20/10 – Blues, jazz e voz em emissão clandestina.

Nesta emissão, inspirada ainda nas portas abertas pelas emissões anteriores (na definição de blues, por exemplo), o início foi dedicado a Muddy Waters, um dos maiores do blues, e também a Captain Beefheart, com a sua Magic Band, que terá “apropriado” a linguagem em dois trabalhos distintos. Curiosamente, Trout Mask Replica foi editado no período entre os dois discos que ouvimos.

Depois, a sugestão da Porto Calling remete-nos à música de Dusty Springfield – clássicos que vale muito recordar. Houve ainda os Weather Report, nome essencial do jazz fusão, com uma amostra do seu belíssimo Heavy Weather.

Para terminar, e a propósito do SEMIBREVE que se avizinhava, explorámos alguns dos nomes que passaram pelo festival (o disco Reassemblage poderá ser interessante nos ouvidos certos) e fechámos as contas com Brian Eno – como não adorar o seu Music for Airports?

1. Muddy Waters – I’m A Man (Mannish Boy) (Electric Mud, 1968)
2. Muddy Waters – My Home Is The Delta (Folk Singer, 1964)
3. Captain Beefheart & The Magic Band – I’m Glad (Safe as Milk, 1967)
4. Captain Beefheart & The Magic Band – White Jam (The Spotlight Kid, 1971)
5. Captain Beefheart & The Magic Band – Alice in Blunderland (The Spotlight Kid, 1971)
6. Dusty Springfield – Son of a Preacherman (Dusty in Memphis, 1969) | sugestão da Porto Calling.
7. Dusty Springfield – Just a Little Lovin (Dusty in Memphis, 1969)
8. Weather Report – A Remark You Made (Heavy Weather, 1977)
— poema de Natália Correia, por Mafalda Cortesão
9. Visible Cloaks – Bloodstream (Reassemblage, 2017)
10. Visible Cloaks – Terrazzo (feat. Motion Graphics) (Reassemblage, 2017)
11. Lawrence English – Hard Rain (Cruel Optimism, 2017)
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13. Brian Eno – 2/1 (Music for Airports, 1978)

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É um Natal maravilhoso! Frank Capra, James Stewart: humanidade.

Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Porque Jorrais de Mim Lágrimas, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

MV5BMTMzMzY5NDc4M15BMl5BanBnXkFtZTcwMzc4NjIxNw@@._V1_SY1000_CR0,0,669,1000_AL_Hoje terminamos um ciclo com um dos mais belos filmes do cinema: It’s a Wonderful Life, realizado por Frank Capra, em 1949. A sua narrativa evoca A Christmas Carol, de Charles Dickens, mas não é nele baseado (embora o conto esteja presente na génese do outro texto que originou o filme). É importante lembrá-lo porque ajudou à definição do actual conceito de época natalícia, cem anos antes do filme ter chegado.

It’s a Wonderful Life é um clássico e um dos filmes mais queridos do cinema americano, embora, aquando da sua estreia comercial, não tenha tido muito sucesso — há quem culpe o penoso caminho calcorreado até à redenção final. Eventualmente, o próprio estúdio desistiu de renovar os direitos sobre o filme, e tornou-se domínio público por volta da década de 70; o que foi, sabemo-lo agora, uma feliz decisão: a partir daí, fez parte da grelha de virtualmente todas as estações televisivas americanas, e o público rendeu-se. os anos subsequentes haviam de o confirmar como o filme de Natal.

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Frank Capra no set de It’s a Wonderful Life

Conta-nos a história de George Bailey. Primeiro um petiz trabalhador, mais tarde, um jovem adulto com ideias de partir viagem e conhecer o mundo, há-de ficar para sempre preso à sua terra natal. Herdando o negócio de família, apaziguar-se-á assim: conseguiu a felicidade longe do seu sonho. É mais um excelente exemplo do terno humanismo de Frank Capra, a sua especialidade: histórias simples, com diálogos e acções genuínas, sempre polvilhadas com amor, fraterno ou romântico, sempre convictas e morais.

Este foi o seu filme favorito — que mostrava à família todos os anos, por altura do Natal — e também o de James Stewart. E que maravilhosa performance, a sua! É claro que It’s a Wonderful Life é um dos mais emocionalmente intensos trabalhos do cinema (como não nos destruirmos, para pronta reconstrução, naquele final?), mas é nele, ao longo de toda a história, que está ancorado um muito particular sentido de humor.

Não há muito mais a dizer sobre a obra. A sua perenidade atesta às intrínsecas qualidades do filme, que julgo cingir-se, larga parte, à sua pura expressão de humanidade. Volta-se a ele como se fosse um velho amigo; dele saímos mais contentes e aconchegados, como se lembrássemos, uma vez mais, o que há de fundamental nesta nossa vida. Espero que gostem. Boas Festas!

