano de 2012, continua um dos mais especiais momentos de cada ano, sempre subjectivo, e único. Um festival bem organizado, ciente das exigências do mercado da música (que existe, não haja ilusões, e sem demérito para a sua genuinidade), cada vez mais em linha com as preocupações urbanas e ambientais – basta recordar a infeliz visão de outros anos, nos palcos principais, com o relvado imundo e submerso sob copos descartáveis de plástico, que não mais voltou a acontecer (que bom!) -, e em comedida expansão, devidamente planeada. O festival e a cidade merecem. E para o ano, havemos de cá ser felizes outra vez.

©Hugo Lima | www.huglima.com

Música dentro do muro: Michael Rother sobre si próprio.

[ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE; FOTOGRAFIA DE HENRIQUE ALMEIDA; EM SUMA, UM DOS MAIS BONITOS MOMENTOS DA VIDA DA MOSCA]

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Pensemos na Alemanha do início dos anos 70, ainda separada entre Este e Oeste como consequência da Segunda Grande Guerra. Um país separado no seu coração geográfico, Berlim; um povo dividido, sujeito a diferentes governos e influências. É, também, uma época especial por ter sido um pequeno micro-cosmos de excelente música, um caldeirão criativo que fervilhava em pequenas bandas e projectos artísticos. Se hoje, com reverência, falamos dos Kraftwerk, grupo seminal da electrónica, dos Can, dos NEU!, ou dos Faust – alicerces que ainda hoje são aproveitados, apreendidos e reciclados pelas novas gerações -, devemo-lo a um fenómeno que ultrapassa o simples acaso. Na altura, o frenesim não permitia apurar a singular importância do que se passava; a crítica britânica, vítima de uma falácia provocada pelo distanciamento à origem, chamar-lhes-ia a todos eles krautrock, uma piada (de algum mau gosto) que pegou e hoje designa genericamente os projectos alemães desse período sem grande utilidade na classificação da sua estética musical (que tão distinta é entre, por exemplo, uns NEU! e uns Popol Vuh).

Por isso, quando nos chegou a notícia do regresso de Rother a Portugal – já passou mais de um ano desde que actuou no Milhões de Festa, como relembrou, entre canções, no gnration -, chegar à fala com ele era tão ou mais importante que (re-)ouvir a sua música. Na época, a sua participação foi  crucial: afinal de contas, viveu aquela altura em todas as suas dimensões sociais e culturais. Integrou os Kraftwerk, os NEU!, e os Harmonia, e prosseguiu, depois, numa prolífica carreira a solo; além disso, conviveu com Klaus Dinger, Dieter Möbius, Hans-Joachim Roedelius, e chegou a estar apalavrado uma colaboração com David Bowie, à altura da sua trilogia de Berlim, que não se deu por questões alheias a Rother e afectas a problemas contratuais. Tudo isto recapitularemos: há muito para contar na história do alemão.

Vimo-lo depois do seu lanche de meio da tarde; uma figura de indumentária escura, com bons modos e trato. Por entre cumprimentos, foi informado do cancelamento de uma entrevista, e o seu gáudio, imediato, no qual se entreveio algum cansaço: “Que bom! Tenho feito tantas, mas tantas entrevistas, e têm sido dias cansativos… Estou um bocado cansado”. Rother, recordemos, é agora um sexagenário e tem calcorreado o mundo para interpretar alguns clássicos com outros dois músicos. Há uns anos, fez um excelente retrato da sua carreira para a Red Bull Music Academy, entrevistado por Hanna Bächer. Procurámos um local confortável, e escolhemos o átrio coberto do gnration.

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Sentados, recordaríamos 1968, quando a Alemanha de Oeste estava mais próxima do mundo ocidental, e culturalmente ligada aos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Por esta altura, deu-se um fortíssimo protesto da comunidade universitária que reivindicava, entre outros, o despedimento de professores outrora com ligações ao partido nazi, o fim da guerra do Vietname, “e uma profunda preocupação com os direitos dos negros nos Estados Unidos”, relembra Rother. “Éramos muito próximos da América e tudo aquilo nos impressionava, assim como a brutalidade do Vietname. Não fazia sentido. Nessa altura, muitos dos meus amigos – que sempre foram mais velhos que eu -, escolhiam manifestar-se dessa forma. Eu tentei sempre seguir o outro caminho”. Este choque com a sociedade envolvente levou, entre outras coisas, a uma quebra assumida com os cânones culturais dos países de língua inglesa.

O caminho alternativo de Rother aparece recorrentemente, um que trilhou várias e de distintas formas ao longo da carreira, como uma negação à violência do nosso mundo. Pouco mais tarde, participaria nos primórdios dos Kraftwerk, seminal grupo da electrónica que, à altura, ainda direccionava a sua música a outras paragens (recorde-se um famosíssimo concerto na televisão alemã), onde conhecerá Klaus Dinger, e entabula-se entre eles uma química musical que terá expressão no primeiro disco dos NEU!, gravado em apenas quatro noites com o produtor Conny Plank. “Hallogallo”, faixa-chave do álbum, sintetiza nos seus 10 minutos o ímpeto cavalgante, o drive repetitivo, ambos características associadas aos NEU!, mas serão, porventura, fruto da influência da música paquistanesa em Rother, que caracterizou um dia como “uma interminável corrente de música em direcção ao horizonte”.

“Na altura não ouvia nada do que se passava à nossa volta e queríamos explicitamente romper com o que se fazia na América e na Grã-Bretanha”, diz-nos. “Era apenas eu, o Klaus, e o Conny, e experimentámos muita coisa: sem grande preparação, tocar e aferir o resultado. Na “Im Gluck”, por exemplo, o som da água é o Klaus e a namorada no meio do rio, a remar”. Uma impressão que reaparece em “Lieber Honig”, a fechar o disco, mais a guitarra solitária que acompanha a voz rumo a nada em específico – estão apenas , artefactos sonoros singulares que, posteriormente, se transformam em algo mais. Dinger, percebemos, foi como uma outra face da mesma moeda, um complemento às composições de Rother onde raramente se encontravam.

entrevista_michael_rother11.jpgEm concerto, constatamo-lo, com mais um guitarrista e baterista em palco, nos espectáculos que tem feito nos últimos anos: são, respectivamente, Franz Bargmann, que com os Camera ainda continua o legado do kraut, e Hans Lampe, colaborador de Dinger no seu projecto posterior, os La Düsseldorf. Exibindo o orgulho NEU!iano num autocolante do seu computador, recupera as composições mais melodiosas  – “Hallogallo”, “Neuschnee”, “E-Musik”, por exemplo -, e leva-as todas a bom porto; a elas, e ao público, de idades heterogéneas e com muitos a fazerem mais quilómetros que o habitual. Os NEU! têm ainda um repertório perfeitamente actual e musicalmente interessante, indo mais além do interesse histórico que algumas das composições terão.

Depois dos primeiros dois discos com Klaus Dinger, dá-se mais um acontecimento fortuito que o leva a juntar-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Möbius, os Cluster, na idílica Forst, Alemanha rural. Aqui, além de produzir dois discos – e ainda se editou um terceiro, já em 2007, com algumas gravações recuperadas das sessões com Brian Eno -, os três viveram em pacífica comunhão, longe da azáfama citadina e livres para tocar a seu bel-prazer. “Foram, de facto, tempos fantásticos. Éramos absolutamente livres e a natureza fascinava-nos: cortávamos lenha, cozinhávamos e ouvíamos os pássaros.” Hoje, é aí que Rother mantém a sua residência, e discorre sobre esses tempos, perdido entre as suas memórias, já esquecido da pergunta inicial: “Tocávamos quando queríamos e éramos muito amigos.” Inevitavelmente, recordámos Roedelius, que esteve em Braga no ano passado, e falou, também, dessa altura com reverência. “De todos, ele foi o que gostou mais, possivelmente. Foi, para ele, uma altura muito especial – ele romantiza muito esses tempos”. De Roedelius, rapidamente chegámos a Dieter Mobius, seu companheiro nos Harmonia e que viria a falecer no ano passado.

