29/12 – Punk endiabrado, fenómeno de 2017, e despedida do ano.

(esta emissão deveria ter sido passada na semana antes do Natal; só assim se explica ainda um espírito de desenfreada festividade)

Para esta semana, o início deu-se com o jazz periférico de John Zorn e amigos, numa composição provavelmente mais conhecida por Chet Baker. Depois, mais uma descoberta da Awesome Tapes From Africa, descrita pelos próprios sul-africanos Umoja como “pop chiclete” – e é, de facto, mas muito divertida.

Dado que nos despedimos do ano, seria uma falha não mencionar um dos seus singulares fenómenos: os BROCKHAMPTONboys band de hip-hop (são bem mais de uma dezena) que tem feito furor tanto no mundo cibernético como em alguma da imprensa especializada; de certa forma, acaba por confirmar a visão de que o hip-hop é a nova pop, um paradigma que acompanharemos nos próximos anos.

vlcsnap-2018-01-28-00h14m27s137Segue a hora com Catherine Ribeiro e os seus Alpes, uma belíssima voz luso-descendente que embora houvesse já passado no programa, nunca aconteceu em podcast. É uma forma de perpetuar Catherine no cânone moscal (sim.), numa tentativa de fazer chegar a mais gente o maravilhoso Âme Debout. (além de tudo isto, Catherine foi actriz e chegou a participar num filme de Jean-Luc Godard: Les Carabiniers, de 1963 – aí está o seu nome nos créditos iniciais.)

Ainda antes de passar aos Pere Ubu, uma breve passagem por mais um nome da Upset The Rhythm: são os The Green Child, que apresentam proposta no mundo dos sintetizadores; e os minutos seguintes dedicam-se ao seminal grupo americano, párias do rock canónico e fervorosos adeptos de experimentações e novos rumos para a música de guitarras. Se a sua prolífera nem sempre pisou acertadamente, fê-lo sempre assertivamente; e este parece ser um critério muito mais apetecível.

Para terminar, apontamos possíveis pontos a explorar em 2018: a música pop e o papel feminino na indústria; e despedimo-nos em toada apropriada com a já tradicional canção natalícia de James White.

1. John Zorn, George Lewis & Bill Frisell – Funk In Deep Freeze (News For Lulu, 2008)
2. Umoja – Money Money (Bananas) (707, 1988)
3. BROCKHAMPTON – GOLD (SATURATION, 2017)
4. BROCKHAMPTON – SUNNY (SATURATION 2, 2017)
5. BROCKHAMPTON – STAINS (SATURATION III, 2017)
6. Catherine Ribeiro + Alpes – Le kleenex, le drap de lit et l’étendard (Âme debout, 1971)
7. Catherine Ribeiro + Alpes – Diborowska (Âme debout, 1971)
8. The Green Child – Destroyer (The Green Child, 2017)
9. Pere Ubu – On The Surface (Dub Housing, 1978) | sugestão da Porto Calling.
10. Pere Ubu – Dub Housing (Dub Housing, 1978)
11. Pere Ubu – 49 Guitars & One Girl (New Picnic Time, 1979)
12. Farrah Abraham – Unplanned Parenthood (My Teenage Dream Ended, 2012)
13. James White – Christmas With Satan (A Christmas Record, 1981)

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A desconstrução do cinema por Jean-Luc Godard; encantados por Anna Karina em Pierrot Le Fou.

Este texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo Quis ? quem sou, o que ! aqui, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.media.jpg

Jean-Luc Godard. Um poderosíssimo nome que remete imediatamente para o cinema francês, e sobretudo o cinema francês da Nouvelle Vague; literalmente, uma nova vaga – de ideias, processos, abordagens, mas também uma nova vaga de cineastas – que num curto espaço de tempo reformulou a forma de fazer e interagir com o cinema.

