29/09 – Variações de jazz e electrónica político-experimental.

A última emissão de Setembro!

Começámos com música de Sophia Kennedy, um bem conseguido crossover entre electrónica e a música de cantautora, com letras bem humoradas e instrumentais, alguns, muito interessantes; deste disco, escolhemos Being Special – que fala, precisamente, sobre a condição de se ser especial. Quem não? Seguimos com um projecto que, em 2010, dizia muito: o pós-dubstep estava em altas (o que foi isso, afinal? Uma boa pergunta para um deste dias), com nomes como James Blake, Burial, até SBTRKT, e o seu disco Crooks & Lovers tem alguns excelentes momentos. Desde então, têm passado algo despercebidos, pelo menos por cá, mas apareceram desta vez em colaboração com Micachu.

Segue-se um pequeno preliminar ao grande destaque da emissão. Sun Ra, num dos primeiros do grupo, do ano de 1961, abre o mote para o jazz exploratório; merecerá, eventualmente, uma maior atenção sobre a vasta carreira dos senhores. Mas Eric Dolphy é já uma outra história. O seu disco Out For Lunch é especialmente apreciado em certos círculos, embora o jazz, como acontece também com vários outros ramos da música e a da arte em geral, incorra por vezes em fundamentações demasiado académicas ou herméticas para o leigo ouvinte. Creio que isso não é um problema em Out For Lunch. Certamente experimental e abstracto, a música é ainda assim música tremendamente divertida, com sopros solitários expressivos e exploratórios – como se nota nesta Gazzelloni, com a flauta a tentar chegar além das suas capacidades.

Ainda com um pé na música experimental, seguimos para uma colaboração portuguesa: Nuno Canavarro, um dos músicos nacionais com maior (e muito específica) projecção internacional, e Carlos Maria Trindade. Daqui resulta o disco Mr. Wollogallu, do qual ouvimos dois exemplos, mais um de Canavarro em exercício solitário.

Para esta semana, a Porto Calling trouxe os peruanos Los Saicos, que são absolutamente incríveis! Recomendado a quem apreciar um rock cru, influenciado ainda pelo seu período clássico dos anos 50 e 60, com todo o carisma intacto, mesmo tantos anos depois. Chegam-nos através de uma compilação de 2010, com todo o seu material gravado.

A recta final deu-se ao som de alguma electrónica de contornos e produção experimental – e feminina. A primeira, Elysia Crampton, produziu um trabalho estranhíssimo que a pôs em destaque como uma artista a seguir; este é um álbum posterior no qual enceta várias colaborações com diferentes artistas. Mencionámos a sua vertente política, que pretende seja considerada juntamente com a sua arte, e essa é uma postura interessante, por muito que por vezes problemática. Segue-se Mhysa, direccionada para a exploração da voz numa envolvência difícil de deslindar – como se fosse R&B produzido no além, e com interferências -, e terminamos com um incrível trabalho de Klein, com a justaposição de sons, vozes, melodias, numa técnica que tem afinidades com o field recording mas que provém, larga parte, de um meio digital.

1. Sophia Kennedy – Being Special (Sophia Kennedy, 2017)
2. Mount Kimbie – Marilyn (feat. Micachu) – (Love What Survives, 2017)
3. Sun Ra – Of Sounds and Something Else (The Futuristic Sounds of Sun Ra, 1961)
4. Eric Dolphy – Gazzelloni (Out For Lunch, 1964)
5. Nuno Canavarro & Carlos Maria Trindade – Guiar (Mr. Wollogallu, 1991)
6. Nuno Canavarro & Carlos Maria Trindade – Aelux (Mr. Wollogallu, 1991)
7. Nuno Canavarro – O Fundo Escuro de Alsee (Plux Quba, 1998)
8. Los Saicos – Ann (¡Demolición! The Complete Recordings, 2010) | sugestão da Porto Calling.
9. Los Saicos – Demolición (¡Demolición! The Complete Recordings, 2010)
10. Elysia Crampton – Red Eyez (feat. Lexxi) (Elysia Crampton Presents: Demon City, 2016)
11. Mhysa – Spectrum (fantasii, 2017)
12. Klein – Prologue (feat. Atiena, Jacob Samuel, ThisisDA, Eric Sings & Pure Water) (Tommy EP, 2017)

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Documentário como diário, mais Jacques Demy, e argumentos de Paddy Chayesfky.

Não tenho discorrido sobre o cinema que vejo com a regularidade desejada; vou tentar corrigir-me neste mês. Ficou por mencionar Sweet Smell of Success, por exemplo, um pseudo-noir muito curioso de Alexander Mackendrick, ou até o Help!, dos amigos Beatles: quem diria que o seu filme até correria relativamente bem? Destes três que trago, destaque imediato para a obra de Jonas Mekas, em destaque, durante a próxima semana, em Serralves. Passem por lá, se puderem (3€ o bilhete! Como não?).

Voltarei em breve, com mais cinema. Em breve, falar-se-á de Network, de Sidney Lumet!

112257-reminiscences-of-a-journey-to-lithuania-0-230-0-345-crop-2Reminiscences of a Journey to Lithuania (Jonas Mekas, 1972) Este filme, da autoria do crítico e cineasta lituano Jonas Mekas, é um tremendo marco no género do documentário. Mekas estava, na altura, a viver nos Estados Unidos, onde levou a cabo uma prolífica carreira de jornalista e crítico cinematográfico; foi defensor de um cinema pessoal e poético – ao contrário do comercial que sentia ser demasiado público – e, mantendo-se fiel a essa ideia, produziu alguns documentários num registo diarístico e algo amador, inocentes, e genuínos. Em 1972, edita um filme cujo nome alude a uma jornada pela Lituânia natal, mas utiliza o termo reminiscences, que em português será algo como uma frágil memória, ou pequenas impressões do passado, captadas pela sua inexperiente e desafectada técnica cinematográfica. As primeiras imagens são fragmentadas e comentadas pelo próprio Mekas, num bosque da América onde caminha acompanhado, e diz ele, sobre um Outono de 1957 ou 58: “Andámos por entre as folhas, batendo-lhes com um pau, e andámos para cima e para cima, para dentro e para dentro. Foi bom andar, desta forma, e não pensar em nada dos últimos dez anos, e estava a imaginar que poderia andar assim, e não pensar nos anos da guerra, de fome, de Brooklyn”. As primeiras imagens são suficientes para estabelecer as motivações de Jonas, preocupado e atormentado pelas memórias da guerra e pela insignificância da Lituânia natal na metrópole estadunidense. Fala nas pessoas deslocadas, que as há em todos os continentes, e subitamente é um termo metafísico; e assim, leva-nos à  segunda parte do filme, quando viaja à erma aldeia onde viveu, Semeniškiai, onde ainda vive a sua mãe – nascida em 1887, e que “esperou vinte e cinco anos” –, numa casa antiquada mas tremendamente prática, envolvida nos extensos prados verdes circundantes e à qual se junta, paulatinamente, a restante família. Vivem da natureza e nela comungam, e participamos nós também através do olhar documental do realizador: a lide diária com os animais, a cozinha primitiva ao lume com ramos e folhas de jornal, o ritmo de vida governado por regras que são, para nós passado apenas meio século, estranhas e incompatíveis. Mekas captou, em tudo isto, um tremendo contraste com o mundo exterior, num fase preliminar da iminente globalização; e quando a sua voz comenta e contextualiza algumas das imagens, revela-se a candura das suas intenções, e é difícil não nos envolvermos nesta experiência. Estes são registos de um mundo com mais de cinquenta anos; sons e imagens de materializações que já não existem, na sua maioria, e são a prova inequívoca de que o cinema serve também uma memória, ainda que pessoal, mas que se pode ramificar para uma pluralidade. E qual o papel dessa memória? Porque nos impressiona tanto este registo diarístico e pessoal, de gente imersa nas suas trivialidades? Um documento de revolta e incompreensão perante a guerra, e simultânea perpetuação de memórias, necessariamente sentimentais. Talvez, e esta é apenas uma hipótese, porque tudo isto é profundamente humano.