“Foi complicado. Eu não sabia que ele estava doente e foi tudo muito rápido. Ele era um óptimo músico, e um bom amigo. Com o Klaus, as coisas eram diferentes: ele era muito intempestivo, mais agressivo e nem sempre estivemos em bons termos.” Klaus Dinger, depois de NEU! 75, o terceiro do grupo gravado já depois do período em Forst, lançou-se, tal como Rother, numa carreira a solo; no entanto, desagradaria o seu colega ao editar, sem aviso prévio e em dúbias condições contratuais, um disco de gravações inéditas dos NEU!, no Japão. “Houve uma altura em que o Klaus queria muita coisa. Teve muitos problemas com drogas e sempre quis ser mais famoso do que era. Ele já partiu e a passagem do tempo faz-nos esquecer alguns pormenores enquanto glorifica outros. Dentro de mim, sinto que cheguei a uma paz com ele”. É a inevitável acção do tempo que leva à conclusão que Rother é, passados estes anos, um dos últimos da sua geração. E ele, claro, sabe-o. “Sim, é verdade…e é difícil, sabes, aperceberes-te que, com os anos, as pessoas de quem mais gostas vão desaparecendo. Simplesmente, é assim a vida –  ainda hoje, todos os dias, me lembro do Dieter e sinto-o presente comigo. E na minha música, também. É, talvez, uma forma de apaziguamento.”

Por isso, não podia deixar de revisitar o repertório dos Harmonia, mais informado pela electrónica e pelo ambient, onde se pode, a exemplo, em “Dino” constatar a inconfundível presença de Rother. São composições que, tal como a música da sua infância no Paquistão, parecem surgir já distantes do seu início e desaparecem sem ter chegado a um fim – existem, apenas. Depois, ainda a meio do concerto, há um momento revelador e que sintetiza o que Rother traz aos seus projectos: passando por Flammende Hertzen, o seu primeiro disco a solo, recupera a faixa-título, uma em que a guitarra, absolutamente expressiva, persegue uma melodia simples, aberta, e luminosa, quase como uma música folk em que a voz é, desta vez apenas, cantada em seis cordas. Na tela por trás dos músicos, surge a imagem, inofensiva e até algo pirosa, de um mar – estamos, ainda que não intencionalmente, num território extremamente kitsch.

Será essa uma preocupação para Rother? Cremos que não. Desde há muito tempo, assume abertamente que a única característica que julga importante na sua música é “que venha do coração”. Nos NEU!, esquivava-se à fúria indomável de Klaus Dinger e não se retrata na frenética “Hero”, onde Dinger canta a revolta contra tudo e todos – terá sido aqui, aliás, que Bowie bebeu ideias para a sua homónima “Heroes”; com os Harmonia, perseguiria uma via mais experimental, mas não resistiu a reduzir a abstracção e conduzi-los a terrenos mais concretos e melódicos em Deluxe, o seu segundo disco. Mais tarde, em nome próprio, ver-se-ia livre para praticar a sua música nos moldes predilectos, como o fez sempre na sua carreira, perseguindo uma música simples e bela, desprovida de grandes artifícios formais. Compôs e tocou sempre com vista ao horizonte; fez-se sempre acompanhar pelo ritmo assertivo e dominante.

O domingo em que ouvimos Michael Rother em Braga, trouxe-nos um dia nublado, não muito frio, e com uma permanente ameaça de chuva. A dada altura, já no final da nossa conversa – o músico teria ainda que se preparar para o concerto, e não pudemos falar sobre Brian Eno, a música a solo e a influência da sua música na Alemanha natal -, o telhado coberto, mas transparente, sob o qual nos sentáramos, ameaçava-nos com o ritombar da água em queda, cujo barulho, aumentado pela acústica do edifício, tomava proporções de dilúvio bíblico; de modo que nos custava ouvir Rother, tal era a interferência. O próprio aperceber-se-ia e lentamente remeteu a sua atenção para o fenómeno. Os olhos pareciam revelar que nunca ouvira a chuva daquela forma e até nós nos sentimos impelidos a contemplar o momento – a partir daí, dificilmente teríamos a sua atenção outra vez. “Que som bonito!”, cortando o silêncio – e assim ficámos mais um pouco. Ali aconteceu algo, som como música, como o fora antes o marulhar da água em “I’m Gluck”, mais um momento fortuito que poderia, para Rother, ombrear com “Hallogallo” ou os momentos musicais dos Harmonia, ainda na floresta de Forst.

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O alemão é uma lenda viva, e respira vitalidade; está contente com o seu passado e orgulhoso do legado que deixou; como a sua música, parece-nos que Rother é um homem de prazeres simples. Nesse dia, muitos voltaram a casa satisfeitos com a música – intemporal e genuína, profunda influência para quase tudo o que ouvimos hoje. Houve história, e fez-se história, na nossa pequena cidade de Braga. Oxalá vejamos Michael mais vezes, e em breve.

À conversa com José Cid, de olhos postos no Espaço, e no futuro.

[ARTIGO ORIGINALMENTE REDIGIDO PARA O ARTE-FACTOS; COLABORAÇÃO COM JOSÉ RAPOSO]

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Mencionar José Cid, hoje, é mais do que falar de um músico: evocamos uma personagem. Começando na célebre fotografia em nu frontal, uma provocadora exibição do seu disco de platina, passando pelo recente desaguisado mediático com as gentes transmontanas, recolhemos sintomas de alguém que não teme abrir a boca para dizer o que pensa. Mais ainda, não teme ser julgado por tudo o que fez. José Cid é capaz de representar Portugal na Eurovisão, compor vários marcos da história da música nacional, e, num dos raros momentos em que Portugal conseguiu, por entre a bruma de indefinição pós-25 de Abril, olhar além-fronteiras, imaginar um disco que ombreia, hoje, com o que de melhor foi feito nesse período a nível mundial. À conversa com o próprio mestre, recordámos 10.000 Anos Entre Vénus e Marte, sempre em frenética marcha entre o passado e o presente.

Em retrospectiva, é difícil enquadrar um trabalho tão distinto no resto da sua discografia, mas Cid recorda uma fase “onde gravava mais rock sinfónico: primeiro, em 1975, o ‘Cantamos Pessoas Vivas’ [com os Quarteto 1111], e em 76 ‘Vida: Sons do Quotidiano”. Será depois, entre 76 e 77, que se lança a escrever o seu novo trabalho, mas sempre intercalado com outros trabalhos mais comerciais e populares, como ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, ou ‘A Minha Música’.

Em 76/77, quando escrevi o 10.000 Anos, estávamos na iminência de guerra nuclear como estamos agora. Havia uma predominância nuclear da URSS sobre os EUA, como agora… bem, toda a gente agora tem o poder nuclear. As coisas com este Donald Trump podem disparar de repente. A verdade é esta: assumi a ideia de que o mundo poderia ter tido uma Terceira Guerra Mundial em 1976, na qual o planeta desaparece, e um cosmonauta e a companheira fogem para o espaço e, através de uma viagem mais instrumental do que poética, voltam, na última faixa, como novos Adão e Eva, começando tudo de novo.”

