Um retrato das várias Américas, zangadas. A moralidade e a justiça em 12 Angry Men, de Sidney Lumet.

Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Por entre as pedras, o fogo, as trevas, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

ouuojk0t3n5ooxltnoub9ds825fAlerto para o curioso facto: Sidney Lumet é o primeiro realizador que repetimos nos nossos ciclos. Ele não é, ao contrário de um outro tipo de cineastas, um que reconheçamos imediatamente pelo seu estilo (enumeramos Kubrick, Altman, Antonioni, Fellini, mais recentemente Wes Anderson ou Paul Thomas Anderson — e muitos outros). Pelo contrário, fica a sensação que Lumet se dilui nos seus filmes, na azáfama de todo o processo cinematográfico, e o seu toque autoral ou não se manifesta ou é, simplesmente, inexistente.

De facto, poder-se-á considerar Lumet um realizador contido; ou pelo menos, um cineasta distinto na sua forma de abordar o cinema. Iniciou a sua carreira artística ligado ao teatro, onde aprimorou a técnica de direcção de actores, e, mais tarde, seguir-se-ia a produção televisiva, onde se destacou dos demais. Aí, aprendeu que a realização é uma questão de eficiência: nem sempre tudo corre como planeado, há prazos para cumprir, e o dinheiro é frequentemente um problema. O seu cinema é isso mesmo: eficiente. Houve actores que iniciaram e terminaram filmagens sem sequer dar pela sua discreta presença.

O passo da televisão para o cinema dá-se quando Henry Fonda, na altura um já reputado actor, pretende levar ao grande ecrã uma adaptação de 12 Angry Men, originalmente pensado para televisão; aí, contactou Sidney Lumet, que faria então o seu primeiro trabalho cinematográfico. Orçamentado em 350 mil dólares, foi uma produção modesta, coincidente com a própria natureza do guião — essencialmente, doze pessoas numa sala durante hora e meia —, filmado num tempo quase recorde de apenas 19 dias.  

Ora, este guião não oferece grande abertura para um estilo arrojado de realização: não há cortes temporais, não há mudanças de cenário, não se introduzem novas personagens ao longo do filme. Neste sentido, 12 Angry Men é até algo minimalista: bastaria filmá-lo em plano/contra-plano e qualquer aprendiz de realizador levaria este guião ao cinema. Se tomarmos o filme com esta ideia em mente, rapidamente percebemos de que forma Lumet tomou os limites deste guião a seu favor.

Partindo da sua anterior formação como director de actores, há da sua parte uma enorme sensibilidade para os movimentos das suas personagens. Em qualquer dada cena do filme, a câmera explora as posições de cada um dos jurados, contrasta-os entre si, permite que um inicie a acção para um outro logo depois tomar as rédeas do acontecimento e concluí-lo. A sua posição, mais afastada ou mais próxima dos actores, irá dar-lhes liberdade de expressão, ou pô-los claustrofóbicos no enquadramento da imagem. Os cortes entre cenas, se no início do filme são longos e fluídos, tornam-se cada vez mais mecânicos, de um ritmo mais tenso, e intenso. 

Portanto, ao longo de todo o filme, Lumet está presente em tudo o que vemos, e na forma como vemos. Embora nunca tenha sido autor dos seus guiões, deixou uma marca indelével em todas as suas produções, executando-as com eficiência e cuidado. 12 Angry Men, o seu primeiro filme (!), é por isso uma óptima introdução para uma forma de cinema muito especial. 

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Sidney Lumet, num primeiro plano à esquerda, e Henry Fonda mais atrás, durante as filmagens de 12 Angry Men.

Network: a televisão como paranóia e instrumento do mal.

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Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Cinema Perigoso e Até Algo Arriscado, organizado conjuntamente pel’A Mosca e pelo CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

Na passada semana descobrimos um pouco do mundo de Stanley Kubrick, obsessivo e paranóico, munido da sátira como forma velada de comentar o nosso mundo. E desta vez, seguimos com Network em missiva semelhante, um filme realizado por Sidney Lumet embora seja, na verdade, um trabalho muito autoral do guionista Paddy Chayefsky. Tal como Kubrick, Chayefsky é born and raised em Nova Iorque, de descendência judaica; e tal como Lumet, começou a sua carreira no mundo da televisão, só depois cruzando o caminho para a indústria do cinema.

