23/03 – Sequência em ausência com pop maternal, rock experimental, e vivência virtual sonora.

Nesta emissão, a nossa ausência permitiu-nos chegar a sítios que nos seriam custosos justificar caso o fizéssemos em directo. Por isso, depois de uma ida a Joji (que ouvimos há uns meses, a propósito do seu novo disco de canção pop), fomos refrescar os ouvidos com a música de Dido – todos se lembrarão – e o clássico White Flag. Pop maternal é apropriado? Segue-se Lana Del Rey, por que não?

Aqueles cuja sensibilidade foi ferida durante este segmento (ou então, mais apropriadamente, não terá sido ferida, e até queriam) terão motivos para fazer as pazes com A Mosca depois de ouvir os Housewives. São britânicos e são cínicos; portanto, a receita ideal para mais um grupo de pós-punk, não fosse essa uma brutal redução do que eles se propõem executar. Ouçam (e vejam) vocês mesmos, aqui.

Foi uma hora algo esquizofrénica; está assumido. Por esta altura, já fora descartada qualquer noção de linearidade e demos um salto de cinquenta anos até Townes Van Zandt (a não confundir com Van Dyke Parks!), cantautor de excelência. Acho que pretendíamos um momento de acalmia, ou algo do género. Este é um dos seus discos de referência.

Até ao final, escutámos um novo trabalho de Eli Keszler, no EP Empire (passou pelo gnration entretanto), e fomos imergir no estranho mundo de Alan Sond, provavelmente o maior destaque da emissão. A música é algo programática, no sentido em que pretende acompanhar uma peça de teatro (que nunca se realizou); resta-nos este trabalho, com quinze minutos de cada lado, editado pela low income $quad.

Terminámos ao som de Schubert. Por que não?

1. Joji – Vlog Beat 6 (Chloe Burbank Volume 0.5, 2016)
2. Dido – White Flag (Life For Rent, 2003)
3. Lana Del Rey – Lust For Life (feat. The Weeknd) (Lust For Life, 2017)
4. Housewives – SmttnKttns (Twilight Splendour, 2019)
5. Housewives – Beneath The Glass (Twilight Splendour, 2019)
6. Townes Van Zandt – For The Sake of the Song (Townes Van Zandt, 1969)
7. Townes Van Zandt – Colorado Girl (Townes Van Zandt, 1969)
8. Eli Keszler – The Tenth Part of a Featured World (Empire, 2019)
9. Alan Sond – Clown Around Town (LI$014, 2019)
10. Franz Schubert interpretado por Prague String Quartet – Quartet No. 13 Rosamunde: I – Allegro ma non troppo

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16/03 – Pop e erudição, com cinema, jams e de tudo um pouco.

Nesta emissão do mês de Março, dedicámos o início à fruição de dois bons momentos da pop de 2019. Primeiro, com Ariana Grande (de quem já somos amigos e com quem temos uma relação de alguma proximidade); depois, com a predileta Carly Rae Jepsen, que entretanto já lançou o disco que vinha adiantando com Now That I Found You. Bons momentos, e que preludiam uma secção dedicada à música de Giovanni Fusco, que musicou uma série de bons filmes, dos quais destacamos Hiroshima, Mon Amour, L’Avventura. Há ainda oportunidade para recordar o projecto de The Caretaker, que terminou Everywhere at the end of time neste ano de 2019.

Segue-se a descoberta dos Finis Africae, através de um seu trabalho antológico, e logo depois passamos para os black midi, aqui em colaboração com Damo Suzuki (dos Can), que serão certamente uma influência para este grupo. Entretanto, lançaram o seu disco de estreia, mas esta é uma pequena amostra do que são capazes ao vivo.

Para terminar, passámos por uma experiência de noise liderada por Blixa Bargeld, ex-Bad Seeds Einstürzende Neubautene depois despedimo-nos com uma belíssima Sonata beethoviana para violoncelo e piano.