Mas ainda antes, note-se a sequência de importantes acontecimentos históricos que precede e fomenta esse singular período: durante a ocupação nazi da França, o cinema foi censurado e vetou-se o país às produções americanas; quando, em 1944, termina a ocupação, surgem em catadupa todos os filmes proibidos até então. Aparecem os primeiros cineclubes – que são frequentados por Truffaut, Godard, Rivette, Resnais, etc. – e as publicações dedicadas ao cinema: entre elas, a Cahiers du Cinéma, onde muitos se estabelecem e a partir da qual se tornam críticos e influenciadores. Alimenta-se a ideia de que o cinema é, afinal, uma arte – e deve ser pensado como tal.

1_cahier.jpgEsta geração de cineastas foi a primeira que cresceu e se formou a idolatrar o cinema e os seus heróis. Na Cahiers, promoveram a teoria do auteur – que defendia, no contexto de grandes estúdios e Hollywood inclusive, o forte traço autoral de certos realizadores (Hitchcock, Hawks, Ray, etc.) -, e fizeram cinema independente, cru, sem fidelidade ao antigo estilo formal – aí, inovaram.

Pierrot Le Fou, com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, é exemplo perfeito da experimentação possível durante o período, e também do que tornou o cinema de Godard tão especial. É a história de um homem que deixa a mulher para se envolver numa outra história, mas com a babysitter de casa – que afinal já conhecia há alguns anos, e que, descobrir-se-á, tem muita coisa por contar. Partem em viagem, e emulam um espírito que é tipicamente americano; eles são Bonnie e Clyde ainda antes de Arthur Penn levar a sua história ao cinema, em 1967 (e, na verdade, alguns anos antes de Pierrot, Godard foi sondado para fazer o icónico filme – coincidência?).

Em Pierrot Le Fou, além de uma súmula das várias características da Nouvelle Vague, temos o expoente máximo da primeira fase de Godard. É cinema experimental, construído na intuição, filmes que sabem serem filmes e ganham força no quebrar dessa ilusão. No seu cinema, a primeira emoção será estética, denunciada nas cores, na edição arrojada, nas várias referências intertextuais à literatura, música e outro cinema. Mas, a espaços, o filme desprende-se da sua natureza auto-referencial e revela a sua beleza: atinge-nos com sentimentos. Contemple-se esta nova linguagem do cinema. Abram alas à Nouvelle Vague!

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 15 a 22 de Março

Para esta semana, as atenções repartem-se entre a música, o cinema, e também a televisão – sobre a qual falaremos mais tarde, ainda esta semana. Até lá, há nova emissão d’A Mosca para ouvir, e duas sugestões de cinema.


A Mosca – 55º Emissão

Esta semana, demos, nos primeiros minutos, destaque a três álbuns conceptuais: o primeiro é de Marvin Gaye, um clássico da soul e da música social consciente, de nome What’s Going On (1971), que nos conta a perspectiva de um veterano da guerra do Vietname. Logo a seguir – e sem qualquer necessidade de grandes apresentações – chegam os Pink Floyd com uma canção de Dark Side of the Moon (1973), e para terminar este ciclo, o músico português José Cid. Antes de enveredar pela música popular, foi em tempos um dos músicos mais respeitados da cena do rock progressivo, e o seu álbum 10.000 Anos Entre Vénus e Marte (1977) atesta a qualidade da sua música, tão assente em texturas sintetizadas e espaciais. Fez-se ainda ouvir Brainticket, os krautrockers alemães, e o seu álbum Cottonwoodhill (1971). Nesta emissão pudemos ouvir as novidades do mundo do hip-hop, com os novos trabalhos de Kendrick Lamar, sobre o qual escrevemos na passada semana, e os experimentais Death Grips, de quem ouvimos o single do seu último álbum Jenny Death. Entrando na fase da electrónica, temos a presença de Holly Herndon com uma novíssima faixa, como também James Blackshaw e Ryosuke Miyata, ambos com álbuns que datam de 2015. A emissão fecha com Leafcutter John, e a promessa de que para a semana há mais música curada pel’A Mosca. Até já!

