A Mosca (63º, 64º, 65º e 66º Edições) – Podcasts em dia!

Tardou, mas chegaram! Aqui ficam disponíveis os quatro últimos podcasts das emissões d’A Mosca, programa pertencente à antena da Rádio Universitária do Minho. Neste último mês, fomos verdadeiramente ecléticos: poucos foram os géneros onde não deitamos a atenção. Na 63º emissão, contamos logo a abrir com a soul sensual de Marvin Gaye, para seguirmos em agradáveis terrenos de jazz e funk (destacam-se os Mahavishnu Orchestra e Curtis Mayfield, respectivamente). Depois, krautrock da melhor formada – cortesia dos Can – passando por dois incontornáveis, mas de discretas carreiras em vida, nomes da música folk, nomeadamente Jackson C. Frank e Nick Drake.

Na emissão 64º, recordações de bons concertos no NOS Primavera Sound (entre outros, ouvimos Slowdive, que voltam este ano a Portugal, no Festival Paredes de Coura!), deitando também um olho à country americana de Neil Young e da incrível Karen Dalton, cujo álbum In My Own Time (1971) já tem um lugar cativo nas nossas emissões.

Chegados à semana seguinte, perdemos a cabeça e embarcamos numa erudita excursão com grandes nomes do experimentalismo e do “pensar-fora-da-caixa”. Primeiro, os alemães Einstürzende Neubaten (dos melhores do NPS 2015), seguindo-se a trindade Frank Zappa, Miles Davis, e Herbie Hancock. Do primeiro, ouvimos-lhe um dos seus mais acessíveis e celebrados trabalhos – Uncle Meat (1969) -, enquanto que para os outros dois, entidades basilares do jazz, enveredámos em projectos seus mais periféricos. Do primeiro, o seu álbum On The Corner (1972), de recepção mista na crítica; quanto a Hancock, ouvimos Sextant (1973), no qual aborda, em ritmos exóticos e experimentais, uma mescla entre a electrónica e o jazz. Curiosamente, foram dois álbuns que precederam registos aclamadíssimos na carreira de ambos – falo de Bitches Brew e Headhunters, respectivamente. Esta foi uma emissão muito interessante – eclética, como sempre – em que passámos, mais tarde, pela música de Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Vale a pena ouvir.

Finalmente, na 66º emissão, algo mais ortodoxo. A entrada deve-se aos akron/family, que teimam em não desiludir, seguindo-se a música africana de Dorothy Ashby  (vale muito a pena ouvir o seu trabalho) e King Sunny Adé. Representamos também o hip-hop, através de Dr. Dre e o trabalho de estreia de Donny Trumpet & The Social Experiment, no qual contribui o nosso conhecido Chance The Rapper. Pelo caminho, Portishead, Joan Baez, o futurismo optimista de Squarepusher, e, para terminar, plunderphonics para uma vida melhor da autoria de People Like Us & The Jet Black Hair People.

Temos, assim, os nossos podcasts em dia e prometemos uma maior assiduidade nesse sentido. Foram, realmente, semanas complicadas e de muita atribulação. Em Julho, conto ter novidades em relação ao projecto do blog, como ao próprio programa, pelo que, até lá, têm imenso tempo para por a matéria em dia. Vamos entrar na maior força.

A próxima emissão d’A Mosca é na próxima Segunda-feira, a partir da 1h da madrugada – mas antes, no Domingo, às 21h, há emissão da Quintessência, com Duarte Matos e a música clássica. Agenda preenchida!

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 29 de Março a 5 de Abril

Na ressaca de mais uma (atribulada) semana, chega finalmente o resumo cultural. Mas não é tudo! Para esta semana, na emissão da próxima madrugada de segunda-feira (dia 13, às 2h, na Rádio Universitária do Minho), temos uma emissão diferente: em vez da habitual escolha de música, escolhemos para ouvir uma peça de teatro radiofónica difundida, originalmente, pela BBC Radio 2, e baseada no álbum Dark Side of the Moon (1973), álbum seminal dos britânicos Pink Floyd. O resto é surpresa, mas estão convidadíssimos a fazer-nos companhia. Até já!


