12/05 – Noções capitalistas, desumanização, e a ̮͙̪̯͢ạ̵̩͍s̷̹̝̼̣̤c̠̙̮͈̼ḛ̢̜n̖ç̞͚͜ã̴͈̹̜̺̻̙o ḓ͍̳͍̫a͞ ̷̗̳̠̣̞͎m̰̫̲̙̕á̲̥͍͓͜q͔̘u̳̪͠ina͉.̞̰̳̟̠

Ora.

Algo de muito estranho se passou nesta emissão. Embora não tenha sido uma habitual transmissão em directo, deixámos tudo preparado num ficheiro .mp3 que foi para o ar à hora marcada. Estava alinhado que iríamos começar com Tatsuro Yamashita, nome nipónico associado a uma vertente muito particular da pop japonesa, feita especialmente para ser ouvida nas novas e vibrantes auto-estradas do Japão. É música com um intrínseco e subliminar espírito consumista, e isto é algo que nos fascina.

Depois, tínhamos planeado ouvir os americanos DEVO, um fascinante projecto que começou, como já ouvimos noutras emissões, com um espírito tremendo de irreverência e criatividade, intimamente ligados ao no-wave, ao rock, e até com alguns ares de punk, mas aqui, no disco New Traditionalists, aproximaram-se mais da electrónica – e o resultado ficou muito interessante, também. Seguiram-se os nossos amigos Kraftwerk, com o disco Die Mensch-Maschine, de 1978.

Só que, infelizmente, tudo começou a ficar estranho a partir da intervenção de Laurie Anderson. Por algum motivo, parece que perdemos o controlo da emissão a partir daqui, e o alinhamento que tínhamos previsto não se concretizou. Do que aconteceu até ao final da hora, conseguimos recuperar o nome de Nuno Canavarro, ex-integrante dos Delfins e autor de um dos mais bonitos discos electrónicos-experimentais portugueses; os Passengers, super-grupo constituído pelos U2 mais a especial participação de Brian Eno, e ainda o enigmático Dean Blunt, prolífico desde o seu disco Black Metal (que, para nós, foi um dos melhores de 2014, já previamente escrutinado).

Conseguimos, ainda assim, resgatar a sugestão da Porto Calling, a música de Moondog, mas perderam-se todos os eixos de seguida quando, até ao final da hora, ficámos com um artista japonês, 細野晴臣, e o feito artístico de Sam Kidel, denominado Disruptive Muzak – merece ser escutado pelo menos uma vez, para lhe apreender o conceito.

1. Tatsuro Yamashita – Sparkle (For You, 1982)
2. DEVO – Beautiful World (New Traditionalists, 1981)
3. Kraftwerk – Das Model (Die Mensch-Maschine, 1978)
4. Laurie Anderson – B͂̀̓̒o̵͋̉̆ͭ͒r̾̏͛̓͂n,̐̒̂ͧ͠ ̈́̓ͬ̕Ņ̀̀̐ͤͬ̋e̵͌ͮ͋̈́ͪv͡e̛̔̉̎͂͋̐̚r͆̇ ́X̀ ̢̽ͤͪ(Big Science, 1982)
5. Nuno Canavarro – Wask (Plux Quba, 1998)
6. Passengers (U2 + Brian Eno) – One Minute Warning (Original Soundtracks 1, 1995)
7. Dean Blunt – 04 Brown Grrl
8. Moondog – Moondog’s Theme (More Moondog, 1956) | sugestão da Porto Calling.
9. 細野晴臣 – Talking (花に水, 1984)
10. Sam Kidel – Disruptive Muzak

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Emissão de 08/04 – Viagens transatlânticas, da Jamaica ao Japão por rota europeia.

Para esta emissão, partimos de um clássico de Bob Marley para dar início a uma sequência que, em dados momentos, esteve ligada por algo extrínseco à música que ouvimos. Do jamaicano passámos a Rihanna, a propósito de um artigo da Pitchfork sobre a sua importância e genuinidade; é algo que nos interessa e que se assume cada vez mais relevante no panorama global onde a música habita actualmente. Depois, os The Gift, mais uma vez, cujo novo disco foi produzido por Brian Eno, e sobre o qual já demos a nossa opinião. Saltámos para os Timber Timbre ainda sob alçada de música deste presente ano, e além de termos recuperado o saxofone de Colin Stetson numa das mais memoráveis músicas desta década (Hot Dreams), ficámos com música nova do grupo canadiano; e a partir deles, traçámos uma rota até aos Japan, de David Sylvian, no disco Tin Drum – fantasmas de synthpop que prometemos explorar noutra altura. A Porto Calling recomenda-nos a música de uma prolífica artista nova-iorquina, a Lydia Lunch, que já é nossa conhecida. Para terminar, uma breve passagem pelos britânicos (!) Kahondo Style, e a singular música do seu Green Tea and Crocodiles. Fechámos com Colin Stetson, mais uma vez, que tem editado regularmente e merece ser ouvido com atenção, e, depois, com Nmesh, misturado, por parecer apropriado, com algumas falas do filme My Dinner With André.