A premissa de Network foi encontrada já depois de Chayefsky se ter estabelecido na indústria –   por essa altura, já havia ganho dois Oscars de argumentista com Marty em 1955 e com The Hospital em 1971 – mas havia ainda algo por dizer, que lhe escapara no singelo retrato da solidão humana do primeiro, e na mordaz crítica às instituições e moral americanas do segundo. Prontamente identificou um alvo na grande fábrica de entretenimento americana: a Televisão.

A televisão americana nos anos 70 era um complicado organismo, e funcionava de uma forma estranha à realidade americana de agora (e nem a podemos comparar com parte alguma da história da televisão portuguesa). Havia uma forte dicotomia entre a sua função noticiosa e a programação de entretenimento, entre os conteúdos nacionais e a frequentemente amadora produção local. E os anos dourados já haviam passado – a década de 50 era então uma distante memória, com as suas produções de estúdio em directo, inspiradas na tradição da Broadway.

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É dessa escola que vem Sidney Lumet. Desde cedo, trabalhou com o pai em pequenos espectáculos de teatro e variedades, e o seu talento para a representação levou-o a participar em várias peças na Broadway – sem muito sucesso, de resto – e acabou, alguns anos depois, por liderar uma pequena organização de actores. Aí, ao comandar um dos exercícios de representação, descobriu um talento para a direcção representativa. Essa foi, aliás, a sua maior força ao longo de uma muito prolífica (44 filmes em 50 anos), embora também algo discreta, carreira de realizador. Com ele, perpetraram-se maravilhosas prestações de Al Pacino (Dog Day Afternoon, Serpico), Paul Newman (The Verdict), ou o maravilhoso ensemble cast de 12 Angry Men (a sua estreia em cinema!).

Disse Lumet, largos anos depois da realização de Network – “it’s a hell of a good picture!” – que assusta a notável presciência do guião de Chayefsky. Passaram quarenta anos — mas, o que mudou? Porque, afinal, o filme não é apenas uma crítica à televisão, mas sobre algo maior: “a corrupção do espírito americano. Network é uma metáfora para a América”. No seu implacável relato de consumo de massas, da absurdidade da comunicação dos media, do conforto da vida contemporânea: sobre tudo isto ainda há muito para Network dizer.

“I consider that fight for individuality, for me, that’s what life should be about – what a good life should be about. I think everything conspires to crush your individuality.”   — Sidney Lumet.

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De Niro e Scorsese entram num bar; o cinismo narrativo do Rei da Comédia.

the-king-of-comedy.21773.jpgPoderia vir carregado de um enorme simbolismo, mas, tanto quanto me lembro, a primeira escolha cinemática do ano – e logo no final de tarde do primeiro dia de Janeiro – foi uma espécie de feliz acaso, motivado pela aposta segura que é o cinema de Martin Scorsese. The King of Comedy é um produto do que erroneamente supus ser a sua infernal década de 70, que nos trouxe Taxi Driver, New York, New York, e Mean Streets – até Raging Bull, se errarmos até 1980 -, e tudo se deveu à presença de Robert de Niro no papel principal. Afinal, precede After Hours, já nos anos 80, tendo chegado às salas no ano de 1983. Quando estes dois nomes se juntam, à memória assoma a impressão das ruas nova-iorquinas, musicadas por Bernard Herrmann e o seus sopros sombrios, as luzes, os néons, reflectidos nos charcos da chuva na estrada, a raiva e a errática obsessão de Travis Bickle, noite adentro ao volante do seu táxi. Há traços dessa personagem no auto-intitulado Rei da Comédia (e antes, no Jimmy Doyle de New York, New York), sem que saibamos a fonte da insistência nessa personalidade perniciosa, determinada, a roçar o lunático. Assim também o é Rupert Pupkin, um comediante amador, que crê ser o mais genial comediante da sua época, pudesse apenas romper pela hierarquia do entretenimento e provar o seu real valor; e irá lutar por essa oportunidade. Enclausurado pelo seu ego, é através dele que toldará todas as suas impressões e acções, um caminho que, a nós, tanto se mostra salutar determinação como delirante loucura, completamente desfasada da realidade. Se, nesse sentido, Pupkin é uma extensão de Travis Bickle, há nos dois uma distinta diferença traçada pela mão de Scorsese, que lhe junta mais uma dimensão pela forma do próprio filme: em Taxi Driver, a acção apresentou-se linear, contada por uma lente narrativa que por nada julgaríamos parcial; a câmera narra, apenas, a vida e as escolhas de Bickle. A questão parece até ser pouco relevante, mas vejamos como, em relação à história de Pupkin, a narrativa do filme nos é apresentada de uma forma não-linear, e o seu impacto na audiência alimenta a dúvida entre a realidade categórica e a ilusão de Rupert Pupkin.

