Alguns discos que recordaremos do ano passado.

Um projecto de rádio que mantenho, ainda que a muito custo e com regularidade parca, obriga-me a acompanhar a música que cada ano nos vai oferecendo. Uma enorme torrente de discos aos quais raramente concedo a atenção devida; infelizmente, o nosso tempo é cada vez mais limitado. Por isso, apresento não um compêndio objectivo e ordenado de discos, cuja relevância se esvanece em comparação com tudo o que faltou ouvir, mas uma lista de trabalhos que me encantaram, embora muito, muito, tenha ficado por ouvir.

Radiohead – A Moon Shaped Pool 

088055831Seria quase herético não mencionar estes britânicos, assumidamente os responsáveis pela minha melomania. Depois de The King of Limbs, este é o segundo álbum que lançam já sendo eu um fã; no âmbito da restante discografia, é o nono. Qualquer que fosse o conteúdo, serial sempre parco quando comparado às altíssimas expectativas que o aguardavam, depois da misteriosa campanha que encetaram, e porque deles sempre se espera o extraordinário. Ouvi-o deitado. “Será disto que eu preciso, um novo disco dos Radiohead?”. Talvez sim. Talvez, até, do rumo que quiseram seguir: Daydreaming, na sua toada minimal e melancólica, define por extensão esta fase da banda, que não se entrega em cruzadas energéticas como os ouvimos em OKC ou HTTT, e dela sobressai um desejo de pausa, de acalmia. Chegámos, com eles, à catarse, como que uma reflexão do que para trás ficou; e contemplamos. É música de cair o pano, banda sonora para o esquecimento, e não a dor, de uma despedida. Fecha-se o ciclo como poucos imaginaram: True Love Waits, a elusiva canção que apenas fora editada no ano de 2001 num disco ao vivo, soa-nos belíssima, e apropriada. Ainda muito ficou por dizer sobre isto; não sei qual será o lugar deste disco daqui a um ano, ou cinco, ou dez; mas é bom tê-lo por cá.

Kero Kero Bonito – Bonito Generation

kkbTodos os motivos para a inclusão deste grupo no melhor do meu ano foram previamente escrutinados, ou aludidos a, num texto anterior, pelo que recomendo essa leitura. Os Kero Kero mantêm inevitáveis afinidades com o colectivo PC Music, e nota-se os traços comuns no à-vontade com que se movimentam na pop e nas suas manifestas contradições. Em suma, tudo neles é delicioso: Bonito Generation é o disco que abrilhanta o nosso dia; a música pop que, com o auxílio de um trampolim imaginário, suspende o nosso imediato e nos põe, qual realidade aumentada, num outro sítio onde nada mais importa. Parece mentira, mas eles são um caso incrivelmente sério, e vale a pena vermos o mundo pelos seus olhos; no sentido contrário, fazem o convite através dos nossos ouvidos. Ao aceitá-lo, transformei um par de semanas deste ano nas mais coloridas de que tenho memória.

Blank Banshee – MEGA 

a0838514060_10A sua identidade é uma incógnita, mas o nome Blank Banshee remete automaticamente para a nebulosa linhagem do vaporwave, um epíteto musicalmente impreciso e cujas ramificações se tornarão mais distintas apenas com o correr do tempo – ainda assim, este produtor sempre actuou na periferia da estética facilista à qual surge frequentemente associado. Em MEGA, soltam-se-lhe as estribeiras e a máquina ganha vida, num ímpeto ora furioso e descontrolado, ora apaziguado em sequências melosas, ainda que esteticamente desconcertantes. É tudo sobretudo uma jornada electrónica, com ecos de trip-hop na sua estrutura musical, em permanente balanço no abismo que atiraria este trabalho para o abstracto; é neste equilibrismo que se evidenciam as afinidades que mantém ao supramencionado vaporwave.