Recordemos como, por essa altura, já o rock progressivo estava bem lançado. Os Pink Floyd tiveram o Dark Side of the Moon, em 1973 – a quem o disco parece aludir, com as vozes da última faixa – e já antes deles editavam os King Crimson. Os próprios Genesis, os Emerson, Lake & Palmer, os Yes: perde-se a conta aos projectos que pegaram no rock, ou nos instrumentos do rock, para os levar a outras paragens. Em Portugal, essa corrente foi tímida e não tinha, sequer, mercado possível: pelo menos, assim julgou a Orfeu, que lançava Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, e mais tarde José Cid. Para que o disco pudesse chegar ao público, ofereceu os direitos à editora; a tiragem dos exemplares foi extremamente curta. “Gravámos o disco, que foi considerado como não comercial e não teria qualquer sucesso, e ofereci-o para editarem sem quaisquer encargos – incluindo direitos de autor.” E assim foi editado em Portugal. Só passados quase vinte anos o disco teria uma reedição, pela americana Art Sublime, em 1994. Portugal rejeitara um disco vanguardista – demasiado para a época, é certo – ao qual o tempo faria justiça.

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O MiniMoog

Ainda assim, o disco não vive apenas do seu conceito futurista, nem tão só de meritoriamente ser cantado em português: é um dos poucos casos, embora de longe o mais mediático, da utilização do sintetizador Moog e do Mellotron em discos nacionais. À altura, eram instrumentos extremamente recentes, uma novidade: “uma linguagem nova – mas era um teclado! O primeiro em Portugal a comprar um foi sem dúvida o Miguel [Graça Moura] que o usava como um instrumento de música clássica. Eu tocava-o como um músico de rock.” Tanto o Moog como o Mellotron “eram os sons de vanguarda no mundo inteiro”, e vieram justamente a propósito duma era que se virava para o espaço e para os segredos do Universo. Hoje, soam majestosos, titânicos: absolutamente intemporais.

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Os Quarteto 1111. António Moniz Pereira, Michel Silveira, José Cid e Mário Rui Terra (fotografia de Rui Coelho Dias)

Quem procurar pelo catálogo de José Cid por momentos semelhantes, pouco irá encontrar além do já mencionado período do rock sinfónico; mas terá provas que havia quem, em Portugal, olhasse e tentasse emular (e apropriar) o que se fazia lá fora. No Quarteto 1111, que teve há pouco tempo uma reedição de muito do seu material, temos momentos como ‘Os Monstros Sagrados’, bem direccionado ao psicadelismo sinónimo de liberdade, ou a ‘Ode To The Beatles’, momento para os portugueses coabitarem a música dos britânicos – “como se fosse um rappel na história feito com uma pequena frase dos Beatles”; e mesmo já em nome próprio, apresentou no Festival da Canção da RTP ‘O Meu Piano’, algo puxado ao que se fazia na América contemporânea – “foi o princípio da “dance”; estamos em 1978 ou 79 e já há, nos Estados Unidos, os Bee Gees e essa gente toda a fazer música de dança e achei giro surpreender, no Festival da Canção, com uma coisa ritmicamente mais à frente”. 

O que admirava nos Beatles era o talento e a criatividade. A execução? Eram perfeitinhos, mas nenhum era um supermúsico, a não ser o Paul McCartney que tocava baixo a um nível acima da média. O Ringo Starr era um péssimo baterista, mas lá se ia defendendo. O George Harrison era o mais genial, e talvez seja o que mais gosto. O John Lennon era um rebelde com boas ideias e estética.”

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Zeca Afonso, o músico cujo catálogo continua a ser (re)descoberto.

No sentido inverso, da música de cá que pode ir para fora, revê-se no trabalho da Vodafone FM e Antena 3, que “apoia gerações jovens que são mais honestas e puras a escrever, que têm uma grande originalidade dentro de si, e que arriscam”, enquanto evita outras rádios mais mediáticas, não vá apanhar-se a “ouvir kizomba, que acho uma coisa horrorosa, esterco poético por cima de música feita em computador”. Por entre a música regional que pauta a diferença entre a nossa geografia, destaca o jazz que se pode descobrir no imenso repertório de Zeca Afonso – “o José Afonso escreveu uma grande parte da sua obra em 6/8, e é um extraordinário compositor de jazz sem as pessoas se apercebam.” Como tantos outros, acredita que a chave para desbloquear a nossa música lá fora se encontre nas nossas raízes musicais, no que, em verdade, nos distingue de todos os outros.

“No meu projecto de jazz, o Acid Jazz Project, toco dois temas dele, “Milho Verde” e “A Morte Saiu À Rua” – mas haveria muitos outros temas do Zeca para tocar. É um compositor que surpreende por ser absolutamente “bluesy”; ele compõe temas de world music tão próximos dos blues como um fado tradicional. São coisas que estão interligadas em termos de inspiração, de criatividade, daquilo que são as raízes e essência da própria música – seja portuguesa ou negra. Há uma proximidade muito grande, que vejo e consigo e consigo executar.”

Passando em revista a última década, sabemos que se fez justiça ao 10.000 Anos Entre Vénus e Marte. As vozes críticas e reaccionárias foram esquecidas e remetidas para o seu devido lugar: o caixote do lixo preconceituoso e ideológico pós-PREC. As novas gerações, despidas de óculos de preconceito ideológico-musical, e no seguimento do interesse a que a Internet estrangeira (bem como alguns bravos nativos que nunca se esqueceram do valor da obra) dedicou ao disco, ajudam a encher as Aulas Magnas e Coliseus, na busca de um demasiado tardio testemunho da genialidade da odisseia sónica de José Cid e companhia. Fez-se, portanto, justiça, ainda que muito, muito tarde e com a ajuda de ouvidos estrangeiros. Só não lhe peçam é para ir tocar ao Japão, que “é um país chato até às orelhas. Hiper-organizado, são chatos e o mais interessante são as japonesas, porque de resto é um país muito chato.”

As falsas vanguardas críticas e políticas de fins de setentas, na sua infinita cobardia e ignorância, por pouco não enterraram o bom que por cá se fazia. Este disco foi quase como um Yoda musical, desterrado num Dagobah, mas estimado por muitos Luke Skywalkers que o ouviam. Em 2017 e com meio século a dar-nos música, Cid desdobra-se em discos e projectos, nunca olhando, segundo o próprio, para o seu rico passado – “eu sou todo aquariano, estou-me cagando para o passado!”. Do fado ao jazz, nada o move mais do que continuar a escrever e a actuar – assim se vive e assim se rejuvenesce a cada ano que passa. Meio século sem retrovisores, salvo para apreciar a paisagem cósmica entre Vénus e Marte. Assim é José Cid, músico bem português e com um fôlego infindável.

Além dos dois concertos agendados para este mês – dia 1 de Maio na Aula Magna, e dia 6 na Casa da Música, há uma reedição do disco original remasterizado em Abbey Road, juntamente com uma gravação do concerto em Lisboa. É uma óptima edição! Mais informação em https://www.facebook.com/dezmilanosdepois.

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Fotografia de Andreia Santos.

Breves considerações sobre músicas.

A propósito da rubrica semanal do Arte-Factos, as Músicas da Semana, aproveitámos para discorrer sobre cinco artistas extraordinariamente relevantes.

Kendrick Lamar – FEEL.

