15/12 – Nova pop, um momento célebre do rock, e várias experimentações bonitas.

Este programa foi amplamente planeado de antemão, embora não tenha tido um tema linear ao longo de toda a hora.

Na primeira parte, dedicámo-nos a música contemporânea: a menção à nova mixtape de Charli XCX era obrigatória (e está maravilhosa, talvez melhor que Number 1 Angel), e a John Maus também, dado o seu disco novo no ano passado.

Depois, achei necessário ainda recordar mais trabalhos de Dean Blunt, cuja voz artística considero singular e ainda um paradigmático reflexo dos tempos modernos. Depois da passada semana, estive algum tempo a ler entrevistas suas, e daí apanhei a referência ao momento em que Kim Gordon e LL Cool J se encontraram para uma surreal conversa.

O período intermédio ficou entregue ao pós-punk e a várias suas derivações. Ficámos com um trabalho recuperado pela Upset The Rhythm, os Normil Hawaiians, e a sugestão da Porto Calling, os Glaxo Babies. Destaco ainda os Pop Group, que suscitaram as mais variadas reacções: o seu disco de estreia Y é das coisas mais fantásticas e arriscadas que por cá passaram. Para terminar, passámos pela compilação Songs in the Key of Z, um deleite para quem gosta da sua música incorrigivelmente alienada.

E, para terminar, uma passagem por um dos trabalhos experimentais do ano passado, e a despedida ao som de um clássico natalício em versão vaporwave. Uma maravilha!

 

1. Charli XCX – Backseat (feat. Carly Rae Jepsen) (Pop 2, 2017)
2. John Maus – Touchdown (Screen Memories, 2017)
3. Dean Blunt – Papi (The Redeemer, 2013)
4. Blue Iverson – Soulseek (Hotep, 2017)
5. LL Cool J – 1-900 LL Cool J (Walking With a Panther, 1989)
6. Sonic Youth – Kool Thing (Goo, 1990)
7. Glaxo Babies – This Is Your Life (Put Me On The Guest List, 1980) | sugestão da Porto Calling.
8. Normil Hawaiians – Yellow Rain (More Wealth Than Money, 1982)
9. The Pop Group – Thief of Fire (Y, 1979)
10. B. J. Snowden – America (Songs in the Key of Z, Vol. 2, 2000)
11. Rock ‘n’ Roll McDonald’s – Wesley Willis (Songs in the Key of Z, Vol. 1, 2000)
12. Wacław Zimpel & Jakub Ziołek – Eltyra (Zimpel / Ziołek, 2017)
13. nano神社 (✪㉨✪) – All I Want For Christmas Is You (Vaporwave Christmas Story, 2017)

1215.png

 

Anúncios

A desconstrução do cinema por Jean-Luc Godard; encantados por Anna Karina em Pierrot Le Fou.

media.jpgJean-Luc Godard. Um poderosíssimo nome que remete imediatamente para o cinema francês, e sobretudo o cinema francês da Nouvelle Vague; literalmente, uma nova vaga – de ideias, processos, abordagens, mas também uma nova vaga de cineastas – que num curto espaço de tempo reformulou a forma de fazer e interagir com o cinema.

Mas ainda antes, note-se a sequência de importantes acontecimentos históricos que precede e fomenta esse singular período: durante a ocupação nazi da França, o cinema foi censurado e vetou-se o país às produções americanas; quando, em 1944, termina a ocupação, surgem em catadupa todos os filmes proibidos até então. Aparecem os primeiros cineclubes – que são frequentados por Truffaut, Godard, Rivette, Resnais, etc. – e as publicações dedicadas ao cinema: entre elas, a Cahiers du Cinéma, onde muitos se estabelecem e a partir da qual se tornam críticos e influenciadores. Alimenta-se a ideia de que o cinema é, afinal, uma arte – e deve ser pensado como tal.