Frank Ocean – Blonde

5f06f7f6Passaram cinco anos desde Channel Orange, o disco que cimentou, em definitivo, o seu nome como um dos valores a seguir na música moderna – e, com ele, a revelação que desde então é indissociável da sua persona artística, em forma de carta para todo o seu auditório: o mundo inteiro. O silêncio seria finalmente quebrado com o lançamento (em streaming!) de Blonde, apenas um dia depois do vídeo-disco Endless, com uma edição física exclusiva que veio acompanhada de uma revista – tudo criado pelo músico. Por tudo isto, Frank Ocean é um caso de estudo, um artista que, talvez apenas rivalizado por Kanye West e bem mais unânime que este, tem o mundo aos seus pés. Blonde reflecte isso mesmo. É um trabalho esquivo, estranho e desconfortável: não o esperávamos tão parco, despido do encantamento instrumental de Channel Orange, tão sozinho sob tão enorme holofote. Ele canta, susurra, e dobra rimas, e mais não fez porque não quis: este é o seu domínio. Muito mais se poderia dizer sobre Ocean. Ouçamos a sua música, e faça-se silêncio: tanto o quis, nestes últimos anos, já o teve, e sob ele já partiu outra vez.

Chuck Person – Chuck Person’s Eccojams Vol. 1 (2016 Remaster)

maxresdefaultEsta é uma pequena batota: o trabalho original data de 2010, mas esta é uma versão remasterizada lançada digitalmente no Bandcamp do autor. Ademais, é perfeito pretexto para lembrar as bases do vaporwave, que muito devem a estes Eccojams, obra de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), que actuou sob o pseudónimo Chuck Person. O termo – como já mencionei – alberga uma série de correntes e tropes; aqui, aponta-se à reciclagem de música pop e à sua reapropriação (escangalham-se Fleetwood Mac, os Toto, e Michael Jackson, entre outros), e quando se ultrapassa o nível irónico e de meta-referência, chega-se a uma outra construção, erigida no desconcertante marulhar da música que já não o é, e deixamo-nos ficar. A distinção entre exercício formal e prazerosa experiência reside na vontade de quem ouve; é também devido a essa simultânea dicotomia que o celebro neste top. (PS: em 2011, salvo erro, o músico actuou pertíssimo de mim – não me perdoo a falta de comparência nem a gorada oportunidade de trocarmos palavras).

Kanye West – The Life Of Pablo 

the_life_of_pablo_alternateAs minhas impressões sobre Kanye West poderiam ser as mesmas usadas em Frank Ocean, trocados apenas os “silêncio” por “escarcéu”, “sozinho” cedendo a “por todos rodeado”: são dois artistas extremamente pouco ortodoxos e que fizeram de 2016 um ano bandeira, mas que parecem viver em estados opostos de espírito. Confesso que The Life of Pablo não me convenceu verdadeiramente, transparecendo uma execução aparentemente degraus aquém da ideia original: desde o seu caótico lançamento, foi várias vezes actualizado (com alterações na lista de músicas e nelas próprias – caso inédito?), e surge como uma enorme manta de retalhos. Obviamente, poder-se-á considerar que isto é, também, parte do acto: um disco em constante mutação, obra intangível, reflexo do turbilhão criativo e emocional de quem o pariu. Talvez seja. Talvez não. Mas Kanye já nos pregou a lição: ele não quer saber, e aponta a um limite que está bem além do céu.

Além destes nomes, que resumem brevemente as maiores fixações lançadas neste ano que agora terminou, quero destacar ainda mais alguns trabalhos: Bruno Pernadas, com o seu lançamento duplo que se constrói, com muita liberdade e irreverência, no mundo da música pop (mas não comercial, o que demonstra a enorme diferença entre os dois termos) e do jazz; Alex Zhang Hungtai, músico do extinto projecto Dirty Beaches e que se radicou há uns anos em Portugal, é autor de Knave of Heart, um belíssimo disco de pequenos ensaios ao piano, parcos, minimais, e tingidos por alguns field recordings que servem quase uma função narrativa, é um disco que parece dialogar com Ambient 1: Music for Airports (logo, até, na sua primeira faixa, que alude a uma sala de espera), carregando na herança musical uma emoção que não está presente no disco de Brian Eno; Dean Blunt voltou à carga com dois trabalhos no projecto Babyfather, a continuar a toada misteriosa e desconcertante que marcou a sua carreira até agora; e, por último, Paul Jebanasam e Continuum, um registo experimental e abstracto, absolutamente obrigatório, e que foi indubitavelmente o momento mais alto do SEMIBREVE deste ano.

