17/11 – Soul melosa, música de devoção, transcendência_experiências meta-narrativas.

Nesta semana, a hora da emissão colidia com os concertos do Festival Para Gente Sentada – ou melhor, colidiria: longa história. Por isso, socorri-me de uma voz habitual nas emissões gravadas, e entreguei-me, mais uma vez, a escrever tontices e tentar, a partir de diálogos absurdos, tirar algo de proveitoso para o vasto auditório. Às vezes corre bem. Desta vez, o pretexto foi uma espécie de romance entre as duas personagens (que não são humanas), que partem de uma certa presença digital em direcção à existência física – daí se sentir o som, cuja ideia advém, se se recordam, de uma das emissões de Outubro que já está arquivada em podcast. De resto, são óptimas emissões para testar alguns limites, e trazer coisas que doutra forma não ouviríamos. Fica a lista completa das músicas que passaram.

 

1. D’Angelo – Untitled (How Does It Feel) (Voodoo, 2000)
2. Jeff Buckley – Yeh Jo Halka Halka Saroor Hai (Live at Sin-É, lançado em 2003 na Deluxe Edition do EP original de 1994 – esta faixa é uma cover de Nusrat Fateh Ali Khan)
3. DUDS – Signal, Sign (Of a Number or Degree, 2017) | sugestão da Porto Calling.
4. Yves Tumor – E. Eternal (Experiencing The Deposit Of Faith, 2017 – download gratuito (e legal) aqui)
excerto de I am sitting in a room, de Alvin Lucier: primeira iteração
5. Sheila Chandra – A Sailor’s Life (The Zen Kiss, 1994)
6. Steely Dan – Peg (Aja, 1977)
7. A.E. Bizottsag – Linaj, Linaj, Van-Van-Van (Kalandra Fel!!,
1983)
8. J. S. Bach interpretado por Capella Istropolitana sob Christian Benda – Sonata (Trio a Flauto traverso, Violino e Basso continuo): 2: Allegro
9. Ryoji Ikeda – data.adaplex (Dataplex, 2005)
10. Hiroshi Yoshimura – Soto Wa Ame (Music For Nine Post Cards, 1982)
11. Sheila Chandra – Speaking in Tongues III (The Zen Kiss, 1994)
12. Queen – Who Wants To Live Forever (A Kind of Magic, 1986)
para efeito sonoro, usou-se Tone Pig de Macula Dog durante a emissão

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10/11 – Electrónica afro-latina, improvisações de cantautor e força mística.

No dia da emissão, havia lido um artigo na revista Wire sobre electro champeta, uma actualização moderna da champeta, que consta ser um estilo de música muito popular na Colômbia. Em Fevereiro de cada ano, fazem-se enormes festas e desfiles, no que imagino ser algo parecido com o Carnaval brasileiro. E este electro champeta é algo deste género, mas não consegui determinar ao certo o que o caracteriza, nem ouvir muito mais do que isso – é música que não está disponível depois das pesquisas mais óbvias, ou, e talvez sobretudo, não se categorizou segundo os nomes atribuídos pela crítica musical estrangeira. Tenho uma vontade imensa de, um dia, conseguir levar a cabo sets deste género: música dançável, comunitária, que serve um propósito de descoberta também.

A questão da descoberta, na presente época, é curiosa. O mundo digital está à distância de um clique e cremos que toda a música está impecavelmente catalogada no Spotify. Não é esse o caso – felizmente! -, e a música de Aleke Kanonu é disso exemplo. Há pouquíssima informação disponível sobre o músico, e o seu disco Aleke, juntamente com um single editado posteriormente, foram recentemente reeditados. Neste caso, a obra foi reeditada pela Presch Media, uma editora austríaca; mas têm sido, nesta última década, incontáveis as histórias de músicos que voltam à ribalta, ou chegam ao reconhecimento pela primeira vez em já longas carreiras, devido à força da Internet (como não lembrar o caso de Rodriguez, por exemplo?). Se não ouviram, a música de Aleke Kanonu é obrigatória: afro funk, soul embebido em batidas graves e dançáveis, e uma mão cheia de percussão acústica para tudo ficar um pouco mais exótico. Uma maravilha.