1_cahier.jpgEsta geração de cineastas foi a primeira que cresceu e se formou a idolatrar o cinema e os seus heróis. Na Cahiers, promoveram a teoria do auteur – que defendia, no contexto de grandes estúdios e Hollywood inclusive, o forte traço autoral de certos realizadores (Hitchcock, Hawks, Ray, etc.) -, e fizeram cinema independente, cru, sem fidelidade ao antigo estilo formal – aí, inovaram.

Pierrot Le Fou, com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, é exemplo perfeito da experimentação possível durante o período, e também do que tornou o cinema de Godard tão especial. É a história de um homem que deixa a mulher para se envolver numa outra história, mas com a babysitter de casa – que afinal já conhecia há alguns anos, e que, descobrir-se-á, tem muita coisa por contar. Partem em viagem, e emulam um espírito que é tipicamente americano; eles são Bonnie e Clyde ainda antes de Arthur Penn levar a sua história ao cinema, em 1967 (e, na verdade, alguns anos antes de Pierrot, Godard foi sondado para fazer o icónico filme – coincidência?).

Em Pierrot Le Fou, além de uma súmula das várias características da Nouvelle Vague, temos o expoente máximo da primeira fase de Godard. É cinema experimental, construído na intuição, filmes que sabem serem filmes e ganham força no quebrar dessa ilusão. No seu cinema, a primeira emoção será estética, denunciada nas cores, na edição arrojada, nas várias referências intertextuais à literatura, música e outro cinema. Mas, a espaços, o filme desprende-se da sua natureza auto-referencial e revela a sua beleza: atinge-nos com sentimentos. Contemple-se esta nova linguagem do cinema. Abram alas à Nouvelle Vague!

z.jpg

08/12 – O discurso elusivo de Dean Blunt, Yves Tumor, e NON Records; ainda soul, e ambient.

Na semana anterior a esta emissão, e já com a ideia de explorar a música de Dean Blunt, encontrei uma discussão recente sob o tema ‘What’s the most forward thinking movement or genre in the 2010’s?‘ na qual ele foi necessariamente mencionado pelo seu vasto trabalho na década: com Hype Williams, a solo, com Babyfather, etc. Em 2014, lançou Black Metal (que ouvimos há duas semanas): um disco extraordinário, como se fosse uma depurada síntese dos vários temas, simbólicos e musicais, que tem vindo a construir; mas para esta emissão, incidimos em trabalhos anteriores. E, tal como Blunt, decidi explorar a música de Yves Tumor, que tem um catálogo menos numeroso.

A música de ambos tem semelhanças – basta notar que as intercalei na emissão e coabitaram perfeitamente, sem atropelos, como se se complementassem – e as suas posturas artísticas partilham temas comuns: a necessidade de anonimato, a ideia da identidade racial, a flexibilidade criativa para poder fazer qualquer tipo de coisa. Dean Blunt, mais que Yves Tumor, é uma estranha e ininteligível personalidade artística (que conclusões se podem tirar quando tentamos perceber o fenónemo Lil B e Dean Blunt, juntos?).

Juntando a estes dois nomes, trouxe ainda o colectivo da NON (NON Records, NON Label, etc.), que integra um discurso plural em relação ao papel dos negros na cultura. É um diálogo necessário e no qual participam imensas vozes; mesmo as opiniões de Dean Blunt em relação a isso são muito interessantes.

 

0. Michel Legrand – Chanson des Jumelles (Les Demoiselles de Rochefort, 1967)
1. Stevie Wonder – Knocks Me Off My Feet (Songs In The Key of Life, 1976)
2. Yves Tumor – The Feeling When You Walk Away (Serpent Music, 2016)
3. Dean Blunt – The Narcissist (The Narcissist II, 2012)
4. Dean Blunt – GALICE (The Narcissist II, 2012)
5. Yves Tumor – Limerence (Mono No Aware, 2017)
6. Dean Blunt & Inga Copeland – 8 (Black is Beautiful, 2012)
7. Yves Tumor – AfricaAshes (Experiencing the Deposit of Faith, 2017)
8. German Shepherds – Love Me (Music for Sick Queers, 1985) | sugestão da Porto Calling.
9. Chino Amobi – ROTTERDAM (Airport Music for Black Folk, 2016)
10. NKISI – Collective Self Defense (NON WORLDWIDE COMPILATION VOLUME 1, 2015)
11. Farai – The Sinner (NON WORLDWIDE COMPILATION VOLUME 1, 2015)
12. Yves Tumor – Anya’s Loop (Experiencing The Deposit of Faith, 2017)
13. Woo – It’s Love (Into The Heart of Love, 1990)
14. Woo – Taizee (Into The Heart of Love, 1990)
15. TCF – C6 81 56 28 09 34 31 D2 F9 9C D6 BD 92 ED FC 6F 6C A9 D4 88 95 8C 53 B4 55 DF 38 C4 AB E7 72 13 (Mono No Aware, 2017)
16. Stevie Wonder – Isn’t She Lovely (Songs In The Key of Life, 1976)

