08/09 – Holger Czukay, os Can, e a história que há entre eles.

A primeira emissão de Setembro – e de uma nova temporada, se lhe quisermos chamar assim – é dedicada a um dos músicos preferidos d’A Mosca; infelizmente, havia-nos deixado no início deste mesmo mês. Holger Czukay fundou e integrou durante vários anos os Can, grupo seminal do krautrock, de influência transversal e ainda presente. Por isso, preparámos uma hora de influências prévias, trabalho de banda, e experiências a solo e com outros amigos, com o objectivo de expôr a diversidade da sua obra.

Por isso, partimos dos Velvet Underground e dos Beatles, duas importantíssimas referências para imensos músicos, e em particular para Czukay. Segue o próprio, à conversa com Richie Unterberger: “The influence, for me, of Beatles and Velvet Underground was most important. The Velvet Underground especially. They had something achieved which others didn’t achieve. Even Jimi Hendrix didn’t achieve [what they did]. One could have the opinion that this group is not able to play really properly right. They didn’t get the right rhythm, they couldn’t make a real tight rhythm. But the music was incredibly convincing”.

Fica entendida parte da sua influência. Porque a outra virá de um espectro musical completamente diferente: Karlheinz Stockhausen, compositor de extraordinária relevância no século XX – e havemos de o mencionar daqui a umas semanas uma outra vez, devido à sua influência no noise e outras abordagens à música -, com quem Czukay se cruzou nos seus estudos académicos. Na primeira pessoa, Czukay escreve um pouco sobre Stockhausen e as suas ideias, e destaca-se a seguinte ideia: “He wanted to create a type of music that had never been heard before. I thought then, and think now, that Stockhausen was a hero, and his music the centre of the world.” E, durante a emissão, todo o momento foi subtilmente musicado pela sua Gesang der Jünglinge & Kontakte.

“Stockhausen, however, couldn’t handle pop or rock music – it was not his field. And his music is mainly scored. In my group, Can, we did exactly the opposite: we improvised everything – performed with an “empty head” – and composed the music afterwards by editing the tape. The six musicians on stage were using radios as instruments, with Stockhausen sitting in the middle of the group mixing the audio like a DJ and making something out of it. What was important was not finding the right station; it was the fact of searching.”

Czukay formará os Can em 1968, já ciente de algumas ideias basilares na atitude da banda. A sua atitude perante a composição – sempre em busca de motivos, e não necessariamente de canções – privilegiava uma forma distinta de fazer rock, recorrendo à colagem e à manipulação de fita. Dos seminais, ouvimos excertos do primeiro disco Monster Movie, ainda com Malcolm Mooney na voz, e depois os clássicos Tago Mago e Ege Bamyasi, até Soon Over Babaluma, todos estes já com a presença característica de Damo Suzuki. São um grupo extraordinário, e absolutamente recomendado a qualquer ouvinte do programa (Ege Bamyasi é um óptimo ponto de partida).

conny_holger-2
Conny Plank à esquerda, Holger Czukay à direita, numa fotografia de ano incerto.

A partir de 1978, os Can terminam. Há um período de indefinição na carreira de Holger Czukay – mesmo a nível criativo, pela habituação ao método do grupo – mas edita Movies no ano seguinte. Dá-se, nesta emissão, destaque a alguns momentos a solo e outras colaborações, com especial nota para a última: o disco Canaxis 5 foi o primeiro contacto com o nome de Czukay (embora a audição dos Can o tenha precedido em largos anos), e é uma impressionante experiência que remonta a ensinamentos de Stockhausen e a uma primordial vontade de construir música.

E, assim é. Num curto espaço de tempo, Jaki Liebzeit, percussionista dos Can, e Holger Czukay, também um membro fundamental, deixam o mundo um pouco mais pobre. Duas imensas figuras nucleares dentro da música relevante da década de 70, e referências obrigatórias para se perceber alguma da música que por aí pulula. Fica a homenagem, e a lembrança. Espero que gostem!