039eed0758eb3aa30f050c77e7bbdc1e-1000x1000x1Tomei a última semana para degustar, ao sabor do tempo, o fresquíssimo novo disco de Kendrick Lamar. Temia, e percebo agora que sem nenhum fundamento, que lhe custasse apontar a um qualquer rumo depois do épico To Pimp a Butterfly, ora não se sentisse que esse disco de 2015 fora um muito maduro trabalho, conceptual e musicalmente num patamar à parte dos seus contemporâneos. Quanto a DAMN., o novíssimo disco, não conjecturo ainda ilações do estilo. Diz-me uma primeira impressão que é música que se toma mais pelo seu valor individual do que pela soma das suas partes; e além de contrariar o que havia, nesse sentido, feito em To Pimp a Butterfly e até no anterior, cinemático Good Kid, M.A.A.D City, coaduna-se com o actual panorama musical quando apresenta, ao longo das suas 14 faixas, uma hora de jabs directos provenientes de um universo lírico no qual se sente mais que confortável. Deste disco, FEEL. é um dos vários possíveis destaques: começa com uma alusão ao vazio religioso, apanágio de Kendrick desde há algum tempo para cá, e discorre sobre tudo o que o rapper tem sentido nos últimos tempos, em palavras que se sentem, aqui e em todo o restante disco, serem dirigidas a toda uma América. Um exercício auto-centrado, também se poderá dizer, mas sabemo-lo há já algum tempo que Kendrick não tem problema algum a considerar-se o topo do game, ao lado de grandes como Tupac Shakur. E DAMN. advém dessa elevação.

Tim Buckley – Hallucinations

timbuckley-300x300Há já alguns meses que me insiro, lenta mas assertivamente, no curiosíssimo universo de Tim Buckley. Certamente o seu nome trará à memória, em primeiro lugar, a carreira do filho Jeff, autor de Grace, disco de 1994, que ressuscitou – e imortalizou devidamente – a Hallelujah de Leonard Cohen. E esta herança musical do seu filho é argumento para justificarmos que o talento corria, de facto, nas veias da família. Tim, que editou ao longo das décadas de 60 e 70, produziu trabalhos distintíssimos entre a folk de traços psicadélicos, perfeitamente coerente e alinhada com os seus contemporâneos, como foi, com o passar do tempo, reinventando a sua música e abraçando outras estéticas; Starsailor, de 1970, é o culminar de um trajecto com rumo traçado ao experimental e ao místico, onde a sua voz (que portento!) revela toda a força e multiplicidades; mas logo de seguida, em Greetings from L.A. (1972), entrega-se à sensualidade do funk e da soul com a maior das naturalidades. Por entre todos os altíssimos momentos da sua discografia – editou, em menos tempo que o seu filho e por ironia e triste fatalidade desta estranha linhagem, nove (!) discos entre 66 e ’74 – destaco Hallucinations, do disco Goodbye and Hello (1967), seu segundo disco e provavelmente o melhor ponto de entrada no mundo de um artista que palmilhou ora o belo categórico, como em Song to the Siren, como se entregou, com a mesma determinação, ao onírico, ao perverso, ao feérico. De tudo isto, é Hallucinations exemplo. E categoricamente belo também.

Björk – Where Is The Line

Breve passagem pela islandesa Björk, tão homogénea, e ainda assim tão interessante. O disco é de 2004 e utiliza a voz como expressão e simultânea composição: a cantora canta por cima de instrumentais que não o são em boa verdade, dado que se compõem maioritariamente por sobreposições de outras linhas vocais, como uma expansão do original e imutável conceito de a cappella com auxílio da electrónica. Obrigatório!

Brian Eno – Spider and I

Quem acompanha as minhas aventuras melómanas, terá presente a alta estima com que considero o britânico Brian Eno, dono de um autêntico toque de Midas no que à mi0000900770produção musical diz respeito – que o digam os portugueses The Gift, que o recrutaram para produzir o seu novo disco e, com ele, se elevaram a onde ainda não haviam chegado. Spider and I é tema conclusão do disco Before and After Science, de 1977, e que se segue a Another Green World (1975) , um trabalho que me é bem mais familiar. Na sua música, tudo está presente, independentemente da linguagem que usemos para a enquadrar – caso não seja claro o que pretendo com a expressão, basta que consideremos por amostra o seu legado na década de 70. Before and After Science tem apenas 40 minutos divididos ao longo de 10 faixas; mas sentimo-lo expandir-se além desta limitação temporal. Escolhi Spider and I, como poderia ter figurado virtualmente qualquer outra das canções.

Morton Feldman – Rothko Chapel

Para terminar, um nome de outra dimensão. Morton Feldman, compositor americano, foi um dos nomes mais proeminentes do século passado na linhagem clássica, que, traços gerais, teve uma espécie de crise após a vaga romântica, muito expressiva, que lhe precedeu. E aproveito para o enquadrar à luz do que escrevi sobre Eno: sobre este último, mantenho que soube orientar-se fosse na pop, no rock, ou nas deambulações electrónicas que pautaram grande parte das suas explorações minimalistas, e usei o termo linguagem. Sigam-me: caso consideremos ritmo, harmonia, melodia, como parte de uma linguagem, como interpretaremos então as composições de Feldman, e esta Rothko Chapel em particular, que quando assim comparada nos parece amorfa, indefinida, inconclusiva, um exercício nebuloso que dura por mais de trinta minutos? Feldman foi muito próximo de outra figura definidora do século, o compositor John Cage, e Rothko, a quem se refere explicitamente no título da obra, é o pintor autor de icónicos estudos sobre cor e textura; e a interpretação que vos trago está incluída num disco que a enquadra com Cage e o francês Erik Satie.

De volta às analogias, ponhamos lado a lado um quadro naturalista e uma pintura de Rothko: o que há em comum? Da mesma forma, equipare-se Eno, por exemplo, e esta composição de Feldman. Poder-se-á dizer, no primeiro caso, que se partilha a cor, ou o fenómeno visual; no segundo, o som, puro e desprovido de outros encantos que lhe são acrescidos (o ritmo, melodia, harmonia). Caso vos interesse, abram as portas à capela de Feldman, ainda que desconheçam onde vos levará. Para uma viagem mais completa, pode fazer-se escala num ponto que, ora vejamos, não nos é desconhecido de todo.

Alguns discos que recordaremos do ano passado.

Um projecto de rádio que mantenho, ainda que a muito custo e com regularidade parca, obriga-me a acompanhar a música que cada ano nos vai oferecendo. Uma enorme torrente de discos aos quais raramente concedo a atenção devida; infelizmente, o nosso tempo é cada vez mais limitado. Por isso, apresento não um compêndio objectivo e ordenado de discos, cuja relevância se esvanece em comparação com tudo o que faltou ouvir, mas uma lista de trabalhos que me encantaram, embora muito, muito, tenha ficado por ouvir.

Radiohead – A Moon Shaped Pool 

088055831Seria quase herético não mencionar estes britânicos, assumidamente os responsáveis pela minha melomania. Depois de The King of Limbs, este é o segundo álbum que lançam já sendo eu um fã; no âmbito da restante discografia, é o nono. Qualquer que fosse o conteúdo, serial sempre parco quando comparado às altíssimas expectativas que o aguardavam, depois da misteriosa campanha que encetaram, e porque deles sempre se espera o extraordinário. Ouvi-o deitado. “Será disto que eu preciso, um novo disco dos Radiohead?”. Talvez sim. Talvez, até, do rumo que quiseram seguir: Daydreaming, na sua toada minimal e melancólica, define por extensão esta fase da banda, que não se entrega em cruzadas energéticas como os ouvimos em OKC ou HTTT, e dela sobressai um desejo de pausa, de acalmia. Chegámos, com eles, à catarse, como que uma reflexão do que para trás ficou; e contemplamos. É música de cair o pano, banda sonora para o esquecimento, e não a dor, de uma despedida. Fecha-se o ciclo como poucos imaginaram: True Love Waits, a elusiva canção que apenas fora editada no ano de 2001 num disco ao vivo, soa-nos belíssima, e apropriada. Ainda muito ficou por dizer sobre isto; não sei qual será o lugar deste disco daqui a um ano, ou cinco, ou dez; mas é bom tê-lo por cá.

