Excerto da entrevista a Kamasi Washington [Pitchfork]

Kamasi Washington, músico natural de LA, que lançou, recentemente, o seu registo de nome The Epic; tal como o nome indica, estamos perante um trabalho diferente. The Epic tem quase três horas – ! – de música, em permanente expansão criativa tendo como epicentro o jazz. Além disso, editou pela Brainfeeder, liderada por Flying Lotus, e participou, também, no último álbum de Kendrick Lamar, To Pimp a Butterfly. Aqui, um excerto da sua entrevista à publicação americana Pitchfork, que pode ser lida na íntegra aqui.Screen Shot 2015-06-13 at 13.33.26

Anúncios

Breve apontamento sobre um documentário.

y5agVR2xSQjs3Z52ggSCC9E6M4ykA9ZGSkrFr9dYdbwkZEvJmFkTnQspWslmkQA0FyyN=w300

Hoje, não me quero alongar. Fruto de alguma sorte, descobri o documentário Our Vinyl Weighs a Ton, saído no ano de 2013, que nos lança numa viagem pela história da editora independente americana Stones Throw Records. E que bela viagem! Começa na história do seu fundador, Chris Manak, e a sua obsessão por música, passando depois pelos primeiros passos duma editora que sempre se quis manter independente e, acima de tudo, pertinente. E no caminho, ficaram os depoimentos de gigantes como Talib Kweli, Common, Madlib (!), J Dilla, etc., com especial ênfase na relação destes últimos dois, que são nomes absolutamente obrigatórios no cânone do hip-hop. Em termos de realização, está tudo cumprido com distinção, e envio os meus parabéns ao realizador Jeff Broadway. Não quero enganar ninguém: não será um documentário interessante para toda a gente. Mas se têm alguma afinidade com o hip-hop ou se julgam interessantes as histórias das cenas musicais, que mais tarde constituem os capítulos da história da música, deixo a minha recomendação.

 

A Mosca, e notas de uma semana passada – 22 a 29 de Março

O atraso da publicação é lamentável, de facto, mas a qualidade do conteúdo é inegável: A Mosca traz uma óptima emissão, e o cinema – fora uma pequena desilusão – é do melhor que aqui tem passado. Encontramo-nos para a semana. Até já!


A Mosca – 56º Emissão

Nesta emissão, demos, nos momentos iniciais, destaque ao hip-hop. A abrir, milo com uma amostra do seu trabalho Things That Happen at Day, de 2012. O rapper americano, que se move pela cena independente, tem na sua música uma bem sucedida mistura de letras cuidadas, fruto do seu passado como estudante de Filosofia – é frequente apoiar-se nos textos de Nietzsche ou Schopenhauer. Para quem gostou, é obrigatório ouvir o seu EP. Os Outkast têm direito a trazer-nos uma faixa cantada por Andre 3000, assim como também pudemos ouvir Mos Def a espalhar magia numa canção do álbum Black on Both Sides (1999). A seguir, os ecléticos japoneses Boredoms, que já fizeram quase tudo ao longo da carreira. Aqui ouvimos uma amostra do álbum conceptual Vision Creation Newsun, também de 1999, que desperta a curiosidade para o resto do álbum; e como já lhes sentíamos a falta, passámos também pelo mundo de Hail to the Thief (2003), o álbum que precede In Rainbows (2007) na carreira dos Radiohead. É um fantástico álbum – como o são todos, afinal! Para o resto da emissão, reduzimos a velocidade e planamos na música de Bonnie ‘Prince’ Billy e Jessica Pratt, duas óptimas amostras de folk intimista e óptimos cantautores. Depois, seguem-se os misteriosos e experimentais The Residents, a mostrar uma faixa de um dos álbuns mais enigmáticos de sempre, aos quais sucedem os The Grubby Mitts – numa fantástica faixa que terão mesmo que ouvir. Acaba a emissão com Fennesz e as suas composições que parecem suspensas nas teias do tempo.

Mas além da (boa) música, esta emissão contou também com uma experiência diferente: ao longo do programa, ouvimos excertos do documentário Música em Pó, da autoria de Eduardo Morais. Tem cerca de uma hora de duração, e permite-nos espreitar as incríveis colecções de vinil em território nacional. Além disso, são imperdíveis as histórias e as opiniões dos intervenientes, num filme que é, simultaneamente, uma autêntica carta de amor à música e ao formato icónico do vinil. Podem vê-lo aqui – vale mesmo muito a pena.

Clicar para ouvir o podcast!
Clicar para ouvir o podcast!