(Reminiscences of a Journey to Lithuania estará em Serralves no próximo dia 15 de Novembro. Mais informação aqui)

Baie-des-Anges,-La.jpgA Baía dos Anjos (La Baie des Anges, 1963) Jacques Demy já é por nós conhecido pelos dois maravilhosos musicais que filmou em França: Les Parapluies de Cherbourg, primeiro, e Les Demoiselles de Rochefort logo a seguir, são filmes absolutamente perfeitos e dos maiores do seu género. No entanto, sendo musicais, há um conjunto de regras narrativas que lhes permitem determinadas liberdades: onde tudo se canta e dança, todos estão um passo mais próximo de atingir a sua felicidade (isto mais em Rochefort que Cherbourg, mas adiante). Quando, como em Model Shop, deixa o musical e parte para filmes necessariamente mais realistas, continua interessante, motivado por outros fins. É o caso de La Baie des Anges, um minimal estudo sobre dois jogadores que travam amizade num casino de Nice. O jogo é, de facto, um dos mais curiosos fenómenos: uma volátil oscilação entre a depressão e a euforia, de força suficiente para definir, por si só, a imediata realização de um indivíduo. Ou a proximidade ao abismo, também. O contraste entre as duas personagens começa na forma como abordam o jogo – provém ambas de sítios distintos: se a personagem do cerebral Jean é mais cerebral e parece ciente e cauteloso do processo no qual se envolve lentamente, Jackie (interpretada por Jeanne Moreau, falecida este ano) é absorvida pela sorte e pelas probabilidades, devota ao rolar dos dados e à bola da roleta. Um dos diálogos é particularmente revelador, passado no quarto de um hotel de luxo, e fica no ar uma plausível explicação para o jogo como supressor do tédio e angústia existencial; e é um tema que surge também em Model Shop, por exemplo. Demy observa tudo isto, com o habitual encantamento e acutilância. É um filme que se faz nas performances de Mann e Moreau, e se não obrigatório na filmografia de Demy, é um agradável complemento à ideia de cinema que deixou. A banda sonora está a cargo de Michel Legrand, seu colaborador nos dois musicais mencionados.

30663-the-hospital-0-230-0-345-cropThe Hospital (Arthur Hiller, 1971) Daqui a uns dias, vou falar de Network, filme de Sidney Lumet escrito por Paddy Chayefsky, mas por enquanto, e como propedêutico, trago Hospital, da autoria do mesmo guionista, e realizado por Arthur Hiller. É a história de um hospital terrivelmente gerido, com mortes bizarras entre o seu corpo médico e uma gritante incapacidade de se organizar; enquanto tudo isto, um dos seus médicos residentes pretende retirar-se do trabalho enquanto atravessa momentos de alguma fantasia suicida. Interpretado por George C. Scott, este médico é um dos eixos do filme – o caos do hospital, financeiramente limitado e deslocado da prioridade principal de cuidar doentes, contrasta com o estóico profissionalismo que impõe e exige no seu trabalho. A ideia de um homem revoltado contra uma instituição é comum em Chayefsky, porque o mesmo acontecerá em Network, realizado uns anos depois: a crítica satírica a um establishment, o herói principal com tiques messiânicos e até algo desenquadrado no mundo ao seu redor, e o suicídio como forma de lidar com o absurdo; até a expressão de ira e revolta literalmente vocalizada a partir de um sítio alto, preferencialmente uma janela, é motivo comum aos dois.  Felizmente, nunca se sente, nem neste nem em Network, que a crítica caia em condescendência ou se reduza a opiniões inconsequentes: tanto num como noutro, o verdadeiro sujeito da crítica é um certo modo de estar tipicamente americano, tipicamente sociedade civilizada, uma espécie de complacência do homem moderno. Com isto, não pretendo dizer que Chayefsky é previsível; antes que as suas preocupações são evidentes. E o alvo é atingido com mordacidade. The Hospital, dividido entre ser sério e tragicómico, tem momentos muito bem conseguidos e a mensagem passa claramente. Chayefsky é mesmo uma das mais certeiras vozes do cinema americano.

22/09 – Pop, rock, funk, e Vítor Rua sobre a música portuguesa dos anos 80.

Mais uma emissão arquivada!

Começámos por ouvir uma amostra do novo de Alex Cameron, cuja letra alude a Marlon Brando e a uma imagem não-masculina do Homem; uma ideia interessante que explorou com piada. Na mesma toada, como não recordar Ariel Pink, também com novo disco? Deste, uma passagem ainda pelo seu fantástico Haunted Graffiti, de 2012, que se fez ouvir em Guimarães, nesse ano, um dos marcos da pop hipnagógica – seja lá o que isso for.

Depois, uma menção aos obrigatórios Stooges, cujo disco tinha andado em alta rotação nessa semana. É música de 69 que abre caminho para toda a liberdade do punk que se lhe seguiu, absolutamente à frente do seu tempo, e um disco que, ainda hoje, soa puro e sem desnecessários adornos. Seguiu-se a música dos The Meters, banda funk que no mesmo ano lançou Look-Ka Py Py, um conjunto de pequenos ensaios instrumentais perfeitamente executados.

A segunda parte do programa fica reservada para a opinião de Vítor Rua, que enfim responde à questão levantada por Adolfo Luxúria Canibal há algumas emissões atrás: “A música dos anos 80 era ou não mais interessante que a música de agora, em Portugal?”. Ora, a resposta chega finalmente, vinda de um dos nomes mais relevantes da música experimental portuguesa, que também viveu esses atribulados anos. Fundador dos GNR, com quem ainda gravou durante um período, ajudou-nos a entender o panorama musical da época, e mais ainda. Obrigatório ouvir!

Depois, para terminar, breve passagem pelo disco de Lil Ugly Mane, que já por aqui passou sob um outro nome (bedwetter), e terminámos ao som de Dorothy Carter, com um impressionante disco de 1978, Waillee Waillee – fará as delícias de quem aprecia folk soturna e música bem orquestrada.

Assim foi! Espero que gostem.