1. Ariana Grande – NASA (thank u, next, 2019)
2. Carly Rae Jepsen – Now That I Found You (Dedicated, 2019)
3. Giovanni Fusco – Hiroshima, Mon Amour (Hiroshima, Mon Amour, 1960)
4. Giovanni Fusco – Pompeii (Hiroshima, Mon Amour, 1960)
5. Giovanni Fusco – Titoli: Atmosfera Tensiva (Music For Michelangelo Antonioni, 2006)
6. The Caretaker – Losing loss of battle (Everywhere, an empty bliss, 2019)
7. Finis Africae – Segundos, segundos, segundos (A Last Discovery: The Essential Recordings, 1984-2001, 2013)
8. Finis Africae – Los colores de mis botas (A Last Discovery: The Essential Recordings, 1984-2001, 2013)
// Finis Africae – Radio Tarifa (A Last Discovery: The Essential Recordings, 1984-2001, 2013)
// black midi & Damo Suzuki – part 1 (damo suzuki live at the windmill brixton with ‘sound carriers’ black midi, 2018)
9. Blixa Bargeld, Luciano Chessa, Fred Möpert, Opening Performance Orchestra – Opening Performance Orchestra: Trio n°3 (The Noise Of Art/ Works for Intonarumori, 2019)
10 – Ludwig van Beethoven interpretado por Friedrich Gulda e Pierre Fournier – Sonata No.1 in F major, Op.5, No.1 – I. Adagio sostenuto – Allegro (Beethoven: Complete Works for Cello and Piano, 2006)

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09/03 – Novo de Solange, deambulação pelo Bandcamp e experimentação a valer.

O monumental atraso para as emissões actuais é irremediável; não há forma de acertar o passo. Endereço-vos um enorme pedido de desculpas pela falta de novidades. Mais ainda se o justifica dada a estupenda hora com a qual nos deleitámos desta vez, na companhia de Solange, Sallim, e outros.

No entanto, não começámos por aí. Talvez a propósito da Eurovisão – quem sabe? foi há tanto tempo -, recordámos Conan Osiris, de cuja ascensão (e agora eventual queda…) fomos espectadores activos. AMÁLIA é uma belíssima canção e nunca será demais. Segue-se T-Pain, que nunca por aqui havia passado e provavelmente terá sido vez única, mas que aqui nos traz um exemplo de pop palerma, bem-disposta, à qual já não conseguimos resistir. É um portento, esta Keep This From Me.

Depois, sim, a nossa Solange. Que maravilha! Nunca será a mesma, para nós, depois da passagem pelo NOS Primavera Sound deste ano, quando nos arrebatou no último concerto do primeiro dia. Que presença, e que voz, e que disco! Que tão mais interessante e denso se torna ao vivo. Debatemo-nos, porventura, com a sua insipidez – talvez não a palavra certa – se o tomarmos como disco pop; como obra de r&b experimental, tocada ao jazz e à soul, é magnífica. Ficam duas faixas para provar.

O resto, será incursão pelo Bandcamp, nossa plataforma de eleição para aquisição responsável e sustentável de música. Daí, fomos ouvir Sallim, ligada à Cafetra Records e autora de A Ver o que Acontecepop descomprometida e disco a reter deste ano; e Lomelda, numa breve incursão; e ANGEL-HO, que é militantemente desconcertante; e Honey Oat, que por esta altura já terão lançado o disco ao qual aludimos com esta amostra.

Até ao final, confundi os Tortoise com os Gastr Del Sol (poderia ser um erro mais ignominioso, embora ainda assim imperdoável), fomos à música de Maja K. S. Ratkje, que tem óptimos momentos a recordar (como esta Sayago, imperdível!), passámos por um interessantíssimo disco de Myriam Bleau, recomendado a quem apreciar a estética electroacústica e exploratória, e, por fim, desintegrámo-nos percussivamente ao som de Mark Fell. Percussivamente existe, de facto? Boa questão.