Cinema

blue-is-the-warmest-color-posterBlue is the Warmest Color (Abdellatif Kechiche, 2013) – Digamo-lo antes de mais nada: Blue is the Warmest Color é um grande filme – mas um que será também polémico, desconfortável e desafiante. Seja como for, este trabalho do tunisino Abdellatif Kechiche venceu a reputada Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2013, e rapidamente fomentou o grandioso estatuto que o levou à entrada directa na colecção Criterion, em DVD e Blu-ray, uma espécie de arquivo digital que compila marcos clássicos e contemporãneos do cinema. Ora, é evidente que o mundo se rendeu quase unanimamente a este filme, narrativa que acompanha a jovem adolescente Adèle no seu último ano da escola secundária, e, simultaneamente, no primeiro da grande descoberta de si própria; urge, portanto, ir além da superfície da narrativa e identificar a sua substância, identificando os motivos pelos quais Blue is The Warmest Color é tão grandioso. Quando nos é apresentada Adèle vemo-la levianamente bonita, uma aluna cumpridora e leitora nos tempos livres, mas a sua curiosidade, embora inquisitiva como consequência da idade, não avança além da zona de conforto – até que um dia se cruza com Emma, a rapariga do cabelo azul, a cor que marca indelevelmente a normalidade da vida de Adèle e o início de uma jornada de descoberta, sensual e sexual, apaixonada e apaixonante. Um dos pontos fortes de Blue is the Warmest Color está em não se embandeirar na representação carnal do amor a que se propõe (as fortíssimas cenas lésbicas são longas e mais substanciais que muita pornografia rasca), optando por um fiel retrato do desabrochar de uma relação; a metamorfose de Adèle é explícita, no desinibir dos seus preconceitos físicos, como implícita, nas pequenas mudanças que lhe entrevemos através da fantástica cinematografia do filme, nos planos longos e intimistas, reveladores do frenesim invisível que a sua pele esconde; o encanto de uma óptima narrativa alia-se a cenas que são simplesmente belas – como o primeiro encontro entre as duas mulheres, o contraste físico entre o aprisionamento de uma, e a liberdade de outra; ou o revigorante banho de Adèle na imensidão do mar francês, azul como a imensidão do céu, que a engole e a envolve como o azul do calor de Emma. Blue is The Warmest Color é mais do que um filme romântico-dramático, sincero e provocador na sua intensa frontalidade, exímio na sua execução; é sobretudo um retrato no qual se turvam os tão predominantes preconceitos de género, para que no final se lembre apenas a titânica complexidade do amor que só interessa a quem o viveu. Fantástico filme.

15Ikiru (Akira Kurosawa, 1952) – Ikiru, japonês para o verbo viver. É este o mote do filme de Kurosawa, o primeiro que vi do lendário realizador, porventura mais conhecido pelo seu trabalho Seven Samurai (1954). A história é nobre: Kenji Watanabe trabalha num movimentado escritório no Japão, típico empreendimento burocrata sem alma nem sentido. A rotina quotidiana não o atormenta, até à fatídica notícia de um cancro, que lhe permite apenas seis meses de vida. O choque de Watanabe leva-o à desenfreada procura por um sentido de vida, um último objectivo que traga paz ao seu espírito – não é esta uma questão que com todos nós se relaciona? Ikiru, embora carregue o peso da sua idade quinquagenária, tem em si muito de actual; o que por si só atesta a intemporalidade do cinema do realizador japonês, seja em termos narrativos como cinematográficos (e as cenas de Ikiru são quase sempre recheadas com movimento em toda a dimensão do ecrã, na periferia do habitual ponto de atenção do espectador) Poderá ser complicado convencer um amigo a ver este filme, pelos seus longos planos, de ritmo oposto ao frenético cinema americano, e pontilhados por diálogos crípticos e existenciais – merecedores de uma especial atenção – mas Ikiru é mesmo um filme belíssimo. Fica a promessa de voltar, em breve, ao cinema do japonês Akira Kurosawa.

men-women-children-posterMen, Women and Children (Jason Reitman, 2012) – Não me quero alongar com este filme. Muito sucintamente, Jason Reitman é o realizador por trás de Juno (2007), um dos primeiros filmes que me conquistou. Volvidos oito anos, ainda não conseguiu um feito de semelhante importância, o que é uma pena. Men, Women and Children começa até com a premissa interessante de explorar os problemas da enorme presença da tecnologia nas nossas vidas, mas as suas personagens, todas vítimas da mesma maleita, caminham constantemente numa corda que balança entre o engraçadinho e o ridículo, ao que se junta o desenvolvimento cliché da narrativa. Não desgostei completamente do filme, que foi, certamente, muito bem intencionado; mas neste caso, a ideia não transpareceu da melhor forma para o cinema e daí resulta um filme estranho, com demasiados pontos baixos, e que interessa apenas a fãs devotos de filmes coming-of-age, a quem ainda procura a irreverência sloppy de Juno, ou, em último caso, quando nada de mais interessante está a passar na televisão.

Uma reflexão sobre a nossa televisão, apoiada em The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

A televisão é o meio de comunicação mais mal aproveitado no nosso país: todos os dias é-nos facultada programação da pior espécie, como são os programas de tarde da televisão generalista, vácuos em termos de informação e péssimos no que toca ao entretimento, ou, pior ainda no horário nobre, as novelas recicladas, sem chama, e que em nada se descatam das demais; o cúmulo da falta de brio e mau gosto nas grelhas televisivas nacionais tem o seu expoente nos terríveis reality shows, essência dos quais não é mais que assistir, num deleite grotesco de falsa superioridade, às trivialidades quotidianas de pessoas sem interesse nem objectivos, mesquinhas e idiotas. O desolador panorama da televisão nacional reflecte a inércia de quem não se identifica com a mediocridade dos conteúdos, como também de quem se conforma e é paulatinamente amolecido e estupidificado. Forma-se um ciclo em que todos perdem, embora uns mais que outros. A audiência televisiva portuguesa, pela falta de alternativas, sai mais prejudicada. Adiante.