1. Alex Cameron – Marlon Brando (Forced Witness, 2017)
2. Ariel Pink – I Wanna Be Young (Dedicated to Bobby Jameson, 2017)
3. Ariel Pink – Only In My Dreams (Haunted Graffiti, 2012)
4. The Stooges – Ann (The Stooges, 1969)
5. The Stooges – Real Cool Time (The Stooges, 1969)
6. The Meters – Funky Miracle (Look-Ka Py Py, 1969)
7. The Meters – Little Old Money Maker (Look-Ka Py Py, 1969)
8. Adam And The Ants – Fall Out (Antmusic, 1981) | sugestão da Porto Calling.
A música dos anos 80 era ou não mais interessante que a música de agora, em Portugal? reflexão sobre a nossa música e a influência internacional, por Vítor Rua.
9. Lil Ugly Mane – Serious Shit (MISTA THUG ISOLATION, 2012)
10. Dorothy Carter – The Squirrel Is A Funny Thing… (Waillee Waillee, 1978)

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15/09 – Deleite pop, música feminina, e derivação do punk.

Para esta semana, o início dá-se na passagem por Tremble Like a Flower, o novo trabalho, sob outro nome, de JP Simões, com quem conversámos há pouco tempo. Registo inspirado em música de outros tempos, como Nick Drake, como David Bowie, resulta num disco bonito, inocente, de instrumentação luxuriante.

Depois, um guilty pleasure que tem atormentado, semana após semana, as playlists por cá: Charli XCX, que rejeitámos em I Don’t Care e aprendemos a amar depois de Vroom Vroom, teve mixtape nova este ano e um outro single, After The Afterparty, que conta também com Lil Yachty. É um pouco palerma, mas muito catchy e é mesmo isso que se espera da música pop. Mas se para alguns o nível desceu demasiado, a próxima música compensa largamente: os Chi-Lites, grupo de soul num disco relativamente interventivo – basta atentar no nome… – têm em Have You Seen Her um dos momentos mais altos do género. Absolutamente magistral, e obrigatório. Seguem-se os Velvet Underground, com um outtake das sessões de Loaded, o seu disco mais atribulado devido às pressões da editora para que se apresentasse mais comercial.

Num momento pautado pela voz feminina, ficámos primeiro com SZA, que assinou pela TDE de Kendrick Lamar, e representa uma perspectiva da mulher diferente da habitual: mais cândida, honesta, frágil de uma certa forma; e, num outro registo tanto musical como de atitude, a Princess Nokia, que deixou de ser um segredo do underground para se afirmar como uma das mais relevantes rappers americanas. Fica recomendado o seu disco 1992, entretanto reeditado, um dos marcos do ano passado.

Para terminar, a Porto Calling traz os The Uranium Club, com um single que o Pedro recomendeu várias vezes antes de o encontrarmos na internet: riffs derivados do pós-punk (como não pensar nos Wire, por exemplo?) com electrónica pelo meio, e muita vontade de causar estragos. De seguida, Gina X Performance, aleatoriamente escolhida entre várias opções da compilação Disco Not Disco, e fechámos com novíssimo trabalho de Oren Ambarchi com a sua companheira Crys Cole, sendo o primeiro um nome que admiramos tremendamente desde o fantástico espectáculo de há uns anos no Semibreve. Hotel Record é o nome do novo trabalho.

Assim foi! Espero que gostem.

1. Bloom – Tremble Like a Flower (Tremble Like a Flower, 2017)
2. Charli XCX – After the Afterparty (2017)
3. The Chi-Lites – Have You Seen Her ((For God’s Sake) Give More Power To The People, 1971)
4. The Velvet Underground – Ocean (Loaded (outtake), 1970)
5. SZA – Supermodel (Control, 2017)
6. Princess Nokia – Bart Simpson (1992, 2016)
7. Princess Nokia – Mine (1992, 2016)
8. The Uranium Club – Who Made The Man? (Who Made The Man?, 2017) | sugestão da Porto Calling.
9. Gina X Performance – Kaddish (Disco Not Disco: Post Punk, Electro & Leftfield Disco Classics 1974-1986, 2008)
10. Crys Cole & Oren Ambarchi – Burrata (Hotel Record, 2017)

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08/09 – Holger Czukay, os Can, e a história que há entre eles.

A primeira emissão de Setembro – e de uma nova temporada, se lhe quisermos chamar assim – é dedicada a um dos músicos preferidos d’A Mosca; infelizmente, havia-nos deixado no início deste mesmo mês. Holger Czukay fundou e integrou durante vários anos os Can, grupo seminal do krautrock, de influência transversal e ainda presente. Por isso, preparámos uma hora de influências prévias, trabalho de banda, e experiências a solo e com outros amigos, com o objectivo de expôr a diversidade da sua obra.

Por isso, partimos dos Velvet Underground e dos Beatles, duas importantíssimas referências para imensos músicos, e em particular para Czukay. Segue o próprio, à conversa com Richie Unterberger: “The influence, for me, of Beatles and Velvet Underground was most important. The Velvet Underground especially. They had something achieved which others didn’t achieve. Even Jimi Hendrix didn’t achieve [what they did]. One could have the opinion that this group is not able to play really properly right. They didn’t get the right rhythm, they couldn’t make a real tight rhythm. But the music was incredibly convincing”.

Fica entendida parte da sua influência. Porque a outra virá de um espectro musical completamente diferente: Karlheinz Stockhausen, compositor de extraordinária relevância no século XX – e havemos de o mencionar daqui a umas semanas uma outra vez, devido à sua influência no noise e outras abordagens à música -, com quem Czukay se cruzou nos seus estudos académicos. Na primeira pessoa, Czukay escreve um pouco sobre Stockhausen e as suas ideias, e destaca-se a seguinte ideia: “He wanted to create a type of music that had never been heard before. I thought then, and think now, that Stockhausen was a hero, and his music the centre of the world.” E, durante a emissão, todo o momento foi subtilmente musicado pela sua Gesang der Jünglinge & Kontakte.

“Stockhausen, however, couldn’t handle pop or rock music – it was not his field. And his music is mainly scored. In my group, Can, we did exactly the opposite: we improvised everything – performed with an “empty head” – and composed the music afterwards by editing the tape. The six musicians on stage were using radios as instruments, with Stockhausen sitting in the middle of the group mixing the audio like a DJ and making something out of it. What was important was not finding the right station; it was the fact of searching.”

Czukay formará os Can em 1968, já ciente de algumas ideias basilares na atitude da banda. A sua atitude perante a composição – sempre em busca de motivos, e não necessariamente de canções – privilegiava uma forma distinta de fazer rock, recorrendo à colagem e à manipulação de fita. Dos seminais, ouvimos excertos do primeiro disco Monster Movie, ainda com Malcolm Mooney na voz, e depois os clássicos Tago Mago e Ege Bamyasi, até Soon Over Babaluma, todos estes já com a presença característica de Damo Suzuki. São um grupo extraordinário, e absolutamente recomendado a qualquer ouvinte do programa (Ege Bamyasi é um óptimo ponto de partida).