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O romântico segundo Les Parapluies de Cherbourg.

Este texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo Porque Jorrais de Mim Lágrimas, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

Les_Parapluies_De_Cherbourg_ae85490b-7331-4634-99c7-0ae7149fc741Depois do caos, paranóia e absurdidade dos dois primeiros filmes, mudámos radicalmente. De país, de continente, de estética, e de ideais. Para trás, ficam os Estados Unidos e o sonho que permeia o universo de Hollywood; chegamos à França, década de 60, fustigada pela ideia da guerra na Argélia e embebida numa ideia de cinema tradicionalmente mais realista que o Americano.

São considerações a ter em conta no cinema de Jacques Demy, que nos traz Les Parapluies de Cherbourg, cujo argumento escreveu e realizou, lançado no ano de 1964. É a história de Geneviève e Guy, um jovem casal apaixonado que pretende ficar junto para sempre, num universo musical onde tudo – tudo! – se canta. Não é maravilhoso? É, pois. Demy, um enorme aficcionado do musical americano, acreditou ser possível transladar o sonho para a Europa, provando que o feito não é exclusivo de Hollywood.

Ora, o filme alude, por exemplo, à magia de Singin’ in the Rain – como não pensar nos guardas-chuvas como tema comum? – e adopta, prolongando até para lá do habitual, a entrega ao imaginário do filme romântico. Pensar num musical é, antes de mais, estabelecer novas regras para o mundo que nos chega, onde não se estranha que se fale a cantar, que todos sorriam e dancem, que os problemas se resolvam com uma bela canção. Tudo isso e mais ainda acontece em Les Parapluies de Cherbourg, mas com um twist que denuncia não estarmos em território de Hollywood: quando a turbulenta realidade da guerra irrompe pelo sonho adentro, nem a música nem o sonho salvam o amor. É cruel – mas é mesmo assim a vida.

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Catherine Deneuve e a sua irmã Françoise Dorléac, no set de Les Demoiselles de Rochefort com Gene Kelly.

O cinema de Demy é, portanto, um cinema agridoce. Evoca o romantismo americano e adapta-o à tradição europeia (nem sempre: Les Demoiselles de Rochefort (1967) é puro e inocente, e é possivelmente o melhor musical francês), sendo mestre na arte de criar o sonho e de explorar os seus limites. Amores desencontrados, a guerra, a conquista do sonho: temas recorrentes do seu cinema que aqui são condensados. Mais: atente-se nas cores garridas, nos belíssimos cenários, na orquestração de Michel Legrand, que contribuem para que este seja um dos mais depurados objectos estéticos do cinema.

Um último pormenor revela-nos a cândida visão que Demy teve para o seu cinema. Várias das suas personagens existem em continuidade nos seus vários filmes: Lola existe em Lola, pois claro, mas também tangencialmente em Les Parapluies de Cherbourg, mencionada por Roland Cassard (de Lola também), e volta a aparecer em Model Shop, anos mais tarde e já em território americano. Como se, na verdade, as suas personagens vivessem fora do ecrã, Demy convida-nos a imaginar que nós, também, fazemos parte de um filme enorme, grandioso, um pouco ridículo mas profundamente apaixonante.

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Jacques Demy num dos seus icónicos locais de filmagem, presente em Lola e, mais tarde, em Les Parapluies de Cherbourg.

mais sobre Les Parapluies de Cherbourg: O sonho em La La Land, uma carta de amor ao cinema romântico.

 

13/10 – Trap, guitarras angulares, e música do medo.

Esta emissão começou com uma música de Young Thug, que, nessa semana, ocupou demasiada atenção com a sua música estranhamente aditiva.

Seguiram-se dois trabalhos brasileiros com alguns pontos em comum. Primeiro, Juçara Marçal, e depois Metá Metá: em comum, o nome do guitarrista Kiko Dinucci, que conquista o seu espaço com alguma experimentação. São dois óptimos trabalhos de audição obrigatória para quem se dá bem com a música brasileira; mais ainda, com a música mais arriscada deste país.

O segmento dedicado à Porto Calling surge mais cedo que o habitual. Desta vez, incidiu nos obrigatórios The Fall, um nome maioral do punk cujas reverberações da sua influência ainda hoje se fazem sentir. Em 1981, editam Slates; daí ouvimos Fit & Working Again. E, sintonizados no dub – também uma das perdições da loja – seguimos com Zazou, Bikaye and CY1, colaboração triangular que resultou neste muito versátil Noir et Blanc, onde nenhumas duas faixas parecem vir do mesmo lugar.

