Memórias e resenha de um NOS Primavera Sound 2017.

Mais um ano volvido, e mais uma obrigatória peregrinação ao Parque da Cidade, em Junho, para o ver transformado em recinto de um dos mais relevantes festivais da Europa; transforma-se o Parque, e o Porto também, para destino de reencontros e novos conhecimentos, descoberta e _______. O festival contou a sua sexta edição, um número já respeitável e que obriga à retrospectiva de anos anteriores. Aqui está: fomos imensamente felizes, no passado. Também o fomos, este ano.

Como habitual, o alinhamento para o irmão catalão, donde provêm todos os artistas com destino ao Porto, deixou-nos a esperança de que pudéssemos receber junto de nós nomes que nunca por cá passaram, e outros que justificavam um regresso: não houve Arcade Fire, Annette Peacock, os Zombies, a própria Solange e Frank Ocean – este, nem em Barcelona apareceu -, mas tivemos Flying Lotus, na ressaca do extraordinário You’re Dead!; Aphex Twin, que poucos acreditaram possível; Death Grips, que haviam cancelado o concerto na primeira iteração do festival na cidade Invicta, no longínquo 2012. E outros, menores ou tão grandes como estes, que fizeram de 2017 uma edição obrigatória.

Por entre as emissões diárias do programa que se sobrepuseram a vários concertos, a azáfama habitual e as pausas necessárias para o comer e beber, cortámos nas gorduras e fomos directos ao que se afigurava relevante. Neste formato louco no qual assenta o Primavera, com horários repletos, pontuais, e concertos ligeiramente mais curtos que o habitual, guardamos, por outro lado, a vantagem de nos serem garantida prestações intensas, com todos os minutos contados.

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O primeiro dia, o que habitualmente reserva apenas dois palcos principais em alternância, traria, ao dobrar da meia-noite, um dos nomes que mais antecipámos: Flying Lotus, o nome sob o qual actua Steven Ellison, na sua segunda viagem pelo nosso país – esteve no Super Bock Super Rock, ainda no Meco, no ano de 2012.  E quando, do outro lado do recinto, se fizeram ouvir os primeiros momentos de Theme, faixa inicial do seu mais recente disco, You’re Dead! – contamos já 3 anos desde que o lançou, e é a base para o seu set, a cuja arquitectura jazz, alicerçada nos teclados ondulatórios de Herbie Hancock, volta por entre as deambulações electrónicas dançáveis noutros discos e horizontes – outros, como nós, rapidamente acudiram à chamada, de tal forma que o palco secundário pareceu pequeno para tamanha manifestação. Mesmo nos momentos iniciais, fora do espectro da sua discografia, ouviu-se o convite à música de Angelo Badalamenti, o guru que arquitectou a identidade sónica de Twin Peaks, remisturada e recontextualizada para o universo electrónico. Um dos raros momentos que denunciam a contemporaneidade de Steven Ellison, que afinal habita e vive o mesmo espaço e tempo que os restantes. Fisicamente, a sua figura fica no intervalo deixado em aberto entre uma tela transparente colocada à sua frente e as costas do palco, onde projectará – com notável capacidade técnica – psicadelismos vários e excertos do seu novo filme Kuso, a estrear (talvez não por cá) este ano, que refere a conteúdos mais gráficos, e de uma índole provocadora: recordamos figuras humanas que se envolvem e encetam actos grotescos, gore e violência gratuita musicadas pelo seu último disco. Foi demais para alguns. E que mais dizer? Desde há já algum tempo que estamos profundamente encantados com esta personagem: divide-se em Lotus e em Captain Murphy, a partir do qual se lança para cantar rimas; gere a sua própria editora, a Brainfeeder, e influencia, ainda que subliminarmente, as carreiras de Kendrick Lamar, Kamasi Washington, e outros tantos, como uma espécie de guru espiritual, sempre um passo à frente dos restantes, um navegador do astral plane que regressa de quando em vez para partilhar as novidades intergaláctico-espaciais; e aqui, no Porto, constatamos a sua mestria como artista não circunscrito apenas à música, mas devoto à imagem, ao flow do concerto, ao mundo em redor – por isso, um artista proficiente nos sete ofícios.

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Ouviu-se material de Cosmogramma, um dos seus trabalhos mais experimentais de 2011, e uma especial atenção às batidas – a dada altura, admite que “uma miúda no backstage pediu que tocasse os beats” -, mas sem esquecer as pinceladas do jazz, orgânicas e complementares à electrónica, embora sempre num plano abstracto, de inefáveis contornos. Havia proposto exactamente isto em You’re Dead!, e sabíamos já ao que vínhamos: extravasar os limites do humano, pensar-nos depois da morte, desprovidos do físico, desgarrados do intelecto: e restamo-nos com exactamente o quê? O onírico e o espiritual são aqui sinónimos, e axiomas pelo qual se rege o universo de Ellison. Somos tentados, ainda assim, a projectar alguma positividade na sua música, e se não alegria, pelo menos encanto, ou algo ainda menos concreto, ao qual nos agarramos. Fechou o concerto ao som de Never Catch Me, colaboração com Kendrick Lamar que teve uma reacção extraordinária, e depois despediu-se ao som de The Protest: “We will live on, forever, and ever” , que parece o chavão ideal para terminar a actuação.

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Capa de You’re Dead!

Se Flying Lotus é uma espécie de peregrinação espiritual, Aphex Twin agarra-nos na cloud nine da nossa paz de espírito e coloca-nos num outro sítio. Ininteligível; mais abstracto e paranóico; cerebral, igualmente provocador. Estamos agora no terceiro e último dia, e para nós o último concerto, aguardado num lugar relativamente próximo ao palco principal – bastante maior, e com mais público, que o palco de Steven. Atrás duma eventual mesa de mistura, nas costas do coordenador-de-cerimónias inglês, uma mão cheia de telas dispostas sob intencional geometria, de distintos tamanhos, permitiam imaginar a parede interior de um pavilhão industrial, as telas como janelas, e Richard D. James como anfitrião de um ambiente que lhe será certamente familiar. Afigura-se difícil a tentativa de reconstruir o concerto de memória, sobretudo quando se trata de um artista cujo catálogo não me é de todo reconhecível; um incauto como eu julgaria que fôssemos ouvir obras do seu catálogo discográfico, mas sei agora que se cingiu aos remixes e a criações mais underground. Nada contra. Recordo-me da maquinalidade da sua música, pouquíssimo orgânica, e das imagens que nos eram dirigidas; uma experiência intensa, mesmo a um nível físico – mais uma vez, e como aconteceu ao longo dos dias em vários concertos, socorremo-nos de tampões auditivos para evitar males maiores.

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Engoliam-nos as batidas e os pontuais momentos melódicos, devedores a uma série de microcosmos electrónicos, e as figuras projectadas revelavam-se abstractas, desaguando, por vezes, no símbolo característico do projecto do britânico. Após várias iterações e mutações deste processo, surgiam caras – caras humanas – que se actualizavam não à habitual velocidade fílmica dos 24fps, mas pausadamente, lentamente, profanadas pelo glitch, percorrendo o que julgámos ser o público das primeiras filas. Talvez não fosse. Mas, levados pela paranóia, pelo drone vermelho e verde que nos sobrevoava perniciosamente, imaginámo-nos susceptíveis ao olho que tudo vê, imortalizados num fugaz momento para um palco NOS repleto. Ainda envoltos no universo de Richard D. James, bombardeados pela viciosa circularidade da música (?) que nos debitava, vimos: uma das faces projectadas, atrelada a uma camisola com o símbolo icónico de Aphex Twin, mostrou-se sorridente; a marcha interrompeu-se. Momentos depois, dadas mais algumas voltas neste circuito circular sonoro, o mesmo vulto estava agora irreconhecível, e no lugar do seu sorriso, uma horrível contracção da face pontuada por uma súbita violência na música.

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Se essa pessoa ali estivesse, naquele preciso momento, seria uma autêntica expressão de dor e sofrimento; e a rápida justaposição entre as duas facetas relativizou todo o espectáculo do britânico, a sua ambiguidade emocional, e deixou descoberta uma possível opinião sua sobre quem actualmente somos e o nosso desmesurado culto da mediatização e da imagem. O ângulo confirmou-se mais tarde, quando surgiram os rostos de várias personalidades portuguesas, desde Salvador Sobral a Lili Caneças, passando por Jorge Jesus, e o Emplastro. Ou então não: talvez seja tudo uma conjectura levada demasiado longe. De qualquer forma, ficámos com a sua música, e a experiência, e os seus discos, e tudo se completa mutuamente e isso é mais que suficiente.