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Conny Plank à esquerda, Holger Czukay à direita, numa fotografia de ano incerto.

A partir de 1978, os Can terminam. Há um período de indefinição na carreira de Holger Czukay – mesmo a nível criativo, pela habituação ao método do grupo – mas edita Movies no ano seguinte. Dá-se, nesta emissão, destaque a alguns momentos a solo e outras colaborações, com especial nota para a última: o disco Canaxis 5 foi o primeiro contacto com o nome de Czukay (embora a audição dos Can o tenha precedido em largos anos), e é uma impressionante experiência que remonta a ensinamentos de Stockhausen e a uma primordial vontade de construir música.

E, assim é. Num curto espaço de tempo, Jaki Liebzeit, percussionista dos Can, e Holger Czukay, também um membro fundamental, deixam o mundo um pouco mais pobre. Duas imensas figuras nucleares dentro da música relevante da década de 70, e referências obrigatórias para se perceber alguma da música que por aí pulula. Fica a homenagem, e a lembrança. Espero que gostem!

1. The Velvet Underground – The Black Angel’s Death Song (The Velvet Underground & Nico, 1967)
2. The Beatles – I Am The Walrus (Magical Mystery Tour, 1967 [remaster stereo 2009])
3. Can – Mary, Mary So Contrary (Monster Movie, 1969)
4. Can – Mushroom (Tago Mago, 1971)
5. Can – Spoon (Ege Bamyasi, 1972)
6. Can – Come Sta, La Luna (Soon Over Babaluma, 1974)
7. Holger Czukay – Persian Love (Movies, 1979)
8. Holger Czukay – Ode to Perfume – A Welcome (On The Way to the Peak of Normal, 1981) | sugestão da Porto Calling.
9. Holger Czukay, Jah Wobble, Jaki Liebzeit, The Edge – Sleazy (Snake Charmer, 1983)
10. Technical Space Composer’s Crew – Boat Woman Song (Canaxis 5, 1969)

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25/08 – A doce pop americana, experimentação percussiva, e os japoneses Boredoms.

Uma emissão para os fracos de coração, mas só até metade.

Os King Gizzard & The Lizard Wizard continuam com o seu anormal ritmo de produção e dão a 2017 um novo disco – e este é já o terceiro. Desta vez, promovem a colaboração com Mild High Club, projecto de Alexander Brettin de íntima relação com a história da música pop americana. E por isso, ouvimos ambos: os australianos adaptaram a sua música ao universo do clube da moca suave sem a comprometer, e para quem gostou do resultado há que avançar para Skiptracing, o mais recente trabalho de Mild High Club. Nas suas influências, evoca nomes como Supertramp, Steely Dan, mesmo os XTC; e se o ouvinte torce o nariz por desconfiar do que aí vem, nada tema: ele fala de um certo aspecto da produção, a coesão dos discos que nos fazem pensar neles – e ouvi-los – como coisa una: “[Sobre os Steely Dan] Just everything from the wit of the lyricism to the complexity of the harmony. It’s being able to present this ultra-sophisticated and complex music, and then make a joke over the top of it. It might go over a bunch of people’s heads, but it’s sort of ironic—not in a super negative way, but in a very subliminal way. I like that about it. Same as Supertramp: instead of tongue-in-cheek, it’s being able to whip something up that isn’t too basic, that’s layered, but also still crystal clear and you can hear all the instruments“. E, já agora, sobre os King Gizzard: “They’ve made a bunch of microtonal guitars and harmonicas, and basically, they’ve opened my mind up to exploring tunings that people haven’t really used. It’s cool to explore jazz harmonies with a well tempered tuning or something like that. Tuning is kinda the next stage”. E até podíamos ficar por aqui, mas não. Ouviu-se ainda os XTC, com duas faixas do seu disco mais icónico, recentemente remasterizado por Steven Wilson.

A Porto Calling, para esta semana, recomendou um disco que não via há anos – de uma forma bastante literal, desde que deixei a minha cópia esquecida no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. São os The Electric Prunes, grupo dos anos 60 americanos cujo disco foi reeditado recentemente. Podem encontrá-lo na loja: é um bonito exemplo de música embebida em discreto psicadelismo, mas com tudo o que se espera de música desta época.

Na segunda parte da emissão, avançámos para território mais experimental. Primeiro, com o projecto Black Pus, que é afinal nosso conhecido: é Brian Chippendale, uma das metades dos Lightning Bolt, a explorar texturas para a sua percussão juntando-lhe sintetizadores vários, e vem no seguimento da conversa que tivemos com ele em Paredes de Coura. É barulhento, dissonante, mas tremendamente interessante, e esta faixa em particular, JAZZERCISE 2005, evoca sons de sopros atropelados pela cavalgante percussão de Brian, com alguns riffs à mistura. Depois, passámos para o seu disco mais recente, All My Relations, cuja capa apropriámos para construir o artwork deste podcast.

E uma das influências assumidas de Brian, assim como de vários músicos desta estirpe mais experimental, são os japoneses Boredoms. Começaram em 1986 e têm uma história muito pouco linear: o único membro constante é o mentor Yamantaka Eye (ex-Hanatarash), e o projecto tem sofrido uma metamorfose constante desde o seu início, de música sem estrutura e extremamente energética, num sentido quase primal, até, em direcção a composições ainda abstractas, mas regidas por uma ordem do ritmo, como foi algum do krautrock nos anos 70, a mover-se fora do cânone da música ocidental. E nesta emissão, fizemos o sentido inverso: começando no seu mais recente trabalho de estúdio (que é já de 2004), chegámos ao ano de 1994, passando por vários registos numa tentativa de documentar algumas das fases dos nipónicos.

De resto, o tempo disponível não serviu para mais do que uma superficial amostra da sua carreira. Há mesmo muito por explorar. Recomenda-se Pop Tatari (1992) como síntese da sua fase mais experimental e despreocupada, e Vision Creation Newsun (1999) para a segunda fase da carreira, mais dedicada às construções rítmicas e possivelmente meditativas.

PS: os Boredoms organizaram em 2007 um concerto com 77 bateristas, organizados em espiral concêntrica num parque de Nova Iorque; Brian Chippendale participou nesse concerto!

1. King Gizzard & The Lizard Wizard & Mild High Club – Tezeta (Sketches of Brunswick East, 2017)
2. Mild High Club – Homage (Skiptracing, 2016)
3. Mild High Club – Tesselation (Skiptracing, 2016)
4. XTC – Grass (Skylarking, 1986)
5. XTC – 1000 Umbrellas (Skylarking, 1986)
6. The Electric Prunes – I Had Too Much To Dream (Last Night)(I Had Too Much To Dream (Last Night), 1967) | sugestão da Porto Calling.
7. Black Pus – JAZZERCISE 2005 (BLACK PUS 1, 2005)
8. Black Pus – All Out of Sorts (All My Relations, 2013)
9. Boredoms – Excerto de Seadrum, do disco Seadrum / House Of Sun (2004)
10. Boredoms – Excerto de ☆, do disco Vision Creation Newsun (1997)
11. Boredoms – Mama Brain (Chocolate Synthesizer, 1994)
12. Boredoms – Bore Now Bore (Pop Tatari, 1992)
13. Boredoms – Z & U & T & A (Soul Discharge, 1989)
14. Danny L Harle & Pawel Siwczak – Missed Exit (Harpsichord Sessions, 2017)

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18/08 – Coisas novas, e lados B de programas antigos, em ausência.