0812_mixdown.png

A moderna tradição multicultural; Conan Osiris sobre ADORO BOLOS.

Estabeleci como uma espécie de resolução de ano novo dedicar mais atenção a música nova, fresca, fruto da sua contemporaneidade; porque a cultura não se faz apenas e só de olhar o retrovisor, ou de escavações arqueológicas no agora imenso domínio dos artefactos digitais. Há uma espécie de segurança em consumir arte do passado, já estacionária no tempo, com as suas influências delimitadas: por lhe sabermos o antes e o depois, o risco de uma surpresa é diminuído. Qualquer reacção provocada pela sua irreverência faz já parte do passado.

Mas, há cerca de um mês, enquanto o país e o mundo se convalesciam da época natalícia no limbo existencial que precede o dobrar do ano, Conan Osiris aproveitou um período desprovido de grandes acontecimentos para lançar o disco ADORO BOLOS, editado junto da AVNL Records. Ao colectivo já tem chegado atenção estrangeira: em 2014, a THE FADER mencionava os ‘sons singulares do underground de Lisboa’ – no qual se inclui necessariamente, por exemplo, a Príncipe Discos – e pouco tempo depois a britânica WIRE mencionaria Marie Dior, entre outros, na edição impressa.

De volta a Conan Osiris. Depois de vários trabalhos soltos, dos quais muitos ainda estão registados na sua conta do Soundcloud, 2016 viu chegar MUSICA, NORMAL, colecção de pop de inspiração e produção modernas, com traços da tendência que bebe do dancehall (presente em muitos hits recentes americanos), das melodias lânguidas, de alguns laivos musicais pertencentes a outras geografias. Tudo isto, e uma atitude condizente com a intencional vacuidade da música pop (cantada em inglês), denunciada no humor e na desenvoltura das suas letras.

Um ano depois, um novo disco. E poder-se-ia fazer uma análise preliminar das intenções de ADORO BOLOS, começando pelo singular statement no seu título, ou pela figura do petiz que agarra ternamente um pintainho, na capa do disco. A declaração pueril de amor à pastelaria, tanto como o símbolo de infância e inocência, são possíveis sinais de um trabalho mais íntimo e pessoal. Ou melhor: seria, com certeza, no âmbito de outro artista qualquer.

Porque na obra de Conan Osiris, a poesia finta a definição hermenêutica e ultrapassa-nos a compreensão. Se por ora satiriza lugares comuns ou os clichés do género, produz noutra ocasião – quando não em simultâneo – assertivas imagens ou ideias que pertencem por excelência ao universo que se propõe a emular. Sejamos concretos: BORREGO, faixa inaugural, por entre batida e voz soturnas, canta um amor transviado – a culminar numa auto-atribuição pejorativa – que remonta a Variações, por exemplo, ou à fatalidade do fado, cruzados por uma sensibilidade étnica ou multicultural no timbre e entoação da voz.