Para terminar, houve nomes aos quais, por questões de disponibilidade ou esquecimento, não dediquei muita atenção, e por isso omito qualquer opinião (por vezes precipitada) que possa ter sobre estes.

Anúncios

Os Kero Kero Bonito, e porque devemos prestar-lhes atenção.

kkbEntrevemos na arte interpretações que a elevam e validam como prazerosa experiência. É um processo habitual, pessoal, e universalmente praticado: identificamo-nos com personagens, reprovamos as suas acções, sofremos, secretamente, em favor de uma possível narrativa. É humano. E no entanto, alguns tentam evitá-lo; incumbir à arte o peso das nossas quezílias será, eventualmente, uma profanação da sua singular existência no nosso mundo sensível.

Posto isto, também tudo pode ser uma tremenda chatice. E, aí, danem-se as teorias que enquadram o cinema como microscópio político-social; olvide-se o cânone literário que promete a transcendência intelectual: por vezes, saturados de pensar, nada mais desejamos que a simplicidade. Mas ocorre, também, sermos surpreendidos pela falsa elementaridade de um objecto básico e inocente, para mais tarde aferirmos, estupefactos, a sua textura, densidade, e múltiplas perspectivas.

Esta introdução pretensiosa, de um objectivo superior, resume um problema milenar. Simultaneamente, serve-nos para falarmos de um dos mais entusiasmantes projectos britânicos dos últimos tempos: chamam-se Kero Kero Bonito, são britânicos e profundamente influenciados pela cultura asiática, e acabam de lançar o seu segundo disco, Bonito Generation. Quem são eles – e porque devemos prestar-lhes atenção?

O primeiro contacto com Bonito Generation dá-se com a capa de cores garridas, que envolve, em amarelo vibrante, a vocalista em traje de finalista universitária; será um dos temas amplamente explorados no disco, e principalmente em Graduation, um dos seus singles, impulsionado pelas dúvidas existenciais da estudante: These are the best days of our lives / That’s what the grown ups told us, right?”, dividida entre a maturidade – o diploma académico – e ainda uma ingenuidade que muito deve à infância, como se nota, um pouco mais tarde, no desajeito que caracteriza as suas palavras finais à escola: “Hey teacher! Leave those kids alone”, um caricato e assumido call-back à música dos Pink Floyd. Não saber que portas abre, no futuro, um diploma académico, é absolutamente contemporâneo e um dos grandes problemas do mundo globalizado.

Essa análise ficou a cargo da vocalista Sarah e das suas letras: simples, e embora não necessariamente confrontacionais, trazem temas caros à coming-of-age e ao quotidiano moderno. Break reclama o poder de fazer uma pausa – quem nunca o desejou, na azáfama que constitui grande parte dos nossos dias? -, Try Me desenrola-se durante uma entrevista de emprego e enuncia as várias qualidades do pretendente, onde coexistem o banalíssimo teamwork ao lado de, atentem bem, capacidade de organizar festas, e Hey Parents, faixa que termina Bonito Generation, é um diálogo com os pais, uma chamada a longa-distância já depois de abandonado o ninho dos progenitores. Quando, em várias alturas, esquece o inglês para lembrar a língua nipónica, não nos prendemos nos detalhes e seguimos a onda; é também mais uma característica da irreverência camaleónica do grupo.

Esta liberdade – de poder, sem prejuízo da sua credibilidade, ser infantil ainda que no contexto de algo real – é-lhes permitida, antes de um qualquer outro motivo, devido ao que aqui é alcançado musicalmente. Bonito Generation é um muito maduro disco pop, que chapinha sem pudor no enorme charco sujo dos seus truques e tropes, onde tudo vale desde que nos chegue carregado de açúcar. Aqui, temo-los quase todos: a cândida voz feminina, os refrões maiores-que-a-vida, a leviandade das letras, a acessibilidade dos instrumentais. Gus e Jamie, os dois artistas encarregues do som envolvente – e, um deles, dono de um respeitável repertório de camisolas de futebol – fazem-no com a melhor das intenções, e erguem os alicerces para um mundo inócuo, e quase utópico na sua incomensurável candura.