Para terminar, uma nota sobre Eric Chenaux. O seu disco Skullsplitter tem algumas faixas interessantíssimas, e tenho, como disse, uma enorme admiração pela música que soa desafinada, mal estruturada, e que de uma forma ou de outra fuja ao cânone (no caso de Chenaux, há também uma forte componente de improvisação). A propósito, recordei a música de Kath Bloom & Loren Mazzacane, no disco Moonlight – que é belíssimo, e mais trapalhão ainda! -, e, no final, mencionei David Thomas Broughton, e o seu disco The Complete Guide To Insufficiency, de 2005, que fez a ponte para o disco de Richard Dawson, já a fechar a emissão.

1. La Tromba – Calaba Calabao (Palenque Palenque: Champeta Criolla & Afro Roots in Colombia 1975-1991, 2010)
2. Owiny Sigoma Band – Changaa Attack (Nyanza, 2015)
3. Owiny Sigoma Band – Ojoni Wopio (Nyanza, 2015)
4. Aleke Kanonu – Mother’s Day (Aleke, 1980)
5. Aleke Kanonu – Happiness (Aleke1980)
6. The Smiths – Ask (1988) | sugestão da Porto Calling.
7. Eric Chenaux – Spring Has Been a Long Time Coming (Skullsplitter, 2015)
7. Eric Chenaux & Elöise Decazes – Dedans la ville de plaisantement (La Bride, 2017)
8. Eric Chenaux & Norberto Lobo – The Addison (The Byre, 2017)
9. Kath Bloom & Loren Mazzacane – can you find me? (Moonlight, 1984)
10. Richard Dawson – Ogre (Peasant, 2017)

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03/11 – Hip-hop instrumental de Dilla, Brian Eno, e a descoberta etnográfica de Hassell.

Para a primeira emissão de Novembro, propusemo-nos a uma descoberta preliminar da música de J Dilla, sintetizada em Donuts, o seu trabalho de excelência. É um magnífico estudo do poder do hip-hop instrumental, e do sampling como agregador de vários sons distintos. Um álbum essencial para entender o género, e a música em geral. Depois, breve passagem pelos Roxy Music de Brian Eno de Brian Ferry – porque sim, também nos sabemos perder na música ligeira (que não o é assim tanto).

A recomendação da Porto Calling levou-nos aos já nossos conhecidos Limiñanas, sobre quem uma vez suscitámos várias dúvidas a nível da sua nacionalidade, e voltam ao programa com o novo disco Malamore.

Na segunda parte da emissão, dedicámo-nos a vários discos e estéticas sempre sob o eixo de Jon Hassell, trompetista americano que explorou música do mundo, adaptando-a à estética ocidental, por meio de uma abordagem algo etnográfica. Da sua carreira, percorremos pouco mais de quatro anos, do Paquistão à Malásia, com direito a paragens nas carreiras que o intersectaram – Brian Eno uma outra vez, ele que colaborou com meio mundo da música, e Pandit Pran Nath, mestre paquistanês do canto – e de outros que partiram dos seus ensinamentos – como Colin Stetson, por exemplo, ou os Visible Cloaks, useiros do conceito da música verdadeiramente universal: a Fourth World. Fica o link para uma complementar entrevista a Hassell.

Para terminar, breve passagem pela compilação Sounds of the Unexpected, que tem de tudo um pouco, e em particular muita música alucinada dos anos 70.

1. J Dilla – Lightworks (Donuts, 2006)
2. J Dilla – Time: The Donuts of the Heart (Donuts, 2006)
3. J Dilla – Airworks (Donuts, 2006)
4. Roxy Music – While My Heart Is Still Beating (Avalon, 1982)
5. Roxy Music – India (Avalon, 1982)
6. The Limiñanas – Malamore (Malamore, 2016) | sugestão da Porto Calling.
7. Visible Cloaks – Terrazzo (feat. Motion Graphics) (Reassemblage, 2017)
8. Jon Hassell – Cobra Moon (Earthquake Island, 1978)
excerto da música de Pandit Pran Nath
9. Jon Hassell – Adios Saturn (Earthquake Island, 1978)
10. Brian Eno & Jon Hassell – Griot (Over ‘Contagious Magic’) (Fourth World Vol. 1 – Possible Musics, 1980)
11. Brian Eno & Jon Hassell – Chemistry (Fourth World Vol. – Possible Musics, 1980)
excerto da música de Colin Stetson
12. Jon Hassell – Courage (Fourth World Vol. 2 – Dream Theory in Malaya, 1981)
13. Brian Eno & David Byrne – America Is Waiting (My Life in the Bush of Ghosts, 1981)
14. Jan Davis – Watusi Zombie (Sounds of the Unexpected: Weird & Wacky Instrumentals from Pop’s Final Frontiers, 2017)

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27/10 – Funk, jazz, e soul da ternura; experiências electrónicas variadas.