Para mim a multiculturalidade é omnipresente”, escreve Conan, por e-mail, em resposta a uma série de perguntas que lhe faço. “Tive a sorte de ter tido uma educação inclusiva”, e recorda uma infância pautada pelas “novelas brasileiras com os mais distintos temas, a música de dança de todo o mundo que passava na primeira Rádio Cidade, e partilhar cassetes e cds de kizomba e kuduro na escola”. A ideia da partilha física da música é já um reflexo do passado, embora não muito distante, numa altura em que a nossa cultura ainda era maioritariamente determinada pelo nosso meio geográfico (a cidade, o bairro), sem a influência da Internet como meio de comunicação global. Havia, ainda, uma diferença entre a nossa cultura e a que nos chegava pelos media do resto do mundo, pré-globalização. E esta noção parece estar intimamente ligada com a sua música.

Hoje em dia, e principalmente para os putos, já não há muita distinção; mas, claro, há 15 anos havia. Hoje se eles são k-poppers, metaleiros, ravers, trappers, fazem um evento no Facebook, conhecem-se, curtem a cena deles e conseguem sempre arranjar esse porto de abrigo” – a internet a funcionar como formadora de subculturas. Remata: “são benefícios construtivos de crescer já dentro da net.

Conan Osiris numa das festas da AVNL, numa capela nas Caldas da Rainha.

Uma outra das consequências da vida com internet, amplamente estudada desde a sua génese, é o poder das hiperligações – rápidas associações à distância de um clique, que nos levam de um texto para um outro radicalmente diferente – e que mudou a forma de lermos e apreendermos informação. Se, antes, a atenção era monogâmica, o paradigma mudou em prol de pequenos rasgos dirigidos para vários quadrantes, um autêntico multitasking mental, onde coexistem várias ideias, ligadas não por uma coerência temática, mas sim por uma ténue associação. É uma ideia que se ajusta a ADORO BOLOS, e que explica como podem coexistir, na mesma faixa, uma calma aura baladeira, e logo depois um outro electrónico, desenvolto, com ritmos africanos em altíssima rotação (como em NASCE NAS ACUCENAS).

Nesse sentido, este disco parece existir numa ilha povoada de contradições: enquanto a electrónica da base das músicas é maioritariamente um reflexo da música moderna internacional, o estilo lírico e vocal revelam anacronismos onde se inclui a nossa cultura, os nossos artistas passados, a língua portuguesa e, sobretudo, seus derivados; uma tecelagem de diversidade no crioulo cruzado com um acordeão, o mar da saudade como paisagem para deglutir carne assada, e um rissol. Para Conan, escrever em português, neste português, “[não é uma experiência] mais genuína, mas entendo que as pessoas recebam de forma mais genuína”.

Posto tudo isto, não é descabido assumir que este é um processo de um único interveniente dada a ausência de colaborações, seja nas faixas ou noutra qualquer fase da produção do disco. “O meu percurso tem sido tão solitário que me habituei assim – tive que fazer feat. comigo próprio”. Talvez só assim, sem concessões a visões artísticas de outrem, fosse possível produzir algo tão único, tão pejado de personalidade – mesmo que nos chegue amortalhado num humor auto-irónico, que alguns descartarão como sinal de pouca seriedade. “Eu preciso de me rir; a parte da sinceridade já vem de mim. Mentiras são água parada (…) Agora não sei partilhar [este] espaço, mas talvez consiga no futuro”.

a2014915527_10.jpg

São, ao todo, onze faixas que destoam de tudo o que possam ouvir neste ano. ADORO BOLOS chega, impõe o seu estilo, deleita-nos e vai embora com um sentido agradecimento. Este será o ano para o apresentar ao vivo, seja na cave de um obscuro espaço alternativo, ou frente a milhares no palco de uma Feira Popular –  e, já agora, qual será a demografia que porá com interesse num evento do Facebook? Conan Osiris continuará o seu trabalho solitário: um universo pessoal e particular, contemporâneo e imbuído de tradição, onde joga à sueca com Paião, Amália, e Variações; o lanche é à base de enchidos, numa barraca de farturas, e acabam todos a dançar ora o vira, ora a última sensação na cena do kuduro. Que belo mundo, este de Conan Osiris.

ADORO BOLOS ESTÁ DISPONÍVEL NO BANDCAMP.

01/12 – Uma história mal contada; música para solidão acompanhada.