A segunda parte do programa vem a propósito de uma óptima lista organizada pela The Quietus. Os seus editores seleccionaram 40 canções perturbadoras (em inglês disturbing), e são largamente óptimas escolhas. Daí o motivo para ouvirmos os The Residents em dose dupla – primeiro, numa tentativa de pop formulaica, segundo a sua curiosa teoria, e depois num registo mais abrasivo e francamente disturbing -, seguindo-se Scott Walker em bis, necessariamente para registar as duas facetas da sua carreira, e um potentíssimo final com Diamanda Galás. Não se recomenda esta abordagem, mas: havendo algo a ouvir desta emissão (salvo ouvi-la toda, que merece), é escutar esta última, um absoluto choque em relação à canónica versão de Billie Holiday.

1. Young Thug – Constantly Hating (feat. Birdman) (Barter 6, 2015)
2. Juçara Marçal – Velho Amarelo (Encarnado, 2014)
3. Metá Metá – Orunmila (MetaL MetaL, 2012)
4. The Fall – Fit & Working Again (Slates, 1981) | sugestão da Porto Calling.
5. Zazou, Bikaye and CY1 – Munipe Wa Kati (Noir et Blanc, 1983)
6. The Residents – Love Is (Commercial Album, 1980)
7. The Residents – Phantom (Commercial Album, 1980)
8. The Residents – Constantinople (Duck Stab/Buster & Glen, 1978)
9. Scott Walker – Mathilde (Scott Walker, 1967) / It’s Raining Today (Scott 3, 1969)
10. Scott Walker – The Escape (The Drift, 2006)
11. Diamanda Galás – You Don’t Know What Love Is (All The Way, 2017)

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Network: a televisão como paranóia e instrumento do mal.

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Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Cinema Perigoso e Até Algo Arriscado, organizado conjuntamente pel’A Mosca e pelo CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

Na passada semana descobrimos um pouco do mundo de Stanley Kubrick, obsessivo e paranóico, munido da sátira como forma velada de comentar o nosso mundo. E desta vez, seguimos com Network em missiva semelhante, um filme realizado por Sidney Lumet embora seja, na verdade, um trabalho muito autoral do guionista Paddy Chayefsky. Tal como Kubrick, Chayefsky é born and raised em Nova Iorque, de descendência judaica; e tal como Lumet, começou a sua carreira no mundo da televisão, só depois cruzando o caminho para a indústria do cinema.

A premissa de Network foi encontrada já depois de Chayefsky se ter estabelecido na indústria –   por essa altura, já havia ganho dois Oscars de argumentista com Marty em 1955 e com The Hospital em 1971 – mas havia ainda algo por dizer, que lhe escapara no singelo retrato da solidão humana do primeiro, e na mordaz crítica às instituições e moral americanas do segundo. Prontamente identificou um alvo na grande fábrica de entretenimento americana: a Televisão.

A televisão americana nos anos 70 era um complicado organismo, e funcionava de uma forma estranha à realidade americana de agora (e nem a podemos comparar com parte alguma da história da televisão portuguesa). Havia uma forte dicotomia entre a sua função noticiosa e a programação de entretenimento, entre os conteúdos nacionais e a frequentemente amadora produção local. E os anos dourados já haviam passado – a década de 50 era então uma distante memória, com as suas produções de estúdio em directo, inspiradas na tradição da Broadway.

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É dessa escola que vem Sidney Lumet. Desde cedo, trabalhou com o pai em pequenos espectáculos de teatro e variedades, e o seu talento para a representação levou-o a participar em várias peças na Broadway – sem muito sucesso, de resto – e acabou, alguns anos depois, por liderar uma pequena organização de actores. Aí, ao comandar um dos exercícios de representação, descobriu um talento para a direcção representativa. Essa foi, aliás, a sua maior força ao longo de uma muito prolífica (44 filmes em 50 anos), embora também algo discreta, carreira de realizador. Com ele, perpetraram-se maravilhosas prestações de Al Pacino (Dog Day Afternoon, Serpico), Paul Newman (The Verdict), ou o maravilhoso ensemble cast de 12 Angry Men (a sua estreia em cinema!).

Disse Lumet, largos anos depois da realização de Network – “it’s a hell of a good picture!” – que assusta a notável presciência do guião de Chayefsky. Passaram quarenta anos — mas, o que mudou? Porque, afinal, o filme não é apenas uma crítica à televisão, mas sobre algo maior: “a corrupção do espírito americano. Network é uma metáfora para a América”. No seu implacável relato de consumo de massas, da absurdidade da comunicação dos media, do conforto da vida contemporânea: sobre tudo isto ainda há muito para Network dizer.