Mais uma caótica emissão.

Desta vez, e devido ao SEMIBREVE, não pôde haver directo. Por isso, muni-me de alguns clássicos – os Parliament são absolutamente obrigatórios – e de discos que me haviam acompanhado nos últimos dias – como é o caso de Curtis Mayfield, cujo disco de 1975 é já um habitual refúgio. O toque ao jazz ligeiro foi dado por Roy Ayers e, depois, Chet Baker.

Depois, dado o motivo de haver SEMIBREVE com as suas explorações electrónicas, seguimos essa toada para a segunda parte da hora. Primeiro, introduziu-se o nome de Raymond Scott, um dos pioneiros na manufactura de instrumentos electrónicas e na sua utilização. Lightworks, a primeira música que dele ouvimos, será recuperada na emissão seguinte, por J Dilla.

A parte final é uma jornada sem interrupções por nomes contemporâneos da música digital. V/VM é Leyland Kirby, agora mais conhecido por The Caretaker, e Sick Love reúne algumas experiências que o aproximam dos pequenos ensaios Ecco Jams de Chuck PersonPLOM produz glitch frenético (e divide a cassete Essential Nerd Tools com BITEMAP, que compôs a primeira parte num Gameboy); Giant Claw assina um dos trabalhos mais interessantes do ano, num estilo plunderphonics hipnagógico difícil de assimilar. Para terminar, os Visible Cloaks voltam ao programa, e emprestam uma música indeterminada. Falaremos mais deles na próxima emissão a arquivar.

1. Parliament – Mothership Connection (Mothership Connection, 1975)
2. Roy Ayers – Out of Sight (West Coast Vibes, 1963)
3. Chet Baker – Tangerine (She Was Too Good to Me, 1974)
4. Curtis Mayfield – So In Love (There’s No Place Like America Today, 1975)
5. Curtis Mayfield – Jesus (There’s No Place Like America Today, 1975)
6. Raymond Scott – Lightworks (Manhattan Research, Inc., 2000)
7. Raymond Scott – New Year’s Eve In a Haunted House (Reckless Nights and Turkish Twilights: The Music of Raymond Scott, 1992)
8. V/VM – The Lady In Red (Is Dancing With Meat) (Sick Love, 2000)
9. PLOM – LOVE-LETTER-FOR-YOU.txt.vbs (Essential Nerd Tools, 2017)
10. Giant Claw – Soft Channel 004 (Soft Channel, 2017)
11. Visible Cloaks – ???

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20/10 – Blues, jazz e voz em emissão clandestina.

Nesta emissão, inspirada ainda nas portas abertas pelas emissões anteriores (na definição de blues, por exemplo), o início foi dedicado a Muddy Waters, um dos maiores do blues, e também a Captain Beefheart, com a sua Magic Band, que terá “apropriado” a linguagem em dois trabalhos distintos. Curiosamente, Trout Mask Replica foi editado no período entre os dois discos que ouvimos.

Depois, a sugestão da Porto Calling remete-nos à música de Dusty Springfield – clássicos que vale muito recordar. Houve ainda os Weather Report, nome essencial do jazz fusão, com uma amostra do seu belíssimo Heavy Weather.

Para terminar, e a propósito do SEMIBREVE que se avizinhava, explorámos alguns dos nomes que passaram pelo festival (o disco Reassemblage poderá ser interessante nos ouvidos certos) e fechámos as contas com Brian Eno – como não adorar o seu Music for Airports?