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Há um termo que albergará estes dois primeiros nomes: residem ambos sob o espectro da música electrónica, seja o que isso for no século XXI, porque, curiosamente, ainda há espaço e argumentos para lhe encaixarmos também os Death Grips. E não será o único ângulo comum entre os três.

Estes americanos são muito provavelmente um dos mais estranhos, absurdos, erráticos projectos artísticos que conseguiram irromper pelo mainstream adentro, mas não aquele que se julga pela métrica de discos vendidos, e seguidores no Facebook; o mito dos Death Grips habita nos sussurros entre conhecidos – “já ouviste aquilo?” -, na internet e seus derivados, numa contra-cultura cada vez mais relevante oposta à, generalizemos, condição humana pós-capitalista. E o encontro estava marcado para o palco . (ponto, ex-palco ATP), uma espécie de portal físico para as mais inclassificáveis experiências neste festival: aqui, já havíamos visto Swans e Shellac, a redefinir os limites, linguagem, e languidez do rock, e seguir-se-iam os The Make-Up, para nos purificar a alma e perdoar os pecados. A própria geografia do palco remete para algo único, envolvendo-o, circunscrito, por uma muralha de árvores, e suficiente tempo despendido neste espaço – uma medida distinta para entidades distintas – há-de fazer duvidar que estamos num dos mais mediáticos festivais europeus, que se pagou para aqui estar, que a escassas centenas de metros há música que vai bem com o momento de selfie, instagram-ável, e há uma ironia demasiado óbvia que não chega sequer a ter o encanto da subtileza entre tudo isto e a vincada identidade dos Death Grips.

A expectativa pré-concerto não durou muito, e nem nos foi dado muito tempo para regozijar a chegada dos três integrantes do projecto; prontamente se dissolveu a integridade da organização humana nas fileiras mais próximas do palco, por culpa das imediatas movimentações tectónicas que se deram, a um ritmo alucinante, em todas as direcções a partir de um centro comum. Éramos gente, pessoas, antes de tudo isto começar; agora, apenas massa, em constante movimento e transmissão – não apenas libertação – de energia. Nada mais. Sem que haja qualquer tipo de interacção com o público, tanto no espectáculo como fora dele, estabelece-se esta comunicação de contornos quase primitivos, íntimos e simultaneamente extrínsecos, em ambos reduzida ao essencial, entre o grupo e a sua audiência. E é algo de estranho mas muito interessante de acompanhar, caso por hipótese ainda nos reste essa presença de espírito. Impressiona a energia e a força de Zach Hill na percussão, e a importância que tem a justaposição do seu contributo com o de Andy Morin, responsável por toda a componente electrónica: tudo muito alto, muito visceral e violento, erguem-se autênticas muralhas de barulho indiscernível, nas quais mergulham a voz de MC Ride, complemento à sua densidade, e até as luzes de palco pretendem ignorar a impossibilidade física do acto e contribuem para esta amálgama de desorientação física, psicológica, e ao que tudo indica até existencial. Tudo isto é absolutamente único: dias antes, no palco principal, os Run The Jewels lidavam com uma audiência de superior magnitude, mas qualquer indício que tenham deixado de rebeldia ou atitude contra-sistema se afigura ridícula junto do que estes três representam e levam a cabo: os Death Grips tiveram toda a gente sob o seu domínio e comando, e o resultado foi um caos apenas ligeiramente controlado. Não ficámos até ao fim do ritual; um pouco antes do final, aproximámos as mãos ao chão para reunir os cacos da nossa personalidade; aferimos o nome nos documentos oficiais, para confirmar; e finalmente, saímos renovados – ou algo do género.

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Parque da Cidade, início de Junho de 2017, Porto: destino de reencontros e novos conhecimentos, descoberta e _______. Três dias atípicos enquadrados numa espécie de limbo, já que é demasiado cedo para se pensar em férias, e tarde o suficiente para que reste a impressão de um Verão despreocupado, de horários flexíveis, de gáudio e lazer e tudo o que daí advém de mais positivo. A praia oferece-se para um curto banho de Sol ainda antes de se pensar numa sombra do Parque, e provavelmente já se arriscou uma mariscada do outro mundo, em Matosinhos. O dia, cujo início deixou a impressão de alvorada, promete.

O Domingo convida a reflexões invariavelmente banhadas por uma estranha nostalgia, fresca e ainda detalhada, passível de uma reorganização, e de comparações com outras experiências. Trocam-se impressões das decisões difíceis, tomadas por impulso e intuição, ao longo dos últimos dias.

O NOS Primavera Sound, embora dê a impressão de estar cada vez maior, ainda é – e esperemos que assim continue – um belíssimo sítio para se estar. A lotação quase sempre esgotada dá margem de manobra para não nos sintamos claustrofóbicos na confusão; os quatro palcos operam em simultâneo e obrigam ao constante fluxo de gente a navegar de um lado para o outro – desmistifica-se a ideia de um concerto total, do início ao fim, para uma mais flexível rotina de rotação entre diferentes espectáculos. Só assim se torna possível que, em simultâneo, possa haver algo muito próximo de um motim com os Death Grips, e, a apenas algumas centenas de metros, Weyes Blood e a sua folk pastoral, próxima de uma América que se perde na translação, e ainda os Metronomy, no palco principal, a puxar dos galões para se leve a sério a leviandade que a todos oferecem; dum lado os Swans em meditação profunda, visceral, apocalíptica, do outro Bon Iver com pretensões de transformar a geografia do palco num casulo íntimo, de proximidade, e a candura emo de Julien Baker – tão sozinha para um espaço tão grande a circundá-la, exposta de uma forma que poucos ousam, e há mesmo algo de especial naquilo que nos traz, estamos dispostos a justificar.

Tudo tido em conta, seis edições desde, e incluíndo, o mítico ano de 2012, continua um dos mais especiais momentos de cada ano, sempre subjectivo, e único. Um festival bem organizado, ciente das exigências do mercado da música (que existe, não haja ilusões, e sem demérito para a sua genuinidade), cada vez mais em linha com as preocupações urbanas e ambientais – basta recordar a infeliz visão de outros anos, nos palcos principais, com o relvado imundo e submerso sob copos descartáveis de plástico, que não mais voltou a acontecer (que bom!) -, e em comedida expansão, devidamente planeada. O festival e a cidade merecem. E para o ano, havemos de cá ser felizes outra vez.

©Hugo Lima | www.huglima.com

12/05 – Noções capitalistas, desumanização, e a ̮͙̪̯͢ạ̵̩͍s̷̹̝̼̣̤c̠̙̮͈̼ḛ̢̜n̖ç̞͚͜ã̴͈̹̜̺̻̙o ḓ͍̳͍̫a͞ ̷̗̳̠̣̞͎m̰̫̲̙̕á̲̥͍͓͜q͔̘u̳̪͠ina͉.̞̰̳̟̠

Ora.

Algo de muito estranho se passou nesta emissão. Embora não tenha sido uma habitual transmissão em directo, deixámos tudo preparado num ficheiro .mp3 que foi para o ar à hora marcada. Estava alinhado que iríamos começar com Tatsuro Yamashita, nome nipónico associado a uma vertente muito particular da pop japonesa, feita especialmente para ser ouvida nas novas e vibrantes auto-estradas do Japão. É música com um intrínseco e subliminar espírito consumista, e isto é algo que nos fascina.

Depois, tínhamos planeado ouvir os americanos DEVO, um fascinante projecto que começou, como já ouvimos noutras emissões, com um espírito tremendo de irreverência e criatividade, intimamente ligados ao no-wave, ao rock, e até com alguns ares de punk, mas aqui, no disco New Traditionalists, aproximaram-se mais da electrónica – e o resultado ficou muito interessante, também. Seguiram-se os nossos amigos Kraftwerk, com o disco Die Mensch-Maschine, de 1978.

Só que, infelizmente, tudo começou a ficar estranho a partir da intervenção de Laurie Anderson. Por algum motivo, parece que perdemos o controlo da emissão a partir daqui, e o alinhamento que tínhamos previsto não se concretizou. Do que aconteceu até ao final da hora, conseguimos recuperar o nome de Nuno Canavarro, ex-integrante dos Delfins e autor de um dos mais bonitos discos electrónicos-experimentais portugueses; os Passengers, super-grupo constituído pelos U2 mais a especial participação de Brian Eno, e ainda o enigmático Dean Blunt, prolífico desde o seu disco Black Metal (que, para nós, foi um dos melhores de 2014, já previamente escrutinado).

