Edição 90 – Feminismo dos Le Tigre, desafios à pop, e electrónica espacial.

Mais uma edição d’A Mosca!

Começámos com a recentemente recuperada música de Ata Kak, pseudónimo artístico do rapper (num sentido muito abrangente da palavra) Atta-Owusu; a sua história é interessante, assim como o é em igual medida a sua música – uma mistura de rap, música americana dos anos 90, e sons tradicionalmente africanos. Seguiu-se a interventiva música dos Le Tigre, histerismo punk q.b., cujo álbum de estreia de uma curta carreira é um poço de boas memórias e música muito divertida.

A sugestão da Porto Calling leva-nos ao imaginário do poeta/músico John Cooper Clarke, intimamente ligado à cena punk, que nos canta I Don’t Want To Be Nice no disco de 1978, Disguise In Love. 

Depois, entramos em território mais arriscado. Recuperámos um disco de 2015, Forgiveness, dos misteriosos Goodbye que parecem não ter muito interesse em fazer música fácil – embora pareça que conseguiriam, bastando querer. Apelam à electrónica dissonante e experimental – chega, por vezes, a ser abrasiva – sem nunca perder de vista a noção musical da pop. O resultado é estranho, mas estranhamente chamativo: o disco tem uma mão cheia de excelentes músicas, das quais ouvimos duas óptimas amostras. Além disso, ainda houve tempo para ouvir uma música dos 18+, um grupo muito interessante e extremamente crítico dos cânones estabelecidos da pop.

Dada a entrada na electrónica, daí não mais saímos até ao final da emissão. Fomos ao baú buscar dois nomes que marcaram o panorama da electrónica experimental da década de 60: primeiro, os Silver Apples – que até começaram como um projecto de rock – e o uso de instrumentos da física, os osciladores, na sua música; segundo, os White Noise, grupo britânico que contou com a participação de Delia Derbyshire em algumas das composições. Estes últimos estiveram intimamente ligados às experiências da BBC Audio Workshop, e o seu disco An Electric Storm é um portento no que toca a colagens sonoras, e todas as técnicas que na altura eram possíveis com a manipulação de fitas (diz-se, até, que este disco tem mais cortes que o Sgt. Peppers!).

Para terminar, fomos brevemente assaltados pela melancolia de John Cale, ex-Velvet Underground, e uma quase balada do seu disco A Music For a New SocietyFoi a melhor forma de terminar esta semana.

Voltamos em breve, com mais uma emissão; até lá, esperamos que se divirtam muito com esta!

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O passado mês em cinema – Fevereiro.

Aqui me têm de novo, finalmente liberto da azáfama dos últimos tempos, repartidos e revezados entre estudo, afazeres académicos, e infrutífero ócio (minto: houve também alguma leitura, que será explicitada num futuro post). Deste a última vez que escrevi sobre cinema, remontando a finais de Janeiro, tive um muito parco mês de Fevereiro: vi apenas 7 filmes, sem grande critério de selecção. Volvido já bem mais que um mês, vou tentar deixar algumas impressões.

All_the_president's_menHavia algum tempo que o tinha referenciado, e uma qualquer referência – talvez a propósito de Spotlight, galardoado nos Oscars – me levou de novo a considerá-lo. All The President’s Men (1976), uma referência do cinema americano, com Dustin Hoffman e Robert Redford à cabeça, discrimina todo o processo jornalístico que desencadeou num dos escândalos políticos mais mediáticos das terras do Uncle Sam. Infelizmente, é necessário, ao longo do filme, que tenhamos esse contexto histórico/político bem presente; doutra forma, a história é apenas uma vaga impressão que cruza nomes, datas, e lugares, relevantes para a história americana. Por isso, é uma relutante recomendação. É um óptimo filme, mas é necessário, para quem não viveu aquelas décadas, ter a página da Wikipedia sobre o Watergate à mão.

Depois, L’Argent (1983) de RobertL'argent Bresson. O segundo filme que vejo do realizador francês, está ainda centrado no estilo muito próprio que lhe vi em Pickpocket (1959) – não querendo com isto dizer que seja repetitivo ou formulaico. A narrativa parte de uma nota forjada que vai de mão em mão, enquanto acompanha as consequências da ganância e da imoralidade nas pessoas que com ela se cruzam. Uma espécie de conto moral, que não o é realmente, num estilo de edição pouco ortodoxa, com resquícios de uma estratégia mais evidente em Pickpocket: cenas justapostas respeitando a linearidade, mas dadas à omissão temporal de várias acções intermédias. Entre os dois, ambos interessantes, Pickpocket é talvez a escolha mais acertada para um primeiro filme de Bresson.