Estávamos em Paredes de Coura quando esta emissão foi para o ar. Como tal, ficou a responsabilidade da emissão entregue ao computador, que já havia desenrascado, com mais ou menos profissionalismo, alguns meses atrás. Por isso, para esta hora recuperou-se muitos trabalhos que foram ficando esquecidos em emissões anteriores, ou que não passaram por falta de tempo – e o resultado é uma hora algo esquizofrénica mas muito divertida.

Primeiro, o projecto experimental de Vítor Rua e Jorge Lima Barreto, Telectu, de relevante expressão internacional embora aqui tenha sempre ficado reduzido a uma presença algo periférica, mesmo que seja esse, enfim, o lugar de muita da música mais desafiante. Falámos com o Vítor Rua há uns meses; está para chegar ao podcast, em breve.

Depois, música de 2017 com os PikacyuMakoto, com o seu novo disco Galaxilympics: são apenas dois músicos a levar a cabo um desregrado exercício de rock e electrónica, provavelmente improvisado mas em qualquer caso com uma estrutura bastante ténue, oscilando entre o movimento e a meditação, e recomenda-se que o experimentem se apreciam um determinado tipo de loucuras composicionais; segue-se Oneohtrix Point Never, que já o conhecemos bem desde os tempos de Replica, e que fez há pouco tempo a banda sonora para o filme Good Time – e isto é, claro, uma óptima recomendação para o filme.

Regressam os Can, que nunca é demais recordar, mas fugimos à sua mítica tríade Tago Mago / Ege Bamyasi / Future Days para chegar a um disco posterior, Soon Over Babaluma. No início deste ano, perdemos Jaki Liebezeit, o seu percussionista; e entretanto, há pouco mais de um par de meses, também faleceu Holger Czukay. O tempo não perdoa e desintegra paulatinamente os projectos artísticos que tanto deixaram de valor. Recorde-se que houve uma emissão especial dedicada a Czukay; como todas, há-de chegar ao podcast…eventualmente. Seguiram-se duas faixas de Aksak Maboul, um grupo dos anos 70 que apenas tem no seu repertório um par de discos. Estão associados ao movimento Rock In Opposition, que se reuniu sob a alçada dos Henry Cow (havemos de lá chegar um dia), sob o pretexto de fazer mostrar a sua música a um universo cuja indústria não lhes reconhecia o valor. E é isto. O disco é de 1977, toca a uma série de estéticas distintas e é outro que se pode recomendar a quem quiser ouvir coisas diferentes.

Na recta final, pedimos emprestada uma sugestão dos Ermo, que nos levou a Howie Lee. Depois, um disco estranhíssimo de electrónica pervertida por parte de MU. Não sei o que passou depois – é uma incógnita, e a sua identidade deixada como exercício de descoberta ao ouvinte aplicado -, e fechámos a hora com chave de ouro: Harold Budd, colaborador de uma imensidão de nomes (destacamos Brian Eno e Cocteau Twins). E foi isto!

1. Telectu – Valis (Ctu Telectu, 1982)
2. Pikacyu★Makoto – Space Move (Galaxilympics, 2017)
3. Pikacyu★Makoto – I’ll Forgive (Galaxilympics, 2017)
4. Oneohtrix Point Never – Ray Wakes Up (Good Time Soundtrack, 2017)
5. Oneohtrix Point Never – Entry To White Castle (Good Time Soundtrack, 2017)
6. Can – Come Sta, La Luna (Soon Over Babaluma, 1974)
7. Aksak Maboul – Saure Gurke (Onze danses pour combattre la migraine, 1977)
8. Aksak Maboul – Son of l’idiot (Onze danses pour combattre la migraine, 1977)
9. Howie Lee – Flame Fighters + Ran + Eyes on the Mountains! + Dead-Ended (Mù Chè Shān Chū, 2017)
10. MU – Let’s Get Sick (Afro Finger and Gel, 2003)
11. ???
12. Harold Budd – Madrigals of the Rose Angel (The Pavilion of Dreams, 1976)

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11/08 – Hip-hop outsider, novos caminhos para o Vaporwave, e outros.

Nesta semana, preparava-se a já habitual semana de Paredes de Coura, e não houve muita atenção prestada ao século passado.

Começámos com nova de PZ, a muito pertinente Olá, do seu novo disco (de resto, foi a semana na qual estive com ele à conversa – podem ler aqui!). Seguiram-se os BADBADNOTGOOD, com o seu hip-hop travestido de jazz light; e fechámos o ciclo com os BEAK (que ensaiaram algumas piadas privadas durante o seu concerto, puxando da música dos Pink Floyd).

Depois, a emissão foi dominada pelo hip-hop, mas um periférico, e fora do habitual. Primeiro, o duo de Palaceer Lazaro e Tendai Maraire, os Shabazz Palaces – dois novos discos neste ano -, e milo logo de seguida, sempre com a sua toada filosófico-existencial a que nos tem habituado. Recomenda-se o disco a quem gostar do que ouviu.

A habitual recomendação da Porto Calling incidiu nas X-Ray Spex, punk no feminino sem se reduzir a essa particularidade; e o disco é de 1978, um ano com muita história na música.

Paragem para repouso com Jimi Hendrix – duas aparições no programa em pouquíssimo tempo, quem diria? – com uma música que surgiu muito mais tarde, na compilação Blues, de 1994; e até ao final da hora haverá espaço para o vaporwave, com novas propostas dentro deste micro-género – Corp soa bem mais pop do que esperaríamos, e death’s dynamic shroud aproxima-se da loucura electrónica que Black Banshee, por exemplo, nos trouxe no ano passado – e, num final em grande, a música de Negra Branca, incluída numa recente antologia lançada pela Discrepant. Recomenda-se que a ouçam!

1. PZ – Olá (Império Auto-Mano, 2017)
2. BADBADNOTGOOD – Cashmere (IV, 2016)
3. BEAK> – PIJ (Couple In a Hole, 2016)
4. Shabazz Palaces – Fine Ass Hairdresser (Quazarz: Born On A Gangster Star, 2017)
5. Shabazz Palaces – That’s How City Life Goes (Quazarz: Born On A Gangster Star, 2017)
6. milo – Sorcerer (Who Told You To Think??!!?!?!?!, 2017)
7. milo – Take Advantage of the Naysayer (Who Told You To Think??!!?!?!?!, 2017)
8. X-Ray Spex – Obsessed With You (Germfree Adolescents, 1978) | sugestão da Porto Calling.
9. Jimi Hendrix – Once I Had a Woman (Blues, 1994)
10. 猫 シ Corp – SECRETS OF MY AGE [with ローマンRoman] (Class of 84, 2017)
11. 猫 シ Corp – The Dress [with Luxury Elite] (Class of 84, 2017)
12. death’s dynamic shroud – Tell Me Your Secret (Heavy Black Heart, 2017)
13. Negra Branca – O Espatelar Do Linho (Antologia de Música Atípica Portuguesa, Vol 1: O Trabalho, 2017)

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Cinema dos últimos dias: surrealismo de Jodorowsky, e a verdade segundo Orson Welles. 