Conseguimos, ainda assim, resgatar a sugestão da Porto Calling, a música de Moondog, mas perderam-se todos os eixos de seguida quando, até ao final da hora, ficámos com um artista japonês, 細野晴臣, e o feito artístico de Sam Kidel, denominado Disruptive Muzak – merece ser escutado pelo menos uma vez, para lhe apreender o conceito.

1. Tatsuro Yamashita – Sparkle (For You, 1982)
2. DEVO – Beautiful World (New Traditionalists, 1981)
3. Kraftwerk – Das Model (Die Mensch-Maschine, 1978)
4. Laurie Anderson – B͂̀̓̒o̵͋̉̆ͭ͒r̾̏͛̓͂n,̐̒̂ͧ͠ ̈́̓ͬ̕Ņ̀̀̐ͤͬ̋e̵͌ͮ͋̈́ͪv͡e̛̔̉̎͂͋̐̚r͆̇ ́X̀ ̢̽ͤͪ(Big Science, 1982)
5. Nuno Canavarro – Wask (Plux Quba, 1998)
6. Passengers (U2 + Brian Eno) – One Minute Warning (Original Soundtracks 1, 1995)
7. Dean Blunt – 04 Brown Grrl
8. Moondog – Moondog’s Theme (More Moondog, 1956) | sugestão da Porto Calling.
9. 細野晴臣 – Talking (花に水, 1984)
10. Sam Kidel – Disruptive Muzak

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05/05 – Viagens pelo Espaço, pop de sintetizadores, punk, e paisagens instrumentais.

Estamos especialmente expeditos na reposição dos podcasts!

O programa desta semana fica marcado pelo iminente concerto de José Cid – realizou-se no dia seguinte, na Casa da Música – e o seu disco seminal 10.000 Anos Entre Vénus e Marte; daí, ouvimos Caos. Recordámos ainda os Monstros Sagrados, ainda dos Quarteto 1111 mas reeditado no seu disco a solo mais recente.

Depois, tempo de recordar os Beatles, a propósito do seu baterista Ringo Starr, e o disco Abbey Road; por lá ficámos algum tempo, em considerações várias sobre os britânicos e o seu baterista. Esta foi uma emissão com poucos álbuns, já que logo de seguida assentámos em Dazzle Ships, de 1983, da autoria dos Orchestral Manoeuvres in the Dark, grupo seminal do synth-pop britânico. É um óptimo disco, baseado no clima da Guerra Fria e experimental para o habitual standard deste género.

Poderia ser uma sugestão da Isabel Leirós, que estreou um novo espaço neste programa, embora de parca regularidade: o convidado de cada emissão comenta a sugestão do anterior, e sugere uma próxima; como a Isabel foi a primeira, decidiu trazer-nos um pouco de história da música britânica – ouvimos, depois, os Buzzcocks – e lançou a pergunta para o voluntário seguinte. Confiram na emissão, porque correu bastante bem.

Já com olhos postos no final do programa, avançámos para a recomendação da Porto Calling, que propôs um obrigatório nome na cena punk / experimental: Vivien Goldman, mulher de muitos ofícios, mas que nos deixou pouquíssima coisa gravada e disponível para recuperar; revisitámos o Angola 74do angolano Bonga, e terminámos em grande com, mais uma vez, os Japan. Encantaram-nos na emissão anterior, e desta vez fomos ao disco Gentlemen Take Polaroids, em paisagem instrumental.

1. José Cid – Caos (10.000 Anos Entre Vénus e Marte, 1978 (reedição 2017))
2. José Cid – Monstros Sagrados (Menino Prodígio, 2015)
3. The Beatles – Here Comes The Sun (Abbey Road, 1969)
4. The Beatles – Octopus’ Garden (Abbey Road, 1969)
5. Orchestral Manoeuvres In The Dark – Telegraph (Dazzle Ships, 1983)
6. Orchestral Manoeuvres In The Dark – The Romance of the Telescope (Dazzle Ships, 1983)
7. Buzzcocks – Ever Fallen In Love (With Someone You Shouldn’t ‘ve?) (Love Bites, 1978)
8. Vivien Goldman – Launderette (Dirty Washing EP, 1981)
9. Bonga – Ghinawa (Angola 74′, 1974)
10. Japan – Swimming (Gentleman Take Polaroids, 1980)

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28/04 – Rock e pop do sótão, e breves experimentações.

Depois de uma Sexta-feira Santa e de uma das emissões mais absurdas d’A Mosca de que há memória – e que ficará incógnita neste blog, por uma questão de dignidade – voltámos ao usual e às emissões em directo para a Rádio Lisboa.

Desta vez, quase metade do programa foi dado a conhecer pelo trabalho de campo da label Light In The Attic, que recentemente se especializou em recuperar gravações perdidas, ou fora de circulação, para que possam chegar a novos ouvidos. Assim, conhecemos o trabalho da Betty Davis, uma autêntica força da natureza do funk e do rock, que esteve, durante um curto espaço de tempo, casada com Miles Davis. Ouvimos duas das suas músicas, e seguimos, sem quebrar a toada, com Lizzy Mercier Desclouxnossa conhecida e repetente no programa. Fazemos uma pausa nas descobertas da Light quando trouxemos os DEVO (produzidos por Bri…enfim, já o saberão decerto), para logo depois voltarmos ao grupo The Free Design, que fazem lembrar uns Carpenters caso tivessem enveredado pela vida hippie comunitária, e a Rodriguez, o mais mediático caso de sucesso desta editora. E embora já tenhamos ouvido vários trabalhos do britânico, tivemos que mencionar o seu disco Before and After Science, um dos poucos do seu período pop que ainda nos faltava; e completámos a jornada de cantautores com Serge Gainsbourg, sugestão da Porto Calling, que, camaleónico, foi dar uma perninha junto da Jamaica e do reggae. Guardámos os momentos finais para alguma experimentação: primeiro, os Throbbing Gristle, endiabrados britânicos afectos à música perversa; depois, Jenny Hval, que actuaria no dia seguinte em Braga; e terminámos com o footwork impressionista do japonês Foodman. Uma semana de emissão difícil, em parcas condições vocais, pelas quais pedimos antecipadamente as possíveis desculpas.

1. Betty Davis – You Won’t See Me in the Morning (Betty Davis, 1973)
2. Betty Davis – Come Take Me (Betty Davis, 1973)
3. Lizzy Mercier Descloux – Fire (Press Color, 1979)
4. DEVO – Uncontrollable Urge (Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, 1978)
5. The Free Design – Canada in Springtime (There Is A Song, 1972)
6. The Free Design – My Very Own Angel (Heaven / Earth, 1969)
7. Rodriguez – I Think Of You (Coming From Reality, 1971)
8. Brian Eno – Here He Comes (Before and After Science, 1977)
9. Serge Gainsbourg – Aux Armes et caetera (Aux Armes et caetera, 1979) recomendação da Porto Calling.
10. Throbbing Gristle – Hot on the Heels of Love (20 Jazz Funk Greats, 1979)
11. Jenny Hval – Conceptual Romance (Blood Bitch, 2016)
12. Foodman – Hikari (Ez Minzoku, 2016)
13. Foodman – Waterfall (Ez Minzoku, 2016)

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Música dentro do muro: Michael Rother sobre si próprio.

[ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE; FOTOGRAFIA DE HENRIQUE ALMEIDA; EM SUMA, UM DOS MAIS BONITOS MOMENTOS DA VIDA DA MOSCA]

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Pensemos na Alemanha do início dos anos 70, ainda separada entre Este e Oeste como consequência da Segunda Grande Guerra. Um país separado no seu coração geográfico, Berlim; um povo dividido, sujeito a diferentes governos e influências. É, também, uma época especial por ter sido um pequeno micro-cosmos de excelente música, um caldeirão criativo que fervilhava em pequenas bandas e projectos artísticos. Se hoje, com reverência, falamos dos Kraftwerk, grupo seminal da electrónica, dos Can, dos NEU!, ou dos Faust – alicerces que ainda hoje são aproveitados, apreendidos e reciclados pelas novas gerações -, devemo-lo a um fenómeno que ultrapassa o simples acaso. Na altura, o frenesim não permitia apurar a singular importância do que se passava; a crítica britânica, vítima de uma falácia provocada pelo distanciamento à origem, chamar-lhes-ia a todos eles krautrock, uma piada (de algum mau gosto) que pegou e hoje designa genericamente os projectos alemães desse período sem grande utilidade na classificação da sua estética musical (que tão distinta é entre, por exemplo, uns NEU! e uns Popol Vuh).