A Mosca – 57º Emissão

Esta emissão d’A Mosca pauta-se, inicialmente, por terras americanas. Primeiro, os Steely Dan, cujo álbum Aja (1977) foi excelsamente produzido e é, ainda hoje, um marco no mundo da música; e, logo a seguir, o funk negro dos Funkadelic, e uma amostra do seu álbum Maggot Brain (1971). Segue-se Ryley Walker que nos traz um dos trabalhos mais interessantes que ouvimos este ano, uma infusão de várias vertentes da música tradicional americana, reunidos no álbum Primrose Green (2015). Peter Broderick foge ao seu registo usual na faixa que dele ouvimos, e logo a seguir ouvimos o mais recente trabalho de David Thomas Broughton, que já conhecemos do seu álbum The Complete Guide to Insufficiency (2005) – é um álbum fantástico, recomendado a todos! De seguida, entramos num período mais calmo e contemplativo, pela mão de Kathryn Joseph, cujo álbum de 2015, Bones You Have Thrown Me and Blood I’ve Spilled, de uma singular beleza e simplicidade, tem passado, injustamente, algo despercebido. E logo depois da canção intimista ao piano de Nils Frahm, oportunidade para ouvir parte de um dos álbuns mais interessantes dos últimos tempos: trata-se de Cass. e o seu registo Magical Magical (2015), experiência do género ambient, que não se fecha em si próprio, sendo acessível e envolvente. Há ainda tempo para uma incursão pelo noise abrasivo dos Yellow Swans, que nos mostram o potencial do som além da música, e terminamos em beleza, com a ingenuidade confessional dos britânicos The Smiths, e o clássico intemporal ‘Please Please Please Let Me Get What I Want’. Foi uma boa semana.

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Cinema

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Talk Radio
(Oliver Stone, 1988) – A semana começa com Talk Radio, um filme de Oliver Stone que trata, precisamente, sobre uma estação de rádio  e o polémico locutor Barry Champlain. No seu programa, aberto às intervenções da audiência, tudo se critica – embora nem sempre devidamente argumentado – em temas tão diversos como a sociedade americana ou a negação do Holocausto; mas as forças executivas da rádio querem impor-lhe limites, quando se coloca a possibilidade de ter o seu programa estatal difundido à escala nacional. Não fosse este um entrave suficiente à liberdade de expressão de Barry, a sua carreira complica-se ainda mais quando a sua natureza judaica e ideologias antinazis entram em confronto com parte do seu auditório – e serão estas discussões que nos permitem traçar fielmente o retrato intelectual do locutor. A realização de Stone é competente, ao transformar as paredes dum estúdio (onde se desenrola a maior parte da acção) num espaço amplo e de alguma liberdade, e o filme tem, certamente, alguns bons momentos. Fica a recomendação para quem goste de rádio, filmes baseados em diálogo, ou personagens de fortes convicções.

