E aqui vos falo do Cinema que vi.

Já passou mais de um mês desde a última vez que tomei a liberdade de olhar os filmes que vi nos entretantos. Desde então, passei pelo cinema de Hong Kong (destaco Come Drink with Meum óptimo filme de artes marciais e pleno de substância narrativa e cinematográfica – aliás, faz parte de uma corrente maior na história da narrativa asiática, denominada wuxia, sobre a qual vale a pena ler!), por alguma da cinematografia de Robert Altman, Stanley Kubrick, e outros filmes. Destes últimos, dou agora prioridade aos saídos em 2015, para saber o que se fez ao longo deste ano.

_1414684967Começo pelos mais recentes. Ex Machina, de Alex Garland. Saiu para os cinemas em finais de Abril, e surpreendeu muitos com o tema da inteligência artificial e da identidade humana, juntando-lhe o competente trabalho dos actores Oscar Isaac, Domhnall Gleeson (de Frank!) e Alicia Vikander. O tema é interessante, ora não estivéssemos numa era de frenéticos avanços tecnológicos, e o filme tenta, com moderado sucesso, introduzir algumas ideias filosóficas que “fazem pensar”. E é isto. É um filme bem feito, mas nada de transcendente. Por outro lado, trouxe-me à memória uma associação que não pude esquecer ao longo do filme: Solaris, do titã Andrei Tarkovsky. Há imensos traços comuns entre ambos: partir para um mundo que se desconhece, o contacto com uma presença não-humana, e a representação do que se esconde nos mais inacessíveis recantos da nossa (in)consciência. Para quem gostou, é obrigatório o filme do russo Taskovsky.

mad-max-fury-road-poster2.jpgAinda em 2015, estava muito curioso quanto ao Mad Max: Fury Road, de George Miller (tem 70 anos de vida!) que fortemente agitou o plano cinematográfico comercial. Mad Max é um blockbuster de acção, com uma história medíocre e pouquíssimos diálogos de relevo. Há explosões, e lutas, e imenso fogo. E resulta bem porque, além de ser feito com muita competência, é imensamente divertido e é genuíno! A CGI foi usada de uma forma responsável (há um interessante artigo na FXGuide) e é um exemplo para todos os que querem fazer este tipo de cinema, onde a tecnologia complementa em vez de criar – é uma enorme diferença. Por outro lado, é um filme que aproveita as potencialidades da sala de cinema, onde o som tem outro protagonismo e a imagem ocupa muito mais na nossa visão. Evidentemente, há um público para este tipo de filmes, e espero que Mad Max tenha levantado a fasquia para a acção (se houvesse um Mad Max por cada dois Transformers…). Que venham mais como este!

Long_Goodbye-poster1Quanto ao americano Robert Altman, ainda não houve um filme que me desapontasse, e acho-o um interessantíssimo realizador independente. O seu cinema é muito próprio e facilmente identificável, mas traçar-lhe as linhas e influências implica ser conhecedor de correntes que ultrapassam o meu conhecimento. Em The Long Goodbye (1973), história adaptada do livro homónimo de Raymond Chandler, acompanhamos o detective Philip Marlowe num mistério surreal, como nos antigos film noir. Se noutros trabalhos a narrativa é negligenciada, aqui, pelo menos, sabemos o que acontece; por outro lado, o mesmo não se pode dizer do “porquê”. Philip Marlowe vagueia e divaga entre as pistas que recebe, num universo rico e pleno de situações pitorescas. É um filme muito interessante e essencial à filmografia de Altman, que, à imagem de outros trabalhos, merece uma segunda visualização. Comparo-o, por exemplo, a um filme mais recente do seu seguidor Philip Thomas Anderson: Inherent Vice. Este filme não foi um grande sucesso comercial, ao contrário de…

NashvilleNashville (1975). Desta vez, Altman aposta num musical sem deixar de parte a narrativa nebulosa que caracteriza os seus filmes. Tudo se passa com várias pessoas na cidade de Nashville, cujas vidas se intersectam ao longo de cinco dias. E no meio de jogos políticos e do mundo da música, há 24 personagens – principais! – que se desenvolvem ao longo das quase três horas de filme. Nashville é realmente épico, e um dos filmes-bandeira de Altman que mostra as suas principais características: a narrativa não sustenta o filme, que, por sua vez, se ergue organicamente sobre uma série de acontecimentos fortuitos; personagens ricas, densas, e únicas; um uso inovador do som, com várias conversas em paralelo sem que nenhuma delas se sobreponha obviamente – obriga-nos a ser parte activa do filme, e escolher o que queremos ouvir; e, por último, uma dimensão satírica em relação à própria América e as suas idiossincrasias. Há ainda uma mão cheia de filmes essenciais de Robert Altman para ver!