220px-Rope2Ainda no cinema de outros tempos, dediquei-me a mais dois filmes de Albert Hitchcock. Primeiro, Rope (1948) dedica-se à exploração de duas ideias: uma narrativa, e uma técnica, tendo o tempo privilegiado dado maior importância à segunda. O filme desenrola-se numa única sala, onde dois colegas universitários discutem um assassínio que levaram a cabo. O cadáver jaz dentro duma arca, nessa mesma sala, que dará lugar a uma festa com vários familiares e amigos do morto. A componente narrativa, quase inexistente,  explora muito o diálogo (filosófico por vezes, raramente erudito) e uma espécie de ensemble casting, com muita gente a partilhar as cenas num dado momento; por outro lado, o factor que perpetua Rope como um interessante feito técnico prende-se com a opção de o filmar como se fosse um take ininterrupto, tal como Birdman (2014). Desta forma, Hitchcock julgava manter a tensão entre todas as cenas, e fê-lo usando transições inteligentes, contornando as limitações técnicas da altura (os rolos de filme tinham, no máximo, cerca de 10 minutos de filmagem). Salva-se o gesto técnico, e os belíssimos minutos finais – vale a pena ver.

dial-m-for-murder.12183Além de Rope, vi também um outro clássico, Dial M For Murder, este de 1954. Em comum, os dois filmes partilham a ideia de uma história passada numa divisão, e, mais especificamente, uma espécie de fetichismo requintado pelo acto de assassínio, marca que, afinal, tinge grande parte do oeuvre do realizador britânico, e que é primorosamente explorada neste último filme. Aqui, como mais tarde, em Psycho, Hitchcock prepara uma narrativa onde um dos twists não é, como se espera, a conclusão da história, mas sim o seu próprio início – a aparentemente pacata e convencional cena marital entre James Stewart e Grace Kelly dá lugar, em pouquíssimos minutos, a um rocambolesco e diabólico plano de assassínio. Perversões do status quo a que Hitchcock nos foi habituando ao longo da carreira. Depois, o filme desagua na fantasia de muitos escritores de policiais, duma forma inteligente e bem conseguida. Sem dúvida, um dos pontos altos da carreira do britânico – ou, melhor dizendo, um dos vários pontos altos.

11170770_oriCronologicamente, temos ainda Hot Fuzz (2007), uma paródia de acção com selo de produção britânica. Há alguns bons momentos, e é um filme divertido se não julgarmos demasiado a sua história apatetada e muito silly. Aliás, vi-o apenas por recomendação de um excelente canal de video essaysEvery Frame a Painting, obrigatório para quem aprecia análises visuais de filmes; impossível esquecer, também, o novíssimo de Tarantino, Hateful Eight (2015). the-hateful-eight-poster-2O que dizer? Dentro do que têm sido as trademarks do seu cinema, o americano teceu uma narrativa hermética, onde explora muito o diálogo – como tem sido, ao longo da carreira, um dos seus pontos fortes – e a caricatura de uma América que, embora se julgue perdida, tem as raízes bem soltas e à vista na sociedade de hoje. Peca, talvez, na distribuição pouco equilibrada do seu “andamento”: começa lento, pianíssimo, apanha trote no seu meio, e culmina num fantástico terceiro acto, um clímax narrativo e visual – autêntico deleite cinematográfico, apetece dizer. Se será, ou não, dos seus filmes mais bem cotados, apenas o tempo saberá julgar; por agora, não é uma pergunta muito relevante.