1. The Velvet Underground – The Black Angel’s Death Song (The Velvet Underground & Nico, 1967)
2. The Beatles – I Am The Walrus (Magical Mystery Tour, 1967 [remaster stereo 2009])
3. Can – Mary, Mary So Contrary (Monster Movie, 1969)
4. Can – Mushroom (Tago Mago, 1971)
5. Can – Spoon (Ege Bamyasi, 1972)
6. Can – Come Sta, La Luna (Soon Over Babaluma, 1974)
7. Holger Czukay – Persian Love (Movies, 1979)
8. Holger Czukay – Ode to Perfume – A Welcome (On The Way to the Peak of Normal, 1981) | sugestão da Porto Calling.
9. Holger Czukay, Jah Wobble, Jaki Liebzeit, The Edge – Sleazy (Snake Charmer, 1983)
10. Technical Space Composer’s Crew – Boat Woman Song (Canaxis 5, 1969)

czukay Mixdown 1

Anúncios

Música dentro do muro: Michael Rother sobre si próprio.

[ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE; FOTOGRAFIA DE HENRIQUE ALMEIDA; EM SUMA, UM DOS MAIS BONITOS MOMENTOS DA VIDA DA MOSCA]

entrevista_michael_rother6.jpg

Pensemos na Alemanha do início dos anos 70, ainda separada entre Este e Oeste como consequência da Segunda Grande Guerra. Um país separado no seu coração geográfico, Berlim; um povo dividido, sujeito a diferentes governos e influências. É, também, uma época especial por ter sido um pequeno micro-cosmos de excelente música, um caldeirão criativo que fervilhava em pequenas bandas e projectos artísticos. Se hoje, com reverência, falamos dos Kraftwerk, grupo seminal da electrónica, dos Can, dos NEU!, ou dos Faust – alicerces que ainda hoje são aproveitados, apreendidos e reciclados pelas novas gerações -, devemo-lo a um fenómeno que ultrapassa o simples acaso. Na altura, o frenesim não permitia apurar a singular importância do que se passava; a crítica britânica, vítima de uma falácia provocada pelo distanciamento à origem, chamar-lhes-ia a todos eles krautrock, uma piada (de algum mau gosto) que pegou e hoje designa genericamente os projectos alemães desse período sem grande utilidade na classificação da sua estética musical (que tão distinta é entre, por exemplo, uns NEU! e uns Popol Vuh).

Por isso, quando nos chegou a notícia do regresso de Rother a Portugal – já passou mais de um ano desde que actuou no Milhões de Festa, como relembrou, entre canções, no gnration -, chegar à fala com ele era tão ou mais importante que (re-)ouvir a sua música. Na época, a sua participação foi  crucial: afinal de contas, viveu aquela altura em todas as suas dimensões sociais e culturais. Integrou os Kraftwerk, os NEU!, e os Harmonia, e prosseguiu, depois, numa prolífica carreira a solo; além disso, conviveu com Klaus Dinger, Dieter Möbius, Hans-Joachim Roedelius, e chegou a estar apalavrado uma colaboração com David Bowie, à altura da sua trilogia de Berlim, que não se deu por questões alheias a Rother e afectas a problemas contratuais. Tudo isto recapitularemos: há muito para contar na história do alemão.

Vimo-lo depois do seu lanche de meio da tarde; uma figura de indumentária escura, com bons modos e trato. Por entre cumprimentos, foi informado do cancelamento de uma entrevista, e o seu gáudio, imediato, no qual se entreveio algum cansaço: “Que bom! Tenho feito tantas, mas tantas entrevistas, e têm sido dias cansativos… Estou um bocado cansado”. Rother, recordemos, é agora um sexagenário e tem calcorreado o mundo para interpretar alguns clássicos com outros dois músicos. Há uns anos, fez um excelente retrato da sua carreira para a Red Bull Music Academy, entrevistado por Hanna Bächer. Procurámos um local confortável, e escolhemos o átrio coberto do gnration.

entrevista_michael_rother2.jpg

Sentados, recordaríamos 1968, quando a Alemanha de Oeste estava mais próxima do mundo ocidental, e culturalmente ligada aos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Por esta altura, deu-se um fortíssimo protesto da comunidade universitária que reivindicava, entre outros, o despedimento de professores outrora com ligações ao partido nazi, o fim da guerra do Vietname, “e uma profunda preocupação com os direitos dos negros nos Estados Unidos”, relembra Rother. “Éramos muito próximos da América e tudo aquilo nos impressionava, assim como a brutalidade do Vietname. Não fazia sentido. Nessa altura, muitos dos meus amigos – que sempre foram mais velhos que eu -, escolhiam manifestar-se dessa forma. Eu tentei sempre seguir o outro caminho”. Este choque com a sociedade envolvente levou, entre outras coisas, a uma quebra assumida com os cânones culturais dos países de língua inglesa.