(não se perderam emissões desde a mais recente; esta hora foi, na verdade, corresponde a dia 24/11, mas por motivos técnicos não chegou a ir para o ar)

Foram duas semanas consecutivas sem a possibilidade de fazer o directo. E esta, assim como a anterior, foram ambas dedicadas à construção de uma narrativa, mais ou menos explícita, à volta da Laura. São, obviamente, ainda experiências: desta vez, não houve narração das músicas escolhidas, e é um registo muito diferente do habitual. Que me interessa, claro, embora seja preciso trabalhá-lo.

Quanto à selecção musical, o facto de não ser necessário apresentar e contextualizar a música permitiu escolhas mais arrojadas. Vale a pena aprofundar a música de Kirin J Callinan (que aqui se apresentou em colaboração com James Chance!) e de Pan Daijing, artista chinesa mas residente em Berlim que explora estruturas sónicas mais abrangentes (já se referiu ao disco Lack como uma espécie de ópera moderna).

No campo dos artistas já estabelecidos, recordámos Dean Blunt – que pode ter influenciado todo o âmbito da emissão – e ainda David Thomas Broughton; talvez lhes deva a noção de música para ‘solidão acompanhada’; Bob Dylan Annette Peacock; e um belíssimo, poderoso momento dos Nurse With Wound, do disco de estreia, em 1979.

Espero que gostem! Foi a última emissão neste registo.

1. Charlie Parker – Summertime (Charlie Parker with Strings: The Master Takes, 1995)
2. Kirin J Callinan – Down 2 Hang (feat. James Chance) (Bravado, 2017)
3. Roger Eno – Where You Once Were (This Floating World, 2017)
4. Bob Dylan – If You See Her Say Hello (Blood on the Tracks, 1975)
5. Tabaco y sus Metales – Cela Que Te Cela  (El Timbalero, 1985)
6. David Thomas Broughton – Execution (The Complete Guide to Insufficiency, 2005)
7. Annette Peacock – I’m the One (I Belong To a World That’s Destroying Itself, 1968)
8. Brian Eno – By The River (Before and After Science, 1978)
9. Craig Armstrong – Waltz (As If To Nothing, 2002)
10. Pan Daijing – Phenomenon (Lack, 2017)
11. Dean Blunt – Blow (Black Metal, 2014)
12. Nurse With Wound – Two Mock Projections (Chance Meeting on a Dissecting Table of a Sewing Machine and an Umbrella, 1979)
13. Dean Blunt – Molly & Aquafina (Black Metal, 2014)

pendente.png

17/11 – Soul melosa, música de devoção, transcendência_experiências meta-narrativas.

Nesta semana, a hora da emissão colidia com os concertos do Festival Para Gente Sentada – ou melhor, colidiria: longa história. Por isso, socorri-me de uma voz habitual nas emissões gravadas, e entreguei-me, mais uma vez, a escrever tontices e tentar, a partir de diálogos absurdos, tirar algo de proveitoso para o vasto auditório. Às vezes corre bem. Desta vez, o pretexto foi uma espécie de romance entre as duas personagens (que não são humanas), que partem de uma certa presença digital em direcção à existência física – daí se sentir o som, cuja ideia advém, se se recordam, de uma das emissões de Outubro que já está arquivada em podcast. De resto, são óptimas emissões para testar alguns limites, e trazer coisas que doutra forma não ouviríamos. Fica a lista completa das músicas que passaram.

 