  1. Bob Marley – Baby We’ve Got A Date (Rock It Baby) (Catch a Fire, 1973)
  2. Rihanna – Consideration (feat. SZA) (ANTI, 2016)
  3. The Gift – I Loved It All (Altar, 2017)
  4. Timber Timbre – Grifting (Sincerely, Future Pollution, 2017)
  5. Japan – Canton (Tin Drum, 1981)
  6. Japan – Ghosts (Tin Drum, 1981)
  7. Lydia Lunch – Fields of Fire (Honeymoon in Red, 1987) recomendação da Porto Calling.
  8. Kahondo Style – Shangai Rain (Green Tea and Crocodiles, 1987)
  9. Kahondo Style – Green Dream (Green Tea and Crocodiles, 1987)
  10. Colin Stetson – Judges (New History Warfare Vol.2: Judges, 2011)
  11. Nmesh – ΛVΘN™ NiteMare Liquid Mascara (feat. 회사AUTO) (Adulterada com passagens do filme My Dinner With André, Dream Sequins ®, 2014)

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Edição 98 – Um compêndio do Vaporwave, e apropriação musical.

No ano passado, já em Novembro, reeditou-se um trabalho fundador do que, mais tarde, se veio a denominar de vaporwave: Chuck Person’s Eccojams Vol. 1. Chuck Person, um pseudónimo do músico Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), reapropriou a música pop dos anos 80 e 90, cortou-as e tornou-as mais lentas, e daí surgiu a matriz impessoal e narcotizada que, mais tarde, teve especial relevo em FLORAL SHOPPE, de MACINTOSH PLUS (Vektroid). Este, um autêntico bastião do vaporwave como a sua referência mais imediata, levou o eccojam mais longe e pretendeu torná-lo musical. São dois discos que resumem este movimento artístico (e não apenas musical, dada a forte componente visual, em vídeo e nas capas dos discos, que compõem a obra): a reciclagem de outros trechos musicais e sua recontextualização à luz da nostalgia, a velada crítica reaccionária à moral capitalista, e o desejo de daí ver surgir algo novo, com méritos próprios. De certa forma, poder-se-á considerar como um efémero e primeiro regurgitar de contra-cultura da década, um interessante fenómeno da nossa cultura mediática.

Por isso, dedicamos-lhe quase integralmente esta edição do podcast, com um desvio inicial para a nova música de Hannah Diamond, uma escolha não inocente para o alinhamento.

Tomando como ponto de partida os dois supramencionados e ainda James Ferraro, cujo Far Side Virtual propõe uma narrativa anti-capitalismo, tecnófoba e hiper-consciente, seguimos em busca de outros trabalhos que possam ajudar a definir o género e outras estéticas associadas mas não necessariamente dependentes da matriz do eccojam. Essa necessidade de experimentar surge logo nos dois primeiros nomes, Laserdisc Visions 情報デスクVIRTUAL, outros pseudónimos artísticos de Vektroid. New Dreams Ltd. dedica-se a criar a mesma atmosfera cristalina, feérica, ainda que pervertida por vozes e outros sons alheios à sua narrativa principal, e 札幌コンテンポラリー opta pela abordagem via jazz, uma porventura intencional réplica da música de elevador (musak), que é também pelo vaporwave satirizada.

Seguem-se outros nomes influentes ou importantes no movimento: 骨架的 (em inglês, skeletal) surge sensivelmente na mesma altura de Chuck Person, numa estética menos abrasiva e mais catártica, embora Mediafired pareça seguir e aprofundar as possibilidades exploradas pelo eccojam (e cuja edição física terá sido primeiramente garantida numa editora portuguesa, a Exo Tapes, para mais tarde ser reeditada na Beer on the Rug, casa de Lopatin, Vektroid, entre outros); mais tarde, o combo Saint Pepsi/Luxury Elite, que propõem o funk e a música de dança como caminho possível, e ainda 蜃気楼MIRAGE death’s dynamic shroud.wmv.