O caminho alternativo de Rother aparece recorrentemente, um que trilhou várias e de distintas formas ao longo da carreira, como uma negação à violência do nosso mundo. Pouco mais tarde, participaria nos primórdios dos Kraftwerk, seminal grupo da electrónica que, à altura, ainda direccionava a sua música a outras paragens (recorde-se um famosíssimo concerto na televisão alemã), onde conhecerá Klaus Dinger, e entabula-se entre eles uma química musical que terá expressão no primeiro disco dos NEU!, gravado em apenas quatro noites com o produtor Conny Plank. “Hallogallo”, faixa-chave do álbum, sintetiza nos seus 10 minutos o ímpeto cavalgante, o drive repetitivo, ambos características associadas aos NEU!, mas serão, porventura, fruto da influência da música paquistanesa em Rother, que caracterizou um dia como “uma interminável corrente de música em direcção ao horizonte”.

“Na altura não ouvia nada do que se passava à nossa volta e queríamos explicitamente romper com o que se fazia na América e na Grã-Bretanha”, diz-nos. “Era apenas eu, o Klaus, e o Conny, e experimentámos muita coisa: sem grande preparação, tocar e aferir o resultado. Na “Im Gluck”, por exemplo, o som da água é o Klaus e a namorada no meio do rio, a remar”. Uma impressão que reaparece em “Lieber Honig”, a fechar o disco, mais a guitarra solitária que acompanha a voz rumo a nada em específico – estão apenas , artefactos sonoros singulares que, posteriormente, se transformam em algo mais. Dinger, percebemos, foi como uma outra face da mesma moeda, um complemento às composições de Rother onde raramente se encontravam.

entrevista_michael_rother11.jpgEm concerto, constatamo-lo, com mais um guitarrista e baterista em palco, nos espectáculos que tem feito nos últimos anos: são, respectivamente, Franz Bargmann, que com os Camera ainda continua o legado do kraut, e Hans Lampe, colaborador de Dinger no seu projecto posterior, os La Düsseldorf. Exibindo o orgulho NEU!iano num autocolante do seu computador, recupera as composições mais melodiosas  – “Hallogallo”, “Neuschnee”, “E-Musik”, por exemplo -, e leva-as todas a bom porto; a elas, e ao público, de idades heterogéneas e com muitos a fazerem mais quilómetros que o habitual. Os NEU! têm ainda um repertório perfeitamente actual e musicalmente interessante, indo mais além do interesse histórico que algumas das composições terão.

Depois dos primeiros dois discos com Klaus Dinger, dá-se mais um acontecimento fortuito que o leva a juntar-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Möbius, os Cluster, na idílica Forst, Alemanha rural. Aqui, além de produzir dois discos – e ainda se editou um terceiro, já em 2007, com algumas gravações recuperadas das sessões com Brian Eno -, os três viveram em pacífica comunhão, longe da azáfama citadina e livres para tocar a seu bel-prazer. “Foram, de facto, tempos fantásticos. Éramos absolutamente livres e a natureza fascinava-nos: cortávamos lenha, cozinhávamos e ouvíamos os pássaros.” Hoje, é aí que Rother mantém a sua residência, e discorre sobre esses tempos, perdido entre as suas memórias, já esquecido da pergunta inicial: “Tocávamos quando queríamos e éramos muito amigos.” Inevitavelmente, recordámos Roedelius, que esteve em Braga no ano passado, e falou, também, dessa altura com reverência. “De todos, ele foi o que gostou mais, possivelmente. Foi, para ele, uma altura muito especial – ele romantiza muito esses tempos”. De Roedelius, rapidamente chegámos a Dieter Mobius, seu companheiro nos Harmonia e que viria a falecer no ano passado.

“Foi complicado. Eu não sabia que ele estava doente e foi tudo muito rápido. Ele era um óptimo músico, e um bom amigo. Com o Klaus, as coisas eram diferentes: ele era muito intempestivo, mais agressivo e nem sempre estivemos em bons termos.” Klaus Dinger, depois de NEU! 75, o terceiro do grupo gravado já depois do período em Forst, lançou-se, tal como Rother, numa carreira a solo; no entanto, desagradaria o seu colega ao editar, sem aviso prévio e em dúbias condições contratuais, um disco de gravações inéditas dos NEU!, no Japão. “Houve uma altura em que o Klaus queria muita coisa. Teve muitos problemas com drogas e sempre quis ser mais famoso do que era. Ele já partiu e a passagem do tempo faz-nos esquecer alguns pormenores enquanto glorifica outros. Dentro de mim, sinto que cheguei a uma paz com ele”. É a inevitável acção do tempo que leva à conclusão que Rother é, passados estes anos, um dos últimos da sua geração. E ele, claro, sabe-o. “Sim, é verdade…e é difícil, sabes, aperceberes-te que, com os anos, as pessoas de quem mais gostas vão desaparecendo. Simplesmente, é assim a vida –  ainda hoje, todos os dias, me lembro do Dieter e sinto-o presente comigo. E na minha música, também. É, talvez, uma forma de apaziguamento.”