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Concretizemos: Pupkin ambicionava chegar ao topo da comédia, e isto significa ser o Rei no late night show de maior audiência da televisão; por isso, identificou como prioridade estabelecer contacto com Jerry Langford (interpretado por Jerry Lewis), director e apresentador do programa. E aqui, Scorsese tomou a escolha editorial de mostrar cenas com Jerry fora da sua linearidade, e que levanta, em suspenso, a possibilidade de as mesmas serem produto da imaginação de Rupert Pupkin. Assim, Scorsese é, além do autor do filme, manifesto cúmplice no criar da suspeita que o público levanta em relação a Pupkin, e a toda a história. Este processo de ter um narrador de pouca confiança não é inédito nem muito menos revolucionário, nem no cinema nem no maior arco que a literatura compreende, mas resulta e torna The King of Comedy bem mais interessante do que seria sem esta decisão; e quanto à similitude com a personagem de Travis Bickle, surpreende que o autor do guião original não seja Paul Schrader, mas sim Paul D. Zimmermann, um guionista muito menos prolífico que o anterior.

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Jerry Lewis, De Niro, e Martin Scorsese, na altura de The King of Comedy.

Depois, além de seguir a acção de Pupkin, Scorsese envereda numa velada crítica à televisão e ao conceito de celebridade, cujo cinismo terá sido, porventura, um dos motivos para o tardio (e ainda algo parco) reconhecimento deste filme na sua filmografia e, numa perspectiva mais abrangente, no próprio cinema Americano (por outro lado, Sidney Lumet teve mais sucesso com o extraordinário Network, de 1976, igualmente cínico). Por isso, desenganem-se os que o consideram um trabalho menos importante ou merecedor de pouca atenção: está aqui uma progressão do estudo que nos trouxe Travis Bickle e que continua, por exemplo, em New York, New York (do qual falaremos em breve), tanto a nível de construção de personagem como na própria apresentação da narrativa, enquanto entretém e convida à reflexão. É um importante passo na eclética e multifacetada filmografia de Scorsese; e, por isso, também indispensável.

O meu 2015.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO ARTE-FACTOS]

Ah, agora sim! Desta vez, não me limito ao cinema de 2015, e permito-me a uma reflexão sobre o ano que agora termina. Escolhi duas mãos cheias de destaques dos últimos doze meses, e que a mim me encheram o mundo – uns mais que outros, claro, e houve algumas batotas pelo meio. Conta a intenção! Além disso, optei por não os ordenar de forma específica. Embora não sejam todos equivalentes, foram todos, à sua maneira, essenciais para o último ano. Comecemos!