Kero Kero Bonito – Bonito Generation

kkbTodos os motivos para a inclusão deste grupo no melhor do meu ano foram previamente escrutinados, ou aludidos a, num texto anterior, pelo que recomendo essa leitura. Os Kero Kero mantêm inevitáveis afinidades com o colectivo PC Music, e nota-se os traços comuns no à-vontade com que se movimentam na pop e nas suas manifestas contradições. Em suma, tudo neles é delicioso: Bonito Generation é o disco que abrilhanta o nosso dia; a música pop que, com o auxílio de um trampolim imaginário, suspende o nosso imediato e nos põe, qual realidade aumentada, num outro sítio onde nada mais importa. Parece mentira, mas eles são um caso incrivelmente sério, e vale a pena vermos o mundo pelos seus olhos; no sentido contrário, fazem o convite através dos nossos ouvidos. Ao aceitá-lo, transformei um par de semanas deste ano nas mais coloridas de que tenho memória.

Blank Banshee – MEGA 

a0838514060_10A sua identidade é uma incógnita, mas o nome Blank Banshee remete automaticamente para a nebulosa linhagem do vaporwave, um epíteto musicalmente impreciso e cujas ramificações se tornarão mais distintas apenas com o correr do tempo – ainda assim, este produtor sempre actuou na periferia da estética facilista à qual surge frequentemente associado. Em MEGA, soltam-se-lhe as estribeiras e a máquina ganha vida, num ímpeto ora furioso e descontrolado, ora apaziguado em sequências melosas, ainda que esteticamente desconcertantes. É tudo sobretudo uma jornada electrónica, com ecos de trip-hop na sua estrutura musical, em permanente balanço no abismo que atiraria este trabalho para o abstracto; é neste equilibrismo que se evidenciam as afinidades que mantém ao supramencionado vaporwave.

Frank Ocean – Blonde

5f06f7f6Passaram cinco anos desde Channel Orange, o disco que cimentou, em definitivo, o seu nome como um dos valores a seguir na música moderna – e, com ele, a revelação que desde então é indissociável da sua persona artística, em forma de carta para todo o seu auditório: o mundo inteiro. O silêncio seria finalmente quebrado com o lançamento (em streaming!) de Blonde, apenas um dia depois do vídeo-disco Endless, com uma edição física exclusiva que veio acompanhada de uma revista – tudo criado pelo músico. Por tudo isto, Frank Ocean é um caso de estudo, um artista que, talvez apenas rivalizado por Kanye West e bem mais unânime que este, tem o mundo aos seus pés. Blonde reflecte isso mesmo. É um trabalho esquivo, estranho e desconfortável: não o esperávamos tão parco, despido do encantamento instrumental de Channel Orange, tão sozinho sob tão enorme holofote. Ele canta, susurra, e dobra rimas, e mais não fez porque não quis: este é o seu domínio. Muito mais se poderia dizer sobre Ocean. Ouçamos a sua música, e faça-se silêncio: tanto o quis, nestes últimos anos, já o teve, e sob ele já partiu outra vez.

Chuck Person – Chuck Person’s Eccojams Vol. 1 (2016 Remaster)

maxresdefaultEsta é uma pequena batota: o trabalho original data de 2010, mas esta é uma versão remasterizada lançada digitalmente no Bandcamp do autor. Ademais, é perfeito pretexto para lembrar as bases do vaporwave, que muito devem a estes Eccojams, obra de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), que actuou sob o pseudónimo Chuck Person. O termo – como já mencionei – alberga uma série de correntes e tropes; aqui, aponta-se à reciclagem de música pop e à sua reapropriação (escangalham-se Fleetwood Mac, os Toto, e Michael Jackson, entre outros), e quando se ultrapassa o nível irónico e de meta-referência, chega-se a uma outra construção, erigida no desconcertante marulhar da música que já não o é, e deixamo-nos ficar. A distinção entre exercício formal e prazerosa experiência reside na vontade de quem ouve; é também devido a essa simultânea dicotomia que o celebro neste top. (PS: em 2011, salvo erro, o músico actuou pertíssimo de mim – não me perdoo a falta de comparência nem a gorada oportunidade de trocarmos palavras).

Kanye West – The Life Of Pablo 

the_life_of_pablo_alternateAs minhas impressões sobre Kanye West poderiam ser as mesmas usadas em Frank Ocean, trocados apenas os “silêncio” por “escarcéu”, “sozinho” cedendo a “por todos rodeado”: são dois artistas extremamente pouco ortodoxos e que fizeram de 2016 um ano bandeira, mas que parecem viver em estados opostos de espírito. Confesso que The Life of Pablo não me convenceu verdadeiramente, transparecendo uma execução aparentemente degraus aquém da ideia original: desde o seu caótico lançamento, foi várias vezes actualizado (com alterações na lista de músicas e nelas próprias – caso inédito?), e surge como uma enorme manta de retalhos. Obviamente, poder-se-á considerar que isto é, também, parte do acto: um disco em constante mutação, obra intangível, reflexo do turbilhão criativo e emocional de quem o pariu. Talvez seja. Talvez não. Mas Kanye já nos pregou a lição: ele não quer saber, e aponta a um limite que está bem além do céu.

Além destes nomes, que resumem brevemente as maiores fixações lançadas neste ano que agora terminou, quero destacar ainda mais alguns trabalhos: Bruno Pernadas, com o seu lançamento duplo que se constrói, com muita liberdade e irreverência, no mundo da música pop (mas não comercial, o que demonstra a enorme diferença entre os dois termos) e do jazz; Alex Zhang Hungtai, músico do extinto projecto Dirty Beaches e que se radicou há uns anos em Portugal, é autor de Knave of Heart, um belíssimo disco de pequenos ensaios ao piano, parcos, minimais, e tingidos por alguns field recordings que servem quase uma função narrativa, é um disco que parece dialogar com Ambient 1: Music for Airports (logo, até, na sua primeira faixa, que alude a uma sala de espera), carregando na herança musical uma emoção que não está presente no disco de Brian Eno; Dean Blunt voltou à carga com dois trabalhos no projecto Babyfather, a continuar a toada misteriosa e desconcertante que marcou a sua carreira até agora; e, por último, Paul Jebanasam e Continuum, um registo experimental e abstracto, absolutamente obrigatório, e que foi indubitavelmente o momento mais alto do SEMIBREVE deste ano.

Para terminar, houve nomes aos quais, por questões de disponibilidade ou esquecimento, não dediquei muita atenção, e por isso omito qualquer opinião (por vezes precipitada) que possa ter sobre estes.

Os Kero Kero Bonito, e porque devemos prestar-lhes atenção.

kkbEntrevemos na arte interpretações que a elevam e validam como prazerosa experiência. É um processo habitual, pessoal, e universalmente praticado: identificamo-nos com personagens, reprovamos as suas acções, sofremos, secretamente, em favor de uma possível narrativa. É humano. E no entanto, alguns tentam evitá-lo; incumbir à arte o peso das nossas quezílias será, eventualmente, uma profanação da sua singular existência no nosso mundo sensível.

Posto isto, também tudo pode ser uma tremenda chatice. E, aí, danem-se as teorias que enquadram o cinema como microscópio político-social; olvide-se o cânone literário que promete a transcendência intelectual: por vezes, saturados de pensar, nada mais desejamos que a simplicidade. Mas ocorre, também, sermos surpreendidos pela falsa elementaridade de um objecto básico e inocente, para mais tarde aferirmos, estupefactos, a sua textura, densidade, e múltiplas perspectivas.

Esta introdução pretensiosa, de um objectivo superior, resume um problema milenar. Simultaneamente, serve-nos para falarmos de um dos mais entusiasmantes projectos britânicos dos últimos tempos: chamam-se Kero Kero Bonito, são britânicos e profundamente influenciados pela cultura asiática, e acabam de lançar o seu segundo disco, Bonito Generation. Quem são eles – e porque devemos prestar-lhes atenção?