150220-the-jinx-key-art-1800

Nas últimas semanas gerou-se um burburinho em território americano, por causa da última série televisiva do canal HBO – na América, os canais são simultaneamente produtores de conteúdo, funcionando em sistema pay-per-view, um pouco à semelhança dos canais por cabo em Portugal. Desta vez, não se falou de séries como Os Sopranos, Game of Thrones ou The Wire, todas da HBO, mas de um documentário criminal realizado por Andrew Jarecki, com base na história do milionário Robert Durst. Não vou entrar em pormenores para não estragar a vossa experiência, porque, tal como escreveu Miguel Esteves Cardoso na sua crónica diária no Público, o melhor é entrar em The Jinx sem qualquer ideia do que o documentário trata. Evitamos, assim, falar do seu conteúdo, mas podemos perfeitamente abordar as suas implicações.

Por motivos evidentes a quem já viu a série, a obra de Andrew Jarecki recebeu uma fortíssima ovação – pela fantástica produção, pelo “ritmo” da história, pela conclusão do documentário – embora também houvesse uma pequena mas incisiva vaga de jornalistas (e não só) que questionaram a falaciosa linha temporal na qual os acontecimentos foram relatados; isto é, há determinados momentos no documentário, sobre os quais se tiram conclusões e se apoia a narrativa, cuja ordem de acontecimentos não corresponde ao que aconteceu na vida real. Este problema justifica-se com a necessidade de ligar eventos na história para que haja um dramatismo mais forte, embora levante uma série de questões éticas – jornalísticas e não só – às quais Jarecki terá certamente que responder. No entanto, não é esta, de todo, a minha área, e pomos este problema de lado admitindo que, pese embora The Jinx seja um marco para a televisão estadunidense, tem o seu quê de sensacionalista e corriqueiro.

“Documentary can educate. It can enlighten. But it’s also an art and the product of humans and their very real prejudices, opinions, subjectivities. It’s our responsibility to interrogate it with the same ferocity and mindfulness with which we approach any other attempt to transform the world around us into art that moves us.”  Anne Helen Petersen, sobre The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

Tomando, sem pensar demasiado, este documentário pelo que ele é, temos uma das melhores e mais mediáticas produções americanas dos últimos anos, ora não fosse o país do Tio Sam o expoente máximo do bom conteúdo televisivo (e logo atrás, na sua sombra, as terras de Sua Majestade). E voltando ao assunto do início: há umas semanas, aquando da visita de João Salaviza à cidade de Braga, falou-se, entre outros, da falta de cultura filmográfica, chamemos-lhe assim, da sociedade portuguesa. O realizador, puxando obviamente a brasa à sua sardinha, reiterou a necessidade de haver bom conteúdo televisivo (e bem produzido, sobretudo) que mostrasse novos horizontes no panorama da cultura e, consequentemente, criasse espaço para o cinema português. É este o repto de quem já foi aos mais reputados festivais de cinema internacionais (entre eles, a Meca do cinema independente, o Festival de Cannes) ganhar reputadíssimos prémios.

Embora The Jinx seja, como já o disse, sensacionalista e corriqueiro, não deixa de ser uma produção cinematográfica; uma exigência televisiva da qual nos temos distanciado nos últimos anos. A oferta da televisão actual é enorme, mas parca em qualidade, e estamos viciados pela gratuidade do conteúdo que, para apelar às audiências, é necessariamente vácuo e esquizofrénico – somos, portanto, escravos do zapping. O ciclo vicioso onde nos inserimos tem consequências: sofremos nós pela falta de cultura, televisiva e não só, mas sofre também quem dela quer viver – onde se incluem escritores, actores, cineastas e músicos. Não esqueçamos, sobretudo, que a cultura é absolutamente necessária ao desenvolvimento sadio da sociedade, e a sua actual realidade é um lastimável reflexo do que vivemos como portugueses.

To Pimp a Butterfly – Kendrick Lamar

Só o ouviríamos na próxima semana, mas o álbum chegou mais cedo aos serviços de streaming e vendas digitais. Ei-lo! To Pimp a Butterfly é o terceiro registo de estúdio do americano Kendrick Lamar, depois da sua afirmação como uma das vozes mais autênticas do hip-hop americano no trabalho good kid, m.A.A.d city (2012), onde expõe a dura realidade da vida no bairro de Compton, nunca caindo no erro de glorificar o estatuto de gangster. O seu novo álbum prossegue a linha de hip-hop consciente do seu anterior registo, sendo que o grande destaque é a maturidade lírica que se espalha por todo o seu trabalho e que lhe vale a comparação com os grandes nomes da época dourada de 90. A dimensão deste álbum revela-se nas repetidas audições, e é um dos melhores que 2015 tem para oferecer.

