15/12 – Nova pop, um momento célebre do rock, e várias experimentações bonitas.

Este programa foi amplamente planeado de antemão, embora não tenha tido um tema linear ao longo de toda a hora.

Na primeira parte, dedicámo-nos a música contemporânea: a menção à nova mixtape de Charli XCX era obrigatória (e está maravilhosa, talvez melhor que Number 1 Angel), e a John Maus também, dado o seu disco novo no ano passado.

Depois, achei necessário ainda recordar mais trabalhos de Dean Blunt, cuja voz artística considero singular e ainda um paradigmático reflexo dos tempos modernos. Depois da passada semana, estive algum tempo a ler entrevistas suas, e daí apanhei a referência ao momento em que Kim Gordon e LL Cool J se encontraram para uma surreal conversa.

O período intermédio ficou entregue ao pós-punk e a várias suas derivações. Ficámos com um trabalho recuperado pela Upset The Rhythm, os Normil Hawaiians, e a sugestão da Porto Calling, os Glaxo Babies. Destaco ainda os Pop Group, que suscitaram as mais variadas reacções: o seu disco de estreia Y é das coisas mais fantásticas e arriscadas que por cá passaram. Para terminar, passámos pela compilação Songs in the Key of Z, um deleite para quem gosta da sua música incorrigivelmente alienada.

E, para terminar, uma passagem por um dos trabalhos experimentais do ano passado, e a despedida ao som de um clássico natalício em versão vaporwave. Uma maravilha!

 

1. Charli XCX – Backseat (feat. Carly Rae Jepsen) (Pop 2, 2017)
2. John Maus – Touchdown (Screen Memories, 2017)
3. Dean Blunt – Papi (The Redeemer, 2013)
4. Blue Iverson – Soulseek (Hotep, 2017)
5. LL Cool J – 1-900 LL Cool J (Walking With a Panther, 1989)
6. Sonic Youth – Kool Thing (Goo, 1990)
7. Glaxo Babies – This Is Your Life (Put Me On The Guest List, 1980) | sugestão da Porto Calling.
8. Normil Hawaiians – Yellow Rain (More Wealth Than Money, 1982)
9. The Pop Group – Thief of Fire (Y, 1979)
10. B. J. Snowden – America (Songs in the Key of Z, Vol. 2, 2000)
11. Rock ‘n’ Roll McDonald’s – Wesley Willis (Songs in the Key of Z, Vol. 1, 2000)
12. Wacław Zimpel & Jakub Ziołek – Eltyra (Zimpel / Ziołek, 2017)
13. nano神社 (✪㉨✪) – All I Want For Christmas Is You (Vaporwave Christmas Story, 2017)

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08/12 – O discurso elusivo de Dean Blunt, Yves Tumor, e NON Records; ainda soul, e ambient.

Na semana anterior a esta emissão, e já com a ideia de explorar a música de Dean Blunt, encontrei uma discussão recente sob o tema ‘What’s the most forward thinking movement or genre in the 2010’s?‘ na qual ele foi necessariamente mencionado pelo seu vasto trabalho na década: com Hype Williams, a solo, com Babyfather, etc. Em 2014, lançou Black Metal (que ouvimos há duas semanas): um disco extraordinário, como se fosse uma depurada síntese dos vários temas, simbólicos e musicais, que tem vindo a construir; mas para esta emissão, incidimos em trabalhos anteriores. E, tal como Blunt, decidi explorar a música de Yves Tumor, que tem um catálogo menos numeroso.

A música de ambos tem semelhanças – basta notar que as intercalei na emissão e coabitaram perfeitamente, sem atropelos, como se se complementassem – e as suas posturas artísticas partilham temas comuns: a necessidade de anonimato, a ideia da identidade racial, a flexibilidade criativa para poder fazer qualquer tipo de coisa. Dean Blunt, mais que Yves Tumor, é uma estranha e ininteligível personalidade artística (que conclusões se podem tirar quando tentamos perceber o fenónemo Lil B e Dean Blunt, juntos?).

Juntando a estes dois nomes, trouxe ainda o colectivo da NON (NON Records, NON Label, etc.), que integra um discurso plural em relação ao papel dos negros na cultura. É um diálogo necessário e no qual participam imensas vozes; mesmo as opiniões de Dean Blunt em relação a isso são muito interessantes.