The_Divine_Comedy_(film)A Divina Comédia (Manoel de Oliveira, 1991) – É com muito pesar que nos damos conta da morte do cineasta português, e também com vergonha, em igual medida, por só em tão lamentável circunstância chegarmos ao seu cinema. Como foi amplamente discutido e assumido na semana da sua morte, Manoel teve sempre um estilo muito próprio – ao qual se associa, justamente ou não, a dimensão temporal das cenas e o ritmo extremamente pausado da acção – e que se traçou paralelamente ao cinema popular/comercial a que estamos tão habituados. A Divina Comédia passa-se no interior de uma espécie de hospital psiquiátrico, no qual habitam pacientes pouco ortodoxos. Entre eles, há dois que se julgam Adão e Eva, outros que discutem aguerridamente Deus e religião, tudo envolto numa sobriedade que nunca resvala para a patetice – ou se o faz, fá-lo com uma certa classe e um requintado sentido de humor. Para além disso, A Divina Comédia, embora não encaixe completamente neste estereótipo, dá a conhecer algumas das características que se associaram aos filmes do cineasta: as cenas pausadas, de filmagem delicada, colorida, e um surrealismo capaz de alienar grande parte do seu público; mas aqui, o ritmo inerte é subtilmente contrastado pelos diálogos, vívidos e energéticos, que não sendo baseados na obra de Dante, lhe pediram emprestada a veia literária, buscando referências a personagens de Dostoiévski e Tolstoi. Percebo agora o porquê de vermos o percurso de Manoel como paralelo à nossa cultura e ao cinema convencional, ou não fosse o seu cinema, realmente, algo de especial. Futuramente, revisitaremos a sua carreira, para nos aproximarmos de si; lá fora, foi devidamente reconhecido: A Divina Comédia venceria o Grand Special Jury Prize no reputado Festival de Veneza.

saul-bass-the-shining-film-poster-1The Shining (Stanley Kubrick, 1980) – Como estaria a cabeça de Kubrick, o génio por trás do incrível 2001: Odisseia no Espaço, enquanto preparava The Shining? Dificilmente alguma vez teremos uma resposta definitiva. A história, relativamente baseada numa obra de Stephen King, documenta a jornada de uma família num hotel isolado, no topo de uma montanha. Este hotel esconde alguns segredos – entre outros, foi construído sobre um cemitério indígena – e a sobrenatural influência do edifício não tarda em manifestar-se no pai de família, que perde, progressivamente, a sua sanidade mental, para mais tarde tentar o homicídio da esposa e filho. Sim, a história é macabra, mas… o elenco é absolutamente fantástico, com destaque às prestações de Jack Nicholson e Shelley Duvall (e só ela saberá o que sofreu neste papel…), como todo o filme é um deleite visual: o hotel, tão eximiamente decorado, é de tal forma aproveitado que parece ser, ele próprio, uma personagem por si só, com os seus infinitos corredores, as cores vibrantes e expressivas, e a energia, intangível, que exerce através das suas paredes. Tal como nos habituara em 2001, Kubrick não se expressa apenas pela imagem e pelo som tangíveis aos sentidos; isto é, os seus filmes escondem sempre outros significados, e abrem-se, como árvores, em infinitas possíveis interpretações. O pulso de ferro com que gere a feitura do filme, a qualidade objectiva da sua filmagem, e, paradoxalmente, o desprendimento de uma mensagem específica na sua arte – uma versatilidade que é uma virtude, nunca um defeito – tudo isto o separa da gama de bons realizadores, para que se eleve, merecidamente, a um lugar entre os melhores.

A Mosca, e notas de uma semana passada – 22 a 29 de Março

O atraso da publicação é lamentável, de facto, mas a qualidade do conteúdo é inegável: A Mosca traz uma óptima emissão, e o cinema – fora uma pequena desilusão – é do melhor que aqui tem passado. Encontramo-nos para a semana. Até já!


A Mosca – 56º Emissão

Nesta emissão, demos, nos momentos iniciais, destaque ao hip-hop. A abrir, milo com uma amostra do seu trabalho Things That Happen at Day, de 2012. O rapper americano, que se move pela cena independente, tem na sua música uma bem sucedida mistura de letras cuidadas, fruto do seu passado como estudante de Filosofia – é frequente apoiar-se nos textos de Nietzsche ou Schopenhauer. Para quem gostou, é obrigatório ouvir o seu EP. Os Outkast têm direito a trazer-nos uma faixa cantada por Andre 3000, assim como também pudemos ouvir Mos Def a espalhar magia numa canção do álbum Black on Both Sides (1999). A seguir, os ecléticos japoneses Boredoms, que já fizeram quase tudo ao longo da carreira. Aqui ouvimos uma amostra do álbum conceptual Vision Creation Newsun, também de 1999, que desperta a curiosidade para o resto do álbum; e como já lhes sentíamos a falta, passámos também pelo mundo de Hail to the Thief (2003), o álbum que precede In Rainbows (2007) na carreira dos Radiohead. É um fantástico álbum – como o são todos, afinal! Para o resto da emissão, reduzimos a velocidade e planamos na música de Bonnie ‘Prince’ Billy e Jessica Pratt, duas óptimas amostras de folk intimista e óptimos cantautores. Depois, seguem-se os misteriosos e experimentais The Residents, a mostrar uma faixa de um dos álbuns mais enigmáticos de sempre, aos quais sucedem os The Grubby Mitts – numa fantástica faixa que terão mesmo que ouvir. Acaba a emissão com Fennesz e as suas composições que parecem suspensas nas teias do tempo.