Por isso, não podia deixar de revisitar o repertório dos Harmonia, mais informado pela electrónica e pelo ambient, onde se pode, a exemplo, em “Dino” constatar a inconfundível presença de Rother. São composições que, tal como a música da sua infância no Paquistão, parecem surgir já distantes do seu início e desaparecem sem ter chegado a um fim – existem, apenas. Depois, ainda a meio do concerto, há um momento revelador e que sintetiza o que Rother traz aos seus projectos: passando por Flammende Hertzen, o seu primeiro disco a solo, recupera a faixa-título, uma em que a guitarra, absolutamente expressiva, persegue uma melodia simples, aberta, e luminosa, quase como uma música folk em que a voz é, desta vez apenas, cantada em seis cordas. Na tela por trás dos músicos, surge a imagem, inofensiva e até algo pirosa, de um mar – estamos, ainda que não intencionalmente, num território extremamente kitsch.

Será essa uma preocupação para Rother? Cremos que não. Desde há muito tempo, assume abertamente que a única característica que julga importante na sua música é “que venha do coração”. Nos NEU!, esquivava-se à fúria indomável de Klaus Dinger e não se retrata na frenética “Hero”, onde Dinger canta a revolta contra tudo e todos – terá sido aqui, aliás, que Bowie bebeu ideias para a sua homónima “Heroes”; com os Harmonia, perseguiria uma via mais experimental, mas não resistiu a reduzir a abstracção e conduzi-los a terrenos mais concretos e melódicos em Deluxe, o seu segundo disco. Mais tarde, em nome próprio, ver-se-ia livre para praticar a sua música nos moldes predilectos, como o fez sempre na sua carreira, perseguindo uma música simples e bela, desprovida de grandes artifícios formais. Compôs e tocou sempre com vista ao horizonte; fez-se sempre acompanhar pelo ritmo assertivo e dominante.

O domingo em que ouvimos Michael Rother em Braga, trouxe-nos um dia nublado, não muito frio, e com uma permanente ameaça de chuva. A dada altura, já no final da nossa conversa – o músico teria ainda que se preparar para o concerto, e não pudemos falar sobre Brian Eno, a música a solo e a influência da sua música na Alemanha natal -, o telhado coberto, mas transparente, sob o qual nos sentáramos, ameaçava-nos com o ritombar da água em queda, cujo barulho, aumentado pela acústica do edifício, tomava proporções de dilúvio bíblico; de modo que nos custava ouvir Rother, tal era a interferência. O próprio aperceber-se-ia e lentamente remeteu a sua atenção para o fenómeno. Os olhos pareciam revelar que nunca ouvira a chuva daquela forma e até nós nos sentimos impelidos a contemplar o momento – a partir daí, dificilmente teríamos a sua atenção outra vez. “Que som bonito!”, cortando o silêncio – e assim ficámos mais um pouco. Ali aconteceu algo, som como música, como o fora antes o marulhar da água em “I’m Gluck”, mais um momento fortuito que poderia, para Rother, ombrear com “Hallogallo” ou os momentos musicais dos Harmonia, ainda na floresta de Forst.

entrevista_michael_rother8.jpg

O alemão é uma lenda viva, e respira vitalidade; está contente com o seu passado e orgulhoso do legado que deixou; como a sua música, parece-nos que Rother é um homem de prazeres simples. Nesse dia, muitos voltaram a casa satisfeitos com a música – intemporal e genuína, profunda influência para quase tudo o que ouvimos hoje. Houve história, e fez-se história, na nossa pequena cidade de Braga. Oxalá vejamos Michael mais vezes, e em breve.

A recusa da linearidade por Ulrich Schnauss.

[ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO ARTE-FACTOS]

A música, como qualquer outra forma de arte, tem uma componente cíclica na sua história, de géneros que se moldam a uma nova era, ou que reapropriam o seu passado. No imediato, analisar estas correntes é difícil, mas, com o passar do tempo, as linhas definidoras tornam-se mais claras. Esse distanciamento permite aferir melhor os seus contornos e ligar movimentos artísticos a acontecimentos históricos; perceber as influências é, simultaneamente, entender um pouco mais de uma dada obra.

