25/08 – A doce pop americana, experimentação percussiva, e os japoneses Boredoms.

Uma emissão para os fracos de coração, mas só até metade.

Os King Gizzard & The Lizard Wizard continuam com o seu anormal ritmo de produção e dão a 2017 um novo disco – e este é já o terceiro. Desta vez, promovem a colaboração com Mild High Club, projecto de Alexander Brettin de íntima relação com a história da música pop americana. E por isso, ouvimos ambos: os australianos adaptaram a sua música ao universo do clube da moca suave sem a comprometer, e para quem gostou do resultado há que avançar para Skiptracing, o mais recente trabalho de Mild High Club. Nas suas influências, evoca nomes como Supertramp, Steely Dan, mesmo os XTC; e se o ouvinte torce o nariz por desconfiar do que aí vem, nada tema: ele fala de um certo aspecto da produção, a coesão dos discos que nos fazem pensar neles – e ouvi-los – como coisa una: “[Sobre os Steely Dan] Just everything from the wit of the lyricism to the complexity of the harmony. It’s being able to present this ultra-sophisticated and complex music, and then make a joke over the top of it. It might go over a bunch of people’s heads, but it’s sort of ironic—not in a super negative way, but in a very subliminal way. I like that about it. Same as Supertramp: instead of tongue-in-cheek, it’s being able to whip something up that isn’t too basic, that’s layered, but also still crystal clear and you can hear all the instruments“. E, já agora, sobre os King Gizzard: “They’ve made a bunch of microtonal guitars and harmonicas, and basically, they’ve opened my mind up to exploring tunings that people haven’t really used. It’s cool to explore jazz harmonies with a well tempered tuning or something like that. Tuning is kinda the next stage”. E até podíamos ficar por aqui, mas não. Ouviu-se ainda os XTC, com duas faixas do seu disco mais icónico, recentemente remasterizado por Steven Wilson.

A Porto Calling, para esta semana, recomendou um disco que não via há anos – de uma forma bastante literal, desde que deixei a minha cópia esquecida no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. São os The Electric Prunes, grupo dos anos 60 americanos cujo disco foi reeditado recentemente. Podem encontrá-lo na loja: é um bonito exemplo de música embebida em discreto psicadelismo, mas com tudo o que se espera de música desta época.

Na segunda parte da emissão, avançámos para território mais experimental. Primeiro, com o projecto Black Pus, que é afinal nosso conhecido: é Brian Chippendale, uma das metades dos Lightning Bolt, a explorar texturas para a sua percussão juntando-lhe sintetizadores vários, e vem no seguimento da conversa que tivemos com ele em Paredes de Coura. É barulhento, dissonante, mas tremendamente interessante, e esta faixa em particular, JAZZERCISE 2005, evoca sons de sopros atropelados pela cavalgante percussão de Brian, com alguns riffs à mistura. Depois, passámos para o seu disco mais recente, All My Relations, cuja capa apropriámos para construir o artwork deste podcast.

E uma das influências assumidas de Brian, assim como de vários músicos desta estirpe mais experimental, são os japoneses Boredoms. Começaram em 1986 e têm uma história muito pouco linear: o único membro constante é o mentor Yamantaka Eye (ex-Hanatarash), e o projecto tem sofrido uma metamorfose constante desde o seu início, de música sem estrutura e extremamente energética, num sentido quase primal, até, em direcção a composições ainda abstractas, mas regidas por uma ordem do ritmo, como foi algum do krautrock nos anos 70, a mover-se fora do cânone da música ocidental. E nesta emissão, fizemos o sentido inverso: começando no seu mais recente trabalho de estúdio (que é já de 2004), chegámos ao ano de 1994, passando por vários registos numa tentativa de documentar algumas das fases dos nipónicos.

De resto, o tempo disponível não serviu para mais do que uma superficial amostra da sua carreira. Há mesmo muito por explorar. Recomenda-se Pop Tatari (1992) como síntese da sua fase mais experimental e despreocupada, e Vision Creation Newsun (1999) para a segunda fase da carreira, mais dedicada às construções rítmicas e possivelmente meditativas.

PS: os Boredoms organizaram em 2007 um concerto com 77 bateristas, organizados em espiral concêntrica num parque de Nova Iorque; Brian Chippendale participou nesse concerto!

1. King Gizzard & The Lizard Wizard & Mild High Club – Tezeta (Sketches of Brunswick East, 2017)
2. Mild High Club – Homage (Skiptracing, 2016)
3. Mild High Club – Tesselation (Skiptracing, 2016)
4. XTC – Grass (Skylarking, 1986)
5. XTC – 1000 Umbrellas (Skylarking, 1986)
6. The Electric Prunes – I Had Too Much To Dream (Last Night)(I Had Too Much To Dream (Last Night), 1967) | sugestão da Porto Calling.
7. Black Pus – JAZZERCISE 2005 (BLACK PUS 1, 2005)
8. Black Pus – All Out of Sorts (All My Relations, 2013)
9. Boredoms – Excerto de Seadrum, do disco Seadrum / House Of Sun (2004)
10. Boredoms – Excerto de ☆, do disco Vision Creation Newsun (1997)
11. Boredoms – Mama Brain (Chocolate Synthesizer, 1994)
12. Boredoms – Bore Now Bore (Pop Tatari, 1992)
13. Boredoms – Z & U & T & A (Soul Discharge, 1989)
14. Danny L Harle & Pawel Siwczak – Missed Exit (Harpsichord Sessions, 2017)

2508

Anúncios

18/08 – Coisas novas, e lados B de programas antigos, em ausência.

Estávamos em Paredes de Coura quando esta emissão foi para o ar. Como tal, ficou a responsabilidade da emissão entregue ao computador, que já havia desenrascado, com mais ou menos profissionalismo, alguns meses atrás. Por isso, para esta hora recuperou-se muitos trabalhos que foram ficando esquecidos em emissões anteriores, ou que não passaram por falta de tempo – e o resultado é uma hora algo esquizofrénica mas muito divertida.

Primeiro, o projecto experimental de Vítor Rua e Jorge Lima Barreto, Telectu, de relevante expressão internacional embora aqui tenha sempre ficado reduzido a uma presença algo periférica, mesmo que seja esse, enfim, o lugar de muita da música mais desafiante. Falámos com o Vítor Rua há uns meses; está para chegar ao podcast, em breve.