É uma postura na qual nem todos os artistas pop se revêem: a música tem que ser divertida e, em certa medida, viciante; mas podem divertir-se, também? E, mais ainda, divertir-se à custa da sua própria música e da estética associada – uma auto-referência?

Ouçamos a música que abre o disco, Waking Up, que nos fala do penoso processo de começar o dia. A dada altura, dentro da narrativa, abre-se a possibilidade de tudo o decorrido ser um sonho: então, a música acompanha a toada e transporta-se, por meio de um truque de produção, para um sítio mais distante, e irrompe um absolutamente despropositado momento solo de flauta (!), talvez uma paródia das próprias fórmulas de composição; ainda se ouve, depois de tudo isto, uma interjeição de Sarah, surpresa e satisfeita com toda esta brincadeira. Na seguinte, e como acontece com muitas outras no disco, surgem sons a propósito da letra: o barulho de um carro a travar, a dúvida de alguém, em diálogo directo com Sarah, ou o miar de um gato quando, em Graduation, surge a referência. Aproveita-se a estrutura da pop e levam-na mais longe, sempre com o cuidado de não sobrecarregar o som e a própria piada.

Trampoline, o maior single, poderia sintetizar tudo isto: fala-nos de um trampolim, metáfora que encaixa em infinitas intepretações, e das maravilhosas, extravagantes piruetas possíveis; em simultâneo, é um dos maiores bangers do ano, com um outro ridiculamente simples e eficaz, onde soa repetidamente “bounce!”, em diferentes tons, do normal ao chipmunk. Palavras pertinentes, sim: mas Bonito Generation é, de facto, um excelente disco pop e uma melhor ainda companhia para os dias menos bons.

Em suma, Bonito Generation é um disco que se propõe, à imagem das bem-intencionadas missivas de outros do género, a servir como música simples, talvez ainda uma distracção escapista ao nosso quotidiano. A sua pertinência não nos confronta, nem apazigua, mas não se coíbe de cristalizar a nossa era por meio das suas mais notáveis características: somos a sociedade do cansaço, possivelmente a mais egocêntrica até agora, e profundamente inquietos em relação ao nosso futuro. O confronto com essa realidade dá-se quando transportados para o hermético  mundo por eles criado. Será esta a missão da música pop, em geral, e este é um dos melhores trabalhos que se fizeram, nesse âmbito, no último ano.

Edição 91 – Nomes dos anos 80, o novo de Tim Hecker, e a dor de Heather Leigh.

Mais uma emissão d’A Mosca!

Para dar início às hostilidades, os ‘sons futurísticos’ de Sun Ra, com um dos registos mais antigos e simultaneamente acessíveis do grupo. Data de 1961, e foi gravado maioritariamente com Sun Ra ao piano.

Depois, dedicámos algum tempo aos anos 80 e à pluralidade de tendências deste período. Chamámos os Tom Tom Club, grupo afecto aos Talking Heads e com o qual partilha alguns membros – e muita da sonoridade densa e declaradamente rítmica; os The Cleaners from Venus, e a belíssima Wivenhoe Bells II, do disco ‘Cleaners from Midnight’ (1982),  que nos convida a revisitar a sua extensa carreira num futuro próximo; os Minutemen, nome marcante do rock alternativo americano, dividido entre a estrutura punk à la The Wire e a vontade de explorar outras texturas tão predominante no pós-punk. Podiam ter sido a sugestão da Porto Callingque desta vez nos trouxe os Tuxedomoon e a sua In a Matter of Speaking, do disco ‘Holy Wars’ (1985).

Ainda antes de passar à música mais experimental, recordámos um disco dos The Zombies, ‘Odessey and Oracle’ (1968), cujas músicas são um autêntico hino à pop densamente orquestrada – chamam-lhe pop barroca.

A passada semana fica marcada pelo lançamento do novo trabalho de Tim Hecker, que opera as texturas que já vinha a descobrir no seu disco anterior, ‘Virgins’ (2013). Deste novo ‘Love Streams’ (2016) ouvimos duas músicas. É um belíssimo disco. Para terminar, um trabalho devastador de Heather Leigh, que aqui colabora com Peter Brötzmann. Ela canta e usa a guitarra, ele toca o saxofone, e todo o disco está imerso numa sempre presente dor que Leigh vai tentando exorcisar. Foi a melhor forma de terminar esta emissão, e muito se recomenda que a ouçam até ao fim. Que belo momento!