1. Conan Osiris – AMALIA (SILK, 2014)
2. T-Pain – Keep This From Me (1UP, 2019)
3. Solange – Things I Imagined (When I Get Home, 2019)
4. Solange – Binz (When I Get Home, 2019)
5. Solange – My Skin My Logo (When I Get Home, 2019)
6. Sallim – Bom Para Mim (A Ver o que Acontece, 2019)
7. Sallim – A Pensar em Ti (A Ver o que Acontece, 2019)
8. Lomelda – Watering (M for Empathy, 2019)
9. ANGEL-HO – Live (Death Becomes Her, 2019)
10. Honey Oat – A Stranger Spring (Honey Oat, 2019)
11. Tortoise – I Set My Face to the Hillside (TNT, 1998)
12. Maja K. S. Ratkje – Sayago – en sådan glidende lyd (Sult, 2019)
13. Maja K. S. Ratkje – Den sprættende bevægelse min fot gjør hver gang pulsen slår (Sult, 2019)
14. Myriam Bleau – Constructivism (Lumens & Profits, 2019)
15. Mark Fell – INTRA-6 (Computer Generated Rhythm For Microtonal Metallophones, 2018)

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02/03 – Tesouro do pós-punk, recordações de Mark Hollis, som e silêncio.

Ao início do mês de Março, recuperámos as Marine Girls, uma pequena delícia do prolífico período do pós-punk; o disco, Beach Party, é óptimo; e a título de curiosidade, Tracey Thorn integrou este grupo, antes de, mais tarde, formar os Eveything But The Girl. Coisas bonitas da vida. Segue-se Cass McCombs, o descontraído homem do rock, com uma canção do seu último álbum.

Foram apontamentos preliminares de uma emissão que se demorará na carreira de Mark Hollis, e, por extensão, na discografia dos Talk Talk. O seu percurso é um dos mais singulares da música britânica: iniciam-se bem perto do synth pop, com música orelhuda (e bem construída), período sumariamente representado em It’s My Life, lançado em 1984. 

Daí, avançámos para uma importantíssima trilogia, documento da impressionante metamorfose nos Talk Talk. Da pop, lançam-se a terreno não cartografado, numa renúncia total às leis do mercado e da escuta comercial, e percorrem, ao longo destes três discos, um caminho de descoberta e de reflexão. Subitamente, a sua música assemelha-se a um quarto privado, silencioso, sem linguagem, imensamente recompensador para quem se decidir a participar nesta jornada.

Enquanto tudo isto, Mark Hollis foi-se distanciando do mediatismo e desfrutou de uma pacífica reclusão quanto à imprensa. Dele pouco se soube, além de umas entrevistas muito pontuais, até à notícia da sua morte, que se veio a confirmar por algumas fontes ligadas ao músico. 

A emissão fecha com a colaboração entre Graham Lambkin e Michael Pisaro, de um disco de 2015.

1. Marine Girls – Fridays (Beach Party, 1982)
2. Marine Girls – He Got The Girl (Beach Party, 1982)
3. Cass McCombs – Prayer For Another Day (Tip of the Sphere, 2019)
// Talk Talk – It’s My Life
4. Talk Talk – Does Caroline Know? (It’s My Life, 1984)
5. Talk Talk – Chameleon Day (The Colour of Spring, 1986)
6. Talk Talk – Life’s What You Make It (The Colour of Spring, 1986)
7. Talk Talk – I Believe In You (Spirit of Eden, 1988)
8. Talk Talk – Ascension Day (Laughing Stock, 1991)
9. Talk Talk – After The Flood (Laughing Stock, 1991)
10. Mark Hollis – The Gift (Mark Hollis, 1998)
11. Graham Lambkin & Michael Pisaro (Schwarze Riesenfalter, 2015)

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23/02 – Variações no rock, clássicos e jazz sério.

Para fechar o mês de Fevereiro, tivemos uma sequência inicial dada ao rock e suas variações. Primeiro, os Andrew Jackson Jihad, cujo registo não é habitual por aqui, a trazer uma espécie de folk-punk; e, logo de seguida, os Fat White Family, que entretanto lançaram disco novo em 2019, e a quem fomos escutar trabalhos de diferentes fases. Mas o segmento fecha com Xiu Xiu, que tem um brutal disco lançado neste ano e que nos deu imenso prazer descobrir.

De seguida, fomos descobrir um trabalho recente de Mica Levi que nos havia passado despercebido, composições para piano aqui interpretadas por Eliza McCarthy – continua a ser um nome que seguimos com atenção. E Ariana Grande passa logo de seguida, um delicioso guilty pleasure deste ano, que nos levará à música de Joni Mitchell, num dos seus discos mais experimentais, ainda que dentro do registo familiar de folk traçada ao jazz a que nos habitou ao longo da carreira.

