Excerto de ‘Cair para dentro’, de Valério Romão.

[…] e começo,

    Quando Zaratrustra chegou à cidade mais próxima, na margem da floresta, ali encontrou muita gente reunida na praça; pois fora anunciado que um equilibrista andaria na corda. E Zaratrustra assim falou à gente: Eu vos ensino o super-homem.
O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo? Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si próprios: e vós quereis ser a vazante dessa grande maré, e antes retroceder ao animal do que superar o homem?
Que é o macaco para o homem? Uma risada, ou dolorosa vergonha. Exatamente isso deve o homem ser para o super-homem: uma risada, ou dolorosa vergonha. Fizestes o caminho do verme ao homem, e muito, em vós, ainda é verme.
Outrora fostes macacos, e ainda agora o homem é mais macaco do que qualquer macaco. O mais sábio entre vós é apenas discrepância e mistura de planta e fantasma. Mas digo eu que vos deveis tornar fantasmas ou plantas?
Vede, eu vos ensino o super-homem!

e quando abro os olhos estão todos calados, quietos como os animais desafiando o vendaval da morte, as bocas lassas pela exposição ao mistério, e começa uma, Eugénia, isso é o quê, diz-me, e outro, é o super-homem, não ouviste, eu sei que é o super-homem, replica a primeira, mas não conheço este super-homem, não é o super-homem dos filmes, claro que não, intercede ainda um terceiro, isto é uma merda fascista, não perceberam, quem quer que tenha escrito isto está a chamar-nos macacos, seres inferiores, não é verdade, Eugénia, de quem é isto, quem escreveu esta porcaria, e eu, transida de medo pelo súbito desenrolar da interpretação, Nietzsche, balbucio, Nietzsche, acabo por confirmar, para largo sorriso trocista do irritadiço-mor, eu sabia, continua ele, eu sabia que era um desses marados alemães que inspiraram o Hitler, não é, Eugénia, andas a ler essa merda porquê, tens saudades do Salazar, dos tempos da pide, sabes que o meu pai esteve no Tarrafal, minha puta de merda, não fosses gaja e levavas com uma bota da tropa na tromba agora mesmo, e os restantes acorrem para ele, deixa lá, não ligues, ela é meio avariada, vamos embora, deixa estar, vamos, travam-no pelos braços, levam-no do palco, e à medida que se afastam ele vai deixando um lastro de insultos, e recebe uns encorajamentos, umas pancadas nas costas, por duas vezes agarram-nos para que não volte a correr para me desfigurar à patada, e eu aqui no meio do palco, as pernas tremendo até que finalmente caio, os olhos encharcados de tanta lágrima, e eu sem poder explicar-lhes a verdadeira natureza do super-homem, a revolução ontológica que faria parecer o projecto nazi uma brincadeira de crianças inclinadas para o mal, mas como demonstrar isto a quem nunca leu Platão, a quem vê Nietzsche pela óptica de um filme de índios e cobóis, a quem nunca tropeçou no mistério de haver estrelas e não o nada, e as estrelas, chovendo em contínuo sobre os meus óculos molhados, são arquipélagos de tinta branca semeados ao acaso que eu vou refazendo a cada piscar de olhos, é um caleidoscópio e é meu, e sorrio.


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Cair para dentro
Valério Romão
abysmo

 

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Caminhos levantados por Infinite Jest, o titânico, infinito entretenimento de David Foster Wallace.

Artigo publicado originalmente na 10º edição do log/CeSIUM, a revista do CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

iu-2.jpegNão me recordo da primeira vez que ouvi falar de Infinite Jest, o titânico e  hermético livro publicado no final do sec. XX – não foi assim há tanto tempo, 1996 – nos Estados Unidos da América. São cerca de mil páginas em letra miúda, que a edição original da  Little, Brown and Company reúne num objecto grosseiramente adequado à leitura casual; na sua capa, uma fotografia de belos exemplares de nuvens que contrastam o azul do céu e lhe conferem uma aparência sóbria e digna; a sua natureza e propósito são parte stock photo, parte meditação existencial. Infinite Jest – ou A Piada Infinita, com uma excelente tradução e edição no nosso português pela Quetzal – desdobra-se em significados a que alude o seu título: uma história irónica e levemente humorística, cíclica e enciclopédica, em mordaz comentário à estranha América dos nineties.