Voltamos para a semana! Na madrugada de sexta-feira para Sábado, com a emissão em directo na Rádio Lisboa, e no Sábado seguinte com a emissão 92 do programa. Até já!


91

Edição 90 – Feminismo dos Le Tigre, desafios à pop, e electrónica espacial.

Mais uma edição d’A Mosca!

Começámos com a recentemente recuperada música de Ata Kak, pseudónimo artístico do rapper (num sentido muito abrangente da palavra) Atta-Owusu; a sua história é interessante, assim como o é em igual medida a sua música – uma mistura de rap, música americana dos anos 90, e sons tradicionalmente africanos. Seguiu-se a interventiva música dos Le Tigre, histerismo punk q.b., cujo álbum de estreia de uma curta carreira é um poço de boas memórias e música muito divertida.

A sugestão da Porto Calling leva-nos ao imaginário do poeta/músico John Cooper Clarke, intimamente ligado à cena punk, que nos canta I Don’t Want To Be Nice no disco de 1978, Disguise In Love. 

Depois, entramos em território mais arriscado. Recuperámos um disco de 2015, Forgiveness, dos misteriosos Goodbye que parecem não ter muito interesse em fazer música fácil – embora pareça que conseguiriam, bastando querer. Apelam à electrónica dissonante e experimental – chega, por vezes, a ser abrasiva – sem nunca perder de vista a noção musical da pop. O resultado é estranho, mas estranhamente chamativo: o disco tem uma mão cheia de excelentes músicas, das quais ouvimos duas óptimas amostras. Além disso, ainda houve tempo para ouvir uma música dos 18+, um grupo muito interessante e extremamente crítico dos cânones estabelecidos da pop.

Dada a entrada na electrónica, daí não mais saímos até ao final da emissão. Fomos ao baú buscar dois nomes que marcaram o panorama da electrónica experimental da década de 60: primeiro, os Silver Apples – que até começaram como um projecto de rock – e o uso de instrumentos da física, os osciladores, na sua música; segundo, os White Noise, grupo britânico que contou com a participação de Delia Derbyshire em algumas das composições. Estes últimos estiveram intimamente ligados às experiências da BBC Audio Workshop, e o seu disco An Electric Storm é um portento no que toca a colagens sonoras, e todas as técnicas que na altura eram possíveis com a manipulação de fitas (diz-se, até, que este disco tem mais cortes que o Sgt. Peppers!).

Para terminar, fomos brevemente assaltados pela melancolia de John Cale, ex-Velvet Underground, e uma quase balada do seu disco A Music For a New SocietyFoi a melhor forma de terminar esta semana.

Voltamos em breve, com mais uma emissão; até lá, esperamos que se divirtam muito com esta!

90.png

The Big Short – Adam McKay

Todos os anos, por esta altura, coincide o calendário cinematográfico com a entrega dos mais mediáticos prémios de Hollywood – os Oscars. E por isso, embora estejamos algo atrasados em relação aos Estados Unidos, são estes os meses mais apropriados, e aconselhados, para visitar as salas de cinema em Portugal. Falo das grandes cadeias, claro, porque as mais pequenas, e nos quais incluo os cineclubes, profissionais ou amadores, são muito mais consistentes, e em melhor serviço da sétima arte, ao longo de todo o ano. Divago.

De entre todos os filmes que têm feito mexer as nossas expectativas – The Revenant, do mexicano Alejandro González Iñárritu, que conseguiu converter Hollywood à sua visão de blockbusterCarol, de Todd Haynes, do qual há muito ouço falar maravilhas; Room, de Lenny Abrahamson, que já por aqui passou e convenceu, etc. – havia ainda um que se propunha a contar uma história verídica, como tem sido moda ultimamente, sobre o maior escândalo financeiro dos últimos anos,  ou  desde que Wall Street se tornou uma autêntica máquina de mexer e fazer dinheiro.