d47a5880

O hype para um novo álbum de Kendrick ganhava força quando trouxe o single i ao programa americano SNL, e constatámos o som cheio, funky q.b., a transbordar uma irrequieta energia. Para este novo trabalho, há um esforço para regressar às origens, tanto do género do hip-hop, como da história musical negra, evidente nas diversas incursões pelo jazz, Rn’b e funk; consequentemente, estas influências fazem de To Pimp a Butterfly um álbum muito dinâmico sonicamente, ao qual se juntou a fantástica produção, mais madura que no registo anterior. Tematicamente, contam-se mais semelhanças que diferenças: em GKMC, questionava a brutalidade das vida nos guettos dum ponto de vista extremamente sincero e quase existencialista, mas agora extendem-se os seus horizontes e intervém a favor da justiça social, apelando à dignidade racial dos negros e ao equilíbrio social. Este orgulho pelas suas raízes é posto em maior destaque logo no sample que abre a primeira faixa (“Every nigga is a star”), da autoria do cantor jamaicano Boris Gardiner, e por demais evidente no segundo single do álbum, The Blacker the Berry, onde, em rimas cantadas entusiasticamente, a profunda aceitação da raça negra confronta o seu público. Esta gradual maturação lírica permite que o seu olhar atento atente noutros problemas superiores, como a religião ou verdadeira motivação da vida, de uma forma mais frontal e menos metafórica do que nos habituámos no seu álbum anterior (“I’ve been lookin’ for you my whole life, appetite / For the feeling I can barely describe, where you reside? / In a woman, is it in money, or mankind?”).  Tanto a frontalidade como a destreza lírica fazem de Kendrick uma das vozes mais temidas e respeitadas na cena, mas parte do próprio a iniciativa de revelar as suas próprias fraquezas, expondo tanto o seu complexo messiânico de querer ser a voz de uma geração (“Want you to love me like Nelson [Mandela]/ want you to hug me like Nelson”) como as acutilantes dúvidas do americano em relação à complexidade da religião e também à certeza da sua mortalidade – terá aliás sido desde a intervenção no single de You’re Dead!, a canção Never Catch Me, que se lhe nota um maior à vontade por outros terrenos musicais, assim como a curiosidade por uma qualquer figura divina, uma metafísica entidade religiosa.

O álbum corre durante uma titânica hora e vinte minutos, e há, à passagem do tempo, skits nos quais Kendrick declama uma espécie de poema, juntando-lhe progressivamente mais um e outro verso. O seu significado vai-se desdobrando, e com ele seguimos nós, guiados até um final estrondoso e de uma ambição inqualificável – uma conversa com o ídolo Tupac. Para sentir o verdadeiro impacto da presença do falecido rapper americano, é preciso recordar a sua importância no meio do hip-hop nos anos 90, assim como a sua influência para as gerações seguintes. Kendrick terá crescido a ouvir Tupac, e presta-lhe aqui uma das mais fortes e geniais homenagens que já se ouviu no mundo da música. Mortal Man, a última canção, documenta este hipotético encontro e serve como exposição do conceito por trás de To Pimp a Butterfly, uma espécie de resumo da matéria dada que liga todas as pequenas peças do puzzle que Kendrick preparou para nós.

Poder-se-á dizer que a luta política e social se une a uma consciencialização do artista como pessoa, as duas contribuindo para as dúvidas e incertezas de quem quer apenas continuar fiel a si próprio. Para Kendrick, as maiores preocupações são o seu papel no mundo do Hip-Hop, a rejeição dum mundo falso e materialista que não cessa de o seduzir, e –  mais urgente que todos os outros – a noção do verdadeiro poder da sua voz. E puxando a  metáfora do casulo e da borboleta, o americano é agora como um insecto a bater as asas e a fazer-se ao mundo, ciente da sua fragilidade como pessoa e efemeridade como artista. To Pimp a Butterfly documenta-o em brutal honestidade, e esta fraqueza torna-se uma força. Em Março, descobrimos um fortíssimo candidato a álbum do ano, enquanto que ninguém lhe rouba o estatuto de instant classic no género do hip-hop.

A Mosca, e notas de uma semana passada – 1 a 7 de Março

Mais uma semana, e mais uma crónica. Desta vez, um filme ficou de fora: Citizenfour (Laura Poitras, 2014). É um impressionante documentário sobre o gigante polvo que é a agência de inteligência americana (NSA), mas que terá o seu devido destaque numa data próxima. Assim sendo, ficam aqui as recomendações para esta semana.