Por isso, quando nos chegou a notícia do regresso de Rother a Portugal – já passou mais de um ano desde que actuou no Milhões de Festa, como relembrou, entre canções, no gnration -, chegar à fala com ele era tão ou mais importante que (re-)ouvir a sua música. Na época, a sua participação foi  crucial: afinal de contas, viveu aquela altura em todas as suas dimensões sociais e culturais. Integrou os Kraftwerk, os NEU!, e os Harmonia, e prosseguiu, depois, numa prolífica carreira a solo; além disso, conviveu com Klaus Dinger, Dieter Möbius, Hans-Joachim Roedelius, e chegou a estar apalavrado uma colaboração com David Bowie, à altura da sua trilogia de Berlim, que não se deu por questões alheias a Rother e afectas a problemas contratuais. Tudo isto recapitularemos: há muito para contar na história do alemão.

Vimo-lo depois do seu lanche de meio da tarde; uma figura de indumentária escura, com bons modos e trato. Por entre cumprimentos, foi informado do cancelamento de uma entrevista, e o seu gáudio, imediato, no qual se entreveio algum cansaço: “Que bom! Tenho feito tantas, mas tantas entrevistas, e têm sido dias cansativos… Estou um bocado cansado”. Rother, recordemos, é agora um sexagenário e tem calcorreado o mundo para interpretar alguns clássicos com outros dois músicos. Há uns anos, fez um excelente retrato da sua carreira para a Red Bull Music Academy, entrevistado por Hanna Bächer. Procurámos um local confortável, e escolhemos o átrio coberto do gnration.

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Sentados, recordaríamos 1968, quando a Alemanha de Oeste estava mais próxima do mundo ocidental, e culturalmente ligada aos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Por esta altura, deu-se um fortíssimo protesto da comunidade universitária que reivindicava, entre outros, o despedimento de professores outrora com ligações ao partido nazi, o fim da guerra do Vietname, “e uma profunda preocupação com os direitos dos negros nos Estados Unidos”, relembra Rother. “Éramos muito próximos da América e tudo aquilo nos impressionava, assim como a brutalidade do Vietname. Não fazia sentido. Nessa altura, muitos dos meus amigos – que sempre foram mais velhos que eu -, escolhiam manifestar-se dessa forma. Eu tentei sempre seguir o outro caminho”. Este choque com a sociedade envolvente levou, entre outras coisas, a uma quebra assumida com os cânones culturais dos países de língua inglesa.

O caminho alternativo de Rother aparece recorrentemente, um que trilhou várias e de distintas formas ao longo da carreira, como uma negação à violência do nosso mundo. Pouco mais tarde, participaria nos primórdios dos Kraftwerk, seminal grupo da electrónica que, à altura, ainda direccionava a sua música a outras paragens (recorde-se um famosíssimo concerto na televisão alemã), onde conhecerá Klaus Dinger, e entabula-se entre eles uma química musical que terá expressão no primeiro disco dos NEU!, gravado em apenas quatro noites com o produtor Conny Plank. “Hallogallo”, faixa-chave do álbum, sintetiza nos seus 10 minutos o ímpeto cavalgante, o drive repetitivo, ambos características associadas aos NEU!, mas serão, porventura, fruto da influência da música paquistanesa em Rother, que caracterizou um dia como “uma interminável corrente de música em direcção ao horizonte”.

“Na altura não ouvia nada do que se passava à nossa volta e queríamos explicitamente romper com o que se fazia na América e na Grã-Bretanha”, diz-nos. “Era apenas eu, o Klaus, e o Conny, e experimentámos muita coisa: sem grande preparação, tocar e aferir o resultado. Na “Im Gluck”, por exemplo, o som da água é o Klaus e a namorada no meio do rio, a remar”. Uma impressão que reaparece em “Lieber Honig”, a fechar o disco, mais a guitarra solitária que acompanha a voz rumo a nada em específico – estão apenas , artefactos sonoros singulares que, posteriormente, se transformam em algo mais. Dinger, percebemos, foi como uma outra face da mesma moeda, um complemento às composições de Rother onde raramente se encontravam.

entrevista_michael_rother11.jpgEm concerto, constatamo-lo, com mais um guitarrista e baterista em palco, nos espectáculos que tem feito nos últimos anos: são, respectivamente, Franz Bargmann, que com os Camera ainda continua o legado do kraut, e Hans Lampe, colaborador de Dinger no seu projecto posterior, os La Düsseldorf. Exibindo o orgulho NEU!iano num autocolante do seu computador, recupera as composições mais melodiosas  – “Hallogallo”, “Neuschnee”, “E-Musik”, por exemplo -, e leva-as todas a bom porto; a elas, e ao público, de idades heterogéneas e com muitos a fazerem mais quilómetros que o habitual. Os NEU! têm ainda um repertório perfeitamente actual e musicalmente interessante, indo mais além do interesse histórico que algumas das composições terão.

Depois dos primeiros dois discos com Klaus Dinger, dá-se mais um acontecimento fortuito que o leva a juntar-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Möbius, os Cluster, na idílica Forst, Alemanha rural. Aqui, além de produzir dois discos – e ainda se editou um terceiro, já em 2007, com algumas gravações recuperadas das sessões com Brian Eno -, os três viveram em pacífica comunhão, longe da azáfama citadina e livres para tocar a seu bel-prazer. “Foram, de facto, tempos fantásticos. Éramos absolutamente livres e a natureza fascinava-nos: cortávamos lenha, cozinhávamos e ouvíamos os pássaros.” Hoje, é aí que Rother mantém a sua residência, e discorre sobre esses tempos, perdido entre as suas memórias, já esquecido da pergunta inicial: “Tocávamos quando queríamos e éramos muito amigos.” Inevitavelmente, recordámos Roedelius, que esteve em Braga no ano passado, e falou, também, dessa altura com reverência. “De todos, ele foi o que gostou mais, possivelmente. Foi, para ele, uma altura muito especial – ele romantiza muito esses tempos”. De Roedelius, rapidamente chegámos a Dieter Mobius, seu companheiro nos Harmonia e que viria a falecer no ano passado.

“Foi complicado. Eu não sabia que ele estava doente e foi tudo muito rápido. Ele era um óptimo músico, e um bom amigo. Com o Klaus, as coisas eram diferentes: ele era muito intempestivo, mais agressivo e nem sempre estivemos em bons termos.” Klaus Dinger, depois de NEU! 75, o terceiro do grupo gravado já depois do período em Forst, lançou-se, tal como Rother, numa carreira a solo; no entanto, desagradaria o seu colega ao editar, sem aviso prévio e em dúbias condições contratuais, um disco de gravações inéditas dos NEU!, no Japão. “Houve uma altura em que o Klaus queria muita coisa. Teve muitos problemas com drogas e sempre quis ser mais famoso do que era. Ele já partiu e a passagem do tempo faz-nos esquecer alguns pormenores enquanto glorifica outros. Dentro de mim, sinto que cheguei a uma paz com ele”. É a inevitável acção do tempo que leva à conclusão que Rother é, passados estes anos, um dos últimos da sua geração. E ele, claro, sabe-o. “Sim, é verdade…e é difícil, sabes, aperceberes-te que, com os anos, as pessoas de quem mais gostas vão desaparecendo. Simplesmente, é assim a vida –  ainda hoje, todos os dias, me lembro do Dieter e sinto-o presente comigo. E na minha música, também. É, talvez, uma forma de apaziguamento.”

Por isso, não podia deixar de revisitar o repertório dos Harmonia, mais informado pela electrónica e pelo ambient, onde se pode, a exemplo, em “Dino” constatar a inconfundível presença de Rother. São composições que, tal como a música da sua infância no Paquistão, parecem surgir já distantes do seu início e desaparecem sem ter chegado a um fim – existem, apenas. Depois, ainda a meio do concerto, há um momento revelador e que sintetiza o que Rother traz aos seus projectos: passando por Flammende Hertzen, o seu primeiro disco a solo, recupera a faixa-título, uma em que a guitarra, absolutamente expressiva, persegue uma melodia simples, aberta, e luminosa, quase como uma música folk em que a voz é, desta vez apenas, cantada em seis cordas. Na tela por trás dos músicos, surge a imagem, inofensiva e até algo pirosa, de um mar – estamos, ainda que não intencionalmente, num território extremamente kitsch.