“I consider that fight for individuality, for me, that’s what life should be about – what a good life should be about. I think everything conspires to crush your individuality.”   — Sidney Lumet.

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Dr. Strangelove ou: considerações sobre a guerra e a natureza do Homem.

Este texto serviu de folha de sala para a sessão inaugural do ciclo Cinema Perigoso e Até Algo Arriscado, organizado conjuntamente pel’A Mosca e pelo CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

Para inaugurar este ciclo de cinema, sob o tema do perigo e do risco, poucos filmes serão mais apropriados que Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb.  Evidentemente, pode ver-se uma relação entre o tema do filme – a paranóia generalizada da Guerra Fria, e a ameaça de incomensurável destruição por força nuclear – e a actual conjuntura irreflectida e volátil no eixo EUA-Coreia do Norte. E essa leitura estará parcialmente correcta; o cinema pode ser também uma forma de comentário político, e Kubrick teve certamente a intenção de satirizar o jogo estratégico e a absurdidade de uma situação que, na sua mais provável consequência, seria um golpe sem igual na história da humanidade e do planeta. O guião resulta de uma adaptação de uma obra especulativa, Red Alert, que Kubrick reinventou na forma de uma comédia satírica, com grande parte da estrutura narrativa inalterada, dividida em três arcos narrativos complementares. Num deles, um general ordena o ataque nuclear à Rússia, que por motivo de ter sido desenhado como manobra de retaliação, é impossível de reverter; os outros dois são sua consequência, com a discussão estratégica no “war room” e a tripulação do avião B-52 em voo, já a preparar o ataque. Poucos arriscariam uma abordagem satírica para um tema tão delicado, mas a decisão foi tomada conjuntamente com o autor do livro original, Peter George – e até segundo sugestão do próprio. É um registo nada habitual na filmografia de Kubrick.

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George C. Scott e Stanley Kubrick, num dos vários jogos de xadrez que jogaram no set – Kubrick era, segundo consta, um exímio jogador.

A decisão de abordar a guerra pela sua dimensão absurda abriu a porta a outra gama de comentários, subversivos e não explícitos: do início ao fim, Dr. Strangelove está pejado de referências sexuais, desde visuais alusões fálicas, aos nomes dos intervenientes, a subentendidas hierarquias de domínio da virilidade sobre personagens efeminadas; note-se também que há apenas uma mulher no filme, que cumpre mero símbolo de objectificação sexual. Curiosamente, este filme chega após Stanley Kubrick adaptar Lolita ao cinema; não esqueçamos que a obra de Vladimir Nabokov é referência maioral na temática sexual, e um dos grandes exemplos de arte moralmente desafiadora. Das grandes performances do filme, há duas obrigatórias menções: primeiro, George C. Scott no papel de um general imaturo, lascivo e devoto da destruição, cuja fisicalidade exagerada é um autêntico deleite (sabe-se agora que considerou a sua prestação algo ridícula, embora lhe tenha sido expressamente pedida por Kubrick); e segundo, o impressionante Peter Sellers (que havia estado em Lolita também), que se desdobrou em três (!) personagens diferentes, e chegou a improvisar vários dos seus diálogos, incluindo a cena final.

Dr. Strangelove é ainda um caso paradigmático da conhecida meticulosidade de Stanley Kubrick com a veracidade dos seus cenários. Quando, por cortesia, alguns pilotos da Força Aérea americana foram convidados a espreitar o cockpit fictício criado em estúdio, ficaram “brancos de espanto”; no dia seguinte, Kubrick enviou uma nota a Ken Adams, o produtor do set, para se certificar que “toda a informação utilizada foi retirada de fontes legais”; doutra forma, poderiam “ter problemas com o FBI”. Outro caso: a “war room”, um amplo pavilhão onde se desenrola a narrativa da estratégia de guerra, tornou-se uma fabricação tão plausível e enraizada no imaginário americano que Ronald Reagan, em 1981 e numa tour da Casa Branca já depois de entrar em funções presidenciais, pediu que lha mostrassem; desiludido ficou por saber que, na verdade, a sala nunca existiu.

Anos depois, soube-se que Stanley Kubrick replicou fielmente alguns procedimentos e ideias às quais nunca teve acesso. E duma forma mais abrangente, conseguiu capturar a absurdidade da tensão na Guerra Fria e as suas mais que prováveis consequências. Por tudo isto e muito mais, Dr. Strangelove é um óptimo filme para inaugurar o ciclo de cinema. Poucos cineastas gozaram do estatuto de Kubrick, e também poucos produziram tantas obras de relevo durante a sua carreira. O seu apurado sentido de humor e a vontade de arriscar tornaram a sua filmografia num óptimo ponto de partida em direcção a um maior entendimento do cinema como arte. E é esse, de resto, também um dos objectivos desta iniciativa.