Depois, música de 2017 com os PikacyuMakoto, com o seu novo disco Galaxilympics: são apenas dois músicos a levar a cabo um desregrado exercício de rock e electrónica, provavelmente improvisado mas em qualquer caso com uma estrutura bastante ténue, oscilando entre o movimento e a meditação, e recomenda-se que o experimentem se apreciam um determinado tipo de loucuras composicionais; segue-se Oneohtrix Point Never, que já o conhecemos bem desde os tempos de Replica, e que fez há pouco tempo a banda sonora para o filme Good Time – e isto é, claro, uma óptima recomendação para o filme.

Regressam os Can, que nunca é demais recordar, mas fugimos à sua mítica tríade Tago Mago / Ege Bamyasi / Future Days para chegar a um disco posterior, Soon Over Babaluma. No início deste ano, perdemos Jaki Liebezeit, o seu percussionista; e entretanto, há pouco mais de um par de meses, também faleceu Holger Czukay. O tempo não perdoa e desintegra paulatinamente os projectos artísticos que tanto deixaram de valor. Recorde-se que houve uma emissão especial dedicada a Czukay; como todas, há-de chegar ao podcast…eventualmente. Seguiram-se duas faixas de Aksak Maboul, um grupo dos anos 70 que apenas tem no seu repertório um par de discos. Estão associados ao movimento Rock In Opposition, que se reuniu sob a alçada dos Henry Cow (havemos de lá chegar um dia), sob o pretexto de fazer mostrar a sua música a um universo cuja indústria não lhes reconhecia o valor. E é isto. O disco é de 1977, toca a uma série de estéticas distintas e é outro que se pode recomendar a quem quiser ouvir coisas diferentes.

Na recta final, pedimos emprestada uma sugestão dos Ermo, que nos levou a Howie Lee. Depois, um disco estranhíssimo de electrónica pervertida por parte de MU. Não sei o que passou depois – é uma incógnita, e a sua identidade deixada como exercício de descoberta ao ouvinte aplicado -, e fechámos a hora com chave de ouro: Harold Budd, colaborador de uma imensidão de nomes (destacamos Brian Eno e Cocteau Twins). E foi isto!

1. Telectu – Valis (Ctu Telectu, 1982)
2. Pikacyu★Makoto – Space Move (Galaxilympics, 2017)
3. Pikacyu★Makoto – I’ll Forgive (Galaxilympics, 2017)
4. Oneohtrix Point Never – Ray Wakes Up (Good Time Soundtrack, 2017)
5. Oneohtrix Point Never – Entry To White Castle (Good Time Soundtrack, 2017)
6. Can – Come Sta, La Luna (Soon Over Babaluma, 1974)
7. Aksak Maboul – Saure Gurke (Onze danses pour combattre la migraine, 1977)
8. Aksak Maboul – Son of l’idiot (Onze danses pour combattre la migraine, 1977)
9. Howie Lee – Flame Fighters + Ran + Eyes on the Mountains! + Dead-Ended (Mù Chè Shān Chū, 2017)
10. MU – Let’s Get Sick (Afro Finger and Gel, 2003)
11. ???
12. Harold Budd – Madrigals of the Rose Angel (The Pavilion of Dreams, 1976)

stock2.png

11/08 – Hip-hop outsider, novos caminhos para o Vaporwave, e outros.

Nesta semana, preparava-se a já habitual semana de Paredes de Coura, e não houve muita atenção prestada ao século passado.

Começámos com nova de PZ, a muito pertinente Olá, do seu novo disco (de resto, foi a semana na qual estive com ele à conversa – podem ler aqui!). Seguiram-se os BADBADNOTGOOD, com o seu hip-hop travestido de jazz light; e fechámos o ciclo com os BEAK (que ensaiaram algumas piadas privadas durante o seu concerto, puxando da música dos Pink Floyd).

Depois, a emissão foi dominada pelo hip-hop, mas um periférico, e fora do habitual. Primeiro, o duo de Palaceer Lazaro e Tendai Maraire, os Shabazz Palaces – dois novos discos neste ano -, e milo logo de seguida, sempre com a sua toada filosófico-existencial a que nos tem habituado. Recomenda-se o disco a quem gostar do que ouviu.

A habitual recomendação da Porto Calling incidiu nas X-Ray Spex, punk no feminino sem se reduzir a essa particularidade; e o disco é de 1978, um ano com muita história na música.

Paragem para repouso com Jimi Hendrix – duas aparições no programa em pouquíssimo tempo, quem diria? – com uma música que surgiu muito mais tarde, na compilação Blues, de 1994; e até ao final da hora haverá espaço para o vaporwave, com novas propostas dentro deste micro-género – Corp soa bem mais pop do que esperaríamos, e death’s dynamic shroud aproxima-se da loucura electrónica que Black Banshee, por exemplo, nos trouxe no ano passado – e, num final em grande, a música de Negra Branca, incluída numa recente antologia lançada pela Discrepant. Recomenda-se que a ouçam!

1. PZ – Olá (Império Auto-Mano, 2017)
2. BADBADNOTGOOD – Cashmere (IV, 2016)
3. BEAK> – PIJ (Couple In a Hole, 2016)
4. Shabazz Palaces – Fine Ass Hairdresser (Quazarz: Born On A Gangster Star, 2017)
5. Shabazz Palaces – That’s How City Life Goes (Quazarz: Born On A Gangster Star, 2017)
6. milo – Sorcerer (Who Told You To Think??!!?!?!?!, 2017)
7. milo – Take Advantage of the Naysayer (Who Told You To Think??!!?!?!?!, 2017)
8. X-Ray Spex – Obsessed With You (Germfree Adolescents, 1978) | sugestão da Porto Calling.
9. Jimi Hendrix – Once I Had a Woman (Blues, 1994)
10. 猫 シ Corp – SECRETS OF MY AGE [with ローマンRoman] (Class of 84, 2017)
11. 猫 シ Corp – The Dress [with Luxury Elite] (Class of 84, 2017)
12. death’s dynamic shroud – Tell Me Your Secret (Heavy Black Heart, 2017)
13. Negra Branca – O Espatelar Do Linho (Antologia de Música Atípica Portuguesa, Vol 1: O Trabalho, 2017)

Untitled-1.jpg

 

Cinema dos últimos dias: surrealismo de Jodorowsky, e a verdade segundo Orson Welles. 