Para terminar, não podíamos deixar de dedicar atenção a dois dos trabalhos fundadores. FLORAL SHOPPE tem, além de リサフランク420 / 現代のコンピュー, momentos marcantes e até sublimes; e Chuck Person’s Eccojams Vol 1, se ignorarmos a sua excessiva formalidade, é também um registo no qual nos podemos perder e, até, consigo criar laços. Por sugestão da Porto Calling, a mais incrível loja de vinil do país, tivemos ainda John Oswald, um nome obrigatório quando se fala no plunderphonics, uma técnica que refere ao que já existia quando nos abstraímos da componente narrativa do vaporwave: apropriação de registos sonoros anteriores por forma a edificar algo novo. Há quem, até, associe esta técnica ao pós-modernismo, que é primeiramente uma referência ao universo literário e pode significar uma renúncia a uma narrativa estabelecidada, à não-linearidade. E, como despedida, um exemplo que precede ainda Oswald: os The Residents, experimentais por definição, que tomam conta do catálogo dos Beatles e o profanam. Duas belíssimas experiências que fecham este programa.

Espero que gostem!

  1. Hannah  Diamond – Make Believe (2016)
  2. Laserdisc Visions – Tingri (New Dreams Ltd., 2011)
  3. Laserdisc Visions – Laserdisc Visions (New Dreams Ltd., 2011)
  4. 情報デスクVIRTUAL – 札幌地下鉄・・・「ENTERING FLIGHT MUSEUM」(札幌コンテンポラリー, 2012)
  5. 骨架的 – fountain (Holograms, 2010)
  6. Mediafired – Spring is Here (The Pathway Through Whatever, 2011)
  7. Luxury Elite – Nightlife (Late Night Delight, 2013)
  8. Saint Pepsi – Enjoy Yourself (Late Night Delight, 2013)
  9. 蜃気楼MIRAGE – お土産 8 (忘れテープ, 2016)
  10. death’s dynamic shroud.wmv – SCREENSHOT FOLDER (VIRTUAL UTOPIA EXPERIENCE, 2014)
  11. Chuck Person – A2 (Chuck Person’s Eccojams Vol. 1, 2010)
  12. MACINTOSH PLUS – 数学  (FLORAL SHOPPE, 2011)
  13. John Oswald – Dab (Plunderphonics, 1989)
  14. The Residents – Beyond The Valley Of A Day In The Life (The Third Reich ‘n Roll, 1975)

Para leitura:

Adam Harper, na Dummy Mag: Comment: Vaporwave and the pop-art of the virtual plaza |  Simon Chandler, no Bandcamp: Genre As Method: The Vaporwave Family Tree, From Eccojams to Hardvapour | Ainda Chandler, sobre os subgéneros do vaporwaveGenre As Method: The Vaporwave Family Tree, From Eccojams to Hardvapour

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Alguns discos que recordaremos do ano passado.

Um projecto de rádio que mantenho, ainda que a muito custo e com regularidade parca, obriga-me a acompanhar a música que cada ano nos vai oferecendo. Uma enorme torrente de discos aos quais raramente concedo a atenção devida; infelizmente, o nosso tempo é cada vez mais limitado. Por isso, apresento não um compêndio objectivo e ordenado de discos, cuja relevância se esvanece em comparação com tudo o que faltou ouvir, mas uma lista de trabalhos que me encantaram, embora muito, muito, tenha ficado por ouvir.