Será essa uma preocupação para Rother? Cremos que não. Desde há muito tempo, assume abertamente que a única característica que julga importante na sua música é “que venha do coração”. Nos NEU!, esquivava-se à fúria indomável de Klaus Dinger e não se retrata na frenética “Hero”, onde Dinger canta a revolta contra tudo e todos – terá sido aqui, aliás, que Bowie bebeu ideias para a sua homónima “Heroes”; com os Harmonia, perseguiria uma via mais experimental, mas não resistiu a reduzir a abstracção e conduzi-los a terrenos mais concretos e melódicos em Deluxe, o seu segundo disco. Mais tarde, em nome próprio, ver-se-ia livre para praticar a sua música nos moldes predilectos, como o fez sempre na sua carreira, perseguindo uma música simples e bela, desprovida de grandes artifícios formais. Compôs e tocou sempre com vista ao horizonte; fez-se sempre acompanhar pelo ritmo assertivo e dominante.

O domingo em que ouvimos Michael Rother em Braga, trouxe-nos um dia nublado, não muito frio, e com uma permanente ameaça de chuva. A dada altura, já no final da nossa conversa – o músico teria ainda que se preparar para o concerto, e não pudemos falar sobre Brian Eno, a música a solo e a influência da sua música na Alemanha natal -, o telhado coberto, mas transparente, sob o qual nos sentáramos, ameaçava-nos com o ritombar da água em queda, cujo barulho, aumentado pela acústica do edifício, tomava proporções de dilúvio bíblico; de modo que nos custava ouvir Rother, tal era a interferência. O próprio aperceber-se-ia e lentamente remeteu a sua atenção para o fenómeno. Os olhos pareciam revelar que nunca ouvira a chuva daquela forma e até nós nos sentimos impelidos a contemplar o momento – a partir daí, dificilmente teríamos a sua atenção outra vez. “Que som bonito!”, cortando o silêncio – e assim ficámos mais um pouco. Ali aconteceu algo, som como música, como o fora antes o marulhar da água em “I’m Gluck”, mais um momento fortuito que poderia, para Rother, ombrear com “Hallogallo” ou os momentos musicais dos Harmonia, ainda na floresta de Forst.

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O alemão é uma lenda viva, e respira vitalidade; está contente com o seu passado e orgulhoso do legado que deixou; como a sua música, parece-nos que Rother é um homem de prazeres simples. Nesse dia, muitos voltaram a casa satisfeitos com a música – intemporal e genuína, profunda influência para quase tudo o que ouvimos hoje. Houve história, e fez-se história, na nossa pequena cidade de Braga. Oxalá vejamos Michael mais vezes, e em breve.

Emissão de 08/04 – Viagens transatlânticas, da Jamaica ao Japão por rota europeia.

Para esta emissão, partimos de um clássico de Bob Marley para dar início a uma sequência que, em dados momentos, esteve ligada por algo extrínseco à música que ouvimos. Do jamaicano passámos a Rihanna, a propósito de um artigo da Pitchfork sobre a sua importância e genuinidade; é algo que nos interessa e que se assume cada vez mais relevante no panorama global onde a música habita actualmente. Depois, os The Gift, mais uma vez, cujo novo disco foi produzido por Brian Eno, e sobre o qual já demos a nossa opinião. Saltámos para os Timber Timbre ainda sob alçada de música deste presente ano, e além de termos recuperado o saxofone de Colin Stetson numa das mais memoráveis músicas desta década (Hot Dreams), ficámos com música nova do grupo canadiano; e a partir deles, traçámos uma rota até aos Japan, de David Sylvian, no disco Tin Drum – fantasmas de synthpop que prometemos explorar noutra altura. A Porto Calling recomenda-nos a música de uma prolífica artista nova-iorquina, a Lydia Lunch, que já é nossa conhecida. Para terminar, uma breve passagem pelos britânicos (!) Kahondo Style, e a singular música do seu Green Tea and Crocodiles. Fechámos com Colin Stetson, mais uma vez, que tem editado regularmente e merece ser ouvido com atenção, e, depois, com Nmesh, misturado, por parecer apropriado, com algumas falas do filme My Dinner With André.

  1. Bob Marley – Baby We’ve Got A Date (Rock It Baby) (Catch a Fire, 1973)
  2. Rihanna – Consideration (feat. SZA) (ANTI, 2016)
  3. The Gift – I Loved It All (Altar, 2017)
  4. Timber Timbre – Grifting (Sincerely, Future Pollution, 2017)
  5. Japan – Canton (Tin Drum, 1981)
  6. Japan – Ghosts (Tin Drum, 1981)
  7. Lydia Lunch – Fields of Fire (Honeymoon in Red, 1987) recomendação da Porto Calling.
  8. Kahondo Style – Shangai Rain (Green Tea and Crocodiles, 1987)
  9. Kahondo Style – Green Dream (Green Tea and Crocodiles, 1987)
  10. Colin Stetson – Judges (New History Warfare Vol.2: Judges, 2011)
  11. Nmesh – ΛVΘN™ NiteMare Liquid Mascara (feat. 회사AUTO) (Adulterada com passagens do filme My Dinner With André, Dream Sequins ®, 2014)

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À conversa com José Cid, de olhos postos no Espaço, e no futuro.

[ARTIGO ORIGINALMENTE REDIGIDO PARA O ARTE-FACTOS; COLABORAÇÃO COM JOSÉ RAPOSO]

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Mencionar José Cid, hoje, é mais do que falar de um músico: evocamos uma personagem. Começando na célebre fotografia em nu frontal, uma provocadora exibição do seu disco de platina, passando pelo recente desaguisado mediático com as gentes transmontanas, recolhemos sintomas de alguém que não teme abrir a boca para dizer o que pensa. Mais ainda, não teme ser julgado por tudo o que fez. José Cid é capaz de representar Portugal na Eurovisão, compor vários marcos da história da música nacional, e, num dos raros momentos em que Portugal conseguiu, por entre a bruma de indefinição pós-25 de Abril, olhar além-fronteiras, imaginar um disco que ombreia, hoje, com o que de melhor foi feito nesse período a nível mundial. À conversa com o próprio mestre, recordámos 10.000 Anos Entre Vénus e Marte, sempre em frenética marcha entre o passado e o presente.

Em retrospectiva, é difícil enquadrar um trabalho tão distinto no resto da sua discografia, mas Cid recorda uma fase “onde gravava mais rock sinfónico: primeiro, em 1975, o ‘Cantamos Pessoas Vivas’ [com os Quarteto 1111], e em 76 ‘Vida: Sons do Quotidiano”. Será depois, entre 76 e 77, que se lança a escrever o seu novo trabalho, mas sempre intercalado com outros trabalhos mais comerciais e populares, como ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, ou ‘A Minha Música’.

Em 76/77, quando escrevi o 10.000 Anos, estávamos na iminência de guerra nuclear como estamos agora. Havia uma predominância nuclear da URSS sobre os EUA, como agora… bem, toda a gente agora tem o poder nuclear. As coisas com este Donald Trump podem disparar de repente. A verdade é esta: assumi a ideia de que o mundo poderia ter tido uma Terceira Guerra Mundial em 1976, na qual o planeta desaparece, e um cosmonauta e a companheira fogem para o espaço e, através de uma viagem mais instrumental do que poética, voltam, na última faixa, como novos Adão e Eva, começando tudo de novo.”

Recordemos como, por essa altura, já o rock progressivo estava bem lançado. Os Pink Floyd tiveram o Dark Side of the Moon, em 1973 – a quem o disco parece aludir, com as vozes da última faixa – e já antes deles editavam os King Crimson. Os próprios Genesis, os Emerson, Lake & Palmer, os Yes: perde-se a conta aos projectos que pegaram no rock, ou nos instrumentos do rock, para os levar a outras paragens. Em Portugal, essa corrente foi tímida e não tinha, sequer, mercado possível: pelo menos, assim julgou a Orfeu, que lançava Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, e mais tarde José Cid. Para que o disco pudesse chegar ao público, ofereceu os direitos à editora; a tiragem dos exemplares foi extremamente curta. “Gravámos o disco, que foi considerado como não comercial e não teria qualquer sucesso, e ofereci-o para editarem sem quaisquer encargos – incluindo direitos de autor.” E assim foi editado em Portugal. Só passados quase vinte anos o disco teria uma reedição, pela americana Art Sublime, em 1994. Portugal rejeitara um disco vanguardista – demasiado para a época, é certo – ao qual o tempo faria justiça.

