Flying Lotus – You’re Dead!

You’re Dead! Assim é o categórico primeiro contacto que temos com o mais recente trabalho de Flying Lotus. Do produtor americano já podemos contar com, entre outros, Cosmogramma (2010) e Until The Quiet Comes (2012), e não nos esqueçamos de mencionar o seu alter-ego Captain Murphy, do qual já ouvimos o trabalho Duality (2012). No entanto, este afigura-se um álbum totalmente diferente dos demais: a capa, com corpos vários sob um fundo laranja, e circundando uma face que parece expandir-se, sugere uma visão colorida e animada, ainda que paradoxalmente mórbida. Neste seu último trabalho, Steven Ellison propõe-se a uma questão milenar, tormento do Homem consciente: a morte, acontencendo, é literal e inevitável. E sabendo que que não seremos eternos, o americano julgou pertinente saber que caminhos calcaremos no depois. O que há para além da vida? A resposta vem pela forma de 38 minutos. E há que ouvi-la – afinal, mortos, temos todo o tempo do mundo.

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Ao seu quinto álbum, mantém-se o registo de faixas curtas, de traços exploratórios e abstractos, viajando sem predilecções nem complexos pelas várias iterações musicais do hip-hop, jazz e soul. São tantos os apontamentos, que se torna redundante a tentativa de catalogar um trabalho que poderia ser um género em si mesmo. Nos primeiros momentos do álbum encontramo-nos no seio de umas detalhadas muralhas, rodeados por uma ímpar grandiosidade sonora, entre as quais se descortinam breves laivos musicais aos quais nos agarramos, desesperadamente. Sejam estes o electrizante baixo de Thundercat, ou as frenéticas teclas de Herbie Hancock (sim, ele mesmo), que não nos passe pela cabeça tentar apreender tudo o que se passa de uma vez só. Este é um álbum exploratório, e Flying Lotus estimula a nossa audição duma forma que jamais ousámos em todos os cinco sentidos. As duas colaborações que Fly-Lo enceta com Kendrick Lamar e Snoop Dogg, ainda antes de chegarmos à metade do álbum, afiguram-se fulcrais para a temática de You’re Dead!, e são mais que meros dispositivos narrativos. Primeiramente, Kendrick personifica a voz da nossa própria consciência – temos em nós todas as dúvidas em relação ao bem, ao mal, ao amor e à eternidade, e sobretudo, o potencial e a crença de, agora mortos, sermos uno com o universo. Com Snoop Dogg, a confirmação da nossa fatalidade, mas também referências a J Dilla e Freddy Mercury, como se os quatro se juntassem, fora do tempo e espaço terrenos, para conviverem na eternidade. Esse encontro dar-se-á no espaço reservado às lendas da música, onde, aguardando o sobrinho, estão também John e Alice Coltrane, orgulhosos da ambição e mestria do descendente.

Porque é mesmo essa a definição deste álbum: ambicioso. Antes do mais, e o mais é talento, criatividade, e trabalho, é necessária coragem, para empreender algo desta magnitude. Steven Ellison, no alto das suas trinta primaveras, cumpre desígnios enraizados na sua natureza ao arcar a responsabilidade de abordar algo tão definitivo, incomensurável e incompreendido como a morte e suas consequências. E o resultado não se define por menos de fantástico. São, ao todo, 19 faixas encadeadas num eixo sem pausas, e, cada uma, peça fulcral da visão que Flying Lotus nos transmite. Aceitar este viagem implica deixar-mo-nos levar por um mundo desconhecido, mas simultaneamente estimulante, no qual a sapiência do americano se evidencia: não só no detalhado espectro sonoro pelo qual somos engolidos, como também na acutilante inteligência emocional – espiritual, até? – da sua música, que nunca impõe um dado estado de espírito ao ouvinte, exigindo de nós uma interpretação, de menos razão e mais sensação, de tudo o que nos rodeia.

Em final, You’re Dead! engloba em si todo o percurso musical de Flying Lotus e expande-o – não numa linha recta, mas como as ondas circulares que se formam ao atirar uma pedra a um charco. As minhas palavras não farão, certamente, justiça a um trabalho de tão singular lugar no mundo artístico  – porque a nossa experiência com a música é, muitas vezes, algo de intangível e inexpressável – mas na auto-denominada função de escriba, creio no valor da divulgação de obras como a do americano Steven Ellison. Quanto ao futuro, é difícil prever qual o seu próximo passo (que aguardo, ansiosamente!), mas não tenho a mínima dúvida em relação ao lugar do americano aquando da sua morte: será, claro, junto aos seus, junto aos maiores da música.

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