1. Muddy Waters – I’m A Man (Mannish Boy) (Electric Mud, 1968)
2. Muddy Waters – My Home Is The Delta (Folk Singer, 1964)
3. Captain Beefheart & The Magic Band – I’m Glad (Safe as Milk, 1967)
4. Captain Beefheart & The Magic Band – White Jam (The Spotlight Kid, 1971)
5. Captain Beefheart & The Magic Band – Alice in Blunderland (The Spotlight Kid, 1971)
6. Dusty Springfield – Son of a Preacherman (Dusty in Memphis, 1969) | sugestão da Porto Calling.
7. Dusty Springfield – Just a Little Lovin (Dusty in Memphis, 1969)
8. Weather Report – A Remark You Made (Heavy Weather, 1977)
— poema de Natália Correia, por Mafalda Cortesão
9. Visible Cloaks – Bloodstream (Reassemblage, 2017)
10. Visible Cloaks – Terrazzo (feat. Motion Graphics) (Reassemblage, 2017)
11. Lawrence English – Hard Rain (Cruel Optimism, 2017)
12. ???
13. Brian Eno – 2/1 (Music for Airports, 1978)

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É um Natal maravilhoso! Frank Capra, James Stewart: humanidade.

Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Porque Jorrais de Mim Lágrimas, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

MV5BMTMzMzY5NDc4M15BMl5BanBnXkFtZTcwMzc4NjIxNw@@._V1_SY1000_CR0,0,669,1000_AL_Hoje terminamos um ciclo com um dos mais belos filmes do cinema: It’s a Wonderful Life, realizado por Frank Capra, em 1949. A sua narrativa evoca A Christmas Carol, de Charles Dickens, mas não é nele baseado (embora o conto esteja presente na génese do outro texto que originou o filme). É importante lembrá-lo porque ajudou à definição do actual conceito de época natalícia, cem anos antes do filme ter chegado.

It’s a Wonderful Life é um clássico e um dos filmes mais queridos do cinema americano, embora, aquando da sua estreia comercial, não tenha tido muito sucesso — há quem culpe o penoso caminho calcorreado até à redenção final. Eventualmente, o próprio estúdio desistiu de renovar os direitos sobre o filme, e tornou-se domínio público por volta da década de 70; o que foi, sabemo-lo agora, uma feliz decisão: a partir daí, fez parte da grelha de virtualmente todas as estações televisivas americanas, e o público rendeu-se. os anos subsequentes haviam de o confirmar como o filme de Natal.

Conta-nos a história de George Bailey. Primeiro um petiz trabalhador, mais tarde, um jovem adulto com ideias de partir viagem e conhecer o mundo, há-de ficar para sempre preso à sua terra natal. Herdando o negócio de família, apaziguar-se-á assim: conseguiu a felicidade longe do seu sonho. É mais um excelente exemplo do terno humanismo de Frank Capra, a sua especialidade: histórias simples, com diálogos e acções genuínas, sempre polvilhadas com amor, fraterno ou romântico, sempre convictas e morais.

Este foi o seu filme favorito — que mostrava à família todos os anos, por altura do Natal — e também o de James Stewart. E que maravilhosa performance, a sua! É claro que It’s a Wonderful Life é um dos mais emocionalmente intensos trabalhos do cinema (como não nos destruirmos, para pronta reconstrução, naquele final?), mas é nele, ao longo de toda a história, que está ancorado um muito particular sentido de humor.

Não há muito mais a dizer sobre a obra. A sua perenidade atesta às intrínsecas qualidades do filme, que julgo cingir-se, larga parte, à sua pura expressão de humanidade. Volta-se a ele como se fosse um velho amigo; dele saímos mais contentes e aconchegados, como se lembrássemos, uma vez mais, o que há de fundamental nesta nossa vida. Espero que gostem. Boas Festas!

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O romântico segundo Les Parapluies de Cherbourg.

Este texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo Porque Jorrais de Mim Lágrimas, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

Les_Parapluies_De_Cherbourg_ae85490b-7331-4634-99c7-0ae7149fc741Depois do caos, paranóia e absurdidade dos dois primeiros filmes, mudámos radicalmente. De país, de continente, de estética, e de ideais. Para trás, ficam os Estados Unidos e o sonho que permeia o universo de Hollywood; chegamos à França, década de 60, fustigada pela ideia da guerra na Argélia e embebida numa ideia de cinema tradicionalmente mais realista que o Americano.

São considerações a ter em conta no cinema de Jacques Demy, que nos traz Les Parapluies de Cherbourg, cujo argumento escreveu e realizou, lançado no ano de 1964. É a história de Geneviève e Guy, um jovem casal apaixonado que pretende ficar junto para sempre, num universo musical onde tudo – tudo! – se canta. Não é maravilhoso? É, pois. Demy, um enorme aficcionado do musical americano, acreditou ser possível transladar o sonho para a Europa, provando que o feito não é exclusivo de Hollywood.