Este poderia ser um resumo, sob um outro pretexto, do cinema que vi em Setembro: tudo isto se passou no mês anterior. E foi um mês difícil! Começando por Orson Welles, cujo filme sempre imaginei diferente do que veio a ser F for Fake, e depois a pequena maratona de Jodorowsky, que conhecia apenas do documentário sobre a falhada experiência com Dune, o livro de Frank Herbert, que viria a ser adaptado por outro cineasta da mesma casta – David Lynch. Foi um testemunho preliminar onde pude aferir a sua veia particular de expressão e o olhar distinto com que olha o mundo, mas não me preparou – de todo – para o absurdo universo dos seus filmes. Ficaram de fora alguns filmes – um de Buñuel, por exemplo – que chegarão em breve.

220px-F_for_Fake_posterF for Fake (Vérités et mensonges, Orson Welles, 1973) – Orson Welles é conhecido por uma série de coisas mas, acima de todo o resto, pelo impressionante debut em 1941, com Citizen Kane, um filme considerado entre os maiores por tudo o que levou a cabo – e ao qual se recomenda visitas frequentes e regulares, para descortinar tudo o que passou despercebido ao nosso olho em visualizações anteriores. Na sua essência está um exercício narrativo de reconstrução da vida de um magnata, cujas últimas palavras, enigmáticas, encobriam um intrigante significado secreto. E embora se reconheça em Citizen Kane os engenhos técnicos e narrativos de Welles, F For Fake lança-o na demanda por algo diferente: um cruzamento entre ficção e veracidade, e o papel que o cinema desempenha como intermediário nesta relação. Porque o cinema, na verdade, alicerça-se em várias mentiras que aceitamos inconscientemente: aqueles actores não viveram tudo aquilo; as acções não são espontâneas e sinceras, antes premeditadas e pré-definidas; e a própria edição do filme, o cortar e colar que justapõe diferentes espaços e tempos, é provavelmente a mais evidente mentira. Mas é, simultaneamente, parte dum maior motivo que nos leva à experiência cinematográfica. Welles fará várias alusões a tudo isto: vemo-lo, em vários momentos do filme, sentado na sala de edição, figura massiva e titânica, no literal acto de colagem da fita, a manipular a sequência das imagens – a mostrar a mentira na qual se sustenta o cinema – mas sempre a partir duma posição central, nuclear, interventiva e absolutamente não-neutra: um unreliable narrator; e a fourth wall (que se quebra sempre que há contacto directo com o espectador do filme) é uma ilusão à qual alude recorrentemente. F For Fake, uma meditação-ensaio sobre a falsidade, a arte, e a falsidade na arte, é também um documentário sobre Elmyr de Hory, um pintor cuja especialidade era replicar quadros de outros (Matisse, Picasso, etc.), sobre Clifford Irving, escritor que o biografou e, soube-se entretanto, falsificou uma outra biografia, e sobre Welles também, cândido e íntimo como possível apenas num relato em primeira pessoa (o cineasta discorre, a dada altura, sobre o início da sua carreira e as motivações que o levaram à arte, passando pelas experiências na rádio e o tumulto que foi War of The Worlds, em 1938 – tudo isto vale a pena, pelo incrível retrato pintado sobre Welles. Há uma série de ideias e momentos a reter em F for Fake, mas como ignorar a incrível leviandade no tratamento visual e narrativo da história? A câmera é hiperactiva, como se estivéssemos no seio da nouvelle vague francesa, e extraordinariamente subjectiva; a edição do filme refere frequentemente a si próprio, quando a acção de uma dada personagem serve como comentário à narração que lhe subjaz. Tudo isto pode não ser novidade nem demasiado inovador – Dziga Vertov, em 1929 com o Homem e uma Câmera de Filmar, já tivera ideias interessantes nesse sentido, e Close-Up, embora posterior, foi porventura mais emocionalmente pertinente -, mas a intrincada tecelagem, a enorme falsa narrativa de F for Fake, o absurdo espectáculo a vários níveis, tudo isto é absolutamente tentador e irresistível; e de forma tal que os seus problemas não são mais do que características supérfluas deste exercício. A banda sonora, mais ainda, é composta por Michel Legrand – herói dos grandes filmes de Jacques Demy.

f73c69977b0d8c15c8b7f14c89271d50.jpgEl Topo (Alejandro Jodorowsky, 1970) – Por onde começar? A carreira do chileno Jodorowsky é um pequeno mundo por si só, surrealista e repleto de referências e símbolos que podem ou não estar em simbiose com a narrativa – quando esta existe, entendamos. Neste caso, El Topo é um crossover com o imaginário dos western, onde Jodorowsky, ele próprio, interpreta a personagem principal; e a história incide numa demanda de El Topo quando se compromete a matar os quatro mestres dos duelos de pistolas. Fá-lo depois de abandonar o seu filho em prol de uma mulher qualquer, e deixa-o nu, depois de o pequeno se emancipar da sua infância: enterrou uma fotografia da mãe, e o seu primeiro brinquedo. Fica a sensação de que Jodorowsky trata as suas personagens como símbolos de humanidade, talvez; e embora as suas acções e cenários envolventes raramente sejam críveis, carregam enormes pesos simbólicos nos quais é possível encontrar conteúdo; e tudo é tratado em termos absurdos, megalómanos, fantásticos. Logo no início, um grupo de bandidos define-se em frente da câmera: um lambe sapatos de mulher, outro deleita-se imaginariamente sobre contornos femininos, traçados nas rochas com bolotas, e um último corta, com o auxílio duma espada, uma banana, e come-a. Há comentário no símbolo – como uma espécie de definição do desejo primordial do Homem? Anões, gente mutilada e deformada, são aparições recorrentes nos seus filmes – será a sua presença comentário para a eventual diversidade do ser humano, um alerta para a possibilidade além do habitual, e canónico homo sapiens? As suas personagens operam num nível próximo do id freudiano, e o filme compromete-se com essa linguagem imediata e urgente, como se houvessem aberto as portas de Aldous Huxley e tudo jorrasse em potência, sem filtro. Fará parte da experiência, claro, procurar um senso em tudo isto, na imensidão de perguntas levantadas pela imagética de Jodorowsky; será um favor à sanidade do espectador que não se interrogue acerca de todas. Abundam neste e noutros seus filmes; neste El Topo, por exemplo, as alusões bíblicas são recorrentes. De resto, é difícil determinar se engrandecem ou apenas incham o já complexo universo do filme – essa resposta ficará à responsabilidade de cada indivíduo, caso se permita levar na loucura, no desmedido surrealismo, dos filmes do chileno. Mas é cada um uma experiência sui generis, e isso é um dado garantido no cinema de Jodorowsky.