O seu autor, David Foster Wallace, é recordado pelo estilo cínico e estranhamente cerebral, capaz de um distanciamento descritivo notável. Pois bem, a sua carreira edificou-se não no registo de romance mas no domínio do ensaio, onde, desse período, há textos que se emanciparam da restante obra: por exemplo, um que escreveu sobre o apelo estético do jogo de Roger Federer (o ténis era uma das obsessões do autor), ou até o famosíssimo discurso na universidade americana Kenyon College, This is Water, dirigido aos alunos que graduaram no ano de 2005: uma miríade de conselhos para uma vida melhor, sob a forma de parábolas e hipotéticas situações quotidianas, inserida no contexto social e económico americano. 

Neste discurso, entretanto editado num formato de livro de bolso, a reflexão começa em torno da conversa entre dois peixes: “como está a água?”, pergunta um a seu amigo. A pergunta assalta-o, pela sua estranheza, e prontamente é desbloqueada uma torrencial linha de pensamento sobre uma necessária consciência para tudo o que constitui a nossa vida imediata, passada agora entre centros comerciais, urgências temporais, e experiências que são profundamente alienantes em relação à nossa natureza humana. Todas estas preocupações estão resumidas num excerto do texto que sintetiza várias dimensões da preocupação fosteriana: 

None of this is about morality, or religion, or dogma, or big fancy questions of life after death. The capital-T Truth is about life before death. It is about making it to thirty, or maybe fifty, without wanting to shoot yourself in the head. It is about simple awareness — awareness of what is so real and essential, so hidden in plain sight all around us, that we have to keep reminding ourselves, over and over: “This is water, this is water.

É a conclusão de uma amálgama de considerações estranhamente prescientes do geist do presente século, pese embora todas as pistas dadas por uma modernização tecnológica da qual Foster Wallace foi testemunha: sentiu o poder hipnótico e voyeurístico da televisão (uma atracção que entretanto se transladou para as redes sociais); foi a tempo de viver a internet – embora não a internet na qual essa primeira se transformou; e estudou, com desconfiança e distanciamento, a necessidade de apaziguamento consumista da cultura ocidental. Acima de tudo, identificou com perspicácia o tédio moderno, e a indústria do entretenimento como um vício nefasto para o suprimir. 

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Aquando do seu lançamento, Infinite Jest prontamente caiu no goto dos seus tempos e foi assimilado tanto pela crítica como pelo seu público. Os boards da internet elevaram-no a um estatuto de objecto mitológico, e foi amplamente dissecado, relido e discutido à luz de uma tradição literária carregada por Thomas Pynchon e pelo irlandês James Joyce. É certo que a obra adopta alguns traços do pós-modernismo literário — como sejam a abstracção de uma temporalidade linear, ou a multiplicidade de pontos de vista narrativos e informação concatenada — mas é na própria estrutura que reside a sua mais proeminente característica, porventura uma influência da embriónica internet: a exagerada (e frequentemente frustrante) hipertextualidade, cuja função é unir uma miríade de ideias justapostas sem necessária linearidade consequencial, e que remete num qualquer dado momento para vários outros pontos da obra.

Neste exercício de abundante produção literária, Foster Wallace chegou a ideias especialmente prescientes e reveladoras tanto da natureza humana que lhe era contemporânea, como de uma natural evolução que se deu nos últimos anos. A dada altura na obra, descreve com pormenor um sistema de videochamada recentemente implementado neste universo; a tecnologia e hábitos da sua utilização chegam-nos narrados na sua característica prosa coloquial; e escalando lenta e assertivamente o nível de absurdidade – embora, para nós infelizmente, ainda distante da inverosimilhança -, relata de que forma o sistema evoluiu e seguidamente implodiu, munido da força analítica e meticulosa que lhe conhecíamos dos seus ensaios. Descreveu, em 1996, toda a influência da obsessão com a nossa representação digital, a propagação de avatares, a crescente alienação da imagem do eu. Esta é uma obra, como disse, perpassada por ironia e cinismo, como se todas as vidas fossem representadas sob a sombra de uma latente melancolia existencial.