Radiohead – A Moon Shaped Pool 

088055831Seria quase herético não mencionar estes britânicos, assumidamente os responsáveis pela minha melomania. Depois de The King of Limbs, este é o segundo álbum que lançam já sendo eu um fã; no âmbito da restante discografia, é o nono. Qualquer que fosse o conteúdo, serial sempre parco quando comparado às altíssimas expectativas que o aguardavam, depois da misteriosa campanha que encetaram, e porque deles sempre se espera o extraordinário. Ouvi-o deitado. “Será disto que eu preciso, um novo disco dos Radiohead?”. Talvez sim. Talvez, até, do rumo que quiseram seguir: Daydreaming, na sua toada minimal e melancólica, define por extensão esta fase da banda, que não se entrega em cruzadas energéticas como os ouvimos em OKC ou HTTT, e dela sobressai um desejo de pausa, de acalmia. Chegámos, com eles, à catarse, como que uma reflexão do que para trás ficou; e contemplamos. É música de cair o pano, banda sonora para o esquecimento, e não a dor, de uma despedida. Fecha-se o ciclo como poucos imaginaram: True Love Waits, a elusiva canção que apenas fora editada no ano de 2001 num disco ao vivo, soa-nos belíssima, e apropriada. Ainda muito ficou por dizer sobre isto; não sei qual será o lugar deste disco daqui a um ano, ou cinco, ou dez; mas é bom tê-lo por cá.

Kero Kero Bonito – Bonito Generation

kkbTodos os motivos para a inclusão deste grupo no melhor do meu ano foram previamente escrutinados, ou aludidos a, num texto anterior, pelo que recomendo essa leitura. Os Kero Kero mantêm inevitáveis afinidades com o colectivo PC Music, e nota-se os traços comuns no à-vontade com que se movimentam na pop e nas suas manifestas contradições. Em suma, tudo neles é delicioso: Bonito Generation é o disco que abrilhanta o nosso dia; a música pop que, com o auxílio de um trampolim imaginário, suspende o nosso imediato e nos põe, qual realidade aumentada, num outro sítio onde nada mais importa. Parece mentira, mas eles são um caso incrivelmente sério, e vale a pena vermos o mundo pelos seus olhos; no sentido contrário, fazem o convite através dos nossos ouvidos. Ao aceitá-lo, transformei um par de semanas deste ano nas mais coloridas de que tenho memória.

Blank Banshee – MEGA 

a0838514060_10A sua identidade é uma incógnita, mas o nome Blank Banshee remete automaticamente para a nebulosa linhagem do vaporwave, um epíteto musicalmente impreciso e cujas ramificações se tornarão mais distintas apenas com o correr do tempo – ainda assim, este produtor sempre actuou na periferia da estética facilista à qual surge frequentemente associado. Em MEGA, soltam-se-lhe as estribeiras e a máquina ganha vida, num ímpeto ora furioso e descontrolado, ora apaziguado em sequências melosas, ainda que esteticamente desconcertantes. É tudo sobretudo uma jornada electrónica, com ecos de trip-hop na sua estrutura musical, em permanente balanço no abismo que atiraria este trabalho para o abstracto; é neste equilibrismo que se evidenciam as afinidades que mantém ao supramencionado vaporwave.

Frank Ocean – Blonde

5f06f7f6Passaram cinco anos desde Channel Orange, o disco que cimentou, em definitivo, o seu nome como um dos valores a seguir na música moderna – e, com ele, a revelação que desde então é indissociável da sua persona artística, em forma de carta para todo o seu auditório: o mundo inteiro. O silêncio seria finalmente quebrado com o lançamento (em streaming!) de Blonde, apenas um dia depois do vídeo-disco Endless, com uma edição física exclusiva que veio acompanhada de uma revista – tudo criado pelo músico. Por tudo isto, Frank Ocean é um caso de estudo, um artista que, talvez apenas rivalizado por Kanye West e bem mais unânime que este, tem o mundo aos seus pés. Blonde reflecte isso mesmo. É um trabalho esquivo, estranho e desconfortável: não o esperávamos tão parco, despido do encantamento instrumental de Channel Orange, tão sozinho sob tão enorme holofote. Ele canta, susurra, e dobra rimas, e mais não fez porque não quis: este é o seu domínio. Muito mais se poderia dizer sobre Ocean. Ouçamos a sua música, e faça-se silêncio: tanto o quis, nestes últimos anos, já o teve, e sob ele já partiu outra vez.

Chuck Person – Chuck Person’s Eccojams Vol. 1 (2016 Remaster)

maxresdefaultEsta é uma pequena batota: o trabalho original data de 2010, mas esta é uma versão remasterizada lançada digitalmente no Bandcamp do autor. Ademais, é perfeito pretexto para lembrar as bases do vaporwave, que muito devem a estes Eccojams, obra de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), que actuou sob o pseudónimo Chuck Person. O termo – como já mencionei – alberga uma série de correntes e tropes; aqui, aponta-se à reciclagem de música pop e à sua reapropriação (escangalham-se Fleetwood Mac, os Toto, e Michael Jackson, entre outros), e quando se ultrapassa o nível irónico e de meta-referência, chega-se a uma outra construção, erigida no desconcertante marulhar da música que já não o é, e deixamo-nos ficar. A distinção entre exercício formal e prazerosa experiência reside na vontade de quem ouve; é também devido a essa simultânea dicotomia que o celebro neste top. (PS: em 2011, salvo erro, o músico actuou pertíssimo de mim – não me perdoo a falta de comparência nem a gorada oportunidade de trocarmos palavras).