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06/10 – O século XX na música; a pop e a experimentação.

Esta emissão foi muito baseada em dois livros aos quais tive acesso nessa semana, e que representam, cada um, duas épocas distintas do século passado. O primeiro, Tomorrow Never Knows da autoria de Nick Bromell, incide no período a partir da década de 50, partindo do blues e da sua apropriação por parte de Elvis Presley, passando pelos Beatles e por Bob Dylan, dissecando, em simultâneo, a influência da erva e outros psicotrópicos na definição de um sentimento geral para a época. O segundo, mais académico e abrangente, reúne vários artigos de diferentes personalidades ligadas à música, desde StockhausenEdgar Varèse Brian Eno Merzbow; chama-se Audio Culture: Readings in Modern Music, editado por Christopher Cox e Daniel Warner.

Ouvimos os Fleet Foxes por causa de uma segunda parte da canção muito interessante, e que remete para o cânone do free jazz; domínio ao qual pertence Albert Ayler Trio. 

“A vida antiga era toda silêncio. No séc. XIX, com a invenção das máquinas, nasceu o Noise. Hoje, o Noise é triunfante e reina de forma soberana sobre a sensibilidade do Homem” Luigi Russolo (1885-1947), The Art of Noises

Depois, enquadrando as peças com algumas citações do livro Audio Culture, passámos de Tim Buckley, experimentalista do lado do jazz e da voz, Edgar Varèse, pioneiro da electrónica e do primitivo processo de colagem.

“Quando novos instrumentos me permitirem escrever música como a idealizo, o movimento de massas-de-som, de planos inconstantes, serão claramente perceptíveis no meu trabalho, tomando o lugar do contraponto linear. Quando estas massas-de-som colidirem, o fenómeno de penetração ou repulsão vai ocorrer. Alguns transmutações a dar-se em certos planos parecerão projectadas noutros planos, movendo-se a velocidades e ângulos distintos. […] Todo o trabalho fluirá como flui um rio”. Edgar Varèse, em 1936.

No fundo, esta emissão foi apenas uma breve introdução a algumas ideias determinantes para explicar a necessidade de experimentar novas ideias no século XX. Para terminar, a ideia de Murray Schaffer parece especialmente forte. Dele ouvimos uma composição coral, Snowforms.

Não vou argumentar a importância do ouvido. O Homem moderno, que parece estar a meio dum processo de auto-ensurdecimento, aparentemente considera-o um mecanismo trivial. No Ocidente, o ouvido cedeu terreno ao olho, no que toca ao órgão de maior importância perceptiva” R. Murray Schaffer

1. Elvis Presley – One-Sided Love Affair (Elvis Presley, 1956)
2. Elvis Presley – I Love You Because (Elvis Presley, 1956)
3. Bob Dylan – Honey, Just Allow Me One More Chance (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1961)
4. Bob Dylan – From a Buick 6 (Highway 61 Revisited, 1965)
5. The Beatles – Helter Skelter (The Beatles, 1968) | sugestão da Porto Calling.
6. Fleet Foxes – Argument (Helplessness Blues, 2011)
7. Albert Ayler Trio – Ghosts: First Variation (Spiritual Unity, 1965)
8. Tim Buckley – Jungle Fire (Starsailor, 1970)
9. Edgar Varèse – Ionisation
10. R. Murray Schafer – Snowforms

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29/09 – Variações de jazz e electrónica político-experimental.

A última emissão de Setembro!

Começámos com música de Sophia Kennedy, um bem conseguido crossover entre electrónica e a música de cantautora, com letras bem humoradas e instrumentais, alguns, muito interessantes; deste disco, escolhemos Being Special – que fala, precisamente, sobre a condição de se ser especial. Quem não? Seguimos com um projecto que, em 2010, dizia muito: o pós-dubstep estava em altas (o que foi isso, afinal? Uma boa pergunta para um deste dias), com nomes como James Blake, Burial, até SBTRKT, e o seu disco Crooks & Lovers tem alguns excelentes momentos. Desde então, têm passado algo despercebidos, pelo menos por cá, mas apareceram desta vez em colaboração com Micachu.

Segue-se um pequeno preliminar ao grande destaque da emissão. Sun Ra, num dos primeiros do grupo, do ano de 1961, abre o mote para o jazz exploratório; merecerá, eventualmente, uma maior atenção sobre a vasta carreira dos senhores. Mas Eric Dolphy é já uma outra história. O seu disco Out For Lunch é especialmente apreciado em certos círculos, embora o jazz, como acontece também com vários outros ramos da música e a da arte em geral, incorra por vezes em fundamentações demasiado académicas ou herméticas para o leigo ouvinte. Creio que isso não é um problema em Out For Lunch. Certamente experimental e abstracto, a música é ainda assim música tremendamente divertida, com sopros solitários expressivos e exploratórios – como se nota nesta Gazzelloni, com a flauta a tentar chegar além das suas capacidades.