the-holy-mountain-french-poster.jpgHoly Mountain (Alejandro Jodorowsky, 1973) – Quando comparada a El Topo, Holy Mountain é ainda uma experiência mais inclassificável. Têm, ambos, uma figura ‘heróica’ que poderá associar-se ao Jesus Cristo cristão, que neste filme é igualmente um ladrão (que está levemente associado às cartas do tarot), e que vai, numa jornada com destino à Montanha Sagrada – onde descobrirá o segredo da imortalidade, ou algo do género – encontrar-se com várias personalidades, cada uma em representação de um planeta do nosso Sistema Solar. Cada um descreve um arquétipo de Homem civilizado no mundo contemporâneo – há o polícia, o vendedor de armas, o conselheiro financeiro, etc. – e ajuda a perceber neste filme uma espécie de sátira ao mundo capitalista; que nunca é absoluta, ou, melhor dizendo, consumada: estamos sempre em movimento contínuo, em direcção à Montanha. Mais uma vez, surge a acção entre o literal e o simbólico, onde cada cena parece ter em si uma imensidão de significados; e como seria extenuante tentar dissecar todos os subtextos dos seus filmes, o cinema de Jodorowsky acaba por ficar neste limbo, de uma experiência visual extremamente rica, mas em igual medida confusa, e talvez insatisfatória. Porque não é um cinema de respostas, talvez mais um de perguntas, ou de impressões, que nos põe em contacto directo com um algo primordial. Há uma frase que se diz ser do chileno, embora não tenha encontrado uma fonte que o confirme – tomemo-la com leviandade: “I ask of cinema what most North Americans ask of psychedelic drugs”. E o que em tempos aconteceu, de facto, foi uma enorme prevalência das drogas psicadélicas na sociedade americana como forma de atingir um qualquer estádio de conhecimento distinto do habitual, que os colocasse em sintonia – uma particular forma de entendimento – com o mundo imediato, e o reinterpretasse, como consequência. Há, no final do filme, uma confluência nesse sentido: explosão visual e simbólica de tudo o que seguiu em direcção à montanha, e um final que é em igual medida corajoso, absurdo e algo contraditório em relação à sua própria premissa; mas contribui, como não podia deixar de o fazer, para o mito do cinema de Jodorowsky.

1ed421231829df1c40c5c7305a43f337--endless-movie-posters.jpgPoesía Sin Fín (Alejandro Jodorowsky, 2016) – Dos três, este é provavelmente o mais acessível e, com nisso influência, o de narrativa mais canónica. E isto porque, na verdade, Poesía Sin Fín é tremendamente autobiográfico, o segundo de uma trilogia (haverá um terceiro?) baseado na vida do próprio realizador, verdadeiramente um autor de todo o filme e no qual participa em intervenções mais relevantes do que meros cameos. Mas se Jodorowsky existe mesmo e é real – ou, melhor dizendo, tanto quanto o podemos garantir, que não é assim tanto -, nem tudo o que aqui é descrito o será; há romantização, bonita e com candura, de vários momentos da sua vida, desde a infância com o pai autoritário, que recusa a sua tendência para a poesia (é um “maricón!”), até à vida adulta, ou uma possível iniciação. E como não podia deixar de ser, há ainda símbolos neste filme, sejam representados pelas personagens que rodeiam o chileno, ou intuídas nos espaços que habitam; e no entanto a sua função é mais acessória e não retêm tanta importância como noutros filmes seus. Poesía Sin Fin é curioso por outros motivos, também: Jodorowsky recorreu ao crowdfunding como forma de financiar a sua fase final, e diz o próprio, a dada altura, num repto que lançou aos seus fãs: “Já tenho 86 anos e meio – que faço eu, fazendo cinema? Doem-me os pés, as pernas, a cintura, os braços, o pescoço. Dói-me o corpo todo, mas — que felicidade! Fazer finalmente um cinema que cure, e não um cinema doente, que mostre apenas destruição!” Jodorowsky dá a entender que Poesía Sin Fin é, de facto, um filme diferente no seu cânone, onde a literalidade da acção nos chega com facilidade, sem se esconder demasiado por trás de símbolos e outras associações; é um registo no qual descarta a absurdidade surrealista do passado, para se aproximar de uma tradição, mais literária, que lhe é próxima também: o realismo mágico, definido pelas intromissões do fantástico num mundo que se rege pelas normas habituais.  E além de tudo isto,  é um trabalho extremamente pessoal, talvez terapêutico, até, se tomarmos em consideração algumas ideias do chileno sobre o papel do cinema. Porque notamos um à vontade explícito, dividido entre o confronto e a tremenda honestidade: se Jodorowsky não teve pudor em ser ele próprio personagem das tramas anteriores, desta vez foi um passo mais longe, pondo filhos e netos como os habitantes das personagens que criou, o que, mais uma vez, interpela o espectador num sentido extra-fílmico e remete para o tal cinema como terapia. Chega-nos com uma tremenda energia para se confessar, e dá-nos, finalmente, o seu lado mais humano, sentimental, como se primasse por se expressar com uma inocência infantil. Talvez tenha sido este o seu objectivo desde o início; se assim for, demorou uma vida para aqui chegar.

Para o próximo mês: mais um filme de Jacques Demy; um noir jornalístico da década de 50 americana; e uma bonita experiência documental.

04/08 – Música do amor, do mundo, e da dor; a música de João Nada pelas suas palavras; e cassetes.

Emissão das boas!

Começámos com Teddy Pendergrass, descoberto a partir do último disco que ouvimos na emissão anterior. Seguiu-se Tyler, The Creator, com novo disco, Flower Boy, um marco na sua carreira até agora.

Na música nacional, resgatámos o trabalho de João Nada com o Clube Social da Boavista, lançado no início deste ano com a Gentle Records e que passou algo despercebido. Colecção de canções simples adornadas com sopros de toada urgente, embora amadores e desgovernados; porque, descobrimos, nenhum dos músicos que aqui tocou tem a necessária experiência com os respectivos instrumentos. O João conversou connosco entretanto; poderão ler no final do post.