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O MiniMoog

Ainda assim, o disco não vive apenas do seu conceito futurista, nem tão só de meritoriamente ser cantado em português: é um dos poucos casos, embora de longe o mais mediático, da utilização do sintetizador Moog e do Mellotron em discos nacionais. À altura, eram instrumentos extremamente recentes, uma novidade: “uma linguagem nova – mas era um teclado! O primeiro em Portugal a comprar um foi sem dúvida o Miguel [Graça Moura] que o usava como um instrumento de música clássica. Eu tocava-o como um músico de rock.” Tanto o Moog como o Mellotron “eram os sons de vanguarda no mundo inteiro”, e vieram justamente a propósito duma era que se virava para o espaço e para os segredos do Universo. Hoje, soam majestosos, titânicos: absolutamente intemporais.

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Os Quarteto 1111. António Moniz Pereira, Michel Silveira, José Cid e Mário Rui Terra (fotografia de Rui Coelho Dias)

Quem procurar pelo catálogo de José Cid por momentos semelhantes, pouco irá encontrar além do já mencionado período do rock sinfónico; mas terá provas que havia quem, em Portugal, olhasse e tentasse emular (e apropriar) o que se fazia lá fora. No Quarteto 1111, que teve há pouco tempo uma reedição de muito do seu material, temos momentos como ‘Os Monstros Sagrados’, bem direccionado ao psicadelismo sinónimo de liberdade, ou a ‘Ode To The Beatles’, momento para os portugueses coabitarem a música dos britânicos – “como se fosse um rappel na história feito com uma pequena frase dos Beatles”; e mesmo já em nome próprio, apresentou no Festival da Canção da RTP ‘O Meu Piano’, algo puxado ao que se fazia na América contemporânea – “foi o princípio da “dance”; estamos em 1978 ou 79 e já há, nos Estados Unidos, os Bee Gees e essa gente toda a fazer música de dança e achei giro surpreender, no Festival da Canção, com uma coisa ritmicamente mais à frente”. 

O que admirava nos Beatles era o talento e a criatividade. A execução? Eram perfeitinhos, mas nenhum era um supermúsico, a não ser o Paul McCartney que tocava baixo a um nível acima da média. O Ringo Starr era um péssimo baterista, mas lá se ia defendendo. O George Harrison era o mais genial, e talvez seja o que mais gosto. O John Lennon era um rebelde com boas ideias e estética.”

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Zeca Afonso, o músico cujo catálogo continua a ser (re)descoberto.

No sentido inverso, da música de cá que pode ir para fora, revê-se no trabalho da Vodafone FM e Antena 3, que “apoia gerações jovens que são mais honestas e puras a escrever, que têm uma grande originalidade dentro de si, e que arriscam”, enquanto evita outras rádios mais mediáticas, não vá apanhar-se a “ouvir kizomba, que acho uma coisa horrorosa, esterco poético por cima de música feita em computador”. Por entre a música regional que pauta a diferença entre a nossa geografia, destaca o jazz que se pode descobrir no imenso repertório de Zeca Afonso – “o José Afonso escreveu uma grande parte da sua obra em 6/8, e é um extraordinário compositor de jazz sem as pessoas se apercebam.” Como tantos outros, acredita que a chave para desbloquear a nossa música lá fora se encontre nas nossas raízes musicais, no que, em verdade, nos distingue de todos os outros.

“No meu projecto de jazz, o Acid Jazz Project, toco dois temas dele, “Milho Verde” e “A Morte Saiu À Rua” – mas haveria muitos outros temas do Zeca para tocar. É um compositor que surpreende por ser absolutamente “bluesy”; ele compõe temas de world music tão próximos dos blues como um fado tradicional. São coisas que estão interligadas em termos de inspiração, de criatividade, daquilo que são as raízes e essência da própria música – seja portuguesa ou negra. Há uma proximidade muito grande, que vejo e consigo e consigo executar.”

Passando em revista a última década, sabemos que se fez justiça ao 10.000 Anos Entre Vénus e Marte. As vozes críticas e reaccionárias foram esquecidas e remetidas para o seu devido lugar: o caixote do lixo preconceituoso e ideológico pós-PREC. As novas gerações, despidas de óculos de preconceito ideológico-musical, e no seguimento do interesse a que a Internet estrangeira (bem como alguns bravos nativos que nunca se esqueceram do valor da obra) dedicou ao disco, ajudam a encher as Aulas Magnas e Coliseus, na busca de um demasiado tardio testemunho da genialidade da odisseia sónica de José Cid e companhia. Fez-se, portanto, justiça, ainda que muito, muito tarde e com a ajuda de ouvidos estrangeiros. Só não lhe peçam é para ir tocar ao Japão, que “é um país chato até às orelhas. Hiper-organizado, são chatos e o mais interessante são as japonesas, porque de resto é um país muito chato.”

As falsas vanguardas críticas e políticas de fins de setentas, na sua infinita cobardia e ignorância, por pouco não enterraram o bom que por cá se fazia. Este disco foi quase como um Yoda musical, desterrado num Dagobah, mas estimado por muitos Luke Skywalkers que o ouviam. Em 2017 e com meio século a dar-nos música, Cid desdobra-se em discos e projectos, nunca olhando, segundo o próprio, para o seu rico passado – “eu sou todo aquariano, estou-me cagando para o passado!”. Do fado ao jazz, nada o move mais do que continuar a escrever e a actuar – assim se vive e assim se rejuvenesce a cada ano que passa. Meio século sem retrovisores, salvo para apreciar a paisagem cósmica entre Vénus e Marte. Assim é José Cid, músico bem português e com um fôlego infindável.

Além dos dois concertos agendados para este mês – dia 1 de Maio na Aula Magna, e dia 6 na Casa da Música, há uma reedição do disco original remasterizado em Abbey Road, juntamente com uma gravação do concerto em Lisboa. É uma óptima edição! Mais informação em https://www.facebook.com/dezmilanosdepois.

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Fotografia de Andreia Santos.

Emissão de 01/04 – Os ratos de Zappa, pop que cruza eras, e a morte.

Para esta semana, e motivados pela efeméride do dia das Mentiras, iniciámos a hora de uma forma diferente – um pequeno resumo do mês de Abril; e ainda antes da primeira música, ficámos com um pequeno excerto do filme Diner, que introduz o ‘maior saxofonista de todos os tempos’, Charlie Parker. Regressa às emissões ainda com Dizzy Gillespie, com quem gravou sessões compiladas no disco Bird and Diz. Seguimos, pela música deste ano, com Charli XCX – nova mixtape – e novo single de Frank Ocean – que entretanto lançou mais dois. Mas o grande destaque da emissão encontra-se na década de 60: primeiro, os britânicos Kaleidoscope, autores de pop psicadélica cuja estética tem sido recuperada nos últimos anos (Tame Impala, MGMT, Temples, e tantos outros); e logo de seguida, com o enorme Frank Zappa, um dos mais camaleónicos, experimentais, exploradores músicos do século XX, e de quem ouvimos três músicas de dois dos seus discos. A cargo da Porto Calling, duas óptimas recomendações: primeiro, o calypso produzido por Van Dyke Parks e da autoria de Mighty Sparrow – amostra de uma corrente exótica que o americano havia de importar no seu disco Discover America – e, logo de seguida, a colaboração entre Tess Parks e o veterano Anton Newcombe (The Brian Jonestown Massacre). É obrigatório visitar o site da loja, em portocalling.com. Já na recta final, um brevíssimo devaneio pela electrónica dos 101 Strings (andamos à procura de complementos ao Plantasia de Mort Garson no nosso compêndio de avant-garden), para depois fecharmos com a música de Mount Eerie. Phil Elverum apresentou este novo disco depois da morte da sua esposa, Geneviéve, e é um dos mais poderosos exercícios que recordaremos deste ano. Antes de o introduzirmos, passámos, como muleta, pela música de Sun Kil Moon, e em particular o último disco Benji: o estilo stream of consciousness, que na altura (2014) tinha constituído uma lufada de ar fresco no panorama dos cantautores, constitui a mais saliente característica do álbum. A par de Kozelek, Elverum também utiliza um estilo semelhante para abordar o tema da morte – e fá-lo de uma forma extraordinariamente franca. Mais do que falado, o disco deve ser ouvido. Fica a recomendação, embora não seja fácil de digerir. 