Um dos bons exemplos da passada década reside no segundo disco do alemão Ulrich Schnauss., que se apresenta no próximo dia 12, num inédito concerto em Portugal, no Porto. Chama-se “A Strangely Isolated Place”, e foi lançado em 2003. Por alto, é um álbum de traços ambientais, que nunca se permite a ser demasiado contemplativo e melancólico. Junta-lhe uma componente rítmica, com imensas texturas electrónicas (“de várias cores”, como o próprio salienta) a cargo do extensivo uso de sintetizadores. Além disso, e a propósito do primeiro parágrafo, Ulrich bebeu imenso à estética do shoegaze, um género baseado na manipulação da distorção da guitarra, sempre no limiar entre a melodia e o ruído muito em voga nos anos 90. O som fica encorpado e expressivo. Foi uma adaptação inteligente e que lhe valeu uma crítica generosamente unânime em relação à sua produção.

Queríamos trazer de volta à electrónica uma componente de songwriting, porque, por essa altura, sentíamos que estava abstracta e glitchy”. O músico alemão está, neste momento, radicado no Reino Unido, donde nos fala pelo Skype – “Algo mais humano, mais melódico, e decidimos experimentar o shoegaze, porque já havia funcionado há 15 anos atrás”. O uso do plural implica mais músicos a fazê-lo, e ele prontamente enumera uma série deles, como se o seu trabalho, afinal, não se destacasse entre os demais. Nesta decisão estratégica, o sintetizador permitiu-lhe chegar à melodia na sua música, como uma parte manifestamente orgânica, em contraste com a electrónica mecanizada à qual se opôs. Além disso, há uma certa inocência retida nas suas composições, um deliberado apelo à emoção manifesta sem subterfúgios, que, por sua vez, a tornam mais acessível: o próprio já admitiu que a sua música sempre se pautou por ser escapista, e não confrontacional. E é uma decisão consciente, afinal. “Quando era miúdo, tive uma infância delicada. A música salvou-me porque era o meu porto seguro, quando colocava os headphones e ia para um outro lado. Quando comecei a fazer música, era como desaparecer durante 5 ou 6 horas de cada vez. E isso é terapêutico, e saudável, até” .

Ulrich-Schnauss

“No fundo, talvez queira apenas criar algo belo, que vai de encontro ao que nós apreendemos da realidade. […] Não gosto de coisas unidireccionais: algo que seja “apenas” negro, ou algo que seja “apenas” bom; gosto de coisas que sejam boas, mas um bocadinho “lixadas”. A vida não é como nas músicas do Justin Bieber, simples e linear. Muitas vezes, um “adeus” é também um “olá”. Um fim marca o início de uma outra coisa.”  Esta dicotomia remete-nos, novamente, à comparação com o shoegaze– um estilo de música melódico e ruidoso, como uma contradição que divide irmamente a nossa atenção.

A sua naturalidade alemã permitiu-lhe um contacto privilegiado com a história musical do seu país. O sintetizador goza de uma singular importância nos anos 60 e 70 da contra-cultura alemã (neste caso, o krautrock), quando, entre outros, Tangerine Dream e Kraftwerk os popularizaram. O resto do mundo reconhece a influência e o mérito artístico dessa corrente, embora, segundo Ulrich, nunca conquistou a Alemanha.“Uma das mais erradas ideias em relação à nossa cultura, é que os britânicos pensam que é igual à deles. No Reino Unido, tens várias cenas underground, que depois vazam para  o mainstream. Na Alemanha, podes ter um undeground fortíssimo, que isso nunca vai acontecer.” Resquícios, adianta depois, de “uma sociedade pós-fascista”. Na sua opinião, o Reino Unido e a sua multiculturalidade são mais tolerantes, e esse foi um dos motivos que o levou a assentar em terras de Sua Majestade. Para, em princípio, não mais voltar.

Dos artistas que preencheram essa contra-cultura, é inegável que uma das suas maiores influências tenha sido Edgar Froese, falecido recentemente, e mentor do projecto Tangerine Dream. O sintetizador é proeminente em álbuns como Zeit (1972),Phaedra (1974) e Rubycon (1975), que lançaram as bases que músicos como Ulrich explorariam anos mais tarde. “Conheci o Edgar há muito tempo, nos finais dos anos 90. Sempre foi uma das minhas maiores influências, e não só musicalmente: também em termos de ideias, de uma forma mais abrangente”. Acontece que, desde o ano passado, Ulrich Schnauss é integrante do grupo Tangerine Dream, e tem participado nos concertos da banda. “Estamos a trabalhar algumas ideias musicais que nos deixou antes de morrer, e estamos a dar o nosso melhor para que sejam fiéis aos seus planos para o futuro do projecto. Por enquanto, é responsabilidade suficiente sobre os nossos ombros.”