Dedicámos uma breve secção aos Outkast, cuja carreira é absolutamente essencial na convergência da pop com o hip-hop, e fomos ainda escutar um disco de Dominique Lawalrée, um curioso músico de composição clássica, que havemos de explorar numa outra ocasião. Para fechar, Charles Mingus: depressinha, mas não demasiado.

1. Andrew Jackson Jihad – Survival Song (People That Can Eat People Are The Luckiest People In The World, 2007)
2. Fat White Family – Love Is The Crack (Songs For Our Mothers, 2016)
3. Fat White Family – Is It Raining In Your Mouth? (Champagne Holocaust, 2013)
4. Xiu Xiu – Girl With Basket Of Fruit (Xiu Xiu, 2019)
5. Xiu Xiu – Pumpkin Attack On Mommy And Daddy (Xiu Xiu, 2019)
6. Mica Levi and Eliza McCarthy – Bullets Hit The Wall Sugar Hit (Slow Dark Green Murky Waterfal, 2018)
7. Ariana Grande – imagine (thank u, next, 2019)
8. Joni Mitchell – The Jungle Line (The Hissing of Summer Lawns, 1975)
9. OutKast – The Way You Move (featuring Sleepy Brown) (Speakerboxxx / The Love Below, 2003)
10. OutKast – Take Off Your Cool (featuring Norah Jones) (Speakerboxxx / The Love Below, 2003)
11. OutKast – Hey Ya! (Speakerboxxx / The Love Below, 2003)
12. Dominique Lawalrée – Poker (Imep’s Boogie) (Brins D’Herbe, 1978)
13. Dominique Lawalrée – Sorry (Brins D’Herbe, 1978)
14. Dominique Lawalrée – Blues IV (Brins D’Herbe, 1978)
15. Charles Mingus – Adagio Ma Non Troppo (Let My Children Hear Music, 1972)

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Um pouco sobre Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio.

hBEegjbDA1gDfTQ02RmFs0ptVNu.jpgApós largos meses marcados pela ausência de ritmo e disponibilidade para cinema, desejei um filme que me pudesse ser familiar o suficiente, enquanto gerasse um certo sentimento de descoberta, e me convencesse, física e intelectualmente, a estar quieto, descansado, para ver cinema. Além disso, e por outro tipo de motivos, queria um filme com poucos ou nenhuns diálogos, eminentemente visual. Assim me cruzei com Koyaanisqatsi. Já lhe conhecia o nome, e, a traços gerais, sabia da sua estética: uma colecção de imagens, porventura sem nenhuma causalidade narrativa, musicadas pelo compositor minimalista Philip Glass; mas nunca imaginara a força deste exercício fílmico, que se constrói na elementaridade da sua linguagem, definida apenas pela justaposição de momentos (alterados somente no seu comprimento, acelerados ou dilatados no tempo) da nossa vida moderna.

A primeira imagem que nos surge é uma pintura rupestre. Logo depois, uma explosão, seguindo-se vários minutos de imagens da natureza: áridos desfiladeiros, a queda de várias cascatas, a acelerada formação e desaparecimento das nuvens – tudo é filmado de forma discreta, em austeros time-lapses, até que, num momento sublime, a câmera se desprende da sua presença estática e sobrevoa, como uma ave de rapina, um leito de água. E subitamente, o nosso domínio não é apenas a natureza: é-nos despertado um sentido estético para a imagem, quando nos surge um jardim populado de várias fileiras de plantação colorida. Será pouco depois que, pela primeira vez, nos enquadramos temporalmente nas imagens que são, afinal, do mundo que habitamos: surge um imponente veículo agrícola, titânico tractor envolto em negrume, que sinaliza a intromissão gradual do mundo tecnológico num organismo natural que precede e se estenderá além da máquina. 