Depois, seguimos numa jornada pela música que não se encaixa nas nossas designações ocidentais, e que de forma algo rude se amalgama sob o epíteto de world music. Jali Musa Jawara assinou um disco belíssimo e absolutamente essencial, com instrumentação tradicional, longos takes melódicos, etéreos, pontuados por coros de vozes e um som que, em toda a sua abrangência, é algo extraordinariamente único – ouçam-no, por favor! 

O habitual momento dedicado à Porto Calling trouxe-nos The Creation, discreto mas influente grupo britânico da década de 60. Recomendação directa do Pedro, dono da loja, que podem visitar a qualquer altura no site; e daqui, passámos aos Suicide, grupo nova-iorquino cujo som tem sido decalcado pelas gerações seguintes, e ao seu membro Alan Vega, falecido no ano passado, com música do disco póstumo IT.

Para a parte final do programa, uma proposta especial. A semana foi especialmente marcada por um interesse no formato cassete – a fita magnética que marcou os anos 80 e 90, pela sua fiabilidade e acessibilidade. Sobreviveu, e bem, ao CD e ao obsoletismo imposto aos meios físicos; e a internet, em certos meios específicos, até lhe deu bastante força. Neste formato, gravaram-se inúmeros registos, desde a pop ao mais experimental, e a cena DIY tomou-a como preciosa aliada. E em ligação directa aos anos 80, esteve o projecto Noise-Arch (com link), sob a tutela de Myke Dyer, radialista da CKLN FM, que reuniu uma série de cassetes de vários projectos underground pelo mundo fora. A dada altura, houve um site mantido por Graham Stewart e Mark Lougheed, mas terminou; felizmente, o Archive.org (onde, de resto, estão alojados os podcasts d’A Mosca) tem grande parte do acervo disponível, e lá recuperámos duas das cassetes cujos excertos ouvimos. Já se perdeu a informação da primeira cassete; a segunda pode encontrar-se aqui.

1. Teddy Pendergrass – Come Go With Me (Teddy, 1979)
2. Tyler The Creator – See You Again (Flower Boy, 2017)
4. Tyler The Creator – Garden Shed (Flower Boy, 2017)
5. João Nada – Frio (Com a Banda do Clube Social da Boavista, 2017)
6. Jali Musa Jawara – Fote Mogoban (Yasimika, 1990)
7. The Creation – Making Time (We Are Painterman, 1967)
8. Suicide – Johnny (Suicide, 1978)
9. Alan Vega – Screamin Jesus (IT, 2017)
Excertos de cassetes do projecto Noise Arch, recuperadas no archive.org.
10. bedwetter – haze of interference (volume 1: flick your tongue against your teeth and describe the present. 2017)

0003299285_100.png

Depois de por cá ter passado a música de João Nada com o Clube Social da Boavista, fomos à procura de mais sobre este trabalho e o que levou à sua existência. Depois de alguns e-mails trocados, o João, a partir de Glasgow, contou a história toda, aqui editada e resumida:

Eu descobri a música do Tori Kudo e do seu projecto Maher Shalal Hash Baz quando estava em Londres, a fazer Erasmus. Isto foi de Setembro de 2013 a Março de 2014. A minha actividade musical foi sempre dependente de momentos de entusiasmo seguidos por momentos de afastamento, por vários motivos… E descobrir a sua música provocou um novo momento de entusiasmo – fiquei logo encantado com aquilo, muito fascinado e obcecado até, e inspirou-me de uma forma inesperada e muito intensa. Fiquei com imensa vontade de tocar com outras pessoas e com instrumentos de sopro. Adorei ouvir aquelas canções simples, interpretadas por uma voz frágil mas sem medo de ser frágil, e acompanhada por instrumentos que soavam sempre como se estivessem meio fora, meio dentro; meio desafinado, mas a fazer sentido. Meio mal tocado, mas lindíssimo.

Pela mesma altura, uma série de felizes acasos traçaram as linhas do que viria a ser o Clube Social da Boavista. “Nessa altura, o Tomé Duarte tinha começado a tocar clarinete e o João Sarnadas tinha-me dito que lhe tinham oferecido um trombone que tinha sido encontrado no lixo. O Tomás Canha estava com vontade de aprender bateria; e no primeiro ensaio, o Sarnadas apareceu com o Tito Frito que trazia um trompete e que se juntou à banda também.” A ideia inicial foi apenas tocar as canções de João Nada ao vivo, até que acabasse o curso universitário, em Outubro de 2014, e por essa altura gravaram as músicas do EP para memória futura. “Todos nós estávamos contentes com o resultado e estávamos a adorar tocar juntos. Já sabíamos desde o início que aquela banda era temporária, mas ainda assim ficamos tristes com o aproximar do fim. Então decidimos gravar o que tínhamos feito, para que ficasse registado.”

O nosso processo foi muito intuitivo, e envolvia improvisação: não no sentido em que cada vez que tocássemos a coisa podia ir para onde desse, mas no sentido de procurar fixar um arranjo mais ou menos definitivo. Apesar de deixarmos sempre espaço para flutuações e variações, certas melodias iam aparecendo nos sopros à medida que íamos repetindo a mesma canção nos ensaios. E essas melodias foram ficando porque gostávamos do resultado, por exemplo. O mesmo na bateria, e mesmo na minha interpretação na voz e na guitarra foi havendo alterações, claro, para que houvesse lugar para os outros instrumentos. No fundo, estávamos sempre à procura da melhor forma de preencher as canções, como se estivéssemos todos a tentar existir num espaço que era limitado e definido (a canção) enquanto interagíamos uns com os outros, às vezes construindo harmonia entre nós, às vezes criando tensões, mas sempre sem que ninguém atropelasse ninguém. Por isso sim, havia improvisação e espaço para que acontecessem coisas coisas inesperadas mas ao mesmo tempo íamos criando e aprimorando uma estrutura e paisagens específicas para cada canção.”

a1242923098_16No entanto, por motivos técnicos não foi possível gravar como se se tratasse de um concerto. Fizeram-no em takes distintos, com os instrumentos em separado. Como no cinema, por exemplo, a estrutura prévia e as expectativas seriam desafiadas no processo de colagem. “Só com o avançar da mistura é que fomos ficando com uma ideia mais concreta de como é que a coisa ia soar e se ia de facto ficar próximo daquilo que imaginávamos. E a verdade é que acabei por ficar surpreendido com o resultado final da mistura que o Sarnadas fez. Surgiram ainda duas participações adicionais – David Ole, no clarinete, e a voz de Sara Graça – e, como acontece sempre nestes processos, “a forma final que a coisa assumiu deve muito também à mistura e às participações adicionais“.