andrei-rublyov.15176Para terminar, o final do mês reservou-me uma bela surpresa no Theatro Circo, em Braga. Andrei Rublev (1966) é equiparável, em dimensão, àqueles livros divididos em tomos que lemos num trago, e os queremos de novo mal o acabamos; no meu caso, devido ao muito que fica por apreender nas entrelinhas. A acção passa-se no século XV, mergulhada numa história relativa às características e idiossincrasias da Rússia da época. Os diálogos – e permitam-me uma breve nota de apreço à tradução, que me parece ter sido extremamente competente, além de que sem a qual muito do encanto do filme estava irremediavelmente perdido – dizia eu, os diálogos, ao longo de todo o filme, são extremamente ricos em ideias relativas à religião, ao propósito humano, à arte, à labuta, etc. e ao mais complementados pela própria mise en scène, à qual o dedo mágico de Tarkovsky deu especial atenção, com imagens recorrentes ao longo do filme – basta pensarmos nos cavalos, um animal elegante, poderoso, muito acarinhado pelo russo nos seus filmes, que aqui aparecem amiúde, com uma forte carga simbólica – e outros artifícios visuais e narrativos, os quais, na minha limitada bagagem cinematográfica, não consigo ainda apreender. No entanto, retive do filme muita da parte final, com o poderoso último acto, comovente, entre o jovem dos sinos e Andrei Rublev, que nos acompanha bem para lá do termo do filme. Fica devida uma segunda sessão, no futuro, depois até de ter estudado as várias referências históricas às quais Tarkovsky remete. Na verdade, e agora divago, do pouco que conheço da cultura russa, parece-me que  algumas obras dos seus artistas remetem automaticamente para uma noção histórica muito enraizada, como se fosse realmente uma necessidade de olharem para si próprios, e julgar esse passado – Andrei Rublev é certamente uma dessas obras, como também o é, certamente, O Mestre e a Margarida, icónico livro de Mikhail Bulgakov, que muito se alimenta, mais do que o normal, do contexto temporal em que está inserido.

Perdoem-me a longa dissertação! Volto, em breve, e desta vez com devaneios literários.

E aqui vos falo do Cinema que vi.

Já passou mais de um mês desde a última vez que tomei a liberdade de olhar os filmes que vi nos entretantos. Desde então, passei pelo cinema de Hong Kong (destaco Come Drink with Meum óptimo filme de artes marciais e pleno de substância narrativa e cinematográfica – aliás, faz parte de uma corrente maior na história da narrativa asiática, denominada wuxia, sobre a qual vale a pena ler!), por alguma da cinematografia de Robert Altman, Stanley Kubrick, e outros filmes. Destes últimos, dou agora prioridade aos saídos em 2015, para saber o que se fez ao longo deste ano.

_1414684967Começo pelos mais recentes. Ex Machina, de Alex Garland. Saiu para os cinemas em finais de Abril, e surpreendeu muitos com o tema da inteligência artificial e da identidade humana, juntando-lhe o competente trabalho dos actores Oscar Isaac, Domhnall Gleeson (de Frank!) e Alicia Vikander. O tema é interessante, ora não estivéssemos numa era de frenéticos avanços tecnológicos, e o filme tenta, com moderado sucesso, introduzir algumas ideias filosóficas que “fazem pensar”. E é isto. É um filme bem feito, mas nada de transcendente. Por outro lado, trouxe-me à memória uma associação que não pude esquecer ao longo do filme: Solaris, do titã Andrei Tarkovsky. Há imensos traços comuns entre ambos: partir para um mundo que se desconhece, o contacto com uma presença não-humana, e a representação do que se esconde nos mais inacessíveis recantos da nossa (in)consciência. Para quem gostou, é obrigatório o filme do russo Taskovsky.

mad-max-fury-road-poster2.jpgAinda em 2015, estava muito curioso quanto ao Mad Max: Fury Road, de George Miller (tem 70 anos de vida!) que fortemente agitou o plano cinematográfico comercial. Mad Max é um blockbuster de acção, com uma história medíocre e pouquíssimos diálogos de relevo. Há explosões, e lutas, e imenso fogo. E resulta bem porque, além de ser feito com muita competência, é imensamente divertido e é genuíno! A CGI foi usada de uma forma responsável (há um interessante artigo na FXGuide) e é um exemplo para todos os que querem fazer este tipo de cinema, onde a tecnologia complementa em vez de criar – é uma enorme diferença. Por outro lado, é um filme que aproveita as potencialidades da sala de cinema, onde o som tem outro protagonismo e a imagem ocupa muito mais na nossa visão. Evidentemente, há um público para este tipo de filmes, e espero que Mad Max tenha levantado a fasquia para a acção (se houvesse um Mad Max por cada dois Transformers…). Que venham mais como este!