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Afinal, Koyaanisqatsi é um filme de 1982. A televisão fora já inventada, e as metrópoles, evidentemente, já existiam, assim como a produção em massa, os massivos transportes públicos, o frenesi urbano – e tudo isto são conceitos bem mais próximos de nós, em 2019, do que alguma vez foi a desinteressada contemplação da natureza. A questão a que o filme parece aludir é: existirá beleza nos padrões manifestados pela nossa locomoção, nos pesados e obsoletos edifícios que, a alguns, auxiliam na sobrevivência, e numa alienação a vários níveis, da espécie humana, em relação a um propósito que subitamente se alterou? Tudo isto, aliado à música de Philip Glass, provoca uma certa suspensão do nosso sentido temporal; repetem-se longamente os motivos, reduz-se a imagem, desprovida da sua utilidade narrativa, a uma primordial (e essencial) função estética. 

Essa é uma das principais forças de Koyaanisqatsi. No entanto, existe um subtil comentário que se forma apenas na sequência de duas imagens, como quando se sucede à frenética produção de salsichas numa fábrica, o fluxo ininterrupto de pessoas numa escada rolante. Por isso, o mais primitivo modo de nexo fílmico – a edição – não é inteiramente inocente, e em caso algum sentimos que esta pequena liberdade se sobrepõe à identidade maior do filme. Recomendamo-lo vivamente, por ser uma experiência tão singular. 

O filme é da autoria de Godfrey Reggio, que já tinha alguma experiência no mundo da publicidade, com cinematografia e edição de Ron Fricke; Francis Ford Coppola, embora seja o primeiro nome que lemos no filme, não foi mais que uma espécie de produtor. E é com felicidade que, nos créditos finais do filme, entrevemos por lá o nome de Jonas Mekas (aparentemente, por ter cedido algumas das imagens), que é tanto uma influência para este registo como um possível ponto de continuidade (como também é Frederick Wiseman) para quem quiser descobrir mais filmes neste âmbito.

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16/02 – Modernidades de 50, melancolia, ensaio electrónico e calma.

O que é que aconteceu a meio de Fevereiro?

A Mosca recupera, quase um mês após a ressurreição, e desta vez aprouve uma viagem pelo exótico e moderno; assim se justifica um showcase bizarro-tropical de Esquivel!, que já por aqui passou noutra emissão, e justifica a sua reputação de experimentador de pop quando não havia sequer ainda uma definição de música pop. Sempre bom recordá-lo. Com semelhante ligeireza, passámos pela bossa nova de João Gilberto, primeiro a solo e depois com a companhia de Stan Getz – este último é um disco absolutamente clássico.

Pelo meio, perdemos o norte à emissão e andámos por álbuns que nos são queridos e conhecidos – casos de Joni Mitchell Sun Kill Moon; depois, voltámos à música de Minnie Riperton, que temos vindo a conhecer nos últimos tempos.

A sequência final é dedicada a silêncios. Primeiro, Jan Jelinek que, dentro do âmbito da electrónica, a faz muito discreta; depois, há Animal Collective, num trabalho menos extrovertido que Merriweather Post Pavillion; por fim, Nivhek, um outro nome para Liz Harris, ou Grouper, que aqui experimenta dentro de registos longe da canção.

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1. Esquivel! – Lazy Bones (Exploring New Sounds in Stereo, 1959)
2. Esquivel! – Boulevard Of Broken Dreams (Exploring New Sounds in Stereo, 1959)
3. João Gilberto – Brigas Nunca Mais (Chega de Saudade, 1959)
4. João Gilberto – Chega de Saudade (Chega de Saudade, 1959)
5. Stan Getz / João Gilberto – Pra Machucar Meu Coração (Getz/Gilberto, 1964)
6. Stan Getz / João Gilberto – Vivo Sonhando (Getz/Gilberto, 1964)
7. Joni Michell – River (Blue, 1971)
8. Sun Kill Moon – I Can’t Live Without My Mother’s Love (Benji, 2014)
9. Minnie Riperton – Les Fleur (Come To My Garden, 1971)
10. Minnie Riperton – Only When I’m Dreaming (Come To My Garden, 1971)
11. Jan Jelinek – Moiré (Strings) (Loop-Finding-Jazz-Records, 2001)
12. Animal Collective – The Softest Voice (Sung Tongs, 2004)
13. Nivhek – Walking in a spiral towards th (After its own death / Walking, 2019)

09/02 – Recordações do início da década, cantautores e Bruce.