1.  O primeiro destaque vai para o espaço semanal “Já Vi Este Filme”, na RTP2, que, desde Setembro, tem feito alguns ciclos de cinema mais alternativos aos Sábados, com comentário prévio e posterior ao filme. Por lá, já passaram estreias de Roberto Rossellini, Yasujirō Ozu, etc. Esta atenção à cultura não é de agora – embora me pareça que tem havido algum desinvestimento nesse sentido – e fico feliz por saber que todas as semanas há um filme novo, em sinal aberto, para os que se interessam. Se são muitos ou poucos, já são outros quinhentos, mas fica a intenção – oxalá a reforcem!

Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de 'Dog Day Afternoon'.
Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de ‘Dog Day Afternoon’.

2.  E, já que falamos de cinema, só este ano vi pouco mais de 150 filmes. Fiz algum esforço para manter o ritmo ao longo do ano, por ser um meio que muito me interessa (e daí que me tenha juntado ao projecto do Arte-Factos!). Desses, pouquíssimos foram os filmes contemporâneos, já que a maior parte pertence ao século passado, e já desisti da ideia de organizar a lista dos favoritos: são demasiados. Mas descobri e aprendi muita coisa, e espero poder, ao longo dos próximos tempos, transmitir um pouco que seja deste meu fascínio. Para que este ponto não passe como apenas um devaneio egoísta, deixo-vos a recomendação do livro Making Movies, de Sidney Lumet, um realizador americano que, infelizmente, parece ser caracterizado como um cineasta de “segunda linha”, e que redigiu um óptimo livro sobre a feitura de um filme, intercalado com momentos de análise e explicação técnica de cenas do seu próprio trabalho.

43091-art-angels3. Felizmente, não só de cinema viveu o meu 2015. Antes pelo contrário! Em relação à música deste ano, de entre os óptimos discos que foram saindo (o incontornável To Pimp a Butterfly, Simple Songs de Jim O’Rourke, a colaboração entre Colin Stetson e Sarah Neufeld, etc.), há um que tenho que destacar: Art Angels, da americana Grimes. Ora, não é o melhor álbum que ouvi este ano, mas apanhou-me de surpresa com o assumido ataque à pop açucarada, irrequieta, e esquizóide, e que veio para não mais me deixar em sossego. Sou agora uma vítima do poptimism que tem assolado a imprensa especializada nos últimos tempos, na senda de encontrar, no comercial e no efémero, um retrato do nosso contemporâneo (a Hotline Bling não entra nesta recensão). Não é – repito – o melhor que ouvi este ano, mas deixou-me intrigado e instigou-me a reformular a minha abordagem a certos artistas e géneros. Sempre bom.

4. Ainda na música, e numa posição diametralmente oposta à do último destaque, recupero o concerto de Oren Ambarchi, na última edição do festival Semibreve, em Braga. Mesmo sem acompanhar de perto a carreira do artista australiano, havia ouvido a sua colaboração com Jim O’Rourke, no disco Behold, e era o seu concerto que mais ansiava neste ano de Semibreve. Não me desapontou. O seu trabalho improvisacional na transfiguração (e desfiguração) da guitarra, e a edificação de algo tão intenso, energético e opulento, tudo isso foi amplamente contemplado, e escrutinado, no assalto à nossa audição durante os cerca de 50 minutos de concerto. Não sei se alguma vez conseguiu replicar essa experiência em disco. Não sei, sequer, se vale a pena tentar. Guardo a repetição da experiência para um breve futuro!

Retirado do Facebook do Gnration.
Retirado do Facebook do Gnration.

5. E já que falámos do Semibreve, quero relembrar a sessão de conversa com Hans-Joachim Röedelius, patrocinada, no âmbito do festival, pela publicação britânica The Wire. Se a mim me fascinou, e apenas o conheço há relativamente pouco tempo, imagino os que de certa forma cresceram na companhia da música dos Cluster e da electrónica que parece de outro mundo mas, não, que afinal vive bem perto, na Alemanha. Falou-nos de tudo um pouco. E foi, realmente, um ano de boas conversas: atém do alemão, é impossível esquecer-me da entrevista que fiz ao B Fachada, e muito nervosa e inexperimentemente, ao Peter Kember, ambas em Braga; e também ao Allen Halloween, que me provou ser uma das personalidades mais importantes deste último ano (a não esquecer o seu álbum Híbrido!).