Ulrich-Schnauss-MIDI-Keyboard-Studio-Tour-Photo

De volta ao presente, resta-nos antecipar o seu próximo concerto na próxima quinta-feira, no Passos Manuel no Porto, em colaboração com a artista visual russa Nat Urazmetova, que utiliza pedaços de vídeo gravados um pouco por todo o mundo. No caso de Ulrich, nem sempre foi fácil a transposição da sua música orgânica para um contexto de concerto. No início, “usava uma música de fundo e improvisava um pouco por cima. Sentia que fazia batota. Agora, com os novos softwares, é-me possível utilizar loops pré-gravados e manipulá-los ao vivo. Depois, estando com audiência sentada, exploro mais um som ambient; ao contrário, num recinto em pé, permito-me a trabalhar mais a parte rítmica das minhas músicas”.

Para o futuro, há um novo disco quase a ver a luz do dia – e mais trabalho com os Tangerine Dream – que promete voltar a terrenos onde já foi feliz e dos quais, intencionalmente, se afastou. “Já fui mais confrontacional nesse aspecto; tenho uma tendência, quando noto que algo se torna trendy ou demasiado conhecido, de me afastar dessas sonoridades. Mas, de momento, já estou mais tranquilo. Neste último trabalho, recupero a espaços alguma dessa sonoridade. Até porque o álbum “Far Away Trains…” já foi há cerca de 15 anos. Estou pronto para voltar a essa estética”.Contando que Ulrich faça a sua música com o mesmo espírito livre que lhe pautou a carreira desde o início, sabemos, por certo, que valerá a pena acompanhar. Pode não nos levar aos mesmos sítios, mas será uma viagem igualmente prazerosa.

Roedelius à conversa com a Wire Magazine, em Braga.

Cole+Roedelius3_(Credit_Camillo Roedelius)

O Festival Semibreve vai na sua quinta iteração e esta parece ser, em definitivo, a sua afirmação como um evento de referência na música electrónica, experimental, e de uma forma mais abrangente, nas digital arts. Nesse sentido, reforçou o seu raio de acção nas instalações artísticas – como já o tinha feito nas edições anteriores – e, também, em colaboração com a publicação britânica Wire Magazine, a conversas em locais públicos com músicos convidados.

A primeira conversa teve como destaque Hans-Joachim Roedelius, e foi conduzida pela jornalista Frances Morgan. O local escolhido, a Casa Rolão (onde se firma a livraria Centésima Página) cedo se encheu de curiosos espectadores, e muitos deles estrangeiros, num ambiente realmente propício ao conhecimento e à troca de ideias.

Falou-se, sobretudo, do seu interessantíssimo e recheado passado. Roedelius, sempre num registo muito pessoal, privou-nos alguns pormenores sobre a sua carreira, as influências, as circunstâncias, e as intenções subjacentes aos álbuns que iam sendo mencionados; soubemos dos tempos vividos na floresta, a cortar lenha para sobreviver; das brincadeiras com Dieter Moebius, e do encontro criativo com Brian Eno. Segundo ele, a sua música funcionou, a espaços, como um diário de emoções. Reforçou, também, a simplicidade da sua música – que nem sempre o terá sido! – e a pureza que, passados tantos anos de carreira, continua a ambicionar. “I’m a big child!”, disse, já nas despedidas.

Ter Roedelius desta forma ao nosso dispor é uma tentação. Afinal, o seu nome é indissociável de um dos mais interessantes e influentes movimentos culturais, o krautrock, que se deu entre o final dos anos 60 e inícios dos 70. Erroneamente, costuma falar-se em género musical. Não o é, e torna-se evidente quando se escutam alguns dos vários projectos musicais que aqui proliferaram (Tangerine Dream, Neu!, Amon Duul II, etc.), porque não há uma clara definição ou padrão para a sua sonoridade; pelo contrário, o krautrock foi uma espécie de contra-cultura alemã, absolutamente underground e sem sucesso comercial, que nos últimos anos tem suscitado uma nova vaga de interesse. No caso específico de Roedelius, participou em imensos grupos importantes, dos quais destaco os Cluster, na companhia de Dieter Moebius (a não confundir com os Qluster e Kluster, grupos que têm Hans-Joachim como elemento comum, embora com discografias independentes entre si), e os Harmonia, com Moebius, Roedelius, e Michael Röther, integrante dos Neu!.