O primeiro contacto com Bonito Generation dá-se com a capa de cores garridas, que envolve, em amarelo vibrante, a vocalista em traje de finalista universitária; será um dos temas amplamente explorados no disco, e principalmente em Graduation, um dos seus singles, impulsionado pelas dúvidas existenciais da estudante: These are the best days of our lives / That’s what the grown ups told us, right?”, dividida entre a maturidade – o diploma académico – e ainda uma ingenuidade que muito deve à infância, como se nota, um pouco mais tarde, no desajeito que caracteriza as suas palavras finais à escola: “Hey teacher! Leave those kids alone”, um caricato e assumido call-back à música dos Pink Floyd. Não saber que portas abre, no futuro, um diploma académico, é absolutamente contemporâneo e um dos grandes problemas do mundo globalizado.

Essa análise ficou a cargo da vocalista Sarah e das suas letras: simples, e embora não necessariamente confrontacionais, trazem temas caros à coming-of-age e ao quotidiano moderno. Break reclama o poder de fazer uma pausa – quem nunca o desejou, na azáfama que constitui grande parte dos nossos dias? -, Try Me desenrola-se durante uma entrevista de emprego e enuncia as várias qualidades do pretendente, onde coexistem o banalíssimo teamwork ao lado de, atentem bem, capacidade de organizar festas, e Hey Parents, faixa que termina Bonito Generation, é um diálogo com os pais, uma chamada a longa-distância já depois de abandonado o ninho dos progenitores. Quando, em várias alturas, esquece o inglês para lembrar a língua nipónica, não nos prendemos nos detalhes e seguimos a onda; é também mais uma característica da irreverência camaleónica do grupo.

Esta liberdade – de poder, sem prejuízo da sua credibilidade, ser infantil ainda que no contexto de algo real – é-lhes permitida, antes de um qualquer outro motivo, devido ao que aqui é alcançado musicalmente. Bonito Generation é um muito maduro disco pop, que chapinha sem pudor no enorme charco sujo dos seus truques e tropes, onde tudo vale desde que nos chegue carregado de açúcar. Aqui, temo-los quase todos: a cândida voz feminina, os refrões maiores-que-a-vida, a leviandade das letras, a acessibilidade dos instrumentais. Gus e Jamie, os dois artistas encarregues do som envolvente – e, um deles, dono de um respeitável repertório de camisolas de futebol – fazem-no com a melhor das intenções, e erguem os alicerces para um mundo inócuo, e quase utópico na sua incomensurável candura.

É uma postura na qual nem todos os artistas pop se revêem: a música tem que ser divertida e, em certa medida, viciante; mas podem divertir-se, também? E, mais ainda, divertir-se à custa da sua própria música e da estética associada – uma auto-referência?

Ouçamos a música que abre o disco, Waking Up, que nos fala do penoso processo de começar o dia. A dada altura, dentro da narrativa, abre-se a possibilidade de tudo o decorrido ser um sonho: então, a música acompanha a toada e transporta-se, por meio de um truque de produção, para um sítio mais distante, e irrompe um absolutamente despropositado momento solo de flauta (!), talvez uma paródia das próprias fórmulas de composição; ainda se ouve, depois de tudo isto, uma interjeição de Sarah, surpresa e satisfeita com toda esta brincadeira. Na seguinte, e como acontece com muitas outras no disco, surgem sons a propósito da letra: o barulho de um carro a travar, a dúvida de alguém, em diálogo directo com Sarah, ou o miar de um gato quando, em Graduation, surge a referência. Aproveita-se a estrutura da pop e levam-na mais longe, sempre com o cuidado de não sobrecarregar o som e a própria piada.

Trampoline, o maior single, poderia sintetizar tudo isto: fala-nos de um trampolim, metáfora que encaixa em infinitas intepretações, e das maravilhosas, extravagantes piruetas possíveis; em simultâneo, é um dos maiores bangers do ano, com um outro ridiculamente simples e eficaz, onde soa repetidamente “bounce!”, em diferentes tons, do normal ao chipmunk. Palavras pertinentes, sim: mas Bonito Generation é, de facto, um excelente disco pop e uma melhor ainda companhia para os dias menos bons.

Em suma, Bonito Generation é um disco que se propõe, à imagem das bem-intencionadas missivas de outros do género, a servir como música simples, talvez ainda uma distracção escapista ao nosso quotidiano. A sua pertinência não nos confronta, nem apazigua, mas não se coíbe de cristalizar a nossa era por meio das suas mais notáveis características: somos a sociedade do cansaço, possivelmente a mais egocêntrica até agora, e profundamente inquietos em relação ao nosso futuro. O confronto com essa realidade dá-se quando transportados para o hermético  mundo por eles criado. Será esta a missão da música pop, em geral, e este é um dos melhores trabalhos que se fizeram, nesse âmbito, no último ano.

Um encontro com crocodilos ao ritmo de Pernadas; concerto no gnration.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE]

É costume dizer-se que bom filho a casa torna. Na verdade, pode não ser o provérbio mais apropriado: nem Pernadas é bracarense, nem o gnration – onde se estreou a actuar -, será uma referência para o músico. No entanto, há cerca de um ano, ocupou o palco do Theatro Circo, no Festival Para Gente Sentada, que decorreu em Braga, para proporcionar um dos concertos mais surpreendentes da noite. Com a sua trupe de sete músicos em palco, o mote foi How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, o primeiro disco em nome próprio, de uma sonoridade eclética, bem preenchida, mas extremamente acessível.

Pois bem: um ano volvido, Braga foi novamente anfitriã da sua música. Desta vez, precisamente no gnration, o músico propôs Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them, um dos dois discos que lançou no passado dia 23 de Setembro. A expectativa poderia medir-se pela afluência ao concerto: à hora marcada, a Blackbox estava muito bem preenchida e o seu palco, habituado a não mais que três ou quatro músicos de uma assentada só, pareceu multiplicar-se (uma ilusão, apenas) para albergar toda a parafernália; uma bateria, dois saxofones, uma flauta e trompete, guitarras várias, sintetizador, e baixo eléctrico. Para os manejar, um ensemble de dez músicos, incluindo o próprio Pernadas, encarregue da guitarra e, simultaneamente, o nosso mestre-de-cerimónias.

Ainda assim, o público respondia sem considerar as chatas questões de composição. Depois da avalanche rítmica de “Problem Number 6”, viajámos para “Valley In the Ocean” a soar como uma balada de outros tempos como se tivesse sido composta na plácida contemplação intergaláctica, o seu sintetizador meloso como orientador da viagem. Quando, através dele, Margarida modula a sua voz para um belíssimo efeito, todos agradecem a si próprios a decisão de ali estar, presentes na constatação de que a música é uma grandiosa arte e fantástico veículo de emoções. Ciente do singular momento, Bruno Pernadas toma os interregnos para apresentar o disco, a banda, e o nome de cada canção. Aproveitou e agradeceu ao técnico de som e a Luís Fernandes, director do gnration, pela – perguntámos entretanto a razão – aposta num grupo tão numeroso.