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Retirado do Facebook do Gnration.

6. E tudo isto vem a propósito porque quero destacar, de uma forma mais abrangente, o último ano cultural que tivemos em Braga. Não destaco nenhum nome em particular porque me esqueceria, inevitavelmente, de alguém, mas tivemos um óptimo ano de concertos para todos os gostos e idades, além de uma série de iniciativas ligadas à música e à cultura em geral. E no âmbito do cinema, que a mim me interessa sobremaneira, foi interessante (com muita margem para mais), sobretudo devido ao trabalho realizado no Theatro Circo – pena a sessão única, e esgotada, das Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes.

©Alfred Dunhill
©Alfred Dunhill

7. Salientei algumas entrevistas, mas nem sempre uma conversa se faz de diálogo: às vezes, ganhamos muito mais se soubermos escutar. Acontece que ao longo deste último ano, explorei, a espaços, a eclética carreira do músico Brian Eno (ele fez de tudo! Basta atentar nos anos de 1977-1978), que foi convidado pela BBC Radio a conduzir uma palestra sobre a arte e a cultura, num evento de homenagem ao radialista John Peel. Ao longo de uma hora, discorreu sobre o papel da arte, da cultura, e a nossa forma de lidar com a criação artística, e tem considerações bem interessantes a fazer sobre o tema. Por vezes, neste tipo de díalogos, corre-se o perigo de os tornar herméticos e algo inacessíveis, e desta vez não aconteceu: Eno fez muito bem o seu trabalho de casa, e foi claro e divertido ao longo de toda a conversa. Foram momentos muito bem passados e, por isso, destaco-a aqui.

8. Também aconteceu de, este ano, finalmente ter abraçado algumas novas tecnologias de difusão de conteúdos, principalmente os podcasts e os e-books (tenho, finalmente, um e-reader – e não, não é um kindle). No primeiro caso, é uma consequência lógica da minha actividade em rádio, e que me ajudou a perceber (e a produzir) uma outra forma de trabalhar o áudio. Não vou à procura de programas de música – devia? há sugestões? – mas sim de programas de conversa e que saibam aproveitar as capacidades da sonoplastia. Quanto aos e-books, usufruí, sobretudo, de literatura em inglês, devido à falta de oferta: no nosso país, é um formato extremamente mal aproveitado, chegando, por vezes, ao ridículo de nos ser oferecida a versão digital mais cara que a versão física. Não se enganem: eu adoro livros em papel. O cheiro, o tacto, o peso de um livro, são insubstituíveis. Contudo, isto é algo a rever pela indústria nos próximos tempos, e oxalá seja para breve.

9. Isto leva-nos ao único destaque literário que tenho para este ano. Li algumas coisas – não tanto quanto devia – e, entre os pouco mais de dez livros (que podiam ser cem, ou mil), há um que sobressai: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Comprei-o depois de uma breve sugestão, não sei bem a propósito de quê, porque, em boa verdade, ainda não havia lido nada thomas mann montanha magicacomo a obra do alemão. E falo tanto da componente narrativa, como da própria dimensão do tomo. A premissa é simples: Hans Castorp, homem de engenharia, prático e mundano, planeia passar três semanas num sanatório onde se tratam doenças do foro respiratório, e “acaba por lá ficar sete anos, nem longos, nem breves, herméticos tão-só”. Segue-se um romance na tradição de bildungsroman, documento da passagem e da formação humana de Castorp nessa montanha. As minhas palavras, mais por parca capacidade do que risco de redundância, não lhe fazem justiça. Aprendam sobre a vida e sobre o tempo, com Castorp e Mann.

10. Para terminar, permito-me uma consideração sobre o espírito crítico que tentei desenvolver, ao longo deste último ano, na apreciação do meu consumo cultural. A cultura – e, por extensão, a arte – podem-no ser de várias formas e por vários motivos, mas dificilmente as consideraria como um meio de escape ao nosso quotidiano. A arte vive, também, da intensidade da experiência humana e, como tal, é dela indissociável. Consumi-la leva-nos sempre um passo adiante no conhecimento em relação à nossa história, e intrínsecas motivações, e, para mim, é algo demasiado valioso para   que não a tente apreender ao longo dos dias.