  1. Prelúdio ao programa: informações pertinentes sobre o mês de Abril (duração do mês, feriados, provérbios populares)
  2. Charlie Parker & Dizzy Gillespie – An Oscar For Treadwell (Bird and Diz, 1950, introduzidos por um diálogo do filme Diner, de 1982)
  3. Charli XCX – ILY2 (Number 1 Angel, 2017)
  4. Frank Ocean – Chanel (2017)
  5. Kaleidoscope – Kaleidoscope (Tangerine Dream, 1967)
  6. Kaleidoscope – Dive Into Yesterday (Tangerine Dream, 1967)
  7. Frank Zappa – Peaches en Regalia (Hot Rats, 1969)
  8. Frank Zappa – Little Umbrellas (Hot Rats, 1969
  9. Frank Zappa & The Mothers of Invention – Can’t Afford No Shoes (One Size Fits All, 1975)
  10. Mighty Sparrow – More Cock (Hot and Sweet, 1974)
  11. Tess Parks & Anton Newcombe – Mama (I Declare Nothing, 2015) | recomendação da Porto Calling.
  12. 101 Strings – Where Were You in 1982? (Astro-Sounds From Beyond The Year 2000, 1968)
  13. Sun Kil Moon – Ben is my Friend (Benji, 2014)
  14. Mount Eerie – Real Death (A Crow Looked at Me, 2017)

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Breves considerações sobre músicas.

A propósito da rubrica semanal do Arte-Factos, as Músicas da Semana, aproveitámos para discorrer sobre cinco artistas extraordinariamente relevantes.

Kendrick Lamar – FEEL.

039eed0758eb3aa30f050c77e7bbdc1e-1000x1000x1Tomei a última semana para degustar, ao sabor do tempo, o fresquíssimo novo disco de Kendrick Lamar. Temia, e percebo agora que sem nenhum fundamento, que lhe custasse apontar a um qualquer rumo depois do épico To Pimp a Butterfly, ora não se sentisse que esse disco de 2015 fora um muito maduro trabalho, conceptual e musicalmente num patamar à parte dos seus contemporâneos. Quanto a DAMN., o novíssimo disco, não conjecturo ainda ilações do estilo. Diz-me uma primeira impressão que é música que se toma mais pelo seu valor individual do que pela soma das suas partes; e além de contrariar o que havia, nesse sentido, feito em To Pimp a Butterfly e até no anterior, cinemático Good Kid, M.A.A.D City, coaduna-se com o actual panorama musical quando apresenta, ao longo das suas 14 faixas, uma hora de jabs directos provenientes de um universo lírico no qual se sente mais que confortável. Deste disco, FEEL. é um dos vários possíveis destaques: começa com uma alusão ao vazio religioso, apanágio de Kendrick desde há algum tempo para cá, e discorre sobre tudo o que o rapper tem sentido nos últimos tempos, em palavras que se sentem, aqui e em todo o restante disco, serem dirigidas a toda uma América. Um exercício auto-centrado, também se poderá dizer, mas sabemo-lo há já algum tempo que Kendrick não tem problema algum a considerar-se o topo do game, ao lado de grandes como Tupac Shakur. E DAMN. advém dessa elevação.

Tim Buckley – Hallucinations

timbuckley-300x300Há já alguns meses que me insiro, lenta mas assertivamente, no curiosíssimo universo de Tim Buckley. Certamente o seu nome trará à memória, em primeiro lugar, a carreira do filho Jeff, autor de Grace, disco de 1994, que ressuscitou – e imortalizou devidamente – a Hallelujah de Leonard Cohen. E esta herança musical do seu filho é argumento para justificarmos que o talento corria, de facto, nas veias da família. Tim, que editou ao longo das décadas de 60 e 70, produziu trabalhos distintíssimos entre a folk de traços psicadélicos, perfeitamente coerente e alinhada com os seus contemporâneos, como foi, com o passar do tempo, reinventando a sua música e abraçando outras estéticas; Starsailor, de 1970, é o culminar de um trajecto com rumo traçado ao experimental e ao místico, onde a sua voz (que portento!) revela toda a força e multiplicidades; mas logo de seguida, em Greetings from L.A. (1972), entrega-se à sensualidade do funk e da soul com a maior das naturalidades. Por entre todos os altíssimos momentos da sua discografia – editou, em menos tempo que o seu filho e por ironia e triste fatalidade desta estranha linhagem, nove (!) discos entre 66 e ’74 – destaco Hallucinations, do disco Goodbye and Hello (1967), seu segundo disco e provavelmente o melhor ponto de entrada no mundo de um artista que palmilhou ora o belo categórico, como em Song to the Siren, como se entregou, com a mesma determinação, ao onírico, ao perverso, ao feérico. De tudo isto, é Hallucinations exemplo. E categoricamente belo também.

Björk – Where Is The Line

Breve passagem pela islandesa Björk, tão homogénea, e ainda assim tão interessante. O disco é de 2004 e utiliza a voz como expressão e simultânea composição: a cantora canta por cima de instrumentais que não o são em boa verdade, dado que se compõem maioritariamente por sobreposições de outras linhas vocais, como uma expansão do original e imutável conceito de a cappella com auxílio da electrónica. Obrigatório!

Brian Eno – Spider and I

Quem acompanha as minhas aventuras melómanas, terá presente a alta estima com que considero o britânico Brian Eno, dono de um autêntico toque de Midas no que à mi0000900770produção musical diz respeito – que o digam os portugueses The Gift, que o recrutaram para produzir o seu novo disco e, com ele, se elevaram a onde ainda não haviam chegado. Spider and I é tema conclusão do disco Before and After Science, de 1977, e que se segue a Another Green World (1975) , um trabalho que me é bem mais familiar. Na sua música, tudo está presente, independentemente da linguagem que usemos para a enquadrar – caso não seja claro o que pretendo com a expressão, basta que consideremos por amostra o seu legado na década de 70. Before and After Science tem apenas 40 minutos divididos ao longo de 10 faixas; mas sentimo-lo expandir-se além desta limitação temporal. Escolhi Spider and I, como poderia ter figurado virtualmente qualquer outra das canções.

Morton Feldman – Rothko Chapel

Para terminar, um nome de outra dimensão. Morton Feldman, compositor americano, foi um dos nomes mais proeminentes do século passado na linhagem clássica, que, traços gerais, teve uma espécie de crise após a vaga romântica, muito expressiva, que lhe precedeu. E aproveito para o enquadrar à luz do que escrevi sobre Eno: sobre este último, mantenho que soube orientar-se fosse na pop, no rock, ou nas deambulações electrónicas que pautaram grande parte das suas explorações minimalistas, e usei o termo linguagem. Sigam-me: caso consideremos ritmo, harmonia, melodia, como parte de uma linguagem, como interpretaremos então as composições de Feldman, e esta Rothko Chapel em particular, que quando assim comparada nos parece amorfa, indefinida, inconclusiva, um exercício nebuloso que dura por mais de trinta minutos? Feldman foi muito próximo de outra figura definidora do século, o compositor John Cage, e Rothko, a quem se refere explicitamente no título da obra, é o pintor autor de icónicos estudos sobre cor e textura; e a interpretação que vos trago está incluída num disco que a enquadra com Cage e o francês Erik Satie.

De volta às analogias, ponhamos lado a lado um quadro naturalista e uma pintura de Rothko: o que há em comum? Da mesma forma, equipare-se Eno, por exemplo, e esta composição de Feldman. Poder-se-á dizer, no primeiro caso, que se partilha a cor, ou o fenómeno visual; no segundo, o som, puro e desprovido de outros encantos que lhe são acrescidos (o ritmo, melodia, harmonia). Caso vos interesse, abram as portas à capela de Feldman, ainda que desconheçam onde vos levará. Para uma viagem mais completa, pode fazer-se escala num ponto que, ora vejamos, não nos é desconhecido de todo.