Ora, o filme alude, por exemplo, à magia de Singin’ in the Rain – como não pensar nos guardas-chuvas como tema comum? – e adopta, prolongando até para lá do habitual, a entrega ao imaginário do filme romântico. Pensar num musical é, antes de mais, estabelecer novas regras para o mundo que nos chega, onde não se estranha que se fale a cantar, que todos sorriam e dancem, que os problemas se resolvam com uma bela canção. Tudo isso e mais ainda acontece em Les Parapluies de Cherbourg, mas com um twist que denuncia não estarmos em território de Hollywood: quando a turbulenta realidade da guerra irrompe pelo sonho adentro, nem a música nem o sonho salvam o amor. É cruel – mas é mesmo assim a vida.

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Catherine Deneuve e a sua irmã Françoise Dorléac, no set de Les Demoiselles de Rochefort com Gene Kelly.

O cinema de Demy é, portanto, um cinema agridoce. Evoca o romantismo americano e adapta-o à tradição europeia (nem sempre: Les Demoiselles de Rochefort (1967) é puro e inocente, e é possivelmente o melhor musical francês), sendo mestre na arte de criar o sonho e de explorar os seus limites. Amores desencontrados, a guerra, a conquista do sonho: temas recorrentes do seu cinema que aqui são condensados. Mais: atente-se nas cores garridas, nos belíssimos cenários, na orquestração de Michel Legrand, que contribuem para que este seja um dos mais depurados objectos estéticos do cinema.

Um último pormenor revela-nos a cândida visão que Demy teve para o seu cinema. Várias das suas personagens existem em continuidade nos seus vários filmes: Lola existe em Lola, pois claro, mas também tangencialmente em Les Parapluies de Cherbourg, mencionada por Roland Cassard (de Lola também), e volta a aparecer em Model Shop, anos mais tarde e já em território americano. Como se, na verdade, as suas personagens vivessem fora do ecrã, Demy convida-nos a imaginar que nós, também, fazemos parte de um filme enorme, grandioso, um pouco ridículo mas profundamente apaixonante.

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Jacques Demy num dos seus icónicos locais de filmagem, presente em Lola e, mais tarde, em Les Parapluies de Cherbourg.

mais sobre Les Parapluies de Cherbourg: O sonho em La La Land, uma carta de amor ao cinema romântico.

 

13/10 – Trap, guitarras angulares, e música do medo.

Esta emissão começou com uma música de Young Thug, que, nessa semana, ocupou demasiada atenção com a sua música estranhamente aditiva.

Seguiram-se dois trabalhos brasileiros com alguns pontos em comum. Primeiro, Juçara Marçal, e depois Metá Metá: em comum, o nome do guitarrista Kiko Dinucci, que conquista o seu espaço com alguma experimentação. São dois óptimos trabalhos de audição obrigatória para quem se dá bem com a música brasileira; mais ainda, com a música mais arriscada deste país.

O segmento dedicado à Porto Calling surge mais cedo que o habitual. Desta vez, incidiu nos obrigatórios The Fall, um nome maioral do punk cujas reverberações da sua influência ainda hoje se fazem sentir. Em 1981, editam Slates; daí ouvimos Fit & Working Again. E, sintonizados no dub – também uma das perdições da loja – seguimos com Zazou, Bikaye and CY1, colaboração triangular que resultou neste muito versátil Noir et Blanc, onde nenhumas duas faixas parecem vir do mesmo lugar.

A segunda parte do programa vem a propósito de uma óptima lista organizada pela The Quietus. Os seus editores seleccionaram 40 canções perturbadoras (em inglês disturbing), e são largamente óptimas escolhas. Daí o motivo para ouvirmos os The Residents em dose dupla – primeiro, numa tentativa de pop formulaica, segundo a sua curiosa teoria, e depois num registo mais abrasivo e francamente disturbing -, seguindo-se Scott Walker em bis, necessariamente para registar as duas facetas da sua carreira, e um potentíssimo final com Diamanda Galás. Não se recomenda esta abordagem, mas: havendo algo a ouvir desta emissão (salvo ouvi-la toda, que merece), é escutar esta última, um absoluto choque em relação à canónica versão de Billie Holiday.