1. D’Angelo – Untitled (How Does It Feel) (Voodoo, 2000)
2. Jeff Buckley – Yeh Jo Halka Halka Saroor Hai (Live at Sin-É, lançado em 2003 na Deluxe Edition do EP original de 1994 – esta faixa é uma cover de Nusrat Fateh Ali Khan)
3. DUDS – Signal, Sign (Of a Number or Degree, 2017) | sugestão da Porto Calling.
4. Yves Tumor – E. Eternal (Experiencing The Deposit Of Faith, 2017 – download gratuito (e legal) aqui)
excerto de I am sitting in a room, de Alvin Lucier: primeira iteração
5. Sheila Chandra – A Sailor’s Life (The Zen Kiss, 1994)
6. Steely Dan – Peg (Aja, 1977)
7. A.E. Bizottsag – Linaj, Linaj, Van-Van-Van (Kalandra Fel!!,
1983)
8. J. S. Bach interpretado por Capella Istropolitana sob Christian Benda – Sonata (Trio a Flauto traverso, Violino e Basso continuo): 2: Allegro
9. Ryoji Ikeda – data.adaplex (Dataplex, 2005)
10. Hiroshi Yoshimura – Soto Wa Ame (Music For Nine Post Cards, 1982)
11. Sheila Chandra – Speaking in Tongues III (The Zen Kiss, 1994)
12. Queen – Who Wants To Live Forever (A Kind of Magic, 1986)
para efeito sonoro, usou-se Tone Pig de Macula Dog durante a emissão

capa.png

 

10/11 – Electrónica afro-latina, improvisações de cantautor e força mística.

No dia da emissão, havia lido um artigo na revista Wire sobre electro champeta, uma actualização moderna da champeta, que consta ser um estilo de música muito popular na Colômbia. Em Fevereiro de cada ano, fazem-se enormes festas e desfiles, no que imagino ser algo parecido com o Carnaval brasileiro. E este electro champeta é algo deste género, mas não consegui determinar ao certo o que o caracteriza, nem ouvir muito mais do que isso – é música que não está disponível depois das pesquisas mais óbvias, ou, e talvez sobretudo, não se categorizou segundo os nomes atribuídos pela crítica musical estrangeira. Tenho uma vontade imensa de, um dia, conseguir levar a cabo sets deste género: música dançável, comunitária, que serve um propósito de descoberta também.

A questão da descoberta, na presente época, é curiosa. O mundo digital está à distância de um clique e cremos que toda a música está impecavelmente catalogada no Spotify. Não é esse o caso – felizmente! -, e a música de Aleke Kanonu é disso exemplo. Há pouquíssima informação disponível sobre o músico, e o seu disco Aleke, juntamente com um single editado posteriormente, foram recentemente reeditados. Neste caso, a obra foi reeditada pela Presch Media, uma editora austríaca; mas têm sido, nesta última década, incontáveis as histórias de músicos que voltam à ribalta, ou chegam ao reconhecimento pela primeira vez em já longas carreiras, devido à força da Internet (como não lembrar o caso de Rodriguez, por exemplo?). Se não ouviram, a música de Aleke Kanonu é obrigatória: afro funk, soul embebido em batidas graves e dançáveis, e uma mão cheia de percussão acústica para tudo ficar um pouco mais exótico. Uma maravilha.

Para terminar, uma nota sobre Eric Chenaux. O seu disco Skullsplitter tem algumas faixas interessantíssimas, e tenho, como disse, uma enorme admiração pela música que soa desafinada, mal estruturada, e que de uma forma ou de outra fuja ao cânone (no caso de Chenaux, há também uma forte componente de improvisação). A propósito, recordei a música de Kath Bloom & Loren Mazzacane, no disco Moonlight – que é belíssimo, e mais trapalhão ainda! -, e, no final, mencionei David Thomas Broughton, e o seu disco The Complete Guide To Insufficiency, de 2005, que fez a ponte para o disco de Richard Dawson, já a fechar a emissão.

1. La Tromba – Calaba Calabao (Palenque Palenque: Champeta Criolla & Afro Roots in Colombia 1975-1991, 2010)
2. Owiny Sigoma Band – Changaa Attack (Nyanza, 2015)
3. Owiny Sigoma Band – Ojoni Wopio (Nyanza, 2015)
4. Aleke Kanonu – Mother’s Day (Aleke, 1980)
5. Aleke Kanonu – Happiness (Aleke1980)
6. The Smiths – Ask (1988) | sugestão da Porto Calling.
7. Eric Chenaux – Spring Has Been a Long Time Coming (Skullsplitter, 2015)
7. Eric Chenaux & Elöise Decazes – Dedans la ville de plaisantement (La Bride, 2017)
8. Eric Chenaux & Norberto Lobo – The Addison (The Byre, 2017)
9. Kath Bloom & Loren Mazzacane – can you find me? (Moonlight, 1984)
10. Richard Dawson – Ogre (Peasant, 2017)

1011_mixdown.png

03/11 – Hip-hop instrumental de Dilla, Brian Eno, e a descoberta etnográfica de Hassell.