A semana em cinema (26 de mar a 04 de abr)

Os filmes de Richard Linklater são arautos de um estilo próprio, e dele simultaneamente o mais mediático e imediato expoente. Dazed and Confused, Waking Life, até a trilogia Before, mesmo que num outro estilo, têm um ponto em comum: o diálogo como força superior à narrativa, e verdadeiro motivo da existência do filme. Nada mais é necessário. Evidentemente, o seu estilo não é inteiramente pioneiro nem único, e neste período de tempo que aqui evidencio houve dois filmes obrigatórios para quem se deixou seduzir pelo seu cinema.

Diner 1982.jpgDiner (Barry Levinson, 1982) – Diner é um filme que mereceria um estatuto de culto condizente com tudo o que este exercício engloba, e traça-se o paralelo com Linklater dado que tanto ele, como Levinson, se fixam no banal narrativo (e da vida), em vez do extraordinário. O filme ancora-se firmemente no diner que lhe dá o título, onde frequentemente, à noite, se reúne um grupo de amigos; as suas interacções são mundanas, embora espelhem, no seu âmago, algumas das profundas clivagens e preocupações de cada um, e embora raramente nos leve para situações de maior tensão dramática – e este filme tem de tudo um pouco -, há seriedade em muita da sua comédia: numa das cenas que definem a melomania de uma das personagens, sobrepõe-se a tensão faiscante de um matrimónio indesejado, e a partir deste sintoma traçamos o tema maior, por assim dizer, de Diner, na dificuldade que o homem moderno tem em adaptar-se à vida adulta. Em Diner estão expostas algumas das dinâmicas que mais tarde se veriam recuperadas em sit e romcoms, seja os diálogos icónicos e propícios à citação, seja as personagens ensimesmadas, ridículas, e por isso cómicas, que se espera provoque a empatia do público. O filme chegou ainda para lançar a carreira de Mickey Rourke, Kevin Bacon e Daniel Stern, mas parece ter ficado aquém do seu potencial mediático; e é pena, porque tudo em si, dos diálogos à prestação dos actores, à banda sonora, aos temas que evoca – tudo isto merece ser redescoberto.

dinner_with_andreMy Dinner With André (Louis Malle, 1981) – Ainda na senda dos precursores de Linklater,  desta feita em referência à sua costela (pseudo)filosófica, um filme do francês Louis Malle (que voltará, em grande, na próxima recensão de cinema) rodado em inglês com dois actores americanos. A sinopse é fácil e resume literalmente o filme, nas suas duas horas: dois amigos de longa data reúnem-se após longa ausência à mesa de um restaurante, e falam. É isto – mas falam sobre o quê? É esta a pergunta cuja resposta define o que falta do filme. Os dois actores, Wallace Shawn e Andre Gregory, parecem representar-se a eles mesmos, numa pequena partida pregada pelo filme, e vão recordar tempos passados até que enveredam nas aventuras dos últimos anos de Andre. Este terá passado algumas temporadas em bosques remotos, na prática de actividades que, perceberemos, lhe foram como um retornar à “essência de ser humano”, parafraseando-o, e volta a Nova Iorque existencialmente renovado, na posse de superiores verdades sobre a vida e a existência humana. O jantar é afinal mais que um reencontrar de dois amigos: um aferir entre cada uma das duas vidas, que, com o tempo e as experiências passadas, divergiu e se tornou quase antagónica. Na conversa, afloram brevemente alguns temas de conotação mais filosófica, mas que não chegam para nos distrair do torrencial relato de Andre, e das conclusões que ambos esgrimem ao longo do filme. É um filme audaz de Louis Malle, que se tornou num icónico momento do cinema recente, obrigatório para quem se sentiu um mínimo seduzido pela sua sinopse.

psycho-1960-movie-posterPsycho (Alfred Hitchcock, 1960) – Revi Psycho a propósito dos mesmos motivos que me levaram à Morte em Veneza. Não o saberão já, porque já muito se passou e o texto está actualmente oculto, mas Psycho foi uma das primeira recensões deste Coprófago: na altura (há muito tempo já!), parcamente munido de conhecimento cinéfilo (e embora o actual não chegue para muito também), ficara impressionado mas sem que soubesse o porquê. E esse é o problema do cinema “clássico”, cujas diferenças para o moderno só são evidentes quanto mais conhecedores sejamos do próprio cinema – e este constitui um enorme entrave ao cinema mais antigo, menos gratuito, menos evidente. Psycho não é o meu Hitchcock favorito: prefiro-o mais sensual (como em Vertigo, e James Stewart refém de uma louca projecção de uma mulher imaginada numa outra mulher que é a primeira – uma confusão!), ou tenso (como em Rope, ainda com James Stewart, ou numa espécie de paródia do género em North By Northwest), ou noutros exercícios que levou a cabo na sua extensa e complexa carreira (Rear Window é outro dos seus melhores momentos). Mas quanto mais se conhece esse Hitchcock, mais se extrai de Psycho, posterior a todos os que enunciei, e que não se menoriza em relação a nenhum destes. A estranha história entre Marion Crane e Norman Bates é justamente uma das mais importantes do cinema, enriquecida por tudo o que Hitchcock usou para a adornar: o jogo de cintura do guião que se esquivou às ideias pré-concebidas de género narrativo, a personagem principal que desaparece, sem piedade, a meio de um filme que julgávamos ser ‘seu’, a impotência das personagens perante a estranhíssima presença de Bates, o final psicanalítico e que é, no fundo, também uma chave para o cinema de Hitchcock, profundamente marcado pelo trauma. Até no pormenor da escolha de Vera Miles e Anthony Perkins houve mestria, dado que os dois actores representavam papéis muito diferentes do thriller, e que terá também contribuído para a surpresa geral em Psycho (como seria se, hoje, um Hitchcock moderno pusesse Justin Timberlake e Emma Stone, por exemplo, um para assassinar violentamente e outra para ser moralmente reprovável e, posteriormente, assassinada?). Posto isto, saio sem muito ter dito sobre o filme – o mesmo aconteceu há uns anos, com outro nível de candura. A reter alguma coisa, que seja esta: Hitchcock continua tão moderno hoje como na altura, e os seus filmes actuais por serem precisamente intemporais. 

Floating_Weeds浮草 (Floating Weeds, Yasujirō Ozu, 1959) – Paralelamente a Kurosawa, existe um outro nome que é quase sinónimo do cinema japonês: Yasujirō Ozu, o homem do quotidiano familiar, da trama simples, dos valores intemporais. Porventura mais conhecido por Tokyo Story, este é um dos seus trabalhos mais discretos, e, curiosamente, um remake a cores de um filme que havia feito há vinte anos atrás. Floating Weeds é, em inglês, a tradução literal de uma expressão que se aplica às companhias de actores ambulantes: é sobre uma delas que recai a narrativa do filme, quando, numa cidade onde preparam um espectáculo, o director da companhia aproveita para visitar um filho que não assumiu. O rapaz julga que ele é um tio. E esta incongruência – um amor paternal que é recebido como familiar – há-de provocar dissabores. As histórias de Ozu nunca são demasiado arrojadas, e limitam-se ao foro da família, mas há muito para aproveitar aqui; e depois, em termos de oferta visual, muitas lições se podem tirar da composição do japonês: grande parte das suas cenas são filmadas geometricamente, e circunscrevem as acções das personagens; muitos diálogos são tidos em plano/contra-plano frontal (há um óptimo estudo da cinematografia disponível aqui). De resto, Floating Weeds ocupa o seu tempo e desenvolve-se com notável graciosidade. Um filme pacato, mas muito simpático e acessível, de um dos maiores, essenciais, cineastas nipónicos.

Polish PosterObchod na korze (The Shop on Main Street, Ján Kadár, Elmar Klos, 1965) – Para terminar, um filme checoeslovaco que incide temporalmente no período do Holocausto, embora o faça, ao contrário de filmes como A Lista de Schindler ou o mais recente Son of Saul, ainda fora do espectro do massacre. Difere, precisamente, na dimensão da trama: tudo se passa numa pacata aldeia, onde por acção das forças policiais, cada estabelecimento comercial fica sob a alçada de um supervisor ariano; e calhou a Tono, um pobre aldeão, tomar conta da loja de uma velha judia, surda e confusa em relação a tudo o que se passa. Há uma marcha assertiva que se revela a nós mais evidentemente, que conhecemos de antemão o horror resultante desta prática, e que o filme, à sua maneira, acaba por humanizar: Tono apenas queria uma vida melhor, a sua esposa apenas os queria mais prósperos. É um bonito filme, bem feito, sobre um dos períodos mais negros da história recente, e que justamente merece um lugar no cânone do tema Holocausto.