1. Young Thug – Constantly Hating (feat. Birdman) (Barter 6, 2015)
2. Juçara Marçal – Velho Amarelo (Encarnado, 2014)
3. Metá Metá – Orunmila (MetaL MetaL, 2012)
4. The Fall – Fit & Working Again (Slates, 1981) | sugestão da Porto Calling.
5. Zazou, Bikaye and CY1 – Munipe Wa Kati (Noir et Blanc, 1983)
6. The Residents – Love Is (Commercial Album, 1980)
7. The Residents – Phantom (Commercial Album, 1980)
8. The Residents – Constantinople (Duck Stab/Buster & Glen, 1978)
9. Scott Walker – Mathilde (Scott Walker, 1967) / It’s Raining Today (Scott 3, 1969)
10. Scott Walker – The Escape (The Drift, 2006)
11. Diamanda Galás – You Don’t Know What Love Is (All The Way, 2017)

1410

Network: a televisão como paranóia e instrumento do mal.

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Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Cinema Perigoso e Até Algo Arriscado, organizado conjuntamente pel’A Mosca e pelo CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

Na passada semana descobrimos um pouco do mundo de Stanley Kubrick, obsessivo e paranóico, munido da sátira como forma velada de comentar o nosso mundo. E desta vez, seguimos com Network em missiva semelhante, um filme realizado por Sidney Lumet embora seja, na verdade, um trabalho muito autoral do guionista Paddy Chayefsky. Tal como Kubrick, Chayefsky é born and raised em Nova Iorque, de descendência judaica; e tal como Lumet, começou a sua carreira no mundo da televisão, só depois cruzando o caminho para a indústria do cinema.

A premissa de Network foi encontrada já depois de Chayefsky se ter estabelecido na indústria –   por essa altura, já havia ganho dois Oscars de argumentista com Marty em 1955 e com The Hospital em 1971 – mas havia ainda algo por dizer, que lhe escapara no singelo retrato da solidão humana do primeiro, e na mordaz crítica às instituições e moral americanas do segundo. Prontamente identificou um alvo na grande fábrica de entretenimento americana: a Televisão.

A televisão americana nos anos 70 era um complicado organismo, e funcionava de uma forma estranha à realidade americana de agora (e nem a podemos comparar com parte alguma da história da televisão portuguesa). Havia uma forte dicotomia entre a sua função noticiosa e a programação de entretenimento, entre os conteúdos nacionais e a frequentemente amadora produção local. E os anos dourados já haviam passado – a década de 50 era então uma distante memória, com as suas produções de estúdio em directo, inspiradas na tradição da Broadway.

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É dessa escola que vem Sidney Lumet. Desde cedo, trabalhou com o pai em pequenos espectáculos de teatro e variedades, e o seu talento para a representação levou-o a participar em várias peças na Broadway – sem muito sucesso, de resto – e acabou, alguns anos depois, por liderar uma pequena organização de actores. Aí, ao comandar um dos exercícios de representação, descobriu um talento para a direcção representativa. Essa foi, aliás, a sua maior força ao longo de uma muito prolífica (44 filmes em 50 anos), embora também algo discreta, carreira de realizador. Com ele, perpetraram-se maravilhosas prestações de Al Pacino (Dog Day Afternoon, Serpico), Paul Newman (The Verdict), ou o maravilhoso ensemble cast de 12 Angry Men (a sua estreia em cinema!).

Disse Lumet, largos anos depois da realização de Network – “it’s a hell of a good picture!” – que assusta a notável presciência do guião de Chayefsky. Passaram quarenta anos — mas, o que mudou? Porque, afinal, o filme não é apenas uma crítica à televisão, mas sobre algo maior: “a corrupção do espírito americano. Network é uma metáfora para a América”. No seu implacável relato de consumo de massas, da absurdidade da comunicação dos media, do conforto da vida contemporânea: sobre tudo isto ainda há muito para Network dizer.

“I consider that fight for individuality, for me, that’s what life should be about – what a good life should be about. I think everything conspires to crush your individuality.”   — Sidney Lumet.

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Dr. Strangelove ou: considerações sobre a guerra e a natureza do Homem.