Ainda com um pé na música experimental, seguimos para uma colaboração portuguesa: Nuno Canavarro, um dos músicos nacionais com maior (e muito específica) projecção internacional, e Carlos Maria Trindade. Daqui resulta o disco Mr. Wollogallu, do qual ouvimos dois exemplos, mais um de Canavarro em exercício solitário.

Para esta semana, a Porto Calling trouxe os peruanos Los Saicos, que são absolutamente incríveis! Recomendado a quem apreciar um rock cru, influenciado ainda pelo seu período clássico dos anos 50 e 60, com todo o carisma intacto, mesmo tantos anos depois. Chegam-nos através de uma compilação de 2010, com todo o seu material gravado.

A recta final deu-se ao som de alguma electrónica de contornos e produção experimental – e feminina. A primeira, Elysia Crampton, produziu um trabalho estranhíssimo que a pôs em destaque como uma artista a seguir; este é um álbum posterior no qual enceta várias colaborações com diferentes artistas. Mencionámos a sua vertente política, que pretende seja considerada juntamente com a sua arte, e essa é uma postura interessante, por muito que por vezes problemática. Segue-se Mhysa, direccionada para a exploração da voz numa envolvência difícil de deslindar – como se fosse R&B produzido no além, e com interferências -, e terminamos com um incrível trabalho de Klein, com a justaposição de sons, vozes, melodias, numa técnica que tem afinidades com o field recording mas que provém, larga parte, de um meio digital.

1. Sophia Kennedy – Being Special (Sophia Kennedy, 2017)
2. Mount Kimbie – Marilyn (feat. Micachu) – (Love What Survives, 2017)
3. Sun Ra – Of Sounds and Something Else (The Futuristic Sounds of Sun Ra, 1961)
4. Eric Dolphy – Gazzelloni (Out For Lunch, 1964)
5. Nuno Canavarro & Carlos Maria Trindade – Guiar (Mr. Wollogallu, 1991)
6. Nuno Canavarro & Carlos Maria Trindade – Aelux (Mr. Wollogallu, 1991)
7. Nuno Canavarro – O Fundo Escuro de Alsee (Plux Quba, 1998)
8. Los Saicos – Ann (¡Demolición! The Complete Recordings, 2010) | sugestão da Porto Calling.
9. Los Saicos – Demolición (¡Demolición! The Complete Recordings, 2010)
10. Elysia Crampton – Red Eyez (feat. Lexxi) (Elysia Crampton Presents: Demon City, 2016)
11. Mhysa – Spectrum (fantasii, 2017)
12. Klein – Prologue (feat. Atiena, Jacob Samuel, ThisisDA, Eric Sings & Pure Water) (Tommy EP, 2017)

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Documentário como diário, mais Jacques Demy, e argumentos de Paddy Chayesfky.

Não tenho discorrido sobre o cinema que vejo com a regularidade desejada; vou tentar corrigir-me neste mês. Ficou por mencionar Sweet Smell of Success, por exemplo, um pseudo-noir muito curioso de Alexander Mackendrick, ou até o Help!, dos amigos Beatles: quem diria que o seu filme até correria relativamente bem? Destes três que trago, destaque imediato para a obra de Jonas Mekas, em destaque, durante a próxima semana, em Serralves. Passem por lá, se puderem (3€ o bilhete! Como não?).

Voltarei em breve, com mais cinema. Em breve, falar-se-á de Network, de Sidney Lumet!