Depois, outros destaques: deste ano, DOPE conta a história de três adolescentes na América, num cenário contemporâneo mas que bebe muito à cultura hip-hop dos 90’s e ao surrealismo brincalhão de Quentin Tarantino. Envolvem-se num problema de tráfico de droga e partem numa odisseia para levar alguns quilos de coca ao seu dono. É um filme engraçado  e que traz uma nova abordagem aos coming-of-age flicks, com uma óptima banda sonora reminiscente de uma das melhores épocas da música. Like Someone In Love é uma história improvável entre uma call girl e um idoso, que se conhecem em circunstâncias dúbias. O filme é muito estático, e os diálogos são a sua grande força. É um conto interessante por parte do iraniano Abbas Kiarostami, que durante muitos anos filmou na sua terra natal e só agora parte para países estrangeiros (Japão, neste caso). Para terminar, The Killing (1956) Paths of Glory (1957), dois filmes que recuperei ao início da carreira de Stanley Kubrick. Recomendo ambos. Kubrick é um senhor do cinema e é algo que se nota nos seus primeiros filmes, cuja grande diferença para a sua época de ouro é a ambição, e não a inexperiência. Paths of Glory, em particular, conta-nos uma óptima história sobre a guerra – um tema que abordaria mais tarde em Dr. Strangelove Full Metal Jacket) – a partir duma situação que decorre no terreno. Expõe, como só ele sabe, o absurdo, o surreal, e o abuso de poder nestas situações, duma forma extremamente humana. É o Stanley Kubrick, senhores.

Screen Shot 2015-12-08 at 23.54.51Para terminar, conto já 146 filmes desde Janeiro. Vou atingir a meta dos 150 filmes neste ano! Não é um número impossível, mas requer alguma dedicação. O cinema é realmente um mundo, e tem muito por descobrir. Espero conseguir transmitir, um pouco que seja, desse conhecimento – e do fascínio também.

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Lenny Abrahamson – Frank

Admito que a minha agenda cinéfila se move por demais nas teias da produção independente, ou por entre os filmes que mais tarde assumem estatutos de clássico e culto. Aprecio construir a minha pequena história do cinema, tendo também a real percepção de que – felizmente – tenho ainda muito para ver. Ora, por entre o revivalismo gosto também de estar a par de produções contemporãneas, para que não me aconteça de julgar estar a viver uma época que não a minha própria, e daí quis o acaso interceptar o meu caminho com o de Frank; este aproveitou a oportunidade, e quer pela singularidade da sua personagem, quer por ter trazido uma mensagem significativa, acabámos por passar um bom serão.

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A história de Frank poderia ser a de qualquer um Steve, ou qualquer um Martin, ou qualquer um John. Como um qualquer outro que viva, Frank respira, e come, e dorme, e fará certamente as suas necessidades em tempo e lugar oportunos. Distingue-se de um qualquer Adam pelo absurdo adorno que ostenta no lugar da cabeça, uma espécie de melão ventilado, parte indissociável do seu corpo, desajeitadamente acoplada ao seu pescoço. A juntar às suas capacidades fisiológicas e anomalias estéticas, adianta-se que Frank é também um músico, um poeta, um alguém dotado de uma extremamente prolífica propensão artística. É uma cabecinha especial, a deste Frank – ele é realmente um rapazinho especial. Já do outro lado, a história apoia-se, não num qualquer outro John, mas sim num Jon: Jon Burroughs. Este é um Jon muito particular; além de vermos o filme pela sua perspectiva, Jon é a pessoa mais normal (leia-se banal) do mundo. Aspirante a ser alguém no estranho mundo da música, o mesmo acaso que pôs Frank na minha vida colocou Jon na de Frank – e mais do que um falhado jogo de palavras, este é o mote do espectáculo a que vamos assistir.

Frank é um filme de extremos, quando se pedia que fosse tão linear e simples como a sua premissa. Não sabemos por certo se se trata de um drama, ou de uma comédia; de um documentário musical ou um retrato de um manicómio. A própria história perde-se nesta infinidade de dicotomias e parece perder o seu rumo algumas vezes durante o filme. Desta forma, no final haverá os que se encantam com a singularidade da peça (como eu) e outros que se desnorteiam com os sucessivos twists, por vezes a roçar o que de mais parvo e ridículo já se fez (como eu!). Por outro lado, a performance de Fassbender, sempre desprovido do conforto de recorrer a expressões faciais, nunca parece limitada ao dar vida à sua personagem e explorar todas as nuances do espectro sentimental; consegue até ofuscar os autênticos erros de casting/falta de propósito de certas personagens. O ênfase dado à problemática do artista como humano brilha com todo o seu esplendor, por meio das perguntas que nos surgem ao longo da história. Donde vem a arte? O que é preciso para a produzir? Será natural, e quando legítima? Mérito para o mentor do filme, Lenny Abrahamson, neste capítulo.

Uns tiros ao lado prendem um filme como Frank ao chão, não permitindo que se eleve a estatutos maiores na história do cinema. Estavam aqui reunidos os ingredientes certos para Abrahamson o perpetuar como um muito sui géneris pedaço de céu na terra; mas é impossível ficarmos demasiado aborrecidos. Frank é encantador à sua própria maneira. Estreia cá, esta semana; vejam-no!