Quanto à tag wrong“, que aparece no Bandcamp do projecto, “é um bocado provocação irónica e um bocado caracterização sincera. Quando faço canções às vezes sinto que não as faço como deve ser, sinto-me sempre meio outsider e amador ao fazê-las e depois também ao cantá-las e ao tocá-las. A minha voz não é muito boa e o que eu toco na guitarra é muito básico. Talvez tenha usado a designação de wrong songs um pouco como defesa a priori, talvez porque já tenha tido reacções à minha música que diziam que eu não sabia cantar, ou tocar, ou fazer canções. E se calhar não sei; mas, se calhar, isso não significa que não as possa fazer, e que não possam encontrar quem goste de as ouvir. Acho que muitos dos escritores de canções que eu aprecio também não fazem a coisa “da forma certa”. Mas depois de tanto tempo a fazer “da forma errada”, essa “forma errada”, que é específica deles, acabou por se desenvolver e evoluir para uma coisa linda e forte e única e que, mesmo sendo horrível e “errada” para muita gente, também pode ser especial para muitas outras pessoas.

E claro, foi especial pelo menos para nós – como muita da música que por aqui passa, não necessariamente criada nem interpretada da forma canónica. E é isso que a torna especialmente interessante! Podem seguir a Gentle Records, a editora de nos trouxe o EP Com a Banda do Clube Social da Boavistano seu Bandcamp.

08:04

22/07 – Pop desembraiada, Jards Macalé e mais Brasil, Nova Iorque, Internet.

(saltámos a emissão de dia 15 – ouviu-se Yo La Tengo e pouco mais)

Desta vez, começámos embalados por deleites pop. Primeiro os Beach Boys e o seu enorme clássico, seguidos pelos Bee Gees, autores da banda sonora de Saturday Night Fever, e ainda Lil Yachty; este último é um músico contemporâneo que tem um dos singles mais absurdos, e igual medida viciantes, dos últimos anos. Vale a pena tentar.

O destaque vai para Jards Macalé, que inaugurou o palco do Festival Mimo neste dia. Falámos com ele no dia anterior. Macalé raramente é mencionado junto dos seus contemporâneos daquela fase muito entusiasmante da música popular brasileira, e é uma injustiça que assim seja; é um dos grandes vultos do seu tempo. Ouvimos duas músicas do seu disco de estreia, e fica a recomendação de que o ouçam na íntegra; e o mesmo se aplica a Nara Leão, que editara Opinião de Nara quase 10 anos antes. Fechámos esta passagem pela MPB com Caetano Veloso, gravado no Reino Unido com a ajuda de Macalé.

Sob o mote da Porto Calling, escutámos os Public Image Ltd., cujo baixista, Jah Wobble, é presença assídua neste programa, e seguimos com a fantástica compilação da Soul Jazz: New York Noise tem reunido pequenas pérolas do imensamente criativo período entre 77 e 84, e de tudo um pouco aconteceu naquela cidade nessa altura (basta recordar, por exemplo, onde andou metido Brian Eno e a própria carreira dos Talking Heads, entre outros).

Para fechar, breve antevisão do concerto de Lightning Bolt – com quem falámos também, e de quem ouvimos música numa emissão a publicar em breve – e novo trabalho de  chris†††: não é bem vaporwave, mas seria irresponsável não considerar que opera sob essa influência, e vale a pena escutar o disco social justice whatever quanto mais não seja pela experiência. A terminar, o sempre pertinente Erik Satie, aqui interpretado pelo mago das bandas sonoras dos filmes de Jacques Demy – Michel Legrand.

1. The Beach Boys – Wouldn’t It Be Nice (Pet Sounds, 1966)
2. Bee Gees – Night Fever (Saturday Night Fever Soundtrack, 1977)
3. Lil Yachty – One Night (extended) (Lil Boat, 2016)
4. Jards Macalé – Meu Amor me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata (Jards Macalé, 1972)
5. Jards Macalé – Mal Secreto (Jards Macalé, 1972)
6. Nara Leão – Opinião (Opinião de Nara, 1964)
7. Nara Leão – Labareda (Opinião de Nara, 1964)
8. Caetano Veloso – Nine Out of Ten (Transa, 1972)
9. Public Image Ltd. – Swan Lake (Second Edition, 1979) | sugestão da Porto Calling.
10. Mofango – Hunter Gatherer (New York Noise, Volume 2: Music From the New York Underground 1977-1984, 2006)
11. Certain General – Back Downtown (New York Noise, Volume 2: Music From the New York Underground 1977-1984, 2006)
12. Lightning Bolt – King of My World (Fantasy Empire, 2015)
13. chris††† – darude sandstorm (social justice whatever, 2017)
14. Erik Satie interpretado por Michel Legrand – Trois Gymnopédies : II. Lent et triste (Piano Works, 1997)

0722_mixdown.png

07/07 – Psicadelismo de guitarra, periferias musicais com rock de base.

Nesta semana, a preparação foi parca além do momento dedicado às The Raincoats, a mais gratificante descoberta deste programa. Por isso, começámos a hora com músicos que não conhecemos assim tão bem – é o caso de Jimi Hendrix, de quem recuperámos um trabalho menos conhecido; seguem-se, depois de uma ignominiosa menção a Shirley Collins, os Sly & The Family Stone, gurus do funk e da soul, num disco que nunca havia por aqui passado.

Breve homenagem a Raul Seixas, autor de um outro genérico d’A Mosca e que surgiu através das sempre produtivas sessões de shuffle na minha biblioteca; mordaz e bem-humorado, é uma referência da música brasileira pós o grande monumento cultural que foi a sua tropicália.

Robert Wyatt é chamado, com o seu disco Rock Bottom, um testemunho difícil numa das fases mais complicadas da sua vida; além disso, um obrigatório disco para ouvir depois desta escuta preliminar no programa, referência do rock progressivo, do jazz fusão, e da música bem ornamentada. Depois, as The Raincoats: grupo britânico (com uma portuguesa no alinhamento, Ana da Silva), que editou no muito prolífico e experimental período do pós-punk. Este disco em particular não denuncia essa nomenclatura e evita limitar-se ao espectro do punk: ouvem-se violinos, por exemplo, e melodias e ritmos que não se coadunam de todo com a desenfreada energia dessa altura. É um excelente álbum! Ouçam-no.