Mas além da (boa) música, esta emissão contou também com uma experiência diferente: ao longo do programa, ouvimos excertos do documentário Música em Pó, da autoria de Eduardo Morais. Tem cerca de uma hora de duração, e permite-nos espreitar as incríveis colecções de vinil em território nacional. Além disso, são imperdíveis as histórias e as opiniões dos intervenientes, num filme que é, simultaneamente, uma autêntica carta de amor à música e ao formato icónico do vinil. Podem vê-lo aqui – vale mesmo muito a pena.

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Cinema

blue-is-the-warmest-color-posterBlue is the Warmest Color (Abdellatif Kechiche, 2013) – Digamo-lo antes de mais nada: Blue is the Warmest Color é um grande filme – mas um que será também polémico, desconfortável e desafiante. Seja como for, este trabalho do tunisino Abdellatif Kechiche venceu a reputada Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2013, e rapidamente fomentou o grandioso estatuto que o levou à entrada directa na colecção Criterion, em DVD e Blu-ray, uma espécie de arquivo digital que compila marcos clássicos e contemporãneos do cinema. Ora, é evidente que o mundo se rendeu quase unanimamente a este filme, narrativa que acompanha a jovem adolescente Adèle no seu último ano da escola secundária, e, simultaneamente, no primeiro da grande descoberta de si própria; urge, portanto, ir além da superfície da narrativa e identificar a sua substância, identificando os motivos pelos quais Blue is The Warmest Color é tão grandioso. Quando nos é apresentada Adèle vemo-la levianamente bonita, uma aluna cumpridora e leitora nos tempos livres, mas a sua curiosidade, embora inquisitiva como consequência da idade, não avança além da zona de conforto – até que um dia se cruza com Emma, a rapariga do cabelo azul, a cor que marca indelevelmente a normalidade da vida de Adèle e o início de uma jornada de descoberta, sensual e sexual, apaixonada e apaixonante. Um dos pontos fortes de Blue is the Warmest Color está em não se embandeirar na representação carnal do amor a que se propõe (as fortíssimas cenas lésbicas são longas e mais substanciais que muita pornografia rasca), optando por um fiel retrato do desabrochar de uma relação; a metamorfose de Adèle é explícita, no desinibir dos seus preconceitos físicos, como implícita, nas pequenas mudanças que lhe entrevemos através da fantástica cinematografia do filme, nos planos longos e intimistas, reveladores do frenesim invisível que a sua pele esconde; o encanto de uma óptima narrativa alia-se a cenas que são simplesmente belas – como o primeiro encontro entre as duas mulheres, o contraste físico entre o aprisionamento de uma, e a liberdade de outra; ou o revigorante banho de Adèle na imensidão do mar francês, azul como a imensidão do céu, que a engole e a envolve como o azul do calor de Emma. Blue is The Warmest Color é mais do que um filme romântico-dramático, sincero e provocador na sua intensa frontalidade, exímio na sua execução; é sobretudo um retrato no qual se turvam os tão predominantes preconceitos de género, para que no final se lembre apenas a titânica complexidade do amor que só interessa a quem o viveu. Fantástico filme.

