12/05 – Noções capitalistas, desumanização, e a ̮͙̪̯͢ạ̵̩͍s̷̹̝̼̣̤c̠̙̮͈̼ḛ̢̜n̖ç̞͚͜ã̴͈̹̜̺̻̙o ḓ͍̳͍̫a͞ ̷̗̳̠̣̞͎m̰̫̲̙̕á̲̥͍͓͜q͔̘u̳̪͠ina͉.̞̰̳̟̠

Ora.

Algo de muito estranho se passou nesta emissão. Embora não tenha sido uma habitual transmissão em directo, deixámos tudo preparado num ficheiro .mp3 que foi para o ar à hora marcada. Estava alinhado que iríamos começar com Tatsuro Yamashita, nome nipónico associado a uma vertente muito particular da pop japonesa, feita especialmente para ser ouvida nas novas e vibrantes auto-estradas do Japão. É música com um intrínseco e subliminar espírito consumista, e isto é algo que nos fascina.

Depois, tínhamos planeado ouvir os americanos DEVO, um fascinante projecto que começou, como já ouvimos noutras emissões, com um espírito tremendo de irreverência e criatividade, intimamente ligados ao no-wave, ao rock, e até com alguns ares de punk, mas aqui, no disco New Traditionalists, aproximaram-se mais da electrónica – e o resultado ficou muito interessante, também. Seguiram-se os nossos amigos Kraftwerk, com o disco Die Mensch-Maschine, de 1978.

Só que, infelizmente, tudo começou a ficar estranho a partir da intervenção de Laurie Anderson. Por algum motivo, parece que perdemos o controlo da emissão a partir daqui, e o alinhamento que tínhamos previsto não se concretizou. Do que aconteceu até ao final da hora, conseguimos recuperar o nome de Nuno Canavarro, ex-integrante dos Delfins e autor de um dos mais bonitos discos electrónicos-experimentais portugueses; os Passengers, super-grupo constituído pelos U2 mais a especial participação de Brian Eno, e ainda o enigmático Dean Blunt, prolífico desde o seu disco Black Metal (que, para nós, foi um dos melhores de 2014, já previamente escrutinado).

Conseguimos, ainda assim, resgatar a sugestão da Porto Calling, a música de Moondog, mas perderam-se todos os eixos de seguida quando, até ao final da hora, ficámos com um artista japonês, 細野晴臣, e o feito artístico de Sam Kidel, denominado Disruptive Muzak – merece ser escutado pelo menos uma vez, para lhe apreender o conceito.

1. Tatsuro Yamashita – Sparkle (For You, 1982)
2. DEVO – Beautiful World (New Traditionalists, 1981)
3. Kraftwerk – Das Model (Die Mensch-Maschine, 1978)
4. Laurie Anderson – B͂̀̓̒o̵͋̉̆ͭ͒r̾̏͛̓͂n,̐̒̂ͧ͠ ̈́̓ͬ̕Ņ̀̀̐ͤͬ̋e̵͌ͮ͋̈́ͪv͡e̛̔̉̎͂͋̐̚r͆̇ ́X̀ ̢̽ͤͪ(Big Science, 1982)
5. Nuno Canavarro – Wask (Plux Quba, 1998)
6. Passengers (U2 + Brian Eno) – One Minute Warning (Original Soundtracks 1, 1995)
7. Dean Blunt – 04 Brown Grrl
8. Moondog – Moondog’s Theme (More Moondog, 1956) | sugestão da Porto Calling.
9. 細野晴臣 – Talking (花に水, 1984)
10. Sam Kidel – Disruptive Muzak

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Dean Blunt – Black Metal

Dean Blunt é um dos mais misteriosos e elusivos artistas no mundo da música. As suas entrevistas são parcas e pouco comprometedoras, e grande parte dos jornalistas já vai intimado a não abordar certos tópicos – entre eles, o final da sua relação/colaboração com Inga Copeland, que com ele colaborou vários anos no projecto Hype Williams. Neste seu último álbum, lançado em finais de 2014, há a sensação de Blunt querer levantar o véu sobre a sua pessoa, para logo a seguir se esconder outra vez; faz por merecer a nossa atenção, embora tudo o que revele não passe de uma amálgama de meias palavras e contradições. Ainda assim, Black Metal é mesmo um título apropriado: pede emprestado o nome de um género de grande intensidade, a mesma que aqui se manifesta não por meio de um som cheio e opulento, mas sim por música desconcertantemente honesta e provocatória.