Ainda convalescentes. Para esta emissão, começámos com um trabalho ‘menor’ de Oneohtrix Point Never, para, logo de seguida, darmos destaque ao disco de estreia do português Dada Garbek. Mas prontamente deixamos a electrónica para chegar à música do egípcio Ali Hassan Kuban, em quem tropeçámos por algum acidente, mas cuja presença nos foi bastante prazerosa.

Depois, e a propósito de o seu nome estar uma vez mais em voga, passámos pelo maravilhoso disco de El Guincho, Pop Negro, datado de 2010. Nos últimos tempos, tem-se dedicado ao papel de produtor (ou simplesmente co-autor de canções) mas não pode o mundo esquecer-se do quão importantes foram os seus dois primeiros discos, no início da década – e dele, vamos ouvir o seu registo de 2016, que ignorámos, na próxima emissão d’A Mosca.

Depois, houve uma pequena incursão pela música dos Deerhunter, que voltarão cá este Verão, e uma outra vez os The Kinks, sem motivo algum além da saudade; e, logo de seguida, estreou por cá a música do boss, que é o que pelos vistos deve usar-se.

Nas novidades de 2019, que foi também forma de reencontrar velhos amigos, foram de seguida Jessica Pratt, Panda Bear, Joan Baez e Perfume Genius – spot the one odd out. Os dois primeiros com disco novo; Baez com um seu clássico interpretado ao vivo, e o último, num trabalho de início da carreira, a fechar o momento.

Até ao final, houve ainda Lusine Zakarian, que encontrámos num disco arménio, e Oneohtrix uma vez mais.

1. Oneohtrix Point Never – Lovergirls Precint (Drawn And Quartered, 2013)
2. Dada Garbek – A free man carries a bag of stones? (The Ever Coming, 2019)
3. Ali Hassan Kuban – Om Sha’ar Asmar Medaffar (Walk Like a Nubian, 1991)
4. El Guincho – Novias (Pop Negro, 2010)
5. Deerhunter – Don’t Cry (Halcyon Digest, 2010)
6. Deerhunter – Sailing (Halcyon Digest, 2010)
7. The Kinks – Strangers (Lola Versus Powerman and the Moneygoround, Part One, 1970)
8. Bruce Springsteen – Atlantic City (Nebraska, 1982)
9. Jessica Pratt – As the World Turns (Quiet Signs, 2019)
10. Panda Bear – Dolphin (Buoys, 2019)
11. Joan Baez – Sweet Sir Galahad (Woodstock Two, 1971)
12. Perfume Genius – Hood (Put Your Back N 2 It, 2012)
13. Lusine Zakarian – Ur Es Mair Im (Armenian Medieval Spiritual Music, 1995)
14. Oneohtrix Point Never – I Know It’s Taking Pictures From Another Plane (Inside Your Sun) (Drawn And Quartered, 2013)

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02/02 – Psicadelismo vintage, soul feminina, música nova, com companhia.

Na primeira emissão de Fevereiro, gravámos uma hora de música que começa, da melhor forma, com o trio de Evan Parker, Derek Bailey, & Han Bennink. É jazz voraz, amplamente experimental e violento. Será passagem única por este registo, embora uma que se afigurou bastante necessária à altura. Seguimos com os Khruangbin, espécie de revivalistas das jams psicadélicas e que foram, entretanto, confirmados para o Festival Vodafone Paredes de Coura deste ano.

Depois, Lee Gamble traz o seu novo disco, In a Paraventral Scale, que juntamente com Eli Keszler, sugere uma determinada ideia de paisagem tecnológica e urbana; achámos relevante trazê-la. Dentro ainda do registo electrónico, encontrámos Brian Eno numa faceta que não lhe conhecíamos: com autotune, a cantar no século XXI. Segue-lhe a artista experimental Kaja Draksler, que perdemos no LeGuessWho? deste ano.