Já na recta final, recuperámos o nome de Glenn Branca, uma referência d’A Mosca pelo seu magistral The Ascension. No início deste projecto, havia uma regra não explícita que proibia a repetição de artistas; por isso, tínhamos que ser extremamente cuidadosos na escolha das canções, para que fossem o mais possível representativas e dignas de um dado grupo. Já não a cumprimos à risca, mas não é com frequência que a quebramos, e Glenn Branca merece essa veleidade: este é um dos trabalhos mais extraordinários no que a som de guitarras diz respeito. Depois, uma experiência a solo de Ana da Silva, num disco já deste século, e fechámos com o novo de Avey Tare, parte integrante dos Animal Collective, com mais um trabalho em nome próprio, deste ano.

1. The Jimi Hendrix Experience – Little Wing (Axis: Bold as Love, 1969)
2. The Jimi Hendrix Experience – Spanish Castle Magic (Axis: Bold as Love, 1969)
3. Sly & The Family Stone – Higher (Dance to The Music, 1970)
4. Raul Seixas – Ouro de Tolo (Krig-Ha Bandolo, 1974)
5. The Soft Machine – Dada Was Here (Volume Two, 1969)
6. Robert Wyatt – Little Red Riding Hood Hit The Road (Rock Bottom, 1974)
7. The Raincoats – Family Treet (Odyshape, 1981) | sugestão da Porto Calling.
8. The Raincoats – Go Away (Odyshape, 1981)
9. Glenn Branca – Structure (The Ascension, 1981)
10. Ana da Silva – Hospital Window (The Lighthouse, 2005)
11. Avey Tare – Melody Unfair (Eucalyptus, 2017)

07:07.png

 

17/08 – Ao vivo com trupe vária em salutar folia Courense.

(saltámos alguns episódios, sim – não se preocupem, não esquecemos as emissões anteriores pendentes)

Fazemos um pequeno desvio do calendário habitual dos podcasts para trazer uma das várias emissões que se gravaram durante o Festival Vodafone Paredes de Coura! A cobertura do festival foi feita para a Rádio Lisboa, com a companhia da nossa muito querida Isabel Leirós, mas logo no primeiro dia juntámos alguns amigos para uma hora muito DIY – arranjámos electricidade com os nossos amigos da OatMill – que tem, muito provavelmente, a melhor comida em festivais de sempre -, dispusemos alguns bancos em círculo à volta dos microfones, e abrimos o vinho. Ingredientes necessários para uma muito divertida, embora talvez não muito relevante musicalmente, emissão d’A Mosca: tivemos Bruno Pernadas, bons sons acalentados por auto-tune, considerações sobre outros concertos e dicas em jeito de antevisão para os que se seguiriam ao longo do festival.

As várias horas de cobertura ficam arquivadas, em podcast, no site da Rádio Lisboa (a dada altura nos próximos dias, está prometido). À excepção desta, foram todas gravadas na área de imprensa, o que deu azo a interessantes e inusitadas situações – às vezes, ambas. Desde uma roda viva de fotojornalistas a discutir o seu ofício e entrevistas com Adolfo Luxúria Canibal Valter Lobo, a karaoke em directo e perseguições a vespas asiáticas – de tudo um pouco aconteceu por lá.

Para o ano há seguramente mais. Estamos a preparar a nossa rentrée, a pôr os podcasts em dia…e é isto. Muito obrigado a todos por estes óptimos dias passados!

perfil.png

30/06 – Música nova dos Ermo, pop-de-direita e experimentação de lata de conserva.

(parece que saltámos uma emissão, mas a de dia 23 foi usada para testar um novo formato de programa que virá em breve – talvez Setembro)

Fechámos o mês de Junho em beleza.

Primeiro, as Clube Naval. Recuperámos este single a um baú cibernético algures, música pop inteiramente portuguesa escrita por Miguel Esteves Cardoso. Uma autêntica pérola, e uma autêntica lapa no nosso ouvido, que satiriza alguma ideologia de direita – reside aí muito do fascínio – mas sem pruridos em entrar na pop ridícula; e essa, como sabem, também é uma das nossas fraquezas. Seguimos depois com os mais tradicionais Fleetwood Mac, a um disco que nos chegou por directa recomendação do baixista dos Radiohead, Colin Greenwood, que o considera um dos marcos da produção musical.

Como propedêutica à música nova que temos nesta emissão, ficámos com a abertura do disco primeiro de James Blake, e que nos parece ter tido um impacto considerável no ano de 2011; em particular, o seu uso de auto-tune como forma de estabelecer uma estética no disco, e, de uma forma mais abrangente, a ponte que fez entre a postura de cantautor e o dubstep que inflamou a indústria. Logo de seguida, o prato principal de hoje: novo disco dos Ermo, seguramente um dos trabalhos a lembrar deste ano, e que esmiuçámos entretanto – embora muito tenha ficado por dizer. Concluímos a sequência com novo trabalho de Laurel Halo.

Num itinerário final, começámos sob a batuta dos experimentais This Heat, e o seu essencial disco de 79, com o mesmo nome. Os britânicos nunca se prenderam com regras e este seu trabalho é uma expressão pura de atitude punk, vontade de trilhar caminhos novos e uma aguda sensibilidade para atmosferas pouco ortodoxas. O disco seguinte, já de 1981, aproxima-os de estruturas mais reconhecíveis, mas ainda experimentais. É uma música que nos recorda a Porto Callinga melhor loja de vinil do país e que nos tem prestado um preciosíssimo apoio.

A terminar, uma incrível colaboração entre dois nomes dos alemães Can e Jah Wobble, que fez carreira nos Public Image Ltd. Toada krautrock embebida em ácido, absolutamente imperdível. Fechámos com uma pequena loucura abstracta de Evan Parker.

1. Clube Naval – Professor Xavier (Professor Xavier / Salva-vidas, 1983)
2. Fleetwood Mac – The Ledge (Tusk, 1987)
3. Fleetwood Mac – Sara (Tusk, 1987)
4. James Blake – Unluck (James Blake, 2011)
5. Ermo – ctrl + c ctrl + v (Lo-Fi Moda, 2017)
6. Ermo – «» Entre Aspas (Lo-Fi Moda, 2017)
7. Laurel Halo – Moontalk (Dust, 2017)
8. This Heat – The Fall of Saigon (This Heat, 1979)
9. This Heat – S.P.Q.R. (This Heat, 1981)
10. Holger Czukay, Jah Wobble & Jaki Liebezeit – Full Circle R.P.S. (No. 7) (Full Circle, 1982)
11. Evan Parker – Monoceros 2 (Monoceros, 1978)

06:30.png

 

(peça da capa da autoria de Daniel Boccato, herald, 2012, bolts, concrete, plywood)

17/06 – Memórias do NPS, novos da Cafetra, Heróis do Mar e experimentação.