 

0. Michel Legrand – Chanson des Jumelles (Les Demoiselles de Rochefort, 1967)
1. Stevie Wonder – Knocks Me Off My Feet (Songs In The Key of Life, 1976)
2. Yves Tumor – The Feeling When You Walk Away (Serpent Music, 2016)
3. Dean Blunt – The Narcissist (The Narcissist II, 2012)
4. Dean Blunt – GALICE (The Narcissist II, 2012)
5. Yves Tumor – Limerence (Mono No Aware, 2017)
6. Dean Blunt & Inga Copeland – 8 (Black is Beautiful, 2012)
7. Yves Tumor – AfricaAshes (Experiencing the Deposit of Faith, 2017)
8. German Shepherds – Love Me (Music for Sick Queers, 1985) | sugestão da Porto Calling.
9. Chino Amobi – ROTTERDAM (Airport Music for Black Folk, 2016)
10. NKISI – Collective Self Defense (NON WORLDWIDE COMPILATION VOLUME 1, 2015)
11. Farai – The Sinner (NON WORLDWIDE COMPILATION VOLUME 1, 2015)
12. Yves Tumor – Anya’s Loop (Experiencing The Deposit of Faith, 2017)
13. Woo – It’s Love (Into The Heart of Love, 1990)
14. Woo – Taizee (Into The Heart of Love, 1990)
15. TCF – C6 81 56 28 09 34 31 D2 F9 9C D6 BD 92 ED FC 6F 6C A9 D4 88 95 8C 53 B4 55 DF 38 C4 AB E7 72 13 (Mono No Aware, 2017)
16. Stevie Wonder – Isn’t She Lovely (Songs In The Key of Life, 1976)

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12/05 – Noções capitalistas, desumanização, e a ̮͙̪̯͢ạ̵̩͍s̷̹̝̼̣̤c̠̙̮͈̼ḛ̢̜n̖ç̞͚͜ã̴͈̹̜̺̻̙o ḓ͍̳͍̫a͞ ̷̗̳̠̣̞͎m̰̫̲̙̕á̲̥͍͓͜q͔̘u̳̪͠ina͉.̞̰̳̟̠

Ora.

Algo de muito estranho se passou nesta emissão. Embora não tenha sido uma habitual transmissão em directo, deixámos tudo preparado num ficheiro .mp3 que foi para o ar à hora marcada. Estava alinhado que iríamos começar com Tatsuro Yamashita, nome nipónico associado a uma vertente muito particular da pop japonesa, feita especialmente para ser ouvida nas novas e vibrantes auto-estradas do Japão. É música com um intrínseco e subliminar espírito consumista, e isto é algo que nos fascina.

Depois, tínhamos planeado ouvir os americanos DEVO, um fascinante projecto que começou, como já ouvimos noutras emissões, com um espírito tremendo de irreverência e criatividade, intimamente ligados ao no-wave, ao rock, e até com alguns ares de punk, mas aqui, no disco New Traditionalists, aproximaram-se mais da electrónica – e o resultado ficou muito interessante, também. Seguiram-se os nossos amigos Kraftwerk, com o disco Die Mensch-Maschine, de 1978.

Só que, infelizmente, tudo começou a ficar estranho a partir da intervenção de Laurie Anderson. Por algum motivo, parece que perdemos o controlo da emissão a partir daqui, e o alinhamento que tínhamos previsto não se concretizou. Do que aconteceu até ao final da hora, conseguimos recuperar o nome de Nuno Canavarro, ex-integrante dos Delfins e autor de um dos mais bonitos discos electrónicos-experimentais portugueses; os Passengers, super-grupo constituído pelos U2 mais a especial participação de Brian Eno, e ainda o enigmático Dean Blunt, prolífico desde o seu disco Black Metal (que, para nós, foi um dos melhores de 2014, já previamente escrutinado).

Conseguimos, ainda assim, resgatar a sugestão da Porto Calling, a música de Moondog, mas perderam-se todos os eixos de seguida quando, até ao final da hora, ficámos com um artista japonês, 細野晴臣, e o feito artístico de Sam Kidel, denominado Disruptive Muzak – merece ser escutado pelo menos uma vez, para lhe apreender o conceito.

1. Tatsuro Yamashita – Sparkle (For You, 1982)
2. DEVO – Beautiful World (New Traditionalists, 1981)
3. Kraftwerk – Das Model (Die Mensch-Maschine, 1978)
4. Laurie Anderson – B͂̀̓̒o̵͋̉̆ͭ͒r̾̏͛̓͂n,̐̒̂ͧ͠ ̈́̓ͬ̕Ņ̀̀̐ͤͬ̋e̵͌ͮ͋̈́ͪv͡e̛̔̉̎͂͋̐̚r͆̇ ́X̀ ̢̽ͤͪ(Big Science, 1982)
5. Nuno Canavarro – Wask (Plux Quba, 1998)
6. Passengers (U2 + Brian Eno) – One Minute Warning (Original Soundtracks 1, 1995)
7. Dean Blunt – 04 Brown Grrl
8. Moondog – Moondog’s Theme (More Moondog, 1956) | sugestão da Porto Calling.
9. 細野晴臣 – Talking (花に水, 1984)
10. Sam Kidel – Disruptive Muzak