Dedicámos um largo segmento à voz feminina, e em particular a uma das vozes mais doces que descobrimos este ano: trata-se de Minnie Riperton, cantora de soul americana, cuja música ainda sentimos presente na produção contemporânea. Será melhor ouvir que ler sobre ela. Há ainda Jazmine Sullivan, antes de chegarmos a Mitski, que passará também por Portugal este ano, e cujo disco tem vindo a ganhar o seu espaço junto de nós.

Até ao final, recordámos os The Kinks; e a hora fecha ao som dos Sweet Trip, grupo referência na intersecção do shoegaze com a electrónica.

1. Evan Parker, Derek Bailey, & Han Bennink – Fixed Elswhere (The Topography of the Lungs, 1970)
2. Khruangbin – August 10 (Con Todo El Mundo, 2018)
3. Lee Gamble – Moscow (In A Paraventral Scale, 2019)
4. Lee Gamble – Chant (In A Paraventral Scale, 2019)
5. Brian Eno – And Then So Clear (Another Day On Earth, 2005)
6. Kaja Draksler – The Lives of Many Others (The Lives Of Many Others, 2013)
7. Minnie Riperton – The Edge of a Dream (Perfect Angel, 1974)
8. Minnie Riperton – Lovin’ You (Perfect Angel, 1974)
9. Jazmine Sullivan – In Love With Another Man (Fearless, 2008)
10. Mitski – Old Friend (Be The Cowboy, 2018)
11. Mitski – Remember My Name (Be The Cowboy, 2018)
12. The Kinks – Get Back in Line (Lola Versus Powerman and the Moneygoround, Part One, 1970)
13. The Kinks – Lola (Lola Versus Powerman and the Moneygoround, Part One, 1970)
12. Sweet Trip – To All The Dancers Of The World, A Round Form Of Fantasy (Velocity : Design : Comfort, 2003)

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26/01 – Descoberta no funk, samples e drive africano.

Desta vez, produziu-se uma emissão bem mexida. Começámos com Cornelius, um pedido de um dos nossos ouvintes, pelo Patreon. São um grupo japonês exímio no domínio do sampling, num período em que a música ocidental tinha uma especial predominância no território nipónico. Já os ouvimos, há tempos, noutra emissão. Depois, continuámos com o clássico DJ Shadow, que, num registo semelhante e contemporâneo, abriu caminhos no hip-hop instrumental.

São ambos nomes relevantes para a carreira dos The Avalanches, que, desde a extraordinária beleza do álbum (e respectivo single) Since I Left You, se acataram dos discos – isto é, até Wildflower, 17 anos depois desse seu primeiro. Fomos descobri-lo.

Daí para a frente, fomos em missão pela soul funk do passado, com os Father’s Children, entretanto redescobertos e reeditados neste século, e os Sly & The Family Stone. Sob recomendação de Cat Power, descobrimos a música de Boubacar Traoré, e, ainda antes de fechar a hora, passaram os Exuma, cuja exótica reputação o precede. Fechámos ao som da electrónica de Atom™, e com a cartografia experimental de Brian Eno. 

1. Cornelius – Mic Check (Fantasma, 1997)
2. DJ Shadow – Midnight in a Perfect World (Entroducing…, 1996)
3. The Avalanches – Live a Lifetime Love (Wildflower, 2016)
4. The Avalanches – The Wozard of Iz (Wildflower, 2016)
5. Father’s Children – Who’s Gonna Save The World (Who’s Gonna Save The World, 2011)
6. Father’s Children – Kohoutek (Who’s Gonna Save The World, 2011)
7. Sly & The Family Stone – Poet (There’s A Riot Going On, 1971)
8. Sly & The Family Stone – Time (There’s A Riot Going On, 1971)
9. Boubacar Traoré – Santa Mariya (Kar Kar, 1992)
10. Exuma – Mama Loi, Papa Loi (Exuma, 1970)
11. Atom™ – Wellen und Felder I (Liedgut, 2009)
12. Atom™ – Wellen und Felder II (Liedgut, 2009)
13. Atom™ – Wellen und Felder III (Liedgut, 2009)
14. Atom™ – Wellen und Felder IV (Liedgut, 2009)
15. Brian Eno – Tal Coat (Ambient 4: On Land, 1982)

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