(pelo meio perdemos uma emissão, uma na qual não respeitámos ordem nenhuma, se leu poesia e passou coisas bem interessantes desde o primeiro minuto; como não há memória digital, não há memória física também. É uma pena, e esperamos que não volte a acontecer; um agradecimento ainda ao enorme Vítor Rua que samplámos para belo efeito no início do programa. O original está aqui, o primeiro e até agora único episódio de uma eventual experiência no Youtube)

A primeira emissão após o NOS Primavera Sound!

Nos primeiros momentos, recordámos música de Flying Lotus como tentativa de chegar à experiência que foi o seu espectáculo no festival; não estivemos nem perto, mas valeu a pena – e o seu filme Kuso já saiu oficialmente! Ainda em matéria de recordações, e dado que o disco cumpre em 2017 vinte anos de existência, fomos ouvir os Radiohead e uma das várias possíveis canções de Ok Computer. Qualquer uma cumpriria a tarefa mas optámos por Subterranean Homesick Alien; pelo caminho profanámos duplamente a carreira dos Spiritualized: chamámos-lhe Specialized (argolada nº 1) e esquecemos o nome do seu disco que também saiu em 1997 (argolada nº 2, e chama-se Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space). Depois avançámos para os Death Grips, um nome que tem ganho cada vez mais destaque nas nossas emissões.

 Nesta emissão, fomos descobrir novos lançamentos da Cafetra Records, casa de Éme Pega Monstro. Deles ouvimos, respectivamente, músicas dos discos Domingo à Tarde Casa de Cima (e este último já pudemos conferir ao vivo). Dois trabalhos com personalidade, representantes do bom que se faz por aqui, em Portugal, neste momento.
Ainda no domínio da música portuguesa, houve resposta ao repto do Gonçalo Costa no último podcast; perguntou-nos se os Heróis do Mar eram ou não o “grupo mais reaccionário do seu tempo”. A resposta veio de um ilustre convidado: Adolfo Luxúria Canibal, um dos maiores da música portuguesa. A qualidade de som não foi a melhor; por isso, recomenda-se que ouçam a intervenção acompanhada da transcrição.

“Não, não considero que os Heróis do Mar fossem o grupo mais reaccionário do meu tempo. Houve um grande equívoco por causa de uma determinada estética que eles utilizaram, nomeadamente uma estética nacionalista, mas em termos do uso dessa mesma estética, e em termos musicais – a forma como procuraram desenvolver a música portuguesa no seu tempo -, revolucionaram muito o que se fazia na época”

“(…) e são nitidamente uma transição entre um grupo que os principais ideólogos de direita mais gostavam (sic?) anteriormente, que eram os Corpo Diplomático, e um grupo que se seguiu aos Heróis do Mar, os Madredeus – e se os enquadrarmos nesse grupo anterior e posterior, vê-se bem que os Heróis do Mar nunca poderiam ser um grupo reaccionário. Foram uma “correia de transmissão” entre estes dois grupos, entre estas duas estéticas, duas formas de desenvolver a música portuguesa e nesse sentido foram também um grupo revolucionário dentro do que se fazia em Portugal e no que se chamava a música moderna portuguesa.”

“(…) por causa da época, finais de 70 e início dos 80, com a revolução de Abril ainda recente e uma esquerda empedernida nos media, nomeadamente no Semanário Se7e, que não conseguia ver para além da cartilha ideológica, o facto de pegarem em símbolos nacionalistas e pegarem numa espécie de pré-ancestralidade do conceito de Portugal, foram apelidados de reaccionários e fascistas e coisas piores, quando isso não tinha nada a ver, e criou polémica mediática e acabou por lhes ficar cravado na testa esse símbolo, embora não correspondesse à verdade.”

A resposta à questão do Adolfo deu pano para mangas e ainda está em período de gestação. Seguimos com os Mler Ife Dada, referência da pop dos anos oitenta portuguesa.
Pela mão da Porto Calling, chegou-nos a música de Jaco Pastorius, baixista dos Weather Report que aqui se apresenta em registo de nome próprio; Portrait of Tracy é um impressionante e íntimo exercício conduzido apenas pelo seu baixo eléctrico.
Até ao final da emissão, aproveitámos os minutos restantes para explorar alguns discos de toada mais experimental e alguns contemporâneos. Os Royal Trux vieram ao Primavera Sound para um concerto de início de tarde; é um arrependimento insanável não os termos visto; de Chino Amobi ouvimos música do seu novo trabalho. Recordámos a música de Mika Vainio, com carreira predominante na área da electrónica e que nos deixou este ano; e despedimo-nos com nova experiência de Aaron Dilloway, do disco Gag File. Uma sequência final irrepreensível! 

1. Flying Lotus – Ready Err Not (You’re Dead!, 2014)
2. Radiohead – Subterranean Homesick Alien (OK Computer, 1997)
3. Death Grips – Takyon (Death Yon) (Ex-Military, 2011)
4. Éme – Tédio (Domingo à Tarde, 2017)
5. Éme – Chá com Mel (Domingo à Tarde, 2017)
6. Pega Monstro – Fado da Estrela do Ouro (Casa de Cima, 2017)
7. Pega Monstro – Cachupa (Casa de Cima, 2017)
Os Heróis do Mar são o grupo mais reaccionário do seu tempo? reflexão sobre os Heróis do Mar e as circunstâncias da sua música, por Adolfo Luxúria Canibal.
9. Mler Ife Dada – Ele e Ela…e Eu (L’Amour Va Bien, Merci, 1986)
10. Jaco Pastorius – Portrait For Tracy (Jaco Pastorius, 1976)
11. Royal Trux – Sice | Bones (Royal Trux, 1988)
12. Chino Amobi – BERLIN (Airport Music for Black Folk, 2017)
13. ø (Mika Vainio) – Hion (Metri, 1994)
14. Aaron Dilloway – Ghost (The Gag File, 2017)

0617_mixdown.png