Este texto serviu de folha de sala para a sessão inaugural do ciclo Cinema Perigoso e Até Algo Arriscado, organizado conjuntamente pel’A Mosca e pelo CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

Para inaugurar este ciclo de cinema, sob o tema do perigo e do risco, poucos filmes serão mais apropriados que Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb.  Evidentemente, pode ver-se uma relação entre o tema do filme – a paranóia generalizada da Guerra Fria, e a ameaça de incomensurável destruição por força nuclear – e a actual conjuntura irreflectida e volátil no eixo EUA-Coreia do Norte. E essa leitura estará parcialmente correcta; o cinema pode ser também uma forma de comentário político, e Kubrick teve certamente a intenção de satirizar o jogo estratégico e a absurdidade de uma situação que, na sua mais provável consequência, seria um golpe sem igual na história da humanidade e do planeta. O guião resulta de uma adaptação de uma obra especulativa, Red Alert, que Kubrick reinventou na forma de uma comédia satírica, com grande parte da estrutura narrativa inalterada, dividida em três arcos narrativos complementares. Num deles, um general ordena o ataque nuclear à Rússia, que por motivo de ter sido desenhado como manobra de retaliação, é impossível de reverter; os outros dois são sua consequência, com a discussão estratégica no “war room” e a tripulação do avião B-52 em voo, já a preparar o ataque. Poucos arriscariam uma abordagem satírica para um tema tão delicado, mas a decisão foi tomada conjuntamente com o autor do livro original, Peter George – e até segundo sugestão do próprio. É um registo nada habitual na filmografia de Kubrick.

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George C. Scott e Stanley Kubrick, num dos vários jogos de xadrez que jogaram no set – Kubrick era, segundo consta, um exímio jogador.

A decisão de abordar a guerra pela sua dimensão absurda abriu a porta a outra gama de comentários, subversivos e não explícitos: do início ao fim, Dr. Strangelove está pejado de referências sexuais, desde visuais alusões fálicas, aos nomes dos intervenientes, a subentendidas hierarquias de domínio da virilidade sobre personagens efeminadas; note-se também que há apenas uma mulher no filme, que cumpre mero símbolo de objectificação sexual. Curiosamente, este filme chega após Stanley Kubrick adaptar Lolita ao cinema; não esqueçamos que a obra de Vladimir Nabokov é referência maioral na temática sexual, e um dos grandes exemplos de arte moralmente desafiadora. Das grandes performances do filme, há duas obrigatórias menções: primeiro, George C. Scott no papel de um general imaturo, lascivo e devoto da destruição, cuja fisicalidade exagerada é um autêntico deleite (sabe-se agora que considerou a sua prestação algo ridícula, embora lhe tenha sido expressamente pedida por Kubrick); e segundo, o impressionante Peter Sellers (que havia estado em Lolita também), que se desdobrou em três (!) personagens diferentes, e chegou a improvisar vários dos seus diálogos, incluindo a cena final.

Dr. Strangelove é ainda um caso paradigmático da conhecida meticulosidade de Stanley Kubrick com a veracidade dos seus cenários. Quando, por cortesia, alguns pilotos da Força Aérea americana foram convidados a espreitar o cockpit fictício criado em estúdio, ficaram “brancos de espanto”; no dia seguinte, Kubrick enviou uma nota a Ken Adams, o produtor do set, para se certificar que “toda a informação utilizada foi retirada de fontes legais”; doutra forma, poderiam “ter problemas com o FBI”. Outro caso: a “war room”, um amplo pavilhão onde se desenrola a narrativa da estratégia de guerra, tornou-se uma fabricação tão plausível e enraizada no imaginário americano que Ronald Reagan, em 1981 e numa tour da Casa Branca já depois de entrar em funções presidenciais, pediu que lha mostrassem; desiludido ficou por saber que, na verdade, a sala nunca existiu.

Anos depois, soube-se que Stanley Kubrick replicou fielmente alguns procedimentos e ideias às quais nunca teve acesso. E duma forma mais abrangente, conseguiu capturar a absurdidade da tensão na Guerra Fria e as suas mais que prováveis consequências. Por tudo isto e muito mais, Dr. Strangelove é um óptimo filme para inaugurar o ciclo de cinema. Poucos cineastas gozaram do estatuto de Kubrick, e também poucos produziram tantas obras de relevo durante a sua carreira. O seu apurado sentido de humor e a vontade de arriscar tornaram a sua filmografia num óptimo ponto de partida em direcção a um maior entendimento do cinema como arte. E é esse, de resto, também um dos objectivos desta iniciativa.

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