A Mosca – 53º Emissão

Nesta semana, decidimos explorar África e as raízes de um género que cuja influência atravessou continentes e parámos na Nigéria de Fela Kuti, cuja música foi determinante na identidade do género do afrobeat. É com ele que começa a nossa emissão, para depois passarmos na música psicadélica dos The Zombies e do escocês Donovan. De seguida, conhecemos o trabalho musical da artista Joanna Newsom, ao ouvir a primeira faixa do seu épico de 3 discos, o álbum Have One On Me (2010). A electrónica fica muito bem representada pelos esforços do sempre energético Thundercat, baixista colaborador de longa data de Flying Lotus, e também de Nicolas Jaar, a cujo álbum Space Is Only Noise (2010) prevejo um merecidíssimo lugar na história dos grandes álbuns do género. A partir daqui, entramos em caminhos mais introspectivos: primeiro, com o instrumental japonês de Toshifumi Hinata, para logo a seguir sermos surpreendidos pela honestidade brutal de Benjamin Clementine, que lançou um álbum este ano. A terminar, David Sylvian traz uma amostra do seu álbum Blemish (2003), mas as honras de fecho de emissão ficam a cargo de Delia Derbyshire. O fantástico trabalho que desempenhou como radialista e sonoplasta na BBC Radio não poderá nunca ficar esquecido e avivamos a memória colectiva ao trazer uma das suas criações, Inventions For Radio: Dreams (1964), ao meio onde seriam originalmente difundidas – a rádio. É esta a nossa proposta para esta semana. Espero que gostem!

Clicar para ouvir o podcast!
Clicar para ouvir o podcast!

Cinema

5826

Burn After Reading (The Coen Brothers, 2008) – Para abrir a semana, revi um filme que já havia visto por volta de 2008. No entanto, tinha uma pequena ideia – que se veio a confirmar – de que Burn After Reading é uma das mais incríveis, idiotas comédias que já vi. Colaborando com os irmãos Coen, está uma enorme lista de actores de primeira linha (George Clooney, Brad Pitt, John Malkovich, etc.), cujas personagens dão por si envoltas numa paranóica trama sobre documentos confidenciais – embora os mesmos documentos não sejam assim tão importantes. Parar para pensar não é uma característica de nenhuma das personagens, e o que sucede é o típico efeito bola de neve, de acções e consequências cada vez mais hilariantes e bizarras. Embora seja uma pequena paródia às vidas idiotas das personagens de Burn After Reading, há uma subtil crítica a um estilo muito americano de vida, mas o filme ganha precisamente por nunca levar essa ideia muito a sério. Para quem gosta de boas comédias, ou de francas tentativas, tem aqui uma boa aposta. E façam-no, quanto mais não seja pelas geniais prestações de todo o seu elenco.

CapaYestasemanaArena, Cerro Negro e Rafa (João Salaviza; 2009, 2012 e 2012) – Esta passada semana, Braga teve a oportunidade de acolher o realizador português João Salaviza, no Cineclube Aurélio da Paz dos Reis. Consigo, trouxe as suas três curtas (Arena, que mostra um dia na vida de alguém em prisão domiciliária; Cerro Negro, a documentar o encontro de dois emigrantes brasileiros; e, finalmente, Rafa, a história de um rapaz cuja mãe foi presa) que compõem uma trilogia. E qual a temática comum? Pessoalmente, diria que se tratam de curtas metragens sobre pessoas marginalizadas, portugueses num âmbito mais geral que a mera nacionalidade, e sobre os quais não rezam os livros de história. Simultaneamente, são a confirmação de um olhar muito particular no mundo do cinema português e exigem toda a atenção para o resto da sua carreira. Ainda este ano, sairá, em princípio, a sua primeira longa-metragem. Cá estaremos para a ver!

The_Great_Dictator

The Great Dictator (Charlie Chaplin, 1940) – Numa jornada ao passado do cinema, encontrei-me com o famoso filme de Charlie Chaplin. O actor, que também realiza esta obra, representa duas personagens distintas: uma, a do barbeiro judeu, e a outra, a do implacável ditador do país imaginário de Tomainia, numa altura em que os judeus começavam a ser perseguidos na Alemanha em prol da supremacia da raça ariana. Surpreendeu-me a actualidade do humor de Charlie Chaplin, uma certa magia nos seus desajeitados movimentos e que, felizemnte, aguentou o teste do tempo. Mas são outros motivos que colocam este filme num lugar muito especial da história do cinema: tendo demorado cerca de dois anos em produção, a ideia principal de satirizar a pessoa de Hitler foi reconsiderada quando o ditador alemão procedeu à invasão da França e Dinamarca. Ainda assim, Chaplin, motivado por Roosevelt, foi avante, e ainda bem que o fez, pois foi difundida a fenomenal mensagem do final, sob a forma de um discurso da autoria de Charlie Chaplin – que, verdade seja dita, desencarna completamente a personagem de barbeiro judeu. Mais tarde, foi sabido que Hitler terá visto o filme – não só uma, mas duas vezes – e Charlie Chaplin admitiu dar tudo para saber a sua opinião. Nunca chegou a saber, mas é difícil imaginar que não tivesse tido impacto algum no ditador alemão. O filme recomenda-se pela inocência do seu enredo, pela descoberta da história do cinema, e ainda recomendo, aos que gostaram, The Kid e City of Lights, também da autoria do realizador americano.

leviathan_poster1Leviathan (Andrey Zvyagintsev, 2014) – O cinema russo, fruto da sociedade restrita e opressiva que de certa forma representa, tem tendência a ser extremamente metafórico e com uma faceta muito interpretativa. Neste caso, Andrey Zvyagintsev opta por uma abordagem mais directa e filma o que, no meu entender, é a ingrata vida de muita da população russa. Kolya, pai de família, vive com o filho e a namorada numa pacata casa junto à lagoa, uma propriedade construída pela família e da qual é, em pleno direito, proprietário. Tudo muda quando as pressões autárquicas, corruptas na sua essência, exercem a influência necessária para ficar com o terreno, e fica desta forma dado o mote para o filme. O que vemos a seguir é um retrato acinzentado, e muito bem filmado, da decadência desta família, numa alegórica referência bíblica que se desenrola, principalmente, na segunda parte da trama. Não ter conhecimento destas referências não impede, de forma alguma, a fruição do filme, que apenas pela sua narrativa possui uma mensagem fortíssima e de imensa importância, sobretudo no panorama da actual política russa.