Kanye West – The Life Of Pablo 

the_life_of_pablo_alternateAs minhas impressões sobre Kanye West poderiam ser as mesmas usadas em Frank Ocean, trocados apenas os “silêncio” por “escarcéu”, “sozinho” cedendo a “por todos rodeado”: são dois artistas extremamente pouco ortodoxos e que fizeram de 2016 um ano bandeira, mas que parecem viver em estados opostos de espírito. Confesso que The Life of Pablo não me convenceu verdadeiramente, transparecendo uma execução aparentemente degraus aquém da ideia original: desde o seu caótico lançamento, foi várias vezes actualizado (com alterações na lista de músicas e nelas próprias – caso inédito?), e surge como uma enorme manta de retalhos. Obviamente, poder-se-á considerar que isto é, também, parte do acto: um disco em constante mutação, obra intangível, reflexo do turbilhão criativo e emocional de quem o pariu. Talvez seja. Talvez não. Mas Kanye já nos pregou a lição: ele não quer saber, e aponta a um limite que está bem além do céu.

Além destes nomes, que resumem brevemente as maiores fixações lançadas neste ano que agora terminou, quero destacar ainda mais alguns trabalhos: Bruno Pernadas, com o seu lançamento duplo que se constrói, com muita liberdade e irreverência, no mundo da música pop (mas não comercial, o que demonstra a enorme diferença entre os dois termos) e do jazz; Alex Zhang Hungtai, músico do extinto projecto Dirty Beaches e que se radicou há uns anos em Portugal, é autor de Knave of Heart, um belíssimo disco de pequenos ensaios ao piano, parcos, minimais, e tingidos por alguns field recordings que servem quase uma função narrativa, é um disco que parece dialogar com Ambient 1: Music for Airports (logo, até, na sua primeira faixa, que alude a uma sala de espera), carregando na herança musical uma emoção que não está presente no disco de Brian Eno; Dean Blunt voltou à carga com dois trabalhos no projecto Babyfather, a continuar a toada misteriosa e desconcertante que marcou a sua carreira até agora; e, por último, Paul Jebanasam e Continuum, um registo experimental e abstracto, absolutamente obrigatório, e que foi indubitavelmente o momento mais alto do SEMIBREVE deste ano.

Para terminar, houve nomes aos quais, por questões de disponibilidade ou esquecimento, não dediquei muita atenção, e por isso omito qualquer opinião (por vezes precipitada) que possa ter sobre estes.

Edição 95 – O cantautor sec. XXI, a conversa com Emanuel Graça, e último de O’Rourke.

A Mosca voltou – e trouxe companhia.

Ainda antes: em semana de Radiohead (a edição 95 estreou à meia-noite de dia 8 (para 9) na Rádio Lisboa), lembrámos a sua complicada-de-assimilar fase do The King of Limbs (2011), ainda que volvidos 5 anos e já não tão heterogénea com o resto da sua discografia. A música que ouvimos, Staircase, lado B de um single conjunto com The Daily Mail, consta num registo lançado no mesmo ano, mas muitos meses depois de The King of Limbs. Hoje, sabemos que não a tocaram ao vivo (nem seria previsível), mas podem escutar aqui uma incrível performance no Saturday Night Live.

Depois, destaca-se o californiano Lucas W. Nathan, que dá corpo a Jerry Paper – segundo o próprio, na sua página do Bandcamp, «Jerry Paper is the entity that inhabits Lucas W. Nathan’s body when he is grooving». Nele encaixámos o epíteto de cantautor do séc. XXI na perfeição. Munido de recortes electrónicos (sintetizadores melosos, batida no perigoso limiar vanguardista/foleiro), escreve e canta a angústia e a adaptação da condição humana à globalização:

Digital precision / More human than human / Tools made of information / help me to be / more than human