No palco, o grupo reunido por Bruno Pernadas é exímio; mais do que interpretar as canções, esta reunião tomou contornos de “festa”, um encontro entre amigos sob o pretexto de dar vida a este disco. Se, ao ouvi-los em casa, nos arrebatamos com a imensa variedade da música, o intangível sentimento de maravilha – como se fôssemos crianças outra vez a descobrir sons e melodias -, em concerto podemos, além de a ouvir, constatar o crescimento das canções, ou a sua materializaçãoEvidentemente, a escola na composição que o jazz proporcionou, mais o facto de serem todos músicos competentes, faz com que tudo, esta espécie de química entre todos os intérpretes – a comunhão musical -, pareça extraordinariamente fácil. E a sua diversidade é imensa: quando, em “Galaxy”,passámos pela marcha dos sopros e as vozes, em coro, hipnóticas, tudo um bom revivalismo de uma época musical passada, custa crer que é o mesmo grupo a puxar a brasa ao rock em “Ya Ya Breathe” com uma intensidade pulsante que suplantaria muitos aspirantes a shoegazers. Isto não é jazznem pop: é um statement de devoção à música, mais uma vez, como arte.

Um pequeno roteiro do Semibreve 2016.

[ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA TRACKER MAGAZINE]

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O Festival Semibreve, evento referência do panorama cultural de Braga – e, porque não afirmá-lo, até a nível nacional – já tem o seu cartaz completo e todos os bilhetes esgotados. Como já nos ensinou noutros anos, ao longo dos três dias dedicados à sexta edição do Semibreve, os limites e convenções artísticas são desafiados; a música bate-se em pé de igualdade com outras manifestações visuais; os espaços da cidade são reapropriados, e as suas características integram a arte circundante. Mais do que um festival de música – e de várias exposições e instalações artísticas abertas ao público – é uma reunião anual de ideias de vanguarda, um satélite permanentemente atento a acontecimentos relevantes na área. Decorre entre 28 a 30 de Outubro.

1º Dia

Ao primeiro dia, unem-se na sala principal do Theatro Circo as forças de Kara-Lis Coverdale, a artista canadiana que se afirmou no ano passado com os trabalhos Aftertouches e Sirens (e, já em 2016, colaborou em Virgins, do conterrâneo Tim Hecker) e o artista visual Marcel Weber (MFO), que se tem especializado no complemento visual a peças musicais – entre as quais se contam peças de natureza distinta entre si, como sejam a música de Roly Porter e Ben Frost, ou as apresentações da Ópera Nacional de Paris.

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Kaitlyn Aurelia Smith

No seguimento, temos Kaitlyn Aurelia Smith, com disco novo este ano, EARS, que sucede a Euclid (2015), um trabalho de assumida inspiração na geometria euclidiana. Devota ao sintetizador Buchla e à simplicidade matemática dos seus osciladores (ao vivo, utiliza um modelo mais recente, o Buchla Music Easel), é sensível a tudo o resto que o possa complementar: a voz e um conjunto de sopros são recorrentes ao longo do disco, evocando simultaneamente a música de uma das suas referências, o minimalista Terry Riley, assim como a natureza da ilha de Orcas, onde viveu e se refugia amiúde.

Depois, ao virar da meia-noite, temos o nova-iorquino Ron Morelli no pequeno auditório do Theatro Circo. Morelli é fundador da L.I.E.S. (Long Island Electrical Systems), uma editora de música electrónica afecta, mas não circunscrita, ao house e techno; no entanto, os seus dois registos discográficos (Spit (2013) e A Gathering Together (2015), editado pela label do artista Prurient) não o aproximam necessariamente dessa tradição, e parecem relacionar-se como críticas, ou respostas formais, enquanto se movem pelo noise e terrenos industriais. O seu espectáculo será, então, um possível cruzar entre estes dois mundos, nas suas intersecções, e, talvez mais ainda, onde se encontrarem as suas diferenças. E, já agora, será também o seu primeiro concerto neste formato.

A noite termina no gnration, onde recebemos primeiro Andy Stott e o novo disco este ano, Too Many Voices, que virá apresentar, e depois Nidia Minaj, pertencente à editora/colectivo Príncipe Discos, que tem espalhado o caos em Portugal e siderado a imprensa especializada a nível internacional.

2º Dia

Como já aconteceu no ano transacto, a publicação britânica de referência The Wire vem a Braga para as Q&A Sessions: um momento de conversa com os músicos, conduzidos por jornalistas da revista, e abertos às perguntas do público. Este ano, um dos contemplados será Tyondai Braxton, porventura mais conhecido por ter formado e integrado os Battles até o ano de 2010; mais recentemente, 2015 deu-nos HIVE1, um registo discográfico duma instalação artística que correu mundo em 2013. A sessão terá lugar na Casa Rolão (partilha o edifício da Livraria Centésima Página).

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Hans-Joachim Roedelius, na Q&A Session do ano transacto. (foto retirada do Facebook do Semibreve)

Ainda fora do Theatro Circo, teremos o concerto de Christina Vantzou, um dos mais aguardados do festival, na Capela Imaculada do Seminário Menor. A artista opera no domínio ambient, afecto a alguns instrumentos da música clássica – talvez mais esclareça dizer que já colaborou com os The Dead Texan, e edita pela Kranky, ambos referências deste género. Neste concerto, juntam-se-lhe os bracarenses Ensemble Harawi.

R-4799776-1411439632-7024.jpeg.jpgDe volta à Sala Principal, a oportunidade imperdível de ouvir Rashad Becker, que teve o seu primeiro grande impacto há uns anos, em 2013, quando lançou Traditional Music of Notional Species Vol. I. É um trabalho extremamente hermético, longe da experimentação melodiosa de Kara-Lis, por exemplo, com base nos sons do trombone e barulhos avulsos. Redefine, sem dúvida, a própria noção de música. Com ele, teremos Moritz von Oswald, multi-instrumentista cuja carreira teve maior expressão nos anos 90 como produtor. A música fica à responsabilidade de ambos, com o foco da atenção conjunta no som do piano: um drone que se transforma, manipula e multiplica. Música exploratória, como nos relatam desde o Berlin Atonal – festival para o qual foi comissionada esta apresentação – que não deixa, ainda assim, de ser contemplativa.

O supramencionado Tyondai Braxton completa o programa da sala principal, e Jonathan Saldanha termina as festividades no pequeno auditório do Theatro Circo. Porventura, já o conhecerão como mentor dos HHY & The Macumbas (ou até de um projecto menos mediático, Fujako), mas, desta vez, temo-lo a solo e com o palco a seu cargo, a explorar ecos e detritos sonoros. Dadas as boas referências que temos dos seus outros projectos, depositamos-lhe a maior confiança.

halo624Já no gnration, Laurel Halo entrará, a julgar pelas suas mais recentes incursões discográficas, no mundo do techno e na electrónica mais esclarecida (como seria bom que retornasse para um segundo volume do seu fantástico disco de 2012, Quarantine!). A esperança é a última a morrer: a artista apresentará música que pertence ao seu próximo disco a sair no ano de 2017. Depois, termina a noite com Ron Morelli, desta vez no formato de dj set.

3º Dia

O último dia não é necessariamente um dia de menor intensidade, como já o ano passado se provou com o concerto de Oren Ambarchi. Mais uma vez, a The Wire organiza uma Q&A Session, desta feita com Kara-Lis Coverdale. Depois, voltamos ao Theatro Circo, com as duas propostas finais do festival. Primeiro, Oliver Coates, músico que se tem envolvido numa série de projectos acompanhado pelo seu violoncelo (participou, até, em colaborações com Jonny Greenwood e os inevitáveis Radiohead). No Semibreve, e aproveitando as condições únicas do festival, propõe um exercício, no mínimo, singular: ao som de uma peça para o violoncelo (não necessariamente nas práticas usuais da música clássica), introduz-nos ao mundo de Lawrence Lek, um artista visual alemão cuja obra consiste em criar mundos virtuais tridimensionais exploráveis, como se de um videojogo se tratasse, satíricos e críticos da nossa realidade hiper-tecnológica e consumista – não será descabido traçar semelhanças com alguma da estética/filosofia do vaporwave.