Long_Goodbye-poster1Quanto ao americano Robert Altman, ainda não houve um filme que me desapontasse, e acho-o um interessantíssimo realizador independente. O seu cinema é muito próprio e facilmente identificável, mas traçar-lhe as linhas e influências implica ser conhecedor de correntes que ultrapassam o meu conhecimento. Em The Long Goodbye (1973), história adaptada do livro homónimo de Raymond Chandler, acompanhamos o detective Philip Marlowe num mistério surreal, como nos antigos film noir. Se noutros trabalhos a narrativa é negligenciada, aqui, pelo menos, sabemos o que acontece; por outro lado, o mesmo não se pode dizer do “porquê”. Philip Marlowe vagueia e divaga entre as pistas que recebe, num universo rico e pleno de situações pitorescas. É um filme muito interessante e essencial à filmografia de Altman, que, à imagem de outros trabalhos, merece uma segunda visualização. Comparo-o, por exemplo, a um filme mais recente do seu seguidor Philip Thomas Anderson: Inherent Vice. Este filme não foi um grande sucesso comercial, ao contrário de…

NashvilleNashville (1975). Desta vez, Altman aposta num musical sem deixar de parte a narrativa nebulosa que caracteriza os seus filmes. Tudo se passa com várias pessoas na cidade de Nashville, cujas vidas se intersectam ao longo de cinco dias. E no meio de jogos políticos e do mundo da música, há 24 personagens – principais! – que se desenvolvem ao longo das quase três horas de filme. Nashville é realmente épico, e um dos filmes-bandeira de Altman que mostra as suas principais características: a narrativa não sustenta o filme, que, por sua vez, se ergue organicamente sobre uma série de acontecimentos fortuitos; personagens ricas, densas, e únicas; um uso inovador do som, com várias conversas em paralelo sem que nenhuma delas se sobreponha obviamente – obriga-nos a ser parte activa do filme, e escolher o que queremos ouvir; e, por último, uma dimensão satírica em relação à própria América e as suas idiossincrasias. Há ainda uma mão cheia de filmes essenciais de Robert Altman para ver!

Depois, outros destaques: deste ano, DOPE conta a história de três adolescentes na América, num cenário contemporâneo mas que bebe muito à cultura hip-hop dos 90’s e ao surrealismo brincalhão de Quentin Tarantino. Envolvem-se num problema de tráfico de droga e partem numa odisseia para levar alguns quilos de coca ao seu dono. É um filme engraçado  e que traz uma nova abordagem aos coming-of-age flicks, com uma óptima banda sonora reminiscente de uma das melhores épocas da música. Like Someone In Love é uma história improvável entre uma call girl e um idoso, que se conhecem em circunstâncias dúbias. O filme é muito estático, e os diálogos são a sua grande força. É um conto interessante por parte do iraniano Abbas Kiarostami, que durante muitos anos filmou na sua terra natal e só agora parte para países estrangeiros (Japão, neste caso). Para terminar, The Killing (1956) Paths of Glory (1957), dois filmes que recuperei ao início da carreira de Stanley Kubrick. Recomendo ambos. Kubrick é um senhor do cinema e é algo que se nota nos seus primeiros filmes, cuja grande diferença para a sua época de ouro é a ambição, e não a inexperiência. Paths of Glory, em particular, conta-nos uma óptima história sobre a guerra – um tema que abordaria mais tarde em Dr. Strangelove Full Metal Jacket) – a partir duma situação que decorre no terreno. Expõe, como só ele sabe, o absurdo, o surreal, e o abuso de poder nestas situações, duma forma extremamente humana. É o Stanley Kubrick, senhores.

Screen Shot 2015-12-08 at 23.54.51Para terminar, conto já 146 filmes desde Janeiro. Vou atingir a meta dos 150 filmes neste ano! Não é um número impossível, mas requer alguma dedicação. O cinema é realmente um mundo, e tem muito por descobrir. Espero conseguir transmitir, um pouco que seja, desse conhecimento – e do fascínio também.

Dia Mundial do Cinema e relacionados.

Ontem, dia 5 de Novembro, comemorou-se o Dia Mundial do Cinema. É uma bonita efeméride, que nos recorda o nosso enorme gosto de ver filmes. Nesse sentido, o Arte-Factos reuniu a sua equipa e juntar os vários filmes que nos marcaram; eu não consegui fugir ao incontornável Elephant, de Gus Van Sant, que foi até, creio eu, o primeiro filme de que se falou – duma forma muito rudimentar – aqui n’O Coprófago. Podem consultar o artigo, na íntegra, no link.