TheBigShortCSHeader

The Big Short parte de uma premissa interessante. A não ser que nos últimos anos tenham vivido numa bolha, saberão decerto – ou pior, terão até vivido – as consequências do choque da falência bancária das maiores instituições americanas. Elas caíram e como um efeito dominó, provocaram danos que ricochetearam para o resto do mundo globalizado, afectando outras instituições financeiras. Os ecos sentiram-se na Europa, como também em Portugal. Por isso, The Big Short aproveita uma história verídica, e simultaneamente, sem perigo de redundância, real: é uma história sobre o hoje, o presente, na qual somos visados e temos também uma palavra a dizer.

Tendo uma narrativa, que é naturalmente cativante, põe-se uma outra questão, sobremaneira importante no cinema: como a apresentar? A opção do realizador Adam McKay, alguém com trabalho feito na comédia, recaiu sobre não se levar demasiado a sério na parte dramática/documental, nem perder as estribeiras de forma a que a sua forte mensagem não transparecesse em entrelinhas cómicas: deambula neste “terreno de ninguém”, quebrando a fourth wall com explicações culinárias do chef Anthony Bourdain, e sem medo de introduzir, e explicar, algum jargão técnico financeiro. Funciona perfeitamente neste formato, que não sendo completamente dramático, nem cómico, está sólido. Completo. Quanto ao elenco de estrelas (Brad Pitt, Steve Carell, Christian Bale, e Ryan Gosling), podia ter-se feito bem mais. Carell brilha, Bale quase surpreende, e os outros cumprem. Não há problema.

Especulo, por  momentos: o sinal verde para a realização do filme terá beneficiado do sucesso de outros projectos, tanto de cinema como de televisão, entre os quais incluo necessariamente a série da USA Network, Mr. Robot.  Não sendo fã do resultado final, confronta frontalmente a sociedade actual e a própria demografia para a qual estava direccionada, em moldes não comuns nas grandes cadeias de produção americanas. Talvez não haja nenhuma correlação, mas há alguns pontos comuns entre os dois: esta abertura para falar de questões fracturantes, sem papas na língua, e com um apurado sentido de moralidade. Aqui, não é a audiência que escolhe um lado, como é usual, entregando ao filme a responsabilidade de que se estabeleça uma relação emocional entre nós e as personagens – aqui, nós, a audiência, somos esse lado,  escolhidos pelo filme. A ligação emocional está feita, porque é uma história sobre nós e o nosso tempo, e é explorada visualmente através das vinhetas reais (que são preponderantes, também, em Mr. Robot), que foram captadas no mundo real (não-ficcionado).

The Big Short está um passo além do típico drama baseado em factos reais, porque é inteligente na forma como se sustenta nesses factos; apresenta-nos as questões essenciais de uma forma prática, sem complicar nem perder o interesse do público – que, afinal, quer entretenimento, e não uma aula financeira; e, por último, dramatiza com eficácia toda a situação, para que tenha sucesso comercial. Ganhou a aposta. Temos filme!

external

P.S.: a não esquecer, porém, que The Big Short não é um documentário. Sobre esta matéria, há um bem interessante e naturalmente completo: chama-se Inside Job (2010), da autoria de Charles H. Ferguson.

Making a Murderer, o novo trunfo do império Netflix.

Making-a-Murderer

Depois de Narcos House of Cards, chega-nos Making a Murderer, uma série da Netflix, estilo documentário, sobre os casos jurídicos que levaram à prisão de Steven Avery – e que suscitou, entretanto, reacções de cerca de 300.000 pessoas, e uma declaração da Casa Branca. Como tem sido política da distribuidora americana, todos os 10 episódios já estão disponíveis e é possível vê-los em regime de binge-watching – isto é, tudo de uma assentada.

À semelhança do que aconteceu com The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst (da HBO), não me alongo (muito) sobre os pormenores da história; muito do impacto de Making a Murderer vem, precisamente, de pouco ou nada sabermos sobre o que realmente aconteceu naquela altura. O que faço, é analisar mais a fundo o que realmente esta série traz de novo, as suas implicações, e, mais subjectivamente, a sua qualidade. Se ainda não a viram – e, mais importante, se querem vê-la sem qualquer ideia do que vai acontecer -, não leiam mais a partir daqui. De qualquer forma, não entro em grandes detalhes.