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Dean Blunt – Black Metal

Dean Blunt é um dos mais misteriosos e elusivos artistas no mundo da música. As suas entrevistas são parcas e pouco comprometedoras, e grande parte dos jornalistas já vai intimado a não abordar certos tópicos – entre eles, o final da sua relação/colaboração com Inga Copeland, que com ele colaborou vários anos no projecto Hype Williams. Neste seu último álbum, lançado em finais de 2014, há a sensação de Blunt querer levantar o véu sobre a sua pessoa, para logo a seguir se esconder outra vez; faz por merecer a nossa atenção, embora tudo o que revele não passe de uma amálgama de meias palavras e contradições. Ainda assim, Black Metal é mesmo um título apropriado: pede emprestado o nome de um género de grande intensidade, a mesma que aqui se manifesta não por meio de um som cheio e opulento, mas sim por música desconcertantemente honesta e provocatória.

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É logo na primeira faixa, Lush, que Blunt estabelece o tom deste seu registo. Recupera um sonhador sample dos Big Star, exímio da guitarra jangle, e declara o distanciamento necessário entre ele, o confessor, e o ouvinte, que o escuta (“Stay out of it/And everything you see/Stay out of it/And everything you hear”). O deliberado contraste entre a música ingénua e sonhadora com a autoridade confessional do músico transportam-nos a um mundo, tal como ele, ambíguo e elusivo, no qual a confissão tem tanto de necessária quanto sinistra. Essa necessidade é inteligível nas letras de, por exemplo, 100, intimamente romântica, ou na faixa que se segue, Heavy, de tonalidade diametralmente oposta, na qual o seu desespero, expresso na orquestração disfuncional de um piano, está convenientemente camuflado por debaixo do loop, algo intrusivo, que serve à melodia principal. Liricamente, Blunt dá-nos o suficiente para formarmos a nossa opinião, e constatamos-lhe a alma partida, os sonhos quebrados; o processo de recuperação, levado a cabo de uma forma ainda mais nefasta, assim como a realização de uma paz interior (no dueto com Joanne Robertson, em Molly & Aquafina). São confissões e devaneios que nos levam à metade do álbum, onde temos a instrumental Forever – e a grandiosidade dos seus 13 minutos – a consumar a primeira parte de Black Metal.

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Antes do lançamento do seu novo trabalho, Blunt teve uma intervenção na qual expôs o seu ponto de vista relativamente às questões raciais dos negros, e sobretudo, às suas referências culturais. Nomeadamente, do que julga ser um erro quando se atribui a classificação preto a alguma referência cultural caucasiana, i.e., “o Cobain preto”, por ser uma reapropriação de uma cultura já existente, e assim sendo, “não genuína”. O próprio queixa-se que poucos negros, seus “brothers”, estão presentes nos concertos. Quanto desta preocupação se pode considerar verdadeira, e a sua presença neste álbum, são considerações para as quais não tenho resposta – podemos apenas especular. A verdade é que a segunda parte do álbum invoca um outro Blunt, tal como a outra metade de uma moeda (e não menos interessante). Começando por X, a segunda canção mais longa do álbum, seguir-se-á Punk, com uma sonoridade mais esclarecida e sóbria que na primeira metade. Aqui, ouvimos “this is how it’s gonna be/I’m not who I’m meant to be” e “feds are closing in on me/everyone knows its me/what else can I do but hide?“. É este o mote para a segunda parte: mais directa, provocadora, como se depois de lidar com os fantasmas evocados em Lush, 100, etc., restasse agora esclarecer a sua própria identidade; esta é provavelmente a grande preocupação de Dean Blunt. Não só a sua, como a da sua cultura.

Depois de dispender algum tempo com Black Metal, sentimo-nos presentes no obscuro mundo de Dean Blunt, sendo impossível dissociá-lo dos conceitos de perda, de procura, de identidade. Mas de tão pouco que Dean nos dá, não é possível ter uma visão da grande imagem que quis pintar. Musicalmente, temos aqui um dos discos mais interessantes de 2014: à primeira audição, os arranjos não se evidenciam e parecem ter sido feitos sem cuidado ou grande ambição. A verdade é que, com o tempo, se descobrem as suas subtilezas, ao habituarmo-nos à estranha cinematografia da sua música – atente-se na forma como se expressa em Heavy, por exemplo. Tematicamente, porém, há uma intenção que não transpareceu de forma tão clara, e que o músico tem abordado nas suas últimas intervenções (embora esta possa ter sido uma decisão consciente). Neste momento, Dean Blunt é senhor de uma das vozes mais incisivas culturalmente – basta ouvir, por exemplo, a performance de dia 15 de Fevereiro, ou ler as suas entrevistas -, mas temo que a sua ampla visão não se permita confinar aos limites da música. Agora, é esperar pela sua próxima intervenção, com a certeza de que será difícil não nos surpreender.

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