Neste universo, declaradamente distópico e absurdo, habita um rol de personagens densas e tridimensionais, grande parte delas dependente de algo e virtualmente todas a braços com as vicissitudes da vida contemporânea. A sociedade do consumo e do entretenimento é palco de fundo para Hal Incandenza, um adolescente exímio no ténis mas viciado em erva; para Don Gately, um intimidante ex-criminoso entretanto frequentador dos Alcoólicos Anónimos; para Joelle Van Dyne, uma jovem radialista cuja face é tão impressionante que a cobre de um véu opaco para que nunca lha possam ver. Aqui, os Estados Unidos já não existem — toda a América do Norte passa a ser uma enorme federação —, os anos deixam de se contar pela ordem gregoriana porque são agora patrocinados por grandes empresas, e há um diabólico grupo terrorista, de pretensões separatistas em relação ao Quebéc e a  mencionada federação, que aterroriza a ordem geopolítica e planeia alienar toda a população americana com uma mortalmente eficaz forma de entretenimento: um vídeo tão absurdamente cativante que retém ad aeternum a atenção de quem o vê — uma  megalómana maquinação à qual Infinite Jest, no fundo, não é totalmente alheia. 

Mas há ainda um aspecto relevante para explicar uma relativa perenidade da obra, e das ideias do seu autor, nos cânones literários: a relação formal com as correntes que o precedem, das quais assinalo especialmente o pós-modernismo, um género de escrita largamente característico do século XX e do qual podemos tomar como exemplo Slaughterhouse Five, de Vonnegut, ou Catch-22, de Joseph Heller (que comungam na representação da guerra). Foster Wallace identificou o sentimento irónico que perpassa grande parte desta produção literária, e que sustenta o distanciamento quanto às (frequentemente absurdas) agruras da vida; mais ainda, apontou a nossa dependência da ironia como forma de lidar com a vida. Num seu ensaio de 1993, “E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction”, escreveu: “The next real literary “rebels” in this country might well emerge as some weird bunch of anti-rebels, born oglers who dare somehow to back away from ironic watching, […] who treat of plain old untrendy human troubles and emotions in U.S. life with reverence and conviction. Who eschew self-consciousness and hip fatigue.” É à luz desta ideia que podemos reconsiderar a sua obra: o eu fragmentado, existencialmente fatigado, amplamente explorado na literatura pós-moderna como desajustado do sentido da vida, existe em Infinite Jest não como um indivíduo repartido e desagregado, mas como um conjunto de individualidades validadas por si só, especiais e únicas, singularmente afirmadas e enredadas numa imperfeita tapeçaria humana. O distanciamento emocional dá lugar a uma arrebatadora sinceridade.

Foster Wallace preconizou, então, um possível futuro para a arte que reflecte e reage em função de um paradigma existencial que se alterou nas últimas décadas. Vivemos mais depressa, e mais deslocados. Consumimos e deixamo-nos consumir. Reagimos com distância emocional, e rodeamo-nos de muletas significantes que nos auxiliam e toldam a percepção e interacção com o mundo (o vaporwave, por exemplo, permitiu-nos chegar a termos com a experiência consumista em massa; os memes envolvem-nos em meta-referências que nos recordam, a todo o momento, da transversalidade das ideias cibernéticas; as redes sociais permitem-nos, finalmente, controlar a percepção exterior de nós próprios). Recuperamos This is Water, e é evidente a pouca ortodoxia e o pessimismo latente do discurso do autor aos recém-graduados; há a sempre presente preocupação não com a forma de viver a vida, mas como suportar a vida. O fardo da consciência é um dado inescapável; cabe-nos a nós saber lidar com as suas imposições. E é assim que, neste caminho alternativo a Infinite Jest, damos de caras com esta espécie de tragédia da consciência moderna – uma à qual, em última instância, Foster Wallace renunciou.

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David Foster Wallace e The End of the Tour.

Eram outros tempos quando, em 1996, Infinite_jest_coverDavid Foster Wallace, seguidor duma corrente pós-moderna, na veia de, por exemplo Thomas Pynchon ou Kurt Vonnegut,  editou o seu titânico livro Infinite Jest (aqui, sob o nome A Piada Infinita, com edição pela Quetzal), uma autêntica bomba literária que o elevou ao estatuto de big thing nos Estados Unidos da América – e um pouco por todo o mundo. Este sucesso levou, como acontece frequentemente, a que a sua vida pessoal suscitasse interesse: e Foster Wallace dava pano para mangas para que muito se pudesse especular, numa infrutífera tentativa de descortinar a pessoa por trás do escritor. Mais tarde, estava confirmado o trágico final: suicidar-se-ia em 2008, inflamando, mais ainda, a sua persona de génio incompreendido.