Damien Chazelle – Whiplash

whiplashDe vez em quando, há filmes que traçam o seu caminho alheios às regras e padrões da indústria cinematográfica, ganhando um reconhecimento, digamos assim, mais meritoso. Neste caso, estávamos em finais do ano passado, e via-se, aqui e ali, burburinhos cibernéticos sobre a next-big-thing, um projecto de baixo orçamento (3.000.000$) que tomou Hollywood de assalto; daí aos Óscares foi um pequeno passo, dado com a maior das facilidades. O seu nome é Whiplash, ao que em português se justapôs Nos Limites, e estreou esta semana passada em território luso.

Assim começa: Andrew encontra-se no final da adolescência e ambiciona entrar na elite mundial dos bateristas de Jazz; uma proposição com tanto de heróica como de improvável, pelo que a sua dedicação é exaustiva, no limiar da obsessão. A ascensão ao topo dava-se a um passo lento mas assertivo, até ao dia em que um exigente e louco professor do conservatório, Fletcher, lhe anuncia a possibilidade de se juntar à sua banda. É este o tónico da narrativa, traiçoeiro na sua simplicidade. Porque embora este tipo de situação – um rapaz banal almeja o topo, superando as dificuldades em busca de um final feliz – esteja sobejamente retratado, Damien Chazelle é incansável na fuga ao cliché e à história linear, justificando a crítica extremamente positiva à história que escreveu.

No entanto, muitas boas histórias morrem na praia à custa de medianas execuções, um erro ao qual Chazelle fugiu com mestria. Num filme assumidamente musical, há a tentação de entrar no facilitismo e utilizar as cenas musicais como meros dispositivos narrativos, nos quais o protagonista é intocável, onde nada demais acontece além de uma confirmação do seu progresso. Em Whiplash, estas cenas são fulcrais. Além de serem imprevisíveis, houve mestria na sua filmagem e edição, pautando-se por uma intensidade fora do comum que também contribui para o próprio desenvolvimento das personagens: é assim que conferimos a determinação obsessiva de Andrew, como também a loucura e a exigência dos métodos do mentor Fletcher. Como tal, junta-se a boa premissa a uma execução condizente, dando azo a um filme cujo passo seguinte não é sempre o mais óbvio.

E no final – depois de nos recompormos daqueles brutais últimos 20 minutos – levanta-se a questão: será Andrew vítima de um abuso incomensurável, tal como os restantes membros da banda, ou justifica-se a extrema insanidade de Fletcher como uma requisito para chegar ao topo? Tematicamente, acaba por haver algumas semelhanças com Frank, do qual já aqui falamos. E ainda que não interessasse este último dilema, Whiplash, por seu próprio mérito, cimenta-se como uma grande surpresa de 2014 e mais dinâmico e imprevisível que muitos filmes de acção. Fica, para mais tarde recordar, a fantástica actuação de J.K. Simmons no papel de Fletcher, que inclusive lhe poderá valer um Oscar, e também a expectativa pelo próximo trabalho do realizador Damien Chazelle. Whiplash estará nos cinemas durante os próximos tempos. Vejam-no!

xwhiplash-miles-teller-jk-simmons.jpg.pagespeed.ic.uFuHowpCWlvkMBhxCr_8

Paul Thomas Anderson – The Master

Paul Thomas Anderson é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes do cinema americano contemporãneo. Dele, temos o épico Magnolia (1999), uma tocante e épica história de várias vidas; Punch-Drunk Love (2001), o sublime, pouco ortodoxo retrato de uma história de amor, e com um surpreendente Adam Sandler no papel principal; mais recentemente, There Will Be Blood (2007), uma jornada pelos Estados Unidos no final do século XIX, num conto moral que de justo modo se tornou num clássico moderno. O seu toque de Midas não gera ouro literal, mas filmes de uma simplicidade enganadora, de subtilezas, segredos e significados meticulosamente espalhados nas várias camadas interpretativas do seu cinema. A seu tempo, exploraremos melhor a sua carreira. Por hoje, dirigimos a nossa atenção a The Master, filme de 2012, com as fantásticas prestações do trio composto por Joaquín Phoenix, Amy Adams, e o enorme Philip Seymour Hoffman.

joaquin-phoenix-the-master-01-1930x975

A narrativa desenrola-se no período pós-Segunda Guerra, na qual Freddy Quell lutou como marinheiro. As consequências traumáticas da guerra são inconclusivas, ainda que se perceba que Quell não está são; é um homem irremediavelmente bêbedo, de comportamentos animalescos e erráticos, e ganha a vida numa série de empregos meniais, ainda que não os consiga manter por muito tempo. Absolutamente deslocado da sociedade, certa noite cruza destinos com Lancaster Dodd, autoproclamado filósofo, físico, comandante do navio Alethia e líder da Causa, uma organização de culto religiosa, que lhe ganha um certo afecto e o toma debaixo da sua asa. Quell torna-se “o protegido e cobaia” e Dodd, que tenta reprimir-lhe o lado animalesco e educar as suas emoções, como que o doma, digamos assim, e tenta ser o seu mestre.