Este poderia ser um resumo, sob um outro pretexto, do cinema que vi em Setembro: tudo isto se passou no mês anterior. E foi um mês difícil! Começando por Orson Welles, cujo filme sempre imaginei diferente do que veio a ser F for Fake, e depois a pequena maratona de Jodorowsky, que conhecia apenas do documentário sobre a falhada experiência com Dune, o livro de Frank Herbert, que viria a ser adaptado por outro cineasta da mesma casta – David Lynch. Foi um testemunho preliminar onde pude aferir a sua veia particular de expressão e o olhar distinto com que olha o mundo, mas não me preparou – de todo – para o absurdo universo dos seus filmes. Ficaram de fora alguns filmes – um de Buñuel, por exemplo – que chegarão em breve.

220px-F_for_Fake_posterF for Fake (Vérités et mensonges, Orson Welles, 1973) – Orson Welles é conhecido por uma série de coisas mas, acima de todo o resto, pelo impressionante debut em 1941, com Citizen Kane, um filme considerado entre os maiores por tudo o que levou a cabo – e ao qual se recomenda visitas frequentes e regulares, para descortinar tudo o que passou despercebido ao nosso olho em visualizações anteriores. Na sua essência está um exercício narrativo de reconstrução da vida de um magnata, cujas últimas palavras, enigmáticas, encobriam um intrigante significado secreto. E embora se reconheça em Citizen Kane os engenhos técnicos e narrativos de Welles, F For Fake lança-o na demanda por algo diferente: um cruzamento entre ficção e veracidade, e o papel que o cinema desempenha como intermediário nesta relação. Porque o cinema, na verdade, alicerça-se em várias mentiras que aceitamos inconscientemente: aqueles actores não viveram tudo aquilo; as acções não são espontâneas e sinceras, antes premeditadas e pré-definidas; e a própria edição do filme, o cortar e colar que justapõe diferentes espaços e tempos, é provavelmente a mais evidente mentira. Mas é, simultaneamente, parte dum maior motivo que nos leva à experiência cinematográfica. Welles fará várias alusões a tudo isto: vemo-lo, em vários momentos do filme, sentado na sala de edição, figura massiva e titânica, no literal acto de colagem da fita, a manipular a sequência das imagens – a mostrar a mentira na qual se sustenta o cinema – mas sempre a partir duma posição central, nuclear, interventiva e absolutamente não-neutra: um unreliable narrator; e a fourth wall (que se quebra sempre que há contacto directo com o espectador do filme) é uma ilusão à qual alude recorrentemente. F For Fake, uma meditação-ensaio sobre a falsidade, a arte, e a falsidade na arte, é também um documentário sobre Elmyr de Hory, um pintor cuja especialidade era replicar quadros de outros (Matisse, Picasso, etc.), sobre Clifford Irving, escritor que o biografou e, soube-se entretanto, falsificou uma outra biografia, e sobre Welles também, cândido e íntimo como possível apenas num relato em primeira pessoa (o cineasta discorre, a dada altura, sobre o início da sua carreira e as motivações que o levaram à arte, passando pelas experiências na rádio e o tumulto que foi War of The Worlds, em 1938 – tudo isto vale a pena, pelo incrível retrato pintado sobre Welles. Há uma série de ideias e momentos a reter em F for Fake, mas como ignorar a incrível leviandade no tratamento visual e narrativo da história? A câmera é hiperactiva, como se estivéssemos no seio da nouvelle vague francesa, e extraordinariamente subjectiva; a edição do filme refere frequentemente a si próprio, quando a acção de uma dada personagem serve como comentário à narração que lhe subjaz. Tudo isto pode não ser novidade nem demasiado inovador – Dziga Vertov, em 1929 com o Homem e uma Câmera de Filmar, já tivera ideias interessantes nesse sentido, e Close-Up, embora posterior, foi porventura mais emocionalmente pertinente -, mas a intrincada tecelagem, a enorme falsa narrativa de F for Fake, o absurdo espectáculo a vários níveis, tudo isto é absolutamente tentador e irresistível; e de forma tal que os seus problemas não são mais do que características supérfluas deste exercício. A banda sonora, mais ainda, é composta por Michel Legrand – herói dos grandes filmes de Jacques Demy.

f73c69977b0d8c15c8b7f14c89271d50.jpgEl Topo (Alejandro Jodorowsky, 1970) – Por onde começar? A carreira do chileno Jodorowsky é um pequeno mundo por si só, surrealista e repleto de referências e símbolos que podem ou não estar em simbiose com a narrativa – quando esta existe, entendamos. Neste caso, El Topo é um crossover com o imaginário dos western, onde Jodorowsky, ele próprio, interpreta a personagem principal; e a história incide numa demanda de El Topo quando se compromete a matar os quatro mestres dos duelos de pistolas. Fá-lo depois de abandonar o seu filho em prol de uma mulher qualquer, e deixa-o nu, depois de o pequeno se emancipar da sua infância: enterrou uma fotografia da mãe, e o seu primeiro brinquedo. Fica a sensação de que Jodorowsky trata as suas personagens como símbolos de humanidade, talvez; e embora as suas acções e cenários envolventes raramente sejam críveis, carregam enormes pesos simbólicos nos quais é possível encontrar conteúdo; e tudo é tratado em termos absurdos, megalómanos, fantásticos. Logo no início, um grupo de bandidos define-se em frente da câmera: um lambe sapatos de mulher, outro deleita-se imaginariamente sobre contornos femininos, traçados nas rochas com bolotas, e um último corta, com o auxílio duma espada, uma banana, e come-a. Há comentário no símbolo – como uma espécie de definição do desejo primordial do Homem? Anões, gente mutilada e deformada, são aparições recorrentes nos seus filmes – será a sua presença comentário para a eventual diversidade do ser humano, um alerta para a possibilidade além do habitual, e canónico homo sapiens? As suas personagens operam num nível próximo do id freudiano, e o filme compromete-se com essa linguagem imediata e urgente, como se houvessem aberto as portas de Aldous Huxley e tudo jorrasse em potência, sem filtro. Fará parte da experiência, claro, procurar um senso em tudo isto, na imensidão de perguntas levantadas pela imagética de Jodorowsky; será um favor à sanidade do espectador que não se interrogue acerca de todas. Abundam neste e noutros seus filmes; neste El Topo, por exemplo, as alusões bíblicas são recorrentes. De resto, é difícil determinar se engrandecem ou apenas incham o já complexo universo do filme – essa resposta ficará à responsabilidade de cada indivíduo, caso se permita levar na loucura, no desmedido surrealismo, dos filmes do chileno. Mas é cada um uma experiência sui generis, e isso é um dado garantido no cinema de Jodorowsky.