Há alguns anos que tenho A Piada Infinita referenciada como uma obra a ler, mas intimido-me pela sua dimensão hermética e a enorme quantidade de notas e subnotas que contribuem para a estrutura não-linear do livro. Nem sequer cheguei ao consenso entre ler na língua original, ou na tradução para português. Depois, claro está, a própria pessoa de David Foster Wallace funciona como um foco de atenção, envolta numa espécie de mistério cultivado, alheio a grandes entrevistas nem a exposições da sua pessoa. A pergunta, muito mais complexa e multifacetada, resume-se assim: o que passou na cabeça de alguém que escreve em catadupas como fez o americano, e depois, tragicamente, põe termo à sua vida? Sempre imaginei que a resposta estivesse presente na sua obra escrita, como uma mágica intenção epifânica, visível após o revolver de todas as palavras e ideias, que fizesse a ponte entre David e o seu leitor. Seria isto possível, sequer?

Acontece que, por volta do lançamento do seu livro, o jornalista David Lipsky da Rolling Stone propôs uma longa entrevista ao longo de 3 dias, e Foster Wallace, relutantemente, aceitou. Gravaram-se horas de conversa em cassete, em variados tons e assuntos, que nunca vieram a público; o artigo acabou por nem sequer ser publicado, muito menos escrito – consta que surgiu entretanto uma história mais interessante para a revista. Aquando da morte do autor, Lipsky (também um escritor) transformou as transcrições das conversas no seu livro Although of Course You End Up Becoming Yourself, em 2010, e foi esse mesmo livro que serviu de base ao filme de James Ponsoldt, The End of The Tour, que chegou este ano aos cinemas (ainda sem passagem marcada por Portugal).

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Os papéis principais de Foster Wallace e Lipsky ficaram entregues a Jason Segal e Jesse Eisenberg, respectivamente, e o casting dificilmente seria melhor; Segal interpreta uma personagem dificílima e com todo o mérito, enquanto Eisenberg, embora sofra do mesmo síndroma que Michael Cera (ambos têm imensa dificuldade em sair do seu conforto físico), faz também um papel muito adequado. A narrativa fixa-se no ano de 2008, na manhã seguinte ao suicídio do escritor, e por meio de analepse passa ao ano da entrevista, em 1996. Lipsky interessa-se depois de ter lido A Piada Infinita, e motiva-se na expectativa de descortinar o génio por trás do livro. Acompanhamos a viagem ao encontro de Foster Wallace e as conversas entre os dois.

Num primeiro momento, supus que The End of The Tour seguisse uma fórmula à imagem de My Dinner With Andre (1981), um fantástico filme de Louis Malle; isto é, pleno em diálogo, mas sem desenvolver a narrativa para lá do essencial. Não é bem isso que aqui acontece: como o título indica, Lipsky acompanha Foster Wallace ao longo de uma tour por diferentes estados, para promover A Piada Infinita, e Lipsky entrevista-o, quase continuamente, durante os três dias. No início, o pudor ainda é tangível e as suas conversas circunscrevem-se a temas menos pertinentes – entre eles, o sex appeal de Alanis Morissette; mais tarde, saem ambos da sua zona de conforto e encontram-se numa espécie de meio termo, extremamente revelador, que responde a muitas das nossas perguntas sobre o escritor. O filme funciona extremamente bem na exposição de Foster Wallace, da sua escrita, e das suas motivações, mas aproveita e mostra-nos, simultaneamente, a sua interacção com os outros e, em particular, uma certa crispação entre o seu ego e o de Lipsky: é o que acontece quando temos alguém naturalmente tímido e defensivo, e um outro que o admira; que, entre as suas palavras e acções, quer encontrar uma ideia projectada por si próprio.

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Como não podia deixar de ser, tanto o lançamento do livro de Lipsky como o filme de James Ponsoldt foram alvo de alguma contestação por parte de alguns amigos e familiares de Foster Wallace; por outro lado, muitos foram também os que apreciaram a homenagem e o cuidado com a representação do escritor. É, creio eu, uma homenagem justa à sua pessoa, e uma merecida humanização; para os seus fãs, é um contacto mais pessoal do que o possível através da sua escrita; e, por último mas não menos importante, para o cinema: uma óptima biopic – sensata, nobre, e muito cumpridora – à qual se junta a fantástica caracterização de Jason Segal. Por cá, desde 2010 que David Foster Wallace é editado pela Quetzal, que já lançou A Piada Infinita, com tradução de Salvato Telles de Menezes e Vasco Telles de Menezes, O Rei Pálido, um romance inacabado, e Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer, que reúne alguns textos e ensaios.