Para a primeira emissão de Novembro, propusemo-nos a uma descoberta preliminar da música de J Dilla, sintetizada em Donuts, o seu trabalho de excelência. É um magnífico estudo do poder do hip-hop instrumental, e do sampling como agregador de vários sons distintos. Um álbum essencial para entender o género, e a música em geral. Depois, breve passagem pelos Roxy Music de Brian Eno de Brian Ferry – porque sim, também nos sabemos perder na música ligeira (que não o é assim tanto).

A recomendação da Porto Calling levou-nos aos já nossos conhecidos Limiñanas, sobre quem uma vez suscitámos várias dúvidas a nível da sua nacionalidade, e voltam ao programa com o novo disco Malamore.

Na segunda parte da emissão, dedicámo-nos a vários discos e estéticas sempre sob o eixo de Jon Hassell, trompetista americano que explorou música do mundo, adaptando-a à estética ocidental, por meio de uma abordagem algo etnográfica. Da sua carreira, percorremos pouco mais de quatro anos, do Paquistão à Malásia, com direito a paragens nas carreiras que o intersectaram – Brian Eno uma outra vez, ele que colaborou com meio mundo da música, e Pandit Pran Nath, mestre paquistanês do canto – e de outros que partiram dos seus ensinamentos – como Colin Stetson, por exemplo, ou os Visible Cloaks, useiros do conceito da música verdadeiramente universal: a Fourth World. Fica o link para uma complementar entrevista a Hassell.

Para terminar, breve passagem pela compilação Sounds of the Unexpected, que tem de tudo um pouco, e em particular muita música alucinada dos anos 70.

1. J Dilla – Lightworks (Donuts, 2006)
2. J Dilla – Time: The Donuts of the Heart (Donuts, 2006)
3. J Dilla – Airworks (Donuts, 2006)
4. Roxy Music – While My Heart Is Still Beating (Avalon, 1982)
5. Roxy Music – India (Avalon, 1982)
6. The Limiñanas – Malamore (Malamore, 2016) | sugestão da Porto Calling.
7. Visible Cloaks – Terrazzo (feat. Motion Graphics) (Reassemblage, 2017)
8. Jon Hassell – Cobra Moon (Earthquake Island, 1978)
excerto da música de Pandit Pran Nath
9. Jon Hassell – Adios Saturn (Earthquake Island, 1978)
10. Brian Eno & Jon Hassell – Griot (Over ‘Contagious Magic’) (Fourth World Vol. 1 – Possible Musics, 1980)
11. Brian Eno & Jon Hassell – Chemistry (Fourth World Vol. – Possible Musics, 1980)
excerto da música de Colin Stetson
12. Jon Hassell – Courage (Fourth World Vol. 2 – Dream Theory in Malaya, 1981)
13. Brian Eno & David Byrne – America Is Waiting (My Life in the Bush of Ghosts, 1981)
14. Jan Davis – Watusi Zombie (Sounds of the Unexpected: Weird & Wacky Instrumentals from Pop’s Final Frontiers, 2017)

0311.png

27/10 – Funk, jazz, e soul da ternura; experiências electrónicas variadas.

Mais uma caótica emissão.

Desta vez, e devido ao SEMIBREVE, não pôde haver directo. Por isso, muni-me de alguns clássicos – os Parliament são absolutamente obrigatórios – e de discos que me haviam acompanhado nos últimos dias – como é o caso de Curtis Mayfield, cujo disco de 1975 é já um habitual refúgio. O toque ao jazz ligeiro foi dado por Roy Ayers e, depois, Chet Baker.