15Ikiru (Akira Kurosawa, 1952) – Ikiru, japonês para o verbo viver. É este o mote do filme de Kurosawa, o primeiro que vi do lendário realizador, porventura mais conhecido pelo seu trabalho Seven Samurai (1954). A história é nobre: Kenji Watanabe trabalha num movimentado escritório no Japão, típico empreendimento burocrata sem alma nem sentido. A rotina quotidiana não o atormenta, até à fatídica notícia de um cancro, que lhe permite apenas seis meses de vida. O choque de Watanabe leva-o à desenfreada procura por um sentido de vida, um último objectivo que traga paz ao seu espírito – não é esta uma questão que com todos nós se relaciona? Ikiru, embora carregue o peso da sua idade quinquagenária, tem em si muito de actual; o que por si só atesta a intemporalidade do cinema do realizador japonês, seja em termos narrativos como cinematográficos (e as cenas de Ikiru são quase sempre recheadas com movimento em toda a dimensão do ecrã, na periferia do habitual ponto de atenção do espectador) Poderá ser complicado convencer um amigo a ver este filme, pelos seus longos planos, de ritmo oposto ao frenético cinema americano, e pontilhados por diálogos crípticos e existenciais – merecedores de uma especial atenção – mas Ikiru é mesmo um filme belíssimo. Fica a promessa de voltar, em breve, ao cinema do japonês Akira Kurosawa.

men-women-children-posterMen, Women and Children (Jason Reitman, 2012) – Não me quero alongar com este filme. Muito sucintamente, Jason Reitman é o realizador por trás de Juno (2007), um dos primeiros filmes que me conquistou. Volvidos oito anos, ainda não conseguiu um feito de semelhante importância, o que é uma pena. Men, Women and Children começa até com a premissa interessante de explorar os problemas da enorme presença da tecnologia nas nossas vidas, mas as suas personagens, todas vítimas da mesma maleita, caminham constantemente numa corda que balança entre o engraçadinho e o ridículo, ao que se junta o desenvolvimento cliché da narrativa. Não desgostei completamente do filme, que foi, certamente, muito bem intencionado; mas neste caso, a ideia não transpareceu da melhor forma para o cinema e daí resulta um filme estranho, com demasiados pontos baixos, e que interessa apenas a fãs devotos de filmes coming-of-age, a quem ainda procura a irreverência sloppy de Juno, ou, em último caso, quando nada de mais interessante está a passar na televisão.

A Mosca, e notas de uma semana passada – 8 a 15 de Março

Outra semana passou, sem, infelizmente, muito cinema. Mas gostámos do que vimos! Fica aqui a nossa opinião sobre o nosso consumo cultural da anterior semana.


A Mosca – 54º Emissão

Para esta edição, o primeiro nome que chamámos foi o de Serge Gainsbourg, cantor francês que teve no álbum Histoire de Melody Nelson (1971) o seu maior êxito. É um álbum conceptual, de apenas 28 minutos, sobre um hipotético encontro com uma jovem. A sua sonoridade foi, de certa forma, pioneira, uma interessante mistura de um rock extrovertido com os relatos, muito spoken-word, de Serge, e é uma grande influência no mundo da pop, pelo que o recomendamos. A seguir, Tricky expõe o seu trip-hop extravagante do álbum Maxinquaye (1995), e logo a seguir viajamos pelo dub de Scientist, um clássico dum género que tem as suas raízes no reggae. Brian Eno David Byrne, dos Talking Heads, juntam esforços e compõem um fantástico álbum, My Life In The Bush Of Ghosts (1981), e que se tornou um ponto de referência para o bom uso de samples. Na incursão pela folk, fomos descobrir a americana Judee Sill, um nome menor do género, e cujo talento é inversamente proporcional à fama que alcançou; este segmento fica devidamente complementado com a presença de Simon & Garfunkel, sobre os quais escrevemos há alguns dias. A (boa) música portuguesa tem finalmente o merecido destaque, com a presença de Pedro Barroso a interpretar a fantástica ‘Balada do Desespero’ (ouçam-na!). Para a fase final do programa, ouvimos os pesados novos trabalhos de Spectres e Liturgy, sem esquecer o clássico experimental dos Nurse With Wound, cuja história do álbum ficou explicada e documentada na emissão. É um registo de difícil digestão mas completamente diferente de tudo o que ouvimos até então – não só por isso vale, claro, e percebe-se que não agrade a todos os ouvintes. Terminamos com os alemães Oval, e com a promessa de que para a semana há mais.