Can’t discern / the difference / between the code / and my world

Estas palavras ouvem-se na letra de Chameleon World, incluída no disco Big Pop For Chameleon World (2014). Ainda que absurdamente irónica nas suas intenções, partilha com outras correntes – uma das associações imediatas é o vaporwave – uma certa ingenuidade, como se tudo fosse um planeado embuste para facilitar a assimilação deste novo paradigma de vivência. Não se distingue entre o assertivo ataque crítico e a vontade de eliminar, o mais rápido possível, as linhas entre real e imaginário. Para cimentar esta dúvida, e como tem sido habitual nestas manifestações artísticas, há uma transversalidade na qual se inclui o digital e a informática: o disco complementa-se com um videojogo (que podem encontrar aqui, adaptado a Windows e Mac).

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A sua carreira discográfica conta com nove registos, tendo o mais antigo a data de 2012. É um documento duma metamorfose que não desagua necessariamente em Big Pop: já neste ano, lançou Toon Time Raw! em colaboração com os Easy Feelings Unlimited (já lá vamos)É necessariamente um trabalho diferente, dado que quase nunca a música é atribuída a outra entidade que não Jerry Paper / Lucas W. Nathan.

What are you currently listening to?

Matt [dos BADBADNOTGOOD]: Jerry Paper. It’s really sweet. It’s like the Beach Boys meets Ariel Pink, but with some weird synths. Really neat.

na PrefixMag

Na verdade, os Easy Feelings Unlimited são os BADBADNOTGOOD (I know, right?!); os canadianos, por um qualquer motivo (suspeito que terão achado que a música foge muito ao jazz/hip-hop que lhes conhecemos), preferiram manter uma espécie de anonimato. Deste registo ouvimos Stargazers, que não é necessariamente o ponto de partida ideal, mas é provável que este não exista de todo. É um disco muito eclético (vem à cabeça Mac deMarco, bossa-nova, jazz romântico, etc.). Fica aqui uma pequena introdução à música de Jerry Paper, que será – faço aqui a aposta – um dos nomes a recordar como revisão desta década.

Depois, segue-se a participação do Emanuel Graça (ex-Música sem Merdas) no nosso programa. As suas palavras foram gravadas ainda antes do NOS Primavera Sound, quando lhe pedi algumas sugestões de artistas a não perder. Das cinco que seleccionou – Destroyer, Bardo Pond, Tortoise, Julia Holter, Dinosaur Jr. – ficámos com as três primeiras. Foi o mote para falarmos de um dos primeiros discos dos Destroyer e a distância para trabalhos mais recentes, como o magistral Kaputt (2011); tentámos enfiar o maior número de analogias sexuais possíveis a propósito dos Bardo Pond, e deles ouvimos uma actuação nas John Peel Sessions; e os Tortoise serviram como ponto de partida para mencionar a incrível onda criativa britânica, e o epíteto post-rock sob o qual se tutelaram vários projectos dos anos 80/90 britânicos. Recomendo muito que ouçam este excerto.

Para terminar o programa (e, mais uma vez, muita da música transita para a próxima emissão), ficamos com uma pequena amostra da muito recente colaboração entre dois titãs da música experimental/exploratória: Jim O’Rourke, o versátil músico ex-Gastr del Sol/por-um-breve-período Sonic Youth com Fennesz, mais dedicado à electrónica e aos limites sónicos da guitarra. O trabalho conjunto tem o nome de It’s Hard For Me to Say I’m Sorry, cortesia da Editions Mego.

Voltamos o mais rápido possível – o mundo da música não pára nem espera por nós.

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Como subscrever o podcast.

Edição 83 – A música conceptual de James Ferraro, e a devoção de Alice Coltrane.

Esta semana, o programa começa com música nova de Animal Collective – um single que segue com a segunda mudança bem metida sem nunca abrandar, e dedicado a um psicadelismo soalheiro e mexido – e Car Seat Headrest, o projecto de Will Toledo que tem dado que falar nos últimos tempos. Segue-se o projecto-colaboração entre Prince Fatty Mutant Hi-Fi, que desenharam a banda-sonora de um filme que ainda não existe; a existir, seria um daqueles antigos westerns, carregados de efeitos especiais à Star Wars e muitos tetriminos à mistura. É um óptimo disco, muito interessante na abordagem que fazem, pegando em várias influências, e sempre divertido.