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Em Unreal Estate, Lawrence Lek supõe a compra da Royal Academy of Arts por um investidor privado.

E a seguir, a fechar o festival, a aguardada presença de Paul Jebanasam & Tarik Barri, compositor e artista visual, respectivamente, que em conjunto apresentarão Continuum, disco editado no presente ano; um registo épico, intenso e exploratório, intimamente ligado às ideias físicas que regem o nosso mundo imediato, e, simultaneamente, o universo: rígidas, definitivas, e imutáveis; por outro lado, Continuum é um caótico rendilhado entre cordas, coros, feedback e resíduos digitais, errático e estruturalmente ingovernável – uma assumida dicotomia (filosófica) que ambos atacarão ao longo do espectáculo. Para a componente visual, Tarik criou um software específico para estas apresentações. Mediante o comportamento de certos algoritmos que manipulam leis físicas virtuais, projecta um universo orgânico e reajustável mediante a alteração dos mesmos parâmetros; e devido à natureza aleatória e volátil do seu programa, o resultado será, para eles também, uma novidade. Com eles, encerra-se a sexta edição do Semibreve.

Com tudo isto, não esqueçamos as instalações artísticas expostas no Theatro Circo e gnration ao longo de festival. Mais uma vez, temos, em Braga, um dos melhores festivais do mundo. Vejamo-nos por lá!

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B Fachada em Braga: o ponta-de-lança da gnration d’ouro.

[ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA TRACKER MAGAZINE]

Mais português que nunca – assim nos prometeram o espectáculo de B Fachada, no passado Sábado, no gnration. Levanta-se a questão: como ser ainda mais português quando se o é em pleno, e ciente dessa condição?

Dada a hora marcada, ainda o pátio exterior do gnration aguardava a chegada do seu público. Um espaço exterior confortável, de formato rectangular, envolvido pelas galerias do edifício; além disso, inteligentemente desnivelado – pense-se na inclinação de Paredes de Coura – para que não haja maus lugares. No chão, a convidar o sentar, espalhavam-se algumas almofadas à disposição – um bom pormenor da organização. Atribui-se a responsabilidade do atraso, devidamente acautelado, à selecção nacional de futebol, que não marcou o golo da vitória sobre os croatas mais cedo.

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Quando temos o recinto mais composto, lá nos surge o artista: t-shirt básica, o conforto da calça de fato de treino, e um copo bem cheio de, nada indicando o contrário, uma bela pomada. Estamos todos à vontade, no conforto de jogar em casa. Não era preciso, mas o tio B agradece a presença – e a preferência, em detrimento da buzinas afectas à festa nacional (que mal se ouviram – especulamos que só, eventualmente, a partir duma hipotética meia-final). Braga foi a nossa Fátima, e o Fachada ambos fado e futebol.

0003369244_10A acompanhá-lo, vieram guitarra eléctrica e uma parafernália electrónica de sintetizadores/samplers/etc, donde são disparados os corpos instrumentais das músicas – muito importantes, por exemplo, no mais recente trabalho, o terceiro

disco homónimo B Fachada. A primeira música que ouvimos, ‘Camuflado’, define este disco, com um tecido musical remendado, complexo, muito interessante e bem produzido (por vezes, menos intensamente e dadas as devidas diferenças, a fazer lembrar “colagens sonoras”, ou ‘plunderphonics’, como lhe chama o jornalismo musical – ouça-se ‘Pifarinho’). No final de cada música, por entre os aplausos e alguns mais eufóricos assobios, trocava entre guitarra e teclas e contraía o rosto de modo afirmativo, com confiança, uma espécie de aprovação como quem confirma um resultado, de certa forma, já esperado – algo como, “porra, que esta correu bem”. Por ele, e por nós, correram todas.

“Zecas e Fraternidades a sujar-me o babete / Gastámos a flor da vontade a preparar o come back / […] Ponho o camuflado a render consequentemente a malta paga para ver”

O seu concerto não incide, em particular, neste disco – os alinhamentos vão um pouco ao sabor da música que tocou imediatamente antes. Por isso, ao vivo temos a oportunidade de revisitar grande parte da sua carreira, e aferir a sua evolução – ou transformação – entre as várias fases (temáticas, musicais, líricas) que atravessou ao longo de catorze registos discográficos (em 7 anos). Simultaneamente, enquanto a música é interpretada, não se inibe de libertar a expressividade da sua persona, que sempre nos chega como extremamente genuína, na entoação das palavras cantadas e nas incontidas gargalhadas que fogem entre alguns versos, cúmplices com o público, reflexo da dimensão verdadeiramente cómica de alguns dos seus escritos.

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Recorde-se, como porventura o exemplo mais flagarante, o insolente e amoral contador de histórias em É Pra Meninos (2010), um disco de instrumentação pertencente ao imaginário infantil, circunstância que dá às narrativas uma simplicidade enganadora e subliminar; no entanto, tememos pelos miúdos que ouviram ‘Questões de Moral’ ao crescer – uma possível geração de perigosos revolucionários.

A dimensão lírica da sua música é, de facto, uma das mais importantes características a apontar: não é, como por vezes transparece noutros músicos, uma muleta de aceitação ou de comodidade, para se cantarem banalidades. A língua portuguesa enriquece com o cantautor; há conta, peso, e medida na poesia (ou prosa?) do tio B, heterogénea até em períodos curtíssimos de tempo: leia-se (e ouça-se!) o a3768835108_10Fachada romântico circa Dezembro de 2009, no primeiro homónimo, e o contraste com Um Fim de Semana no Pónei Dourado, gravado apenas entre «sexta-feira 23 de janeiro e a segunda 26», ainda no mesmo ano. Dando um pequeno salto cronológico, chegamos a insurreição épica de Deus, Pátria e Família, em 2011, apenas uma faixa ininterrupta de 20 minutos, e já imensamente virado para uma crítica social. Sem nunca esquecer a criatividade musical, claro.

E, pelo meio do concerto, apresenta-nos um pouco à história da música portuguesa, e a algumas das suas raízes: de José Afonso, uma directa e assumida influência (a vários níveis), cantou ‘Os Vampiros’. ’Tenho Barcos Tenho Remos’, esta última – parcialmente cantada sem amplificação, num belíssimo momento – foi interpretada pelo mesmo Zeca ainda no disco d’Os Vampiros, para a qual compôs apenas a música. A letra, e a muito própria interpretação vocal, remonta à canção popular alentejana. Cantou ainda uma terceira, uma adaptação do ‘Hino da Maria da Fonte’, historicamente relevante para a região minhota. São momentos retirados a um importante extracto cultural português, que muitos influenciou, e seguirá o Tio Bernardo essa tradição, não necessariamente colinear, mas com um importante denominador comum.

 

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Enquanto tudo isto acontecia, a timidez da audiência, nitidamente segregada ao longo de várias gerações, ia paulatinamente quebrando ao longo do concerto – bamboleou-se o tronco ao som de ‘Dá Mais Música à Bófia’ e trocaram-se risos e memórias nostálgicas com as rebeldes ‘Questões de Moral’; fosse este um espectáculo em pé, e a matriz dançável e mais electrónica de tendência africana, muito presente em Criôlo, de 2012, poderia ter arrancado uma ginga mais arriscada aos presentes.

Acusando o cansaço de quem não tem o pulmão de bola, este homem de família prepara uma saída incólume, sem a maçada de um encore (receberíamo-lo de bom grado), ao som da já clássica ‘Quem Quer Fumar com o B Fachada’. Despede-se com um sincero agradecimento; nós ficámos saciados e de coração cheio. O convite ficou por aceitar, numa futura ocasião. Depois, fomos para casa – há que respeitar a hora dos patinhos. É pra meninos.

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