112257-reminiscences-of-a-journey-to-lithuania-0-230-0-345-crop-2Reminiscences of a Journey to Lithuania (Jonas Mekas, 1972) Este filme, da autoria do crítico e cineasta lituano Jonas Mekas, é um tremendo marco no género do documentário. Mekas estava, na altura, a viver nos Estados Unidos, onde levou a cabo uma prolífica carreira de jornalista e crítico cinematográfico; foi defensor de um cinema pessoal e poético – ao contrário do comercial que sentia ser demasiado público – e, mantendo-se fiel a essa ideia, produziu alguns documentários num registo diarístico e algo amador, inocentes, e genuínos. Em 1972, edita um filme cujo nome alude a uma jornada pela Lituânia natal, mas utiliza o termo reminiscences, que em português será algo como uma frágil memória, ou pequenas impressões do passado, captadas pela sua inexperiente e desafectada técnica cinematográfica. As primeiras imagens são fragmentadas e comentadas pelo próprio Mekas, num bosque da América onde caminha acompanhado, e diz ele, sobre um Outono de 1957 ou 58: “Andámos por entre as folhas, batendo-lhes com um pau, e andámos para cima e para cima, para dentro e para dentro. Foi bom andar, desta forma, e não pensar em nada dos últimos dez anos, e estava a imaginar que poderia andar assim, e não pensar nos anos da guerra, de fome, de Brooklyn”. As primeiras imagens são suficientes para estabelecer as motivações de Jonas, preocupado e atormentado pelas memórias da guerra e pela insignificância da Lituânia natal na metrópole estadunidense. Fala nas pessoas deslocadas, que as há em todos os continentes, e subitamente é um termo metafísico; e assim, leva-nos à  segunda parte do filme, quando viaja à erma aldeia onde viveu, Semeniškiai, onde ainda vive a sua mãe – nascida em 1887, e que “esperou vinte e cinco anos” –, numa casa antiquada mas tremendamente prática, envolvida nos extensos prados verdes circundantes e à qual se junta, paulatinamente, a restante família. Vivem da natureza e nela comungam, e participamos nós também através do olhar documental do realizador: a lide diária com os animais, a cozinha primitiva ao lume com ramos e folhas de jornal, o ritmo de vida governado por regras que são, para nós passado apenas meio século, estranhas e incompatíveis. Mekas captou, em tudo isto, um tremendo contraste com o mundo exterior, num fase preliminar da iminente globalização; e quando a sua voz comenta e contextualiza algumas das imagens, revela-se a candura das suas intenções, e é difícil não nos envolvermos nesta experiência. Estes são registos de um mundo com mais de cinquenta anos; sons e imagens de materializações que já não existem, na sua maioria, e são a prova inequívoca de que o cinema serve também uma memória, ainda que pessoal, mas que se pode ramificar para uma pluralidade. E qual o papel dessa memória? Porque nos impressiona tanto este registo diarístico e pessoal, de gente imersa nas suas trivialidades? Um documento de revolta e incompreensão perante a guerra, e simultânea perpetuação de memórias, necessariamente sentimentais. Talvez, e esta é apenas uma hipótese, porque tudo isto é profundamente humano.

(Reminiscences of a Journey to Lithuania estará em Serralves no próximo dia 15 de Novembro. Mais informação aqui)

Baie-des-Anges,-La.jpgA Baía dos Anjos (La Baie des Anges, 1963) Jacques Demy já é por nós conhecido pelos dois maravilhosos musicais que filmou em França: Les Parapluies de Cherbourg, primeiro, e Les Demoiselles de Rochefort logo a seguir, são filmes absolutamente perfeitos e dos maiores do seu género. No entanto, sendo musicais, há um conjunto de regras narrativas que lhes permitem determinadas liberdades: onde tudo se canta e dança, todos estão um passo mais próximo de atingir a sua felicidade (isto mais em Rochefort que Cherbourg, mas adiante). Quando, como em Model Shop, deixa o musical e parte para filmes necessariamente mais realistas, continua interessante, motivado por outros fins. É o caso de La Baie des Anges, um minimal estudo sobre dois jogadores que travam amizade num casino de Nice. O jogo é, de facto, um dos mais curiosos fenómenos: uma volátil oscilação entre a depressão e a euforia, de força suficiente para definir, por si só, a imediata realização de um indivíduo. Ou a proximidade ao abismo, também. O contraste entre as duas personagens começa na forma como abordam o jogo – provém ambas de sítios distintos: se a personagem do cerebral Jean é mais cerebral e parece ciente e cauteloso do processo no qual se envolve lentamente, Jackie (interpretada por Jeanne Moreau, falecida este ano) é absorvida pela sorte e pelas probabilidades, devota ao rolar dos dados e à bola da roleta. Um dos diálogos é particularmente revelador, passado no quarto de um hotel de luxo, e fica no ar uma plausível explicação para o jogo como supressor do tédio e angústia existencial; e é um tema que surge também em Model Shop, por exemplo. Demy observa tudo isto, com o habitual encantamento e acutilância. É um filme que se faz nas performances de Mann e Moreau, e se não obrigatório na filmografia de Demy, é um agradável complemento à ideia de cinema que deixou. A banda sonora está a cargo de Michel Legrand, seu colaborador nos dois musicais mencionados.