Depois, dado o motivo de haver SEMIBREVE com as suas explorações electrónicas, seguimos essa toada para a segunda parte da hora. Primeiro, introduziu-se o nome de Raymond Scott, um dos pioneiros na manufactura de instrumentos electrónicas e na sua utilização. Lightworks, a primeira música que dele ouvimos, será recuperada na emissão seguinte, por J Dilla.

A parte final é uma jornada sem interrupções por nomes contemporâneos da música digital. V/VM é Leyland Kirby, agora mais conhecido por The Caretaker, e Sick Love reúne algumas experiências que o aproximam dos pequenos ensaios Ecco Jams de Chuck PersonPLOM produz glitch frenético (e divide a cassete Essential Nerd Tools com BITEMAP, que compôs a primeira parte num Gameboy); Giant Claw assina um dos trabalhos mais interessantes do ano, num estilo plunderphonics hipnagógico difícil de assimilar. Para terminar, os Visible Cloaks voltam ao programa, e emprestam uma música indeterminada. Falaremos mais deles na próxima emissão a arquivar.

1. Parliament – Mothership Connection (Mothership Connection, 1975)
2. Roy Ayers – Out of Sight (West Coast Vibes, 1963)
3. Chet Baker – Tangerine (She Was Too Good to Me, 1974)
4. Curtis Mayfield – So In Love (There’s No Place Like America Today, 1975)
5. Curtis Mayfield – Jesus (There’s No Place Like America Today, 1975)
6. Raymond Scott – Lightworks (Manhattan Research, Inc., 2000)
7. Raymond Scott – New Year’s Eve In a Haunted House (Reckless Nights and Turkish Twilights: The Music of Raymond Scott, 1992)
8. V/VM – The Lady In Red (Is Dancing With Meat) (Sick Love, 2000)
9. PLOM – LOVE-LETTER-FOR-YOU.txt.vbs (Essential Nerd Tools, 2017)
10. Giant Claw – Soft Channel 004 (Soft Channel, 2017)
11. Visible Cloaks – ???

oscaa22_mixdown.jpg

20/10 – Blues, jazz e voz em emissão clandestina.

Nesta emissão, inspirada ainda nas portas abertas pelas emissões anteriores (na definição de blues, por exemplo), o início foi dedicado a Muddy Waters, um dos maiores do blues, e também a Captain Beefheart, com a sua Magic Band, que terá “apropriado” a linguagem em dois trabalhos distintos. Curiosamente, Trout Mask Replica foi editado no período entre os dois discos que ouvimos.

Depois, a sugestão da Porto Calling remete-nos à música de Dusty Springfield – clássicos que vale muito recordar. Houve ainda os Weather Report, nome essencial do jazz fusão, com uma amostra do seu belíssimo Heavy Weather.

Para terminar, e a propósito do SEMIBREVE que se avizinhava, explorámos alguns dos nomes que passaram pelo festival (o disco Reassemblage poderá ser interessante nos ouvidos certos) e fechámos as contas com Brian Eno – como não adorar o seu Music for Airports?

1. Muddy Waters – I’m A Man (Mannish Boy) (Electric Mud, 1968)
2. Muddy Waters – My Home Is The Delta (Folk Singer, 1964)
3. Captain Beefheart & The Magic Band – I’m Glad (Safe as Milk, 1967)
4. Captain Beefheart & The Magic Band – White Jam (The Spotlight Kid, 1971)
5. Captain Beefheart & The Magic Band – Alice in Blunderland (The Spotlight Kid, 1971)
6. Dusty Springfield – Son of a Preacherman (Dusty in Memphis, 1969) | sugestão da Porto Calling.
7. Dusty Springfield – Just a Little Lovin (Dusty in Memphis, 1969)
8. Weather Report – A Remark You Made (Heavy Weather, 1977)
— poema de Natália Correia, por Mafalda Cortesão
9. Visible Cloaks – Bloodstream (Reassemblage, 2017)
10. Visible Cloaks – Terrazzo (feat. Motion Graphics) (Reassemblage, 2017)
11. Lawrence English – Hard Rain (Cruel Optimism, 2017)
12. ???
13. Brian Eno – 2/1 (Music for Airports, 1978)

emissao javarda_mixdown.png