A série foi escrita e produzida por duas jornalistas, Laura Ricciardi e Moira Demos, num formato que recupera gravações em áudio e vídeo desde 1985 a 2010. A pouco e pouco, e com as várias intervenções das pessoas visadas nos casos judiciais, constrói-se a história de Steven Avery, um cidadão do condado de Manitowoc que, depois de alguns problemas com a justiça (entre os quais, um roubo a um bar e crueldade animal), é erroneamente acusado de ter violado uma mulher, e passa 18 anos na prisão. Segue-se a exposição de uma convoluta história entre a polícia de Manitowoc e as provas que levaram Avery a ser declarado culpado; mais tarde, em circunstâncias pouco claras, surgem novas provas que o ilibam do caso, e, assim, é-lhe restituída a liberdade, e faz-se justiça. Tudo isto acontece nos dois primeiros episódios. Os oito restantes dedicam-se a uma segunda fase da sua vida, novamente acusado pelo estado de Manitowoc, onde, mais uma vez, Avery alega a sua inocência. Desta vez, é-lhe atribuída a responsabilidade do desaparecimento, e posterior homicídio, de Teresa Halbach.

9JNtX9dPosto isto, Making a Murderer é uma interessante escolha semântica para o título da série, que joga com duas possibilidades: por um lado, admite que Avery seja culpado, e atribui a sua hipotética perversão ao estado de Manitowoc pela tortura mental dos 18 anos no cárcere; por outro, subentende que a polícia do estado terá fabricado um caso para o prender, e, assim, retirar-lhe a choruda indemnização que lhe era devida pela erróneo julgamento da violação. Levanta-se, no entanto, um outro problema: é Making a Murderer realmente isento no relato dos acontecimentos?

No fundo, repetem-se os problemas que expusemos, há quase um ano, com The Jinx: o documentário acusa uma certa tendência para favorecer a história de Avery, e fá-lo através da omissão de certa informação, e, num campo mais técnico de cinema, no abuso do poder da edição. Em The Jinx, o último episódio ficou marcado por claras incongruências na linha temporal da história; aqui, há algumas cenas no tribunal que foram editadas por forma a justapor certas reacções com a exibição de provas determinantes. Não é grave, mas o acumular destes pequenos pormenores retira alguma credibilidade ao documentário, e contribui para o sensacionalismo que implicitamente critica.

Isto, porque além da dramática história de prisão de Steven Avery, as jornalistas captam mais uma série de momentos e ideias que completam, por assim dizer, o quadro da vida em Manitowoc e, por extensão, da própria América. Os Avery são gente pobre e de pouquíssima educação, sem uma grande compreensão dos processos judiciais nem meios para inverter essa situação. “The poor always lose”, diz Steven, a dada altura, e nós anuímos, relutantemente. E como se não bastasse, temos ainda o evidente abuso dos media num relato jornalística e eticamente condenável, e o seu papel na formação de opinião de um país. Poder-se-á dizer que Avery foi julgado sem o direito à presunção de inocência. E acredite-se, ou não, na sua versão dos factos, fica para a posteridade a denúncia dos comportamentos muito duvidosos, alguns a roçar a corrupção, da polícia responsável pelo caso.

Nos últimos tempos, séries como Serial (exclusivo em podcast) e The Jinx têm recuperado uma tradição de true crime documentary que teve os seus pontos áureos com The Staircase, ou mesmo a antiga The Thin Blue Line. Ignorando todas as possíveis falhas que lhes atribuamos – nomeadamente, que colocam ao público uma versão normalmente adulterada dos factos, contribuindo para a desinformação, e, por consequência, para o mesmo problema que pretendem criticar -, têm levantado várias questões sobre a fiabilidade do actual sistema judicial e de possíveis casos de corrupção na justiça. Fazem-no, claro, de uma forma acessível e interessante, mas nunca nos esqueçamos que são histórias reais e vividas. Só assim, com esta pequena barreira quebrada, é que Making a Murderer proporciona algo mais que entretenimento. Será um dos marcos deste 2016, em mais uma produção Netflix.

juror-in-making-a-murder-case-told-filmmakers-steven-avery-was-framed-1452106022