the-holy-mountain-french-poster.jpgHoly Mountain (Alejandro Jodorowsky, 1973) – Quando comparada a El Topo, Holy Mountain é ainda uma experiência mais inclassificável. Têm, ambos, uma figura ‘heróica’ que poderá associar-se ao Jesus Cristo cristão, que neste filme é igualmente um ladrão (que está levemente associado às cartas do tarot), e que vai, numa jornada com destino à Montanha Sagrada – onde descobrirá o segredo da imortalidade, ou algo do género – encontrar-se com várias personalidades, cada uma em representação de um planeta do nosso Sistema Solar. Cada um descreve um arquétipo de Homem civilizado no mundo contemporâneo – há o polícia, o vendedor de armas, o conselheiro financeiro, etc. – e ajuda a perceber neste filme uma espécie de sátira ao mundo capitalista; que nunca é absoluta, ou, melhor dizendo, consumada: estamos sempre em movimento contínuo, em direcção à Montanha. Mais uma vez, surge a acção entre o literal e o simbólico, onde cada cena parece ter em si uma imensidão de significados; e como seria extenuante tentar dissecar todos os subtextos dos seus filmes, o cinema de Jodorowsky acaba por ficar neste limbo, de uma experiência visual extremamente rica, mas em igual medida confusa, e talvez insatisfatória. Porque não é um cinema de respostas, talvez mais um de perguntas, ou de impressões, que nos põe em contacto directo com um algo primordial. Há uma frase que se diz ser do chileno, embora não tenha encontrado uma fonte que o confirme – tomemo-la com leviandade: “I ask of cinema what most North Americans ask of psychedelic drugs”. E o que em tempos aconteceu, de facto, foi uma enorme prevalência das drogas psicadélicas na sociedade americana como forma de atingir um qualquer estádio de conhecimento distinto do habitual, que os colocasse em sintonia – uma particular forma de entendimento – com o mundo imediato, e o reinterpretasse, como consequência. Há, no final do filme, uma confluência nesse sentido: explosão visual e simbólica de tudo o que seguiu em direcção à montanha, e um final que é em igual medida corajoso, absurdo e algo contraditório em relação à sua própria premissa; mas contribui, como não podia deixar de o fazer, para o mito do cinema de Jodorowsky.

1ed421231829df1c40c5c7305a43f337--endless-movie-posters.jpgPoesía Sin Fín (Alejandro Jodorowsky, 2016) – Dos três, este é provavelmente o mais acessível e, com nisso influência, o de narrativa mais canónica. E isto porque, na verdade, Poesía Sin Fín é tremendamente autobiográfico, o segundo de uma trilogia (haverá um terceiro?) baseado na vida do próprio realizador, verdadeiramente um autor de todo o filme e no qual participa em intervenções mais relevantes do que meros cameos. Mas se Jodorowsky existe mesmo e é real – ou, melhor dizendo, tanto quanto o podemos garantir, que não é assim tanto -, nem tudo o que aqui é descrito o será; há romantização, bonita e com candura, de vários momentos da sua vida, desde a infância com o pai autoritário, que recusa a sua tendência para a poesia (é um “maricón!”), até à vida adulta, ou uma possível iniciação. E como não podia deixar de ser, há ainda símbolos neste filme, sejam representados pelas personagens que rodeiam o chileno, ou intuídas nos espaços que habitam; e no entanto a sua função é mais acessória e não retêm tanta importância como noutros filmes seus. Poesía Sin Fin é curioso por outros motivos, também: Jodorowsky recorreu ao crowdfunding como forma de financiar a sua fase final, e diz o próprio, a dada altura, num repto que lançou aos seus fãs: “Já tenho 86 anos e meio – que faço eu, fazendo cinema? Doem-me os pés, as pernas, a cintura, os braços, o pescoço. Dói-me o corpo todo, mas — que felicidade! Fazer finalmente um cinema que cure, e não um cinema doente, que mostre apenas destruição!” Jodorowsky dá a entender que Poesía Sin Fin é, de facto, um filme diferente no seu cânone, onde a literalidade da acção nos chega com facilidade, sem se esconder demasiado por trás de símbolos e outras associações; é um registo no qual descarta a absurdidade surrealista do passado, para se aproximar de uma tradição, mais literária, que lhe é próxima também: o realismo mágico, definido pelas intromissões do fantástico num mundo que se rege pelas normas habituais.  E além de tudo isto,  é um trabalho extremamente pessoal, talvez terapêutico, até, se tomarmos em consideração algumas ideias do chileno sobre o papel do cinema. Porque notamos um à vontade explícito, dividido entre o confronto e a tremenda honestidade: se Jodorowsky não teve pudor em ser ele próprio personagem das tramas anteriores, desta vez foi um passo mais longe, pondo filhos e netos como os habitantes das personagens que criou, o que, mais uma vez, interpela o espectador num sentido extra-fílmico e remete para o tal cinema como terapia. Chega-nos com uma tremenda energia para se confessar, e dá-nos, finalmente, o seu lado mais humano, sentimental, como se primasse por se expressar com uma inocência infantil. Talvez tenha sido este o seu objectivo desde o início; se assim for, demorou uma vida para aqui chegar.

Para o próximo mês: mais um filme de Jacques Demy; um noir jornalístico da década de 50 americana; e uma bonita experiência documental.

04/08 – Música do amor, do mundo, e da dor; a música de João Nada pelas suas palavras; e cassetes.

Emissão das boas!

Começámos com Teddy Pendergrass, descoberto a partir do último disco que ouvimos na emissão anterior. Seguiu-se Tyler, The Creator, com novo disco, Flower Boy, um marco na sua carreira até agora.

Na música nacional, resgatámos o trabalho de João Nada com o Clube Social da Boavista, lançado no início deste ano com a Gentle Records e que passou algo despercebido. Colecção de canções simples adornadas com sopros de toada urgente, embora amadores e desgovernados; porque, descobrimos, nenhum dos músicos que aqui tocou tem a necessária experiência com os respectivos instrumentos. O João conversou connosco entretanto; poderão ler no final do post.

Depois, seguimos numa jornada pela música que não se encaixa nas nossas designações ocidentais, e que de forma algo rude se amalgama sob o epíteto de world music. Jali Musa Jawara assinou um disco belíssimo e absolutamente essencial, com instrumentação tradicional, longos takes melódicos, etéreos, pontuados por coros de vozes e um som que, em toda a sua abrangência, é algo extraordinariamente único – ouçam-no, por favor! 

O habitual momento dedicado à Porto Calling trouxe-nos The Creation, discreto mas influente grupo britânico da década de 60. Recomendação directa do Pedro, dono da loja, que podem visitar a qualquer altura no site; e daqui, passámos aos Suicide, grupo nova-iorquino cujo som tem sido decalcado pelas gerações seguintes, e ao seu membro Alan Vega, falecido no ano passado, com música do disco póstumo IT.