91hC8v+LIVL._SL1500_Além disso, aproveito para deixar uma breve nota sobre os filmes que tenho visto ultimamente. Primeiro, não posso deixar de mencionar os filmes de Sidney Lumet. Já da última vez os tinha mencionado – com uma promessa de, mais tarde, lhe dedicar uma maior atenção – e não consigo, de forma alguma, afastar-me da sua filmografia. Desta vez, segui com The Pawnbroker (1965), sobre um judeu solitário que tem por sua conta uma loja de penhores, e uma vida toldada pelo horror do Holocausto. Filmado ainda a preto e branco, a belíssima e expressiva cinematografia ficou a cargo de Boris Kaufman (que, descobri entretanto, é irmão de Dziga Vertov, um dos mais celebrados nomes do cinema russo, e mundial!); e embora o filme fuja um pouco ao traço moral que reconheci aos mais recentes trabalhos do realizador americano, não deixa, ainda assim, de ser muito interessante, num óptimo registo de retrato humano.  Além desse, vi também um outro épico da sua carreira, de nome Prince of the City (1981). Numa primeira instância, associei-o a uma espécie de remake de Serpico, que teve Al Pacino no papel principal. Ora, em boa verdade, a temática é semelhante, com retrato de polícias que se vêm envolvidos em complexos sistemas de corrupção. No entanto, o tom de PooC é diametralmente oposto ao de Serpico, sendo mais cru, realista, e menos romantizado – e, desta vez, a personagem principal faz parte da facção corrompida. É um fantástico filme, tenso e brilhantemente construído. Permitam-me acrescentar que, restando-me apenas um par de filmes para terminar o grosso do trabalho de Lumet, estou simultaneamente a terminar a leitura do seu livro Making Movies, editado em 1996, e que é simplesmente obrigatório para quem gosta de cinema. Lumet descreve, ao longo de cada capítulo dedicado a uma parte da realização (desde a escolha de guião, à filmagem, à edição, etc.) o processo da feitura do filme, com o trato de quem, tanto no cinema como na escrita, é capaz de contar boas histórias.

relatos-salvajes-posterFora do âmbito de estudo de um realizador, passei por alguns filmes mais recentes. Relatos Salvajes (2014), de Damián Szifron, fruto de produção argentina, foi um dos filmes mais bem conseguidos que vi nos últimos tempos. É, de uma forma sucinta, um filme divertido – o que, claro, é um elogio – resultado de uma amálgama de várias pequenas histórias, como se fossem sketches, ou curtas-metragens, sob o tema comum de vingança, sátira, e humor negro e surrealista. Surpreendentemente, o trabalho final é bastante coeso, e nenhuma das histórias se destaca como descartável – contribuem todas para um gigantesco bolo de loucura “só porque sim”. Esta foi uma recomendação do nosso cineasta António-Pedro Vasconcelos, que participou numa palestra sobre o estado do Cinema em Portugal há cerca de duas semanas (há um artigo pendente sobre esse assunto…); nessa altura, e tomado pelo cepticismo de quem vive esta situação precária há demasiados anos, disse que “o cinema marroquino dá 10-0 ao nosso. O cinema argentino, então, nem se fala. 100 a 0!”.

tangerine_xlgVi também outro filme de 2015, um curioso filme chamado Tangerine realizado por Sean Baker. A sua narrativa está sustentada num único dia nas vidas de três indivíduos: um taxista arménio, e duas prostitutas transexuais. Posto isto, o filme desenrola-se, aprofundando a humanização de cada uma das personagens através das pitorescas situações que vivem, complementando o norte cómico que pontilha todo o filme. Há também um outro pormenor interessante: Tangerine foi filmado exclusivamente com iPhones 5S; sem menosprezar este feito técnico, que se pode extender à importância de meios digitais e acessíveis no cinema independente, é de salientar que o filme vive muito para além deste gimmick. O resultado final, independentemente disso, é surpreendente. Tangerine é um filme bem conseguido e descomprometido com o que se vai fazendo mundo fora.

Faltavam mencionar ainda uma mão cheia de filmes – revi Vertigo, de Hitchcock, vi Os Mutantes, uma produção nacional de Teresa Villaverde (bom!), o hermético filme de Dennis VilleneuveEnemy, baseado no ‘Homem Duplicado’ de Saramago, e Being There, um bonito e simples filme de Hal Ashby. Por esta semana é tudo!

A palestra de Brian Eno sobre o papel da arte e cultura.

BrianEno_EBJohn Peel foi uma enormíssima personalidade da rádio britânica BBC, a quem muitas vezes se comparou o “nosso” António Sérgio na capacidade de trazer música diferente aos seus ouvintes. Em sua honra, a BBC organiza, anualmente, uma palestra onde convida uma personalidade musical a discutir música, ou assuntos relacionados com cultura; e para este ano, depois de nomes como Iggy Pop ou Pete Townshend, foi a vez de Brian Eno.