Este foi o meu primeiro ano de Arte-Factos, e espero ter contribuído positivamente para uma comunidade à qual nada falta para se tornar uma referência. A eles, e a vocês, um muito obrigado, e que 2016 seja tão bom, ou melhor ainda, que este último ano!

Dia Mundial do Cinema e relacionados.

Ontem, dia 5 de Novembro, comemorou-se o Dia Mundial do Cinema. É uma bonita efeméride, que nos recorda o nosso enorme gosto de ver filmes. Nesse sentido, o Arte-Factos reuniu a sua equipa e juntar os vários filmes que nos marcaram; eu não consegui fugir ao incontornável Elephant, de Gus Van Sant, que foi até, creio eu, o primeiro filme de que se falou – duma forma muito rudimentar – aqui n’O Coprófago. Podem consultar o artigo, na íntegra, no link.

91hC8v+LIVL._SL1500_Além disso, aproveito para deixar uma breve nota sobre os filmes que tenho visto ultimamente. Primeiro, não posso deixar de mencionar os filmes de Sidney Lumet. Já da última vez os tinha mencionado – com uma promessa de, mais tarde, lhe dedicar uma maior atenção – e não consigo, de forma alguma, afastar-me da sua filmografia. Desta vez, segui com The Pawnbroker (1965), sobre um judeu solitário que tem por sua conta uma loja de penhores, e uma vida toldada pelo horror do Holocausto. Filmado ainda a preto e branco, a belíssima e expressiva cinematografia ficou a cargo de Boris Kaufman (que, descobri entretanto, é irmão de Dziga Vertov, um dos mais celebrados nomes do cinema russo, e mundial!); e embora o filme fuja um pouco ao traço moral que reconheci aos mais recentes trabalhos do realizador americano, não deixa, ainda assim, de ser muito interessante, num óptimo registo de retrato humano.  Além desse, vi também um outro épico da sua carreira, de nome Prince of the City (1981). Numa primeira instância, associei-o a uma espécie de remake de Serpico, que teve Al Pacino no papel principal. Ora, em boa verdade, a temática é semelhante, com retrato de polícias que se vêm envolvidos em complexos sistemas de corrupção. No entanto, o tom de PooC é diametralmente oposto ao de Serpico, sendo mais cru, realista, e menos romantizado – e, desta vez, a personagem principal faz parte da facção corrompida. É um fantástico filme, tenso e brilhantemente construído. Permitam-me acrescentar que, restando-me apenas um par de filmes para terminar o grosso do trabalho de Lumet, estou simultaneamente a terminar a leitura do seu livro Making Movies, editado em 1996, e que é simplesmente obrigatório para quem gosta de cinema. Lumet descreve, ao longo de cada capítulo dedicado a uma parte da realização (desde a escolha de guião, à filmagem, à edição, etc.) o processo da feitura do filme, com o trato de quem, tanto no cinema como na escrita, é capaz de contar boas histórias.

relatos-salvajes-posterFora do âmbito de estudo de um realizador, passei por alguns filmes mais recentes. Relatos Salvajes (2014), de Damián Szifron, fruto de produção argentina, foi um dos filmes mais bem conseguidos que vi nos últimos tempos. É, de uma forma sucinta, um filme divertido – o que, claro, é um elogio – resultado de uma amálgama de várias pequenas histórias, como se fossem sketches, ou curtas-metragens, sob o tema comum de vingança, sátira, e humor negro e surrealista. Surpreendentemente, o trabalho final é bastante coeso, e nenhuma das histórias se destaca como descartável – contribuem todas para um gigantesco bolo de loucura “só porque sim”. Esta foi uma recomendação do nosso cineasta António-Pedro Vasconcelos, que participou numa palestra sobre o estado do Cinema em Portugal há cerca de duas semanas (há um artigo pendente sobre esse assunto…); nessa altura, e tomado pelo cepticismo de quem vive esta situação precária há demasiados anos, disse que “o cinema marroquino dá 10-0 ao nosso. O cinema argentino, então, nem se fala. 100 a 0!”.