Para a parte final do programa, uma proposta especial. A semana foi especialmente marcada por um interesse no formato cassete – a fita magnética que marcou os anos 80 e 90, pela sua fiabilidade e acessibilidade. Sobreviveu, e bem, ao CD e ao obsoletismo imposto aos meios físicos; e a internet, em certos meios específicos, até lhe deu bastante força. Neste formato, gravaram-se inúmeros registos, desde a pop ao mais experimental, e a cena DIY tomou-a como preciosa aliada. E em ligação directa aos anos 80, esteve o projecto Noise-Arch (com link), sob a tutela de Myke Dyer, radialista da CKLN FM, que reuniu uma série de cassetes de vários projectos underground pelo mundo fora. A dada altura, houve um site mantido por Graham Stewart e Mark Lougheed, mas terminou; felizmente, o Archive.org (onde, de resto, estão alojados os podcasts d’A Mosca) tem grande parte do acervo disponível, e lá recuperámos duas das cassetes cujos excertos ouvimos. Já se perdeu a informação da primeira cassete; a segunda pode encontrar-se aqui.

1. Teddy Pendergrass – Come Go With Me (Teddy, 1979)
2. Tyler The Creator – See You Again (Flower Boy, 2017)
4. Tyler The Creator – Garden Shed (Flower Boy, 2017)
5. João Nada – Frio (Com a Banda do Clube Social da Boavista, 2017)
6. Jali Musa Jawara – Fote Mogoban (Yasimika, 1990)
7. The Creation – Making Time (We Are Painterman, 1967) | sugestão da Porto Calling.
8. Suicide – Johnny (Suicide, 1978)
9. Alan Vega – Screamin Jesus (IT, 2017)
Excertos de cassetes do projecto Noise Arch, recuperadas no archive.org.
10. bedwetter – haze of interference (volume 1: flick your tongue against your teeth and describe the present. 2017)

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Depois de por cá ter passado a música de João Nada com o Clube Social da Boavista, fomos à procura de mais sobre este trabalho e o que levou à sua existência. Depois de alguns e-mails trocados, o João, a partir de Glasgow, contou a história toda, aqui editada e resumida:

Eu descobri a música do Tori Kudo e do seu projecto Maher Shalal Hash Baz quando estava em Londres, a fazer Erasmus. Isto foi de Setembro de 2013 a Março de 2014. A minha actividade musical foi sempre dependente de momentos de entusiasmo seguidos por momentos de afastamento, por vários motivos… E descobrir a sua música provocou um novo momento de entusiasmo – fiquei logo encantado com aquilo, muito fascinado e obcecado até, e inspirou-me de uma forma inesperada e muito intensa. Fiquei com imensa vontade de tocar com outras pessoas e com instrumentos de sopro. Adorei ouvir aquelas canções simples, interpretadas por uma voz frágil mas sem medo de ser frágil, e acompanhada por instrumentos que soavam sempre como se estivessem meio fora, meio dentro; meio desafinado, mas a fazer sentido. Meio mal tocado, mas lindíssimo.

Pela mesma altura, uma série de felizes acasos traçaram as linhas do que viria a ser o Clube Social da Boavista. “Nessa altura, o Tomé Duarte tinha começado a tocar clarinete e o João Sarnadas tinha-me dito que lhe tinham oferecido um trombone que tinha sido encontrado no lixo. O Tomás Canha estava com vontade de aprender bateria; e no primeiro ensaio, o Sarnadas apareceu com o Tito Frito que trazia um trompete e que se juntou à banda também.” A ideia inicial foi apenas tocar as canções de João Nada ao vivo, até que acabasse o curso universitário, em Outubro de 2014, e por essa altura gravaram as músicas do EP para memória futura. “Todos nós estávamos contentes com o resultado e estávamos a adorar tocar juntos. Já sabíamos desde o início que aquela banda era temporária, mas ainda assim ficamos tristes com o aproximar do fim. Então decidimos gravar o que tínhamos feito, para que ficasse registado.”

O nosso processo foi muito intuitivo, e envolvia improvisação: não no sentido em que cada vez que tocássemos a coisa podia ir para onde desse, mas no sentido de procurar fixar um arranjo mais ou menos definitivo. Apesar de deixarmos sempre espaço para flutuações e variações, certas melodias iam aparecendo nos sopros à medida que íamos repetindo a mesma canção nos ensaios. E essas melodias foram ficando porque gostávamos do resultado, por exemplo. O mesmo na bateria, e mesmo na minha interpretação na voz e na guitarra foi havendo alterações, claro, para que houvesse lugar para os outros instrumentos. No fundo, estávamos sempre à procura da melhor forma de preencher as canções, como se estivéssemos todos a tentar existir num espaço que era limitado e definido (a canção) enquanto interagíamos uns com os outros, às vezes construindo harmonia entre nós, às vezes criando tensões, mas sempre sem que ninguém atropelasse ninguém. Por isso sim, havia improvisação e espaço para que acontecessem coisas coisas inesperadas mas ao mesmo tempo íamos criando e aprimorando uma estrutura e paisagens específicas para cada canção.”

a1242923098_16No entanto, por motivos técnicos não foi possível gravar como se se tratasse de um concerto. Fizeram-no em takes distintos, com os instrumentos em separado. Como no cinema, por exemplo, a estrutura prévia e as expectativas seriam desafiadas no processo de colagem. “Só com o avançar da mistura é que fomos ficando com uma ideia mais concreta de como é que a coisa ia soar e se ia de facto ficar próximo daquilo que imaginávamos. E a verdade é que acabei por ficar surpreendido com o resultado final da mistura que o Sarnadas fez. Surgiram ainda duas participações adicionais – David Ole, no clarinete, e a voz de Sara Graça – e, como acontece sempre nestes processos, “a forma final que a coisa assumiu deve muito também à mistura e às participações adicionais“.

Quanto à tag wrong“, que aparece no Bandcamp do projecto, “é um bocado provocação irónica e um bocado caracterização sincera. Quando faço canções às vezes sinto que não as faço como deve ser, sinto-me sempre meio outsider e amador ao fazê-las e depois também ao cantá-las e ao tocá-las. A minha voz não é muito boa e o que eu toco na guitarra é muito básico. Talvez tenha usado a designação de wrong songs um pouco como defesa a priori, talvez porque já tenha tido reacções à minha música que diziam que eu não sabia cantar, ou tocar, ou fazer canções. E se calhar não sei; mas, se calhar, isso não significa que não as possa fazer, e que não possam encontrar quem goste de as ouvir. Acho que muitos dos escritores de canções que eu aprecio também não fazem a coisa “da forma certa”. Mas depois de tanto tempo a fazer “da forma errada”, essa “forma errada”, que é específica deles, acabou por se desenvolver e evoluir para uma coisa linda e forte e única e que, mesmo sendo horrível e “errada” para muita gente, também pode ser especial para muitas outras pessoas.

E claro, foi especial pelo menos para nós – como muita da música que por aqui passa, não necessariamente criada nem interpretada da forma canónica. E é isso que a torna especialmente interessante! Podem seguir a Gentle Records, a editora de nos trouxe o EP Com a Banda do Clube Social da Boavistano seu Bandcamp.

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