A nós, mais não se pede do que a nossa atenção para tudo o que à nossa frente se desenrola, porque as várias interpretações possíveis prendem-se nos detalhes. The Master é assumidamente ambíguo e misterioso nas suas pretensões e mensagem, embora haja referências evidentes a instituições e problemas actuais (a Causa, por exemplo, é acutilantemente semelhante ao conceito da Igreja da Cientologia). Mas faltam-nos as respostas para outro tipo de questões: o que move Freddy Quell? Quem é, realmente, Lancaster Dodd? Quanto poder detém na verdade, e quais as reais motivações de Peggy? Há pistas e indícios nas acções, expressões, e diálogos – as subtilezas que acima mencionei -, embora nunca uma resposta definitiva. The Master não se enquadra como um filme linear e de respostas fáceis, optando Thomas Anderson pela via da experiência, da intuição, de uma viagem a bordo dum navio do qual ele é o capitão – ora não fossem a viagem e a mudança motifs recorrentes na sua filmografia. Assim, não caiamos no erro fácil de julgar um filme pelo seu enredo, e atentemos, digamos assim, no grande plano.

Cinelists-+The+Master-+Paul+Thomas+Anderson-+Phoenix-Hoffman+%2836%29

Falemos então da fantástica cinematografia, que frequentemente isola Quell de um mundo que teima em não o aceitar; nos maravilhosos planos marítimos, deleite máximo dos que os puderam experienciar no cinema. Ouçamos outra vez a banda sonora, que tal como no anterior There Will Be Blood (2007), ficou à responsabilidade de Johnny Greenwood, que marcará presença também em Inherent Vice, a estrear ainda este ano em Portugal. Recorde-se a fantástica química do trio de actores: Phoenix e Amy encontrar-se-iam um ano depois em Her, enquanto que Seymour Hoffman cimenta o seu lugar como um dos mais queridos, e versáteis actores de que há memória. E, finalmente, recordemos cenas como a da prisão, ou mesmo o último diálogo entre Dodd e Quell. Fantásticos momentos.

Não será um filme que recomendo a todos – há sequer filmes assim, universais? Mas The Master, utilizando qualquer um dos seus fortes argumentos, convida-nos para uma viagem, e deixamo-nos ficar porque nos agrada o cheiro a maresia, o ímpeto de mudança; partimos, tal como Freddy, despreendidos e sem destino. O cinema de Thomas Anderson ensina-nos, não a comparar o início e o fim, mas sim a olhar o meio – assistir à evolução da metamorfose. A isso se propõe The Master, mais um marco da fantástica carreira deste realizador americano.

The_Master_Paul_Thomas_Anderson70

Steve James – Life Itself

life-itself-poster1Façamos um exercício: consideremos a Terra um palco; nela, vão e vêm diferentes actores desempenhar o seu papel, em performances de improviso e sem direito a segundos takes. No longo, infinito carreirinho de pessoas, vemos Roger Ebert, com o dócil, mas matreiro sorriso que complementa um olhar que sempre se viu atento e curioso. Na fugacidade da sua estadia no grande plano, dedicou grande parte da sua vida à contemplação de um outro palco, imensamente mais pequeno, mas cujas possibilidades são igualmente infinitas.

Para alguém que viveu de forma tão apaixonada a sétima arte, e nela encontrava assiduamente um refúgio, é natural que tenha querido uma última perpetuação cinemática, a complementar os vários textos e livros que foi escrevendo ao longo da sua vida. Assim nasceu Life Itself, com realização de Steve James, na ambição de contar a sua história: desde a infância em Illnois, aos primeiros empregos jornalísticos, passando pelo primeiro Pulizter de sempre entregue a um crítico cinematográfico. Além da carreira, explana-se também pela vida pessoal do americano, com uma especial incidência nos seus últimos anos, marcados pela infelicidade de um cancro que lhe forçou a decisão de remover parte do queixo. No entanto, constatamos que Ebert não esmorece, e encontra na adversidade uma força incrível, dando-lhe força e motivação para continuar a sua própria arte – semelhante à própria proposição d’O Coprófago – de escrever sobre a arte, por forma a atingir também um mérito estético e artístico. É um honesto levantar da cortina que nos permite ver o homem por trás da celebridade jornalística, em todos os seus altos e baixos. Life itself, como o próprio título indica.