tangerine_xlgVi também outro filme de 2015, um curioso filme chamado Tangerine realizado por Sean Baker. A sua narrativa está sustentada num único dia nas vidas de três indivíduos: um taxista arménio, e duas prostitutas transexuais. Posto isto, o filme desenrola-se, aprofundando a humanização de cada uma das personagens através das pitorescas situações que vivem, complementando o norte cómico que pontilha todo o filme. Há também um outro pormenor interessante: Tangerine foi filmado exclusivamente com iPhones 5S; sem menosprezar este feito técnico, que se pode extender à importância de meios digitais e acessíveis no cinema independente, é de salientar que o filme vive muito para além deste gimmick. O resultado final, independentemente disso, é surpreendente. Tangerine é um filme bem conseguido e descomprometido com o que se vai fazendo mundo fora.

Faltavam mencionar ainda uma mão cheia de filmes – revi Vertigo, de Hitchcock, vi Os Mutantes, uma produção nacional de Teresa Villaverde (bom!), o hermético filme de Dennis VilleneuveEnemy, baseado no ‘Homem Duplicado’ de Saramago, e Being There, um bonito e simples filme de Hal Ashby. Por esta semana é tudo!

Breve apontamento sobre Sidney Lumet e Jacques Tati.

Ainda não é possível voltar ao antigo formato de curta opinião sobre cada filme da semana, muito por motivos de tempo. Veremos se será possível, em breve.

6a00d8341c2b7953ef01538ed37189970bAinda assim, destaco a a filmografia de Sidney Lumet, sobre o qual vou, em breve, discorrer num artigo próprio e mais extenso. A sua carreira, que tem como um dos grandes destaques 12 Angry Men (1959), está recheada de outros enormes filmes, entre os quais destaco Serpico (1973) Dog Day Afternoon (1975), ambos com Al Pacino no papel principal; The Verdict (1982), com uma óptima prestação de Paul Newman; Network (1974), um filme cada vez mais pertinente sobre o poder e a força da televisão; e, por fim, Before The Devil Knows You’re Dead (2007), o seu último da carreira, com Phillip Seymour Hoffman igual a si próprio – excelente – e Ethan Hawke a mostrar que sabe fazer mais do que olhar, com olhos de cachorrinho embevecido, para Julie Delpy. Quanto aos traços gerais do seu cinema, não será descabido dizer que é humanista, no sentido em que retrata, duma forma não demasiado comprometida, a condição humana; e dá um enorme destaque aos grandes dilemas morais, representados nas posições de maior poder (polícia, advocacia e justica, etc.). A quem não conheça o seu cinema, recomendaria Serpico, uma história verídica sobre a carreira de um polícia, e Before The Devil Knows You’re Dead, filmado em digital, e, possivelmente, o seu mais brutal e desconcertante enredo em cinema. E duvido que, depois destes, não se sintam impelidos a ver o resto da filmografia (como eu!).

A220px-Playtimeoriginalposterlém da carreira do realizador americano, pude ainda ver, na nossa sala do Theatro Circo, Playtime (1967) , do francês Jacques Tati, de quem nada conhecia  fiquei curioso pelo resto do seu trabalho. Apesar da parca narrativa – que serve, na minha opinião, apenas como um fio condutor para os diferentes sketches cómicos -, e com momentos menos bem conseguidos que afectaram o ritmo do filme, tudo é perdoado a Tati depois da grandiosa cena final, que se desenrola como um apoteótico clímax cómico. E, como disse um amigo meu (que se conserva anónimo, por motivos), “é possível que Mr. Bean seja inspirado no trabalho de Tati”, nomeadamente no que toca ao humor físico e situacional que é, realmente, comum a ambos. A seu tempo, dedicarei mais atenção à sua carreira.