No entanto, uma personalidade como a do alemão não se cinge à música. A sua influência, e a era do krautrock, são permeáveis e transversais à própria cultura contemporânea. Nesse sentido, os contornos de uma Alemanha fragmentada foram decisivos e não se esquivou a perguntas sobre o pós-guerra. E, já no tempo destinado a perguntas do público, tinha uma pergunta a fazer-lhe: o krautrock e a música kosmische são, actualmente, um dos marcos históricos da música periférica europeia, de uma importância incontornável. Terá a Alemanha noção desse fenómeno, e adoptado essa contra-cultura como integrante da sua história? A resposta não surpreendeu: Roedelius sente que, mesmo nos dias de hoje, esse movimento cultural está algo esquecido na história alemã, fruto, talvez, do trauma pós-fascista que traumatiza as sociedades.

No final da hora designada, havia ainda imenso para falar. Nunca se poderia espremer a sua carreira em tão pouco tempo. Para a memória, fica o encontro com um dos mais respeitados músicos dos últimos 50 anos, cheio de uma singular vivacidade e que promete não parar de compor a sua música. A nós, cabe-nos apenas agradecer.

A Mosca (63º, 64º, 65º e 66º Edições) – Podcasts em dia!

Tardou, mas chegaram! Aqui ficam disponíveis os quatro últimos podcasts das emissões d’A Mosca, programa pertencente à antena da Rádio Universitária do Minho. Neste último mês, fomos verdadeiramente ecléticos: poucos foram os géneros onde não deitamos a atenção. Na 63º emissão, contamos logo a abrir com a soul sensual de Marvin Gaye, para seguirmos em agradáveis terrenos de jazz e funk (destacam-se os Mahavishnu Orchestra e Curtis Mayfield, respectivamente). Depois, krautrock da melhor formada – cortesia dos Can – passando por dois incontornáveis, mas de discretas carreiras em vida, nomes da música folk, nomeadamente Jackson C. Frank e Nick Drake.

Na emissão 64º, recordações de bons concertos no NOS Primavera Sound (entre outros, ouvimos Slowdive, que voltam este ano a Portugal, no Festival Paredes de Coura!), deitando também um olho à country americana de Neil Young e da incrível Karen Dalton, cujo álbum In My Own Time (1971) já tem um lugar cativo nas nossas emissões.

Chegados à semana seguinte, perdemos a cabeça e embarcamos numa erudita excursão com grandes nomes do experimentalismo e do “pensar-fora-da-caixa”. Primeiro, os alemães Einstürzende Neubaten (dos melhores do NPS 2015), seguindo-se a trindade Frank Zappa, Miles Davis, e Herbie Hancock. Do primeiro, ouvimos-lhe um dos seus mais acessíveis e celebrados trabalhos – Uncle Meat (1969) -, enquanto que para os outros dois, entidades basilares do jazz, enveredámos em projectos seus mais periféricos. Do primeiro, o seu álbum On The Corner (1972), de recepção mista na crítica; quanto a Hancock, ouvimos Sextant (1973), no qual aborda, em ritmos exóticos e experimentais, uma mescla entre a electrónica e o jazz. Curiosamente, foram dois álbuns que precederam registos aclamadíssimos na carreira de ambos – falo de Bitches Brew e Headhunters, respectivamente. Esta foi uma emissão muito interessante – eclética, como sempre – em que passámos, mais tarde, pela música de Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Vale a pena ouvir.

Finalmente, na 66º emissão, algo mais ortodoxo. A entrada deve-se aos akron/family, que teimam em não desiludir, seguindo-se a música africana de Dorothy Ashby  (vale muito a pena ouvir o seu trabalho) e King Sunny Adé. Representamos também o hip-hop, através de Dr. Dre e o trabalho de estreia de Donny Trumpet & The Social Experiment, no qual contribui o nosso conhecido Chance The Rapper. Pelo caminho, Portishead, Joan Baez, o futurismo optimista de Squarepusher, e, para terminar, plunderphonics para uma vida melhor da autoria de People Like Us & The Jet Black Hair People.

Temos, assim, os nossos podcasts em dia e prometemos uma maior assiduidade nesse sentido. Foram, realmente, semanas complicadas e de muita atribulação. Em Julho, conto ter novidades em relação ao projecto do blog, como ao próprio programa, pelo que, até lá, têm imenso tempo para por a matéria em dia. Vamos entrar na maior força.

A próxima emissão d’A Mosca é na próxima Segunda-feira, a partir da 1h da madrugada – mas antes, no Domingo, às 21h, há emissão da Quintessência, com Duarte Matos e a música clássica. Agenda preenchida!

Clicar para aceder aos podcasts!
Clicar para aceder aos podcasts!

Popol Vuh – Hossiana Mantra

A música como expressão e manifesto de saber, ou uma vontade de saber, ou consequência da ausência do conhecimento. Deixemos de parte a razão, e resta-nos o instinto, a emoção, a abrangência dos cinco sentidos. Schopenhauer elevava a música sobre as outras artes pela sua não representatividade do concreto. Romantizemos-lhe o conceito e juntamos a infinita expressão da música: intemporal, inenarrável, inexplicável. A música, no seu âmago, de puros e invioláveis desígnios, é nosso património, representação, talvez, de um saber que não será mais que a nossa experiência, uma busca que justifique a nossa humanidade.

Hossiana Mantra, obra do ano de 1972, é acompanhamento sonoro para tais inusitadas reflexões. A obra fundamental dos alemães Popol Vuh, fruto da liberdade concedida pelos primórdios do krautrock, é uma singular composição que nasce da iniciativa e experiência de Florian Fricke, na altura entregue à descoberta de uma espiritualidade na religião – absorto, como estava, tanto no cristianismo como no hinduísmo. As experiências electrónicas que concretizou até então não apontavam para um novo rumo musical: sem nunca perder a essência dos alicerces musicais ocidentais, pôs de parte o seu sintetizador Moog e levou os Popol Vuh numa jornada acústica, à excepção da guitarra eléctrica, e guiados, a espaços, pela voz angelical da coreana Djong Yun.

Juntam-se o piano, o violino, o oboé, as guitarras e a tambura, um pacto selado por uma voz que não canta palavras e que nos surge à segunda faixa. O ponto alto dá-se na épica canção seguinte, onde todos se manifestam a seu bel-prazer. Aqui chegados, não há volta a dar – deixemo-nos levar. 

A Mosca – 61º Edição

A proposta desta semana consiste numa viagem, literal se considerarmos legítimo viajar através do som. Nesta emissão, tentou-se unificar a música, e demonstrá-la mutável e auto-influente, e começámos, precisamente, com um jamaicano erradicado no Reino Unido. Linton Kwesi Johnson, sob o nome Poet and the Roots, cantava poemas por cima de uma linha dub, uma voz equiparável à de Gil Scott-Heron (que ouvimos na passada semana). Depois, um pequeno salto a Portugal, para ouvir Pedro Abrunhosa & Os Bandemónio, e o seu álbum Viagens (1994), que nos mostra o portuense na sua melhor forma, e logo depois a América, onde nos debruçamos, mais uma vez, no hip-hop. Desta vez, primeiro com Oddisee, e seguidamente com os Jungle Brothers, cuja música está paredes meias com a dos A Tribe Called Quest e De La Soul, entre outros. Esta pequena incursão pelo hip-hop leva-nos a um dos marcos históricos do género; ou seja, Afrika Bambaataa & Soulsonic Force. Também ele americano, ou mais precisamente nova-iorquino, foi um dos grandes mentores do hip-hop e reuniu, sob a sua alçada, os já mencionados ATCQ e DLS, num movimento de nome Universal Zulu Nation. Não é isso, contudo, que nos levou ao seu nome, mas sim um sample inovador que pediu emprestado aos…Kraftwerk. Sim – pode-se dizer que estes discretos alemães impulsionaram um movimento musical na América. E quem chega aos Kraftwerk, é obrigado a escrutinar a sua influência no enorme mundo da música, desde às linhas de techno, ao inovador uso da electrónica. Nesse âmbito, ouvimos os britânicos Cabaret Voltaire, e mais tarde um outro grupo pertencente ao krautrock, e que nos apresentam uma épica canção à imagem deste movimento: os Faust, claro. A emissão termina ainda com o novo trabalho de Jenny Hval, e o experimentalismo dos Lakker. Na próxima madrugada de segunda para terça-feira, há mais. Conto com vocês!

Clicar para ouvir o podcast!
Clicar para ouvir o podcast!