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É logo na primeira faixa, Lush, que Blunt estabelece o tom deste seu registo. Recupera um sonhador sample dos Big Star, exímio da guitarra jangle, e declara o distanciamento necessário entre ele, o confessor, e o ouvinte, que o escuta (“Stay out of it/And everything you see/Stay out of it/And everything you hear”). O deliberado contraste entre a música ingénua e sonhadora com a autoridade confessional do músico transportam-nos a um mundo, tal como ele, ambíguo e elusivo, no qual a confissão tem tanto de necessária quanto sinistra. Essa necessidade é inteligível nas letras de, por exemplo, 100, intimamente romântica, ou na faixa que se segue, Heavy, de tonalidade diametralmente oposta, na qual o seu desespero, expresso na orquestração disfuncional de um piano, está convenientemente camuflado por debaixo do loop, algo intrusivo, que serve à melodia principal. Liricamente, Blunt dá-nos o suficiente para formarmos a nossa opinião, e constatamos-lhe a alma partida, os sonhos quebrados; o processo de recuperação, levado a cabo de uma forma ainda mais nefasta, assim como a realização de uma paz interior (no dueto com Joanne Robertson, em Molly & Aquafina). São confissões e devaneios que nos levam à metade do álbum, onde temos a instrumental Forever – e a grandiosidade dos seus 13 minutos – a consumar a primeira parte de Black Metal.

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Antes do lançamento do seu novo trabalho, Blunt teve uma intervenção na qual expôs o seu ponto de vista relativamente às questões raciais dos negros, e sobretudo, às suas referências culturais. Nomeadamente, do que julga ser um erro quando se atribui a classificação preto a alguma referência cultural caucasiana, i.e., “o Cobain preto”, por ser uma reapropriação de uma cultura já existente, e assim sendo, “não genuína”. O próprio queixa-se que poucos negros, seus “brothers”, estão presentes nos concertos. Quanto desta preocupação se pode considerar verdadeira, e a sua presença neste álbum, são considerações para as quais não tenho resposta – podemos apenas especular. A verdade é que a segunda parte do álbum invoca um outro Blunt, tal como a outra metade de uma moeda (e não menos interessante). Começando por X, a segunda canção mais longa do álbum, seguir-se-á Punk, com uma sonoridade mais esclarecida e sóbria que na primeira metade. Aqui, ouvimos “this is how it’s gonna be/I’m not who I’m meant to be” e “feds are closing in on me/everyone knows its me/what else can I do but hide?“. É este o mote para a segunda parte: mais directa, provocadora, como se depois de lidar com os fantasmas evocados em Lush, 100, etc., restasse agora esclarecer a sua própria identidade; esta é provavelmente a grande preocupação de Dean Blunt. Não só a sua, como a da sua cultura.

Depois de dispender algum tempo com Black Metal, sentimo-nos presentes no obscuro mundo de Dean Blunt, sendo impossível dissociá-lo dos conceitos de perda, de procura, de identidade. Mas de tão pouco que Dean nos dá, não é possível ter uma visão da grande imagem que quis pintar. Musicalmente, temos aqui um dos discos mais interessantes de 2014: à primeira audição, os arranjos não se evidenciam e parecem ter sido feitos sem cuidado ou grande ambição. A verdade é que, com o tempo, se descobrem as suas subtilezas, ao habituarmo-nos à estranha cinematografia da sua música – atente-se na forma como se expressa em Heavy, por exemplo. Tematicamente, porém, há uma intenção que não transpareceu de forma tão clara, e que o músico tem abordado nas suas últimas intervenções (embora esta possa ter sido uma decisão consciente). Neste momento, Dean Blunt é senhor de uma das vozes mais incisivas culturalmente – basta ouvir, por exemplo, a performance de dia 15 de Fevereiro, ou ler as suas entrevistas -, mas temo que a sua ampla visão não se permita confinar aos limites da música. Agora, é esperar pela sua próxima intervenção, com a certeza de que será difícil não nos surpreender.

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