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Cinema

Ordet_La_palabra-480454657-largeOrdet (Carl Th. Dreyer, 1955) – Para abrir a semana, mergulhei no cinema lento e convoluto de Carl Dreyer. Este realizador dinamarquês, um dos mais reputados e estimados do género, é porventura mais conhecido pelo seu filme mudo de 1928 The Passion of Joan of Arc, uma referência para vários cineastas por esse mundo fora. Ora, não foi esse que aqui me trouxe, mas sim Ordet, que data do ano de 1955. O filme, cuja narrativa é baseada numa obra dinamarquesa, trata uma pacata família rural, na qual o patriarca, cristão devoto, vive com os seus três filhos: um ateu, um outro que se apaixona pela filha dum mentor da congregação religiosa local, e o último, Johannes, a braços com um distúrbio na sua sanidade mental, e que julga ser a reencarnação de Jesus Cristo. As cerca de duas horas de fita dão tempo para que as personagens se desenvolvam e expressem os seus pontos de vista, para que quando chegue o apogeu narrativo – o complicado parto da esposa do filho ateu – haja um conflito entre os vários pontos de vista, tão enraizados, quase dogmáticos, e díspares. A atmosfera do filme pauta-se pelos planos lindíssimos de Dreyer, com a câmera que plana circularmente pela casa, e os jogos de sombras – a dicotomia de luz e escuridão – tão amplamente aproveitados e potenciados neste filme a preto e branco; assim se reúnem as condições para albergar os longos e filosóficos diálogos, onde reside a verdadeira alma desta obra. Ordet começa em andamento lento e assertivo, envolvendo-nos sorrateiramente no seu mundo; no final, despoleta em nós uma ténue mudança, não superficial, mas uma que remete ao nosso âmago e que nos desafia para uma reflexão, como o germinar de uma semente que em nós se plantou. Não é um filme necessariamente cristão – muito menos católico – mas um que trata a fé com uma frontalidade impressionante (como o faria mais tarde Ingmar Bergman com o tema da mortalidade). Fica, assim, a memória de um fantástico filme, incrivelmente belo, e a vontade de conhecer o restante da sua filmografia.

478Le Mépris (Contempt) (Jean-Luc Godard, 1963) – Custa-me escrever sobre filmes que não creio entender na totalidade, ou, pelo menos, quando as suas intenções não me são razoavelmente claras. E não conhecendo muito bem o trabalho de Godard, Le Mépris deixou um travo agridoce quando o vi. O início do filme levanta uma curiosa história, com um litígio entre um produtor de cinema e o seu argumentista Fritz Lang – sim, o realizador alemão a representar-se a si próprio. Para resolver o imbróglio, é contratado um outro escritor, que está, por sua vez, casado com a bela Camille (interpretada pela lindíssima Brigitte Bardot), que em pouco tempo estará irremediavelmente atraída pelo produtor americano. Ora, Le Mépris tem mais substância para além desta premissa banal. Há uma aura de sátira e uma espécie de auto-crítica que percorre todo o filme, e que não tenta, de todo, ser subtil: note-se os créditos iniciais, narrados em vez de lidos, enquanto que se filma a própria rodagem de um filme, ou a estranhíssima relação entre todas as personagens. Ainda assim, o filme é estranhamente cativante e tem momentos muito bem conseguidos, como uma cena decorrida entre o casal num apartamento (memorável, e ainda hoje estudada por amantes do cinema ou estudantes de arquitectura), ou o humor meio pateta de algumas acções das personagens. No ar fica a dúvida: será este um falhanço de Godard, ou um dos seus filmes mais geniais? É difícil ficar-lhe indiferente. Le Mépris provavelmente fará mais sentido, e espero entender melhor as suas intenções, vendo-o uma segunda vez, depois de outros filmes do realizador francês.