Passamos ao destaque desta emissão, James Ferraro, cujo novo LP deste ano revolve conceptualmente na Los Angeles dos anos 90. É uma abordagem que remonta ao seu registo de 2011, Far Side Virtual: desde então, deu-se uma mudança no âmbito musical no artista, e todos os seus discos passaram a ter uma forte componente conceptual. Juntamente com um outro álbum de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never/Chuck Person’s Eccojams Vol. 1), Far Side Virtual ajudou a definir os alicerces sonoros do vaporwave, através do extenso uso de samples e da re-apropriação de sons para criar música com um fortíssimo poder narrativo. Além disso, e aqui demarca-se do trabalho de Lopatin, Far Side Virtual pode entender-se como uma forma de crítica ao consumismo desenfreado, à nossa dependência tecnológica, e à falsidade materialista que tomou conta das nossas vidas. O próprio explica-o melhor: “If you really want to understand Far Side, first off, listen to Claude Debussy, and secondly, go into a frozen yogurt shop. Afterwards, go into an Apple store and just fool around, hang out in there. Afterwards, go to Starbucks and get a gift card. They have a book there on the history of Starbucks—buy this book and go home. If you do all these things you’ll understand what Far Side Virtual is—because people kind of live in it already”.

Quanto ao seu novo disco, Skid Row, segue esta linha de música cinemática e evoca a Los Angeles dos anos 90, e, ao contrário de Far Side VirtualFerraro alinha numa espécie de r’n’b mutilado, que, na minha opinião, não é de fácil audição. Possivelmente, o registo em que a experiência correu menos bem, mas, quanto a isso, o tempo o dirá.

Há ainda tempo para a fantástica música de Alice Coltrane, que, numa segunda fase da sua carreira, se dedicou à música religiosa e de devoção. Mas não se enganem! Não deixa de ser um óptimo registo e onde Alice continua a encantar. Damos destaque ao seu álbum Divine Songs – e, com este título, está tudo dito. Para a fase final, reservámos Glenn Branca, num dos seus trabalhos menos conhecidos, no qual compõe para orquestra e com o intuito de servir como acompanhamento musical a uma coreografia. Terminámos com os A Winged Victory for the Sullen e um dos melhores temas do seu primeiro álbum, muito diferente do Atomos que vieram apresentar a Braga na última sexta feira – para melhor, diga-se!

Assim passou mais uma semana! Não se esqueçam que podem subscrever A Mosca e receber os podcasts mal estejam disponíveis!

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A Mosca – 59º Edição

Quando se invoca a música de José Afonso para abrir o programa, será, certamente, um programa especial. Assim o justifica a comemoração do 25 de Abril, que o tempo tratou de distanciar para lá dos 41 anos. Reivindica-se uma mensagem, mas sobretudo um espírito – o de mudança, o de progresso. E a palavra, nesta edição, foi soberana. Sucedem-se Camp Lo Chance the Rapper, com o hip-hop suave e descomprometido de ambos, e logo a seguir, David Crosby, americano, e Roy Harper, inglês, a mostrarem a sua folk convidativa. Dois pilares do géneros e nomes maiores nos respectivos países. Volta o canto em português com Sérgio Godinho José Mário Branco; este último, interpretando um poema de Natália Correia (ouçam-no!). Estes dois formam, com o Zeca, a Santíssima Trindade da música de cantautor português, e são nomes incontornáveis no nosso património musical. A herança, essa, coube aos Ermo resgatá-la, e fazem-no com um acutilante sentido de oportunidade. A sua música é desafiadora e simultaneamente progressiva, e fazem-no como ninguém, nesta altura, em Portugal. David Lynch é a lógica continuação musical e traz-nos o equiparável sonoro ao seu cinema distorcido, ainda que arrebatador pelo charme e simplicidade; e, logo a seguir, a lenda nova-iorquina Moondog convida-nos ao seu mundo de particulares composições, numa altura em que havia trocado a América pelo classicismo europeu. Seguem-se os Natural Snow Buildings, como também a mais recente colaboração de Colin Stetson: desta vez, o saxofonista experimentado junta esforços com Sarah Neufeld, e ambos criam rendilhados sónicos só ao nível dos melhores. É impressionante como a sua música nos move de uma forma tão concreta, paradoxal à abstracção conceptual do que ouvimos. Para terminar, guardou-se o vaporwave ambiental meloso do projecto mistério 2814, e as honras de fecho ficam a cargo do fantástico Chet Baker – ele que nos sabe melhor que ninguém. Para a semana há mais. Até já!

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