30663-the-hospital-0-230-0-345-cropThe Hospital (Arthur Hiller, 1971) Daqui a uns dias, vou falar de Network, filme de Sidney Lumet escrito por Paddy Chayefsky, mas por enquanto, e como propedêutico, trago Hospital, da autoria do mesmo guionista, e realizado por Arthur Hiller. É a história de um hospital terrivelmente gerido, com mortes bizarras entre o seu corpo médico e uma gritante incapacidade de se organizar; enquanto tudo isto, um dos seus médicos residentes pretende retirar-se do trabalho enquanto atravessa momentos de alguma fantasia suicida. Interpretado por George C. Scott, este médico é um dos eixos do filme – o caos do hospital, financeiramente limitado e deslocado da prioridade principal de cuidar doentes, contrasta com o estóico profissionalismo que impõe e exige no seu trabalho. A ideia de um homem revoltado contra uma instituição é comum em Chayefsky, porque o mesmo acontecerá em Network, realizado uns anos depois: a crítica satírica a um establishment, o herói principal com tiques messiânicos e até algo desenquadrado no mundo ao seu redor, e o suicídio como forma de lidar com o absurdo; até a expressão de ira e revolta literalmente vocalizada a partir de um sítio alto, preferencialmente uma janela, é motivo comum aos dois.  Felizmente, nunca se sente, nem neste nem em Network, que a crítica caia em condescendência ou se reduza a opiniões inconsequentes: tanto num como noutro, o verdadeiro sujeito da crítica é um certo modo de estar tipicamente americano, tipicamente sociedade civilizada, uma espécie de complacência do homem moderno. Com isto, não pretendo dizer que Chayefsky é previsível; antes que as suas preocupações são evidentes. E o alvo é atingido com mordacidade. The Hospital, dividido entre ser sério e tragicómico, tem momentos muito bem conseguidos e a mensagem passa claramente. Chayefsky é mesmo uma das mais certeiras vozes do cinema americano.

22/09 – Pop, rock, funk, e Vítor Rua sobre a música portuguesa dos anos 80.

Mais uma emissão arquivada!

Começámos por ouvir uma amostra do novo de Alex Cameron, cuja letra alude a Marlon Brando e a uma imagem não-masculina do Homem; uma ideia interessante que explorou com piada. Na mesma toada, como não recordar Ariel Pink, também com novo disco? Deste, uma passagem ainda pelo seu fantástico Haunted Graffiti, de 2012, que se fez ouvir em Guimarães, nesse ano, um dos marcos da pop hipnagógica – seja lá o que isso for.

Depois, uma menção aos obrigatórios Stooges, cujo disco tinha andado em alta rotação nessa semana. É música de 69 que abre caminho para toda a liberdade do punk que se lhe seguiu, absolutamente à frente do seu tempo, e um disco que, ainda hoje, soa puro e sem desnecessários adornos. Seguiu-se a música dos The Meters, banda funk que no mesmo ano lançou Look-Ka Py Py, um conjunto de pequenos ensaios instrumentais perfeitamente executados.

A segunda parte do programa fica reservada para a opinião de Vítor Rua, que enfim responde à questão levantada por Adolfo Luxúria Canibal há algumas emissões atrás: “A música dos anos 80 era ou não mais interessante que a música de agora, em Portugal?”. Ora, a resposta chega finalmente, vinda de um dos nomes mais relevantes da música experimental portuguesa, que também viveu esses atribulados anos. Fundador dos GNR, com quem ainda gravou durante um período, ajudou-nos a entender o panorama musical da época, e mais ainda. Obrigatório ouvir!

Depois, para terminar, breve passagem pelo disco de Lil Ugly Mane, que já por aqui passou sob um outro nome (bedwetter), e terminámos ao som de Dorothy Carter, com um impressionante disco de 1978, Waillee Waillee – fará as delícias de quem aprecia folk soturna e música bem orquestrada.

Assim foi! Espero que gostem.

1. Alex Cameron – Marlon Brando (Forced Witness, 2017)
2. Ariel Pink – I Wanna Be Young (Dedicated to Bobby Jameson, 2017)
3. Ariel Pink – Only In My Dreams (Haunted Graffiti, 2012)
4. The Stooges – Ann (The Stooges, 1969)
5. The Stooges – Real Cool Time (The Stooges, 1969)
6. The Meters – Funky Miracle (Look-Ka Py Py, 1969)
7. The Meters – Little Old Money Maker (Look-Ka Py Py, 1969)
8. Adam And The Ants – Fall Out (Antmusic, 1981) | sugestão da Porto Calling.
A música dos anos 80 era ou não mais interessante que a música de agora, em Portugal? reflexão sobre a nossa música e a influência internacional, por Vítor Rua.
9. Lil Ugly Mane – Serious Shit (MISTA THUG ISOLATION, 2012)
10. Dorothy Carter – The Squirrel Is A Funny Thing… (Waillee Waillee, 1978)

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