Servidão Humana – W. Somerset Maugham

12277145_10208069387081615_351519234_nAntes de mais, preparo-vos com uma ressalva, e um aviso: de todos os ramos da arte e cultura que aqui foram abordados, a literatura é para mim, porventura, o mais pessoal. Com ela mantenho uma relação já duradoura, embora tenha tido, a dada altura da minha vida, um enorme interregno de pouquíssimas ou de fracas leituras. Agora, faço o esforço de correr atrás do tempo passado, com um interesse exponencialmente renovado, para que de alguma forma consiga compensar as horas dispendidas em actividades infrutíferas, nas quais o tédio venceu ambos vontade e razão.

Para primeira opinião, debruço-me sobre um dos últimos livros que li, A Servidão Humana , que remonta ao início do séc.XX, e escrito por William Somerset Maugham. A Servidão Humana tem como centro do seu universo Philip Carey, um rapaz a quem a ordem do mundo lhe conferiu a infelicidade de ter um pé boto. Acompanhamo-lo diligentemente desde o seu nascimento até à idade adulta, num espaço temporal que se enquadra desde a infância, passando pela difícil fase do coming of age – física, claro, mas de identidade pessoal também. De resto, é sabido que a personagem de Philip partilha uma imensidão de similaridades com o seu autor, W. Somerset Maugham, pelo que as duas identidades são indissociáveis.

Após a prematura morte da sua mãe, Philip acaba por viver com os seus tios num ambiente extremamente religioso, que lhe toldará a sua posterior visão do mundo; sabe-lo-á, até bastante cedo, que não é um sítio justo: órfão de pai e mãe, ao que se junta o seu pé boto, fazem com que Philip precocemente se questione – “porquê eu?”, e são estes os elementos basilares que provocam uma forte reacção ao mundo que o rodeia, e, assim, edificam a sua personalidade. Há, Por exemplo, um momento especialmente marcante, logo na sua infância, que resume e lança as bases do seu conflito consequente com Deus: antes de ir dormir, Philip reza, e pede encarecidamente que o seu pé boto deixe de o ser. O dia seguinte pela manhã traz uma surpresa que só o é para ele – o seu pé continuou deformado – e uma forte angústia que lhe ensina o que é realmente a fé, e o lança numa tenra crise existencial.w-somerset-maugham

Depois, Philip continua a edificação da sua personalidade, fruto, na maior parte das vezes, do acaso mais do que planeamento prévio, entre o colégio interno que frequentou até a adolescência, a estadia na Alemanha, e o tempo passado em Paris em busca de realizar o seu sonho como pintor, numa incessante busca por um qualquer tipo de liberdade. Paradoxalmente, a obsessiva paixão que desenvolve com uma rapariga banal, Mildred, prende-o a uma errática ilusão – terá sido sequer amorosa? – que vai despoletar grande parte das verdades universais do livro.

Em termos literários, tudo é relatado num tom cru e pouco romantizado, sem grandes requintes estilísticos (o próprio Somerset Maugham disse, certa vez, que “sabia que não tinha qualidade lírica”). Apenas nos vale a própria pessoa de Philip, e as suas considerações sobre o resto do mundo: frequentemente mordazes e irónicas, perfeitamente coerentes com as acções e condicionantes da personagem. Ao contrário de outras obras do cânone dos Bildungsroman, nome dado às obras que incidem no crescimento duma personagem – como A Montanha Mágica, bem mais densa e filosoficamente pertinente, de Thomas Mann; ou num caso menos extremo, As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow;  – é absolutamente necessário que consigamos empatizar com Philip Carey. Depende da capacidade do leitor em identificar-se com uma personagem sofrível e martirizada pela ordem e padrões da vida, e cujas acções assumem, frequentemente, dimensões tragi-cómicas.

Caso se empatize com Philip, A Servidão Humana transforma-se num romance directo, e revelador de um âmago com o qual muitos de nós se podem, de alguma forma, identificar; é, na boa tradição de Bildungsroman, uma história particular de traços universais. Em Portugal, a mais recente edição ficou a cargo da Asa, com a capa retirada do filme de 1934, baseado no livro, com Bette Davis e Leslie Howard.