O artista britânico tem uma das carreiras mais importantes na história da música moderna – ou melhor, de toda a história da música -, com um contributo enorme na definição do silêncio como elemento activo, a atenção à produção da sua música, e as imensas colaborações com outros artistas. A exemplo da sua polivalência musical, basta reparar que, no ano de 1978, foi autor de um dos álbuns mais influentes da música ambientMusic For Airports 1, como foi responsável pela curadoria da compilação No New York, um dos marcos do movimento musical no-wave. E podemos também mencionar o seu trabalho como produtor de David Bowie, ou no álbum Remain In Light, dos Talking Heads.

Como tal, a palestra do último dia 27 de Setembro tinha tudo para ser algo realmente especial. E foi! Eno dedicou grande parte da sua hora ao tema da cultura e da arte. Definiu esse conceito de uma forma genial – a arte é “tudo o que não temos que fazer” – e expôs todo o consequente raciocínio de uma forma clara, envolvente, e progressivamente mais abrangente: ao longo da palestra, abordou temas como a errada percepção de que a arte e a cultura são menores, em contextos financeiros e de progresso da sociedade, em relação à ciência; da necessidade humana de recuperar a imaginação livre e recreativa da infância, através do sentimento de abstracção que, por exemplo, a leitura de um livro nos concede; a capacidade que o ser humano tem de desenvolver empatia com outras realidades de vida por meio da arte; e, para finalizar o rol de exemplos, o seu positivismo refrescante em relação ao futuro da humanidade, repleta de automação e tecnologia, onde todos serão artistas por não terem nenhuma outra necessidade mais imediata.

A gravação da conversa ficou documentada em áudio, e está, durante os próximos 22 dias, disponível em streaming no site da BBC. Podem ouvi-la aqui; se preferirem, a transcrição completa em formato texto também está online aqui. Além disso, na próxima emissão d’A Mosca, vamos recuperar alguns momentos da sua carreira, assim como alguns excertos desta sua palestra.

“When you go into a gallery, you might see a most shocking picture. But actually you can leave the gallery. When you listen to a terrifying radio play you can switch the radio off. So one of the things about art is it offers a safe place for you to have quite extreme and rather dangerous feelings.” 

A Mosca – 69º Edição

Esta semana, decidimos partir da música popular brasileria. Como tal, fomos explorar a carreira de Gilberto Gil, cujo álbum de 1969, Cérebro Eletrônico, prontamente nos impressionou. É um registo que tanto bebe da tropicália, como da experimentação. Isso agrada-nos! Depois, prosseguimos com a banda de funk americana, os The Meters, para mais tarde aterrarmos na música de Del tha Funkee Homosapien – um enormíssimo nome no hip-hop que justifica toda a atenção. Logo a seguir, revisitamos a carreira de Gang Starr, grupo que continha Guru (já por cá passou com o seu projecto Jazzmatazz) e DJ Premier. Pondo o hip-hop de parte, é altura de ouvir Bobby Womack. Há alguns anos lançou o seu derradeiro registo de estúdio, mas fomos em busca do seu trabalho de 1971, de nome Communication. De entre todas as canções, escolhemos uma interpretação de um êxito de Burt Bacharach – poderão ouvir porquê, no podcast. A partir daqui, entramos noutros terrenos musicais. Primeiro, os Stereolab, ainda numa fase inicial da carreira, com a sua música barulhenta e de muita textura; depois, os Animal Collective (talvez, a par dos Radiohead, a banda que mais figura no nosso programa?). Há ainda tempo para dois trabalhos de 2015 – o novo single dos Beach House e um trabalho de electrónica mais vanguardista da autoria de Kara-Lis Coverdale (recomendadíssimo!). Para terminar a emissão, voltamos ao ponto de partida: primeiro, ainda no registo Cérebro Eletrônico e, logo a seguir, um excerto de uma actuação ao vivo de Gilberto, com a sua música “Cálice”. Vale a pena ouvir!

Mas não é tudo, por hoje: relembramos que amanhã, a partir das 4h, A Mosca vai ter uma emissão muito especial – a primeira fora do horário das madrugadas! Será em directo, e dada a possibilidade de termos mais ouvintes, vamos relembrar alguns trabalhos que por cá passaram, na perspectiva de mostrar a mais