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Cinema

 

Lenny (Bob Fosse, 1974) – Não contava ver outro filme de Fosse tão cedo, mas todas as circunstâncias apontavam para o Lenny, baseado na vida do comediante de stand-up americano Lenny Bruce. Curiosamente, já no álbum dos Simon & Garfunkel (Parsley, Sage, Rosemary and Thyme) se ouve o seu nome, assim como é normal surgir associado ao humor do também americano Bill Hicks. São duas personalidades importantíssimas numa espécie de contra-cultura, aproveitando a liberdade dos seus polémicos espectáculos para denunciar a falsidade da sociedade americana. Essa liberdade foi-lhe retirada a dada altura na sua carreira, o que o levou a repensar o seu estatuto de artista. Terá sido esta a progressiva causa do seu declínio, que culminou numa overdose. Ora, Bob Fosse pegou na verídica história de Lenny Bruce e dramatizou-a a seu gosto, passando pela ascensão do artista como também pela atribulada vida amorosa, intercalando a ascensão profissional e a vida pessoal de Lenny Bruce com excertos dos seus espectáculos, reinterpretados fielmente pelo actor Dustin Hoffman. Lenny, no entanto, é uma dramatização romantizada, baseada levemente nos factos e com uma dose generosa de momentos extravagantes, muito ao estilo de All That Jazz (do qual falámos há umas semanas, e que apenas sairia 5 anos mais tarde), como se o seu trajecto tivesse sido o de uma rockstar – o que não deve fugir muito à verdade. Não conhecendo o trabalho do comediante, aqui está uma óptima oportunidade para que o façam, embrulhada num filme competente, embora não tão gratificante como o outro filme do realizador.

TGrave_of_the_Fireflies_Japanese_posterhe Grave of the Fireflies (Isao Takahata, 1988) – Tenho como opinião que a arte nipónica, ou pelo menos, a que mais regularmente nos chega, é uma arte despreocupada, infantil quase, de uma ingenuidade facilmente associada ao estado de espírito de todos os japoneses. Deste país, mais facilmente reconhecemos livros de manga ou as séries animadas que dão pelo nome de anime, embora seja também um país de tradição de bom cinema – recorde-se o clássico realizador Yasujirō Ozu, quase nos primórdios da sétima arte. Pela mesma linha de ideias, os filmes de animação são usualmente rotulados pela suposta falta de seriedade das suas histórias, ou pela ideia errónea de terem no público infantil o seu alvo maioritário; mas o cinema de animação pode ser veículo de boas histórias e mensagens fortíssimas, como constatamos em The Grave of the Fireflies, e que desafia todas as minhas falaciosas convenções da arte japonesa. Aqui é contada a história, na primeira pessoa, de um jovem que morreu como consequência da Segunda Guerra, e que nos conta as suas impressões deste conturbado período. As trágicas circunstâncias do início da sua adolescência levam-no a tomar a guarda da sua irmã mais nova, e rapidamente a sobrevivência se torna mais importante que a felicidade, na jornada que os leva à procura de um abrigo, e alimento para o dia-a-dia. A gravidade da situação é atenuada pelos ingénuos traços dessa cultura japonesa, sobremaneira presentes neste filme, nos singelos momentos que documentam a jornada das duas personagens: são cenas mundanas, quase, como a delicadeza dos irmãos a partilhar o arroz do jantar, ou quando Setsuko, a mais nova, descobre alguns rebuçados presos na sua caixa de alumínio – momentos doces e enternecedores, mas provocados por um mal maior, explícito mas não evidente, como, neste caso, o exagerado racionamento da comida que levou muitos cidadãos a perecerem devido à fome. Há, por isso, uma intrínseca magia a este filme de Isao Takahata, na forma como desenvolve, lenta mas assertivamente, a nossa intimidade com as personagens, enquanto que expõe um Japão devastado no seu território e no seu orgulho; simultaneamente, é também reforçada a reputação do cinema de animação. Do mesmo realizador, urge ver um dos filmes mais aclamados de 2013, The Tale of Princess Kaguya, como também, e do outro cineasta Hayao Miyazaki, a obra de 2001, Spirited Away. Posto isto, The Grave of the Fireflies é um filme lindíssimo e surpreende todos os que se deixam levar pelo mundo desenhado por Takahata, puxando a tímida lágrima ao mais estóico dos espectadores. A rever num futuro (muito) próximo.