“In the past 25 years I have probably seen 10,000 movies and reviewed 6,000 of them. I have forgotten most of them, I hope, but I remember those worth remembering, and they are all on the same shelf in my mind.” – Roger Ebert

Desta forma, perpetuo também o meu pequeno e singelo tributo a uma personalidade que imensamente admiro. A sua ímpar capacidade de articular os seus sentimentos acerca de um filme é absolutamente soberba e, por si só, motivou o amor pelo cinema em tantas outras pessoas; frequentemente procuro as suas críticas a filmes que vou vendo, para que possa trocar impressões. Nem sempre estamos em concordância, mas as suas palavras evocam-me sempre um sorriso. Assim como o faz este filme, e assim como o faz Life Itself – a própria vida.

Roger Ebert & Gene Siskel

Spike Jonze – Her (e um cheirinho de Lost In Translation)

her-spike-jonze-poster-405x600Numa visão futurística do nosso mundo, as pessoas vestem-se de uma maneira estranha, mas reconfortantemente romântica. A arquitectura é simples, sem extravagâncias, em suaves tons de vermelho e amarelo. As cidades, limpas e espaçosas, são percorridas por milhares de pessoas – cabeças baixas, andar apressado, e a atenção exclusiva para um aparelho electrónico que pauta o andamento das suas vidas. Não estranhamos este futuro, porque já, em parte, o vivemos. De Spike Jonze, temos Her – em português, ficou algo como Uma História de Amor.

Theodore, com o seu simpático sorriso e olhar sonhador, recita uma carta ao computador. No seu emprego, escreve textos personalizados para que outros enviem às suas caras metade, e poucas não são as vezes em que se encarrega, também, da respectiva resposta. Mas não se adivinha que este cupido, que tantas relações sustenta com as suas palavras, ainda não se tenha recomposto de um penoso divórcio com a sua mulher, cujos papéis estão ainda por assinar. “Play meloncholy song” – pede ao seu aparelho, no caminho para casa. “I miss you. I mean, not the sad, mopey you – the old, fun you.“, escreve-lhe a amiga Amy. Assombrado pela solidão, a sua vida muda na manhã seguinte, com a chegada de um sistema operativo novo, munido de uma personalidade que se adapta às necessidades do utilizador, intrigando-o deveras. A relação que prontamente se desenvolve entre Theodore e Samantha (o sistema operativo) sustenta-se na honestidade e confiança, ao contrário das barreiras de comunicação do seu anterior casamento, e há uma interessante dicotomia entre os dois: enquanto que Samantha se descobre progressivamente, numa estrada que a leva à humanização, Theodore percorre o caminho inverso e aprende a amar uma máquina.

Como seria connosco, se tivéssemos na palma da nossa mão uma indissociável e sempre presente entidade, capaz de ouvir e formular pensamentos? Jonze materializa um mundo em que isso não só é possível, como plausível – e assusta ver que pouco separa a sua visão da nossa realidade. Her transcende a sua premissa parte romântica, parte sci-fi, e toma-nos numa reflexão da nossa própria vivência: somos, mais que nunca, seres estranhos e solitários; o bizarro e esquizofrénico mundo em que vivemos condiciona a nossa natureza, de tal modo que só o amor não basta para suportar as excentricidades e complicações da comunhão na vida moderna. É uma crítica que se mascara em forma de desabafo nos vários flashbacks da vida entre Theodore e a sua ex-mulher Catherine.

“You always wanted to have a wife without the challenges of actually dealing with anything real. I’m glad that you found someone. It’s perfect.”
“You always wanted to have a wife without the challenges of actually dealing with anything real. I’m glad that you found someone. It’s perfect.”

Her é um filme cuja pertinência se eleva tendo em conta os desenfreados avanços tecnológicos da nossa geração – e é, sem dúvida alguma, um enorme filme – mas não foi o primeiro, nem será o último, a retratar o tema da solidão. E quero agora falar-vos de um outro filme, também ele fantástico, e que ganhou um renovado interesse aquando da chegada do filme de Jonze: Lost In Translation (2003). De entre as evidentes semelhanças – Scarlett Johansson no papel principal, acção a desenrolar-se em utópicas capitais tecnológicas, e a supracitada solidão – atentemos que é um filme com cunho de Sofia Copolla, que em 2003 assinava o divórcio com Spike Jonze. Ora, tendo isto em conta, é como se houvesse um twist em Her, e encaramo-lo como uma resposta a Lost In Translation, que, por sua vez, muitos acreditam ser uma “carta” a Spike Jonze.

o-HER-LOST-IN-TRANSLATION-facebook

Sem querer tomar mais do vosso tempo – minutos que vos distanciam de ver, ou rever, este fantástico filme – permitam-me resumir num parágrafo a fantástica prestação de Joaquin Phoenix, que já havia sido fenomenal em The Master (2012), como também a da própria Scarlett Johannson. Mais ainda: mesmo que a premissa romântica não apele, vale a pena ver pelos apontamentos de futurologia que Jonze emprega em Her, e pelas fantásticas imagens, um autêntico regalo para os olhos. Também a banda sonora, à responsabilidade dos improváveis Arcade Fire, assenta que nem uma luva à atmosfera que tão bem se cria em Her. Posto isto, duvido que, feita uma entrega séria a este precioso pedaço de cinema, ele não vos conquiste. Que grande, grande filme.

HER