 

 

Simon & Garfunkel – Parsley, Sage, Rosemary and Thyme

Esta passada semana parei por 29 minutos e dediquei-me à imersão no mundo da música, escolhendo para companhia um grupo que há muito me apoquentava: os americanos Simon & Garfunkel. A sua carreira é indissociável do espírito da contracultura americana que fervilhava em Greenwich Village, Nova Iorque, e que contrariava categoricamente a América consumista, desumana, e desprovida de um sentido de moralidade; foi este mesmo movimento a acolher uma diversa comunidade artística, como a beat generation literária de Jack Kerouac e William S. Burroughs, ou também a cena folk que serviu de trampolim à carreira de Bob Dylan.

Para este álbum, e ao contrário dos dois registos anteriores, os dois músicos americanos reclamaram um maior controlo sobre o processo de produção, no qual se demoraram nove meses, sempre em busca de uma sonoridade e conceito mais refinados. O tempo não tardou a mostrar que foi, realmente, uma aposta ganha: o registo apresenta-se mais coeso e com uma clara identidade. Musicalmente, falamos de uma junção entre folk e o rock, sendo que por um lado, temos a sensibilidade lírica e a componente narrativa, herdadas de um certo classicismo do género (uma influência como, a exemplo, se pode ouvir na primeira canção “Scarborough Fair Canticle”, herdada da música tradicional inglesa do séc. XVIII), e por outro, a notória rebeldia que rompe com a tradição musical da folk e encontra um espaço musical além das simples harmonias vocais e da guitarra acústica.

A proeza musical faria de Parsley, Sage, Rosemary and Thyme, por si só, um bom álbum – mas a componente lírica é importantíssima na carreira de Simon & Garfunkel. Neste registo, as letras são intimamente pessoais e paradoxalmente universais; vejamos a canção “Patterns”, e a epifânica noção que todos temos, a dada altura das nossas vidas, da intrincada teia que tecemos com as nossas acções e decisões, ou as socialmente conscienciosas “The Big Bright Green Machine”, mais atrevida na sua composição musical, que parodia os subterfúgios consumistas da sociedade americana, o culto à produtividade desenfreada e a cultura popular contemporãnea, e a última canção do álbum “7 O’Clock News Silent Night”, onde ouvimos uma referência – que terá sido, afinal, uma homenagem – ao comediante americano Lenny Bruce e à sua mensagem.

Ao seu terceiro álbum de estúdio, Paul Simon e Art Garnfukel ainda respiram o ambiente divertido e descontraído da contra-cultura tão proemininente na américa da década de 60, não sem antes lhe intrometer uma melancólica sensação de realismo e responsabilidade, através da poesia que desmascara, lentamente, a ilusão de um estilo de vida hippie. Assim, acordam para a dura realidade do american dream, mas este é um acordar suave, como que depois de um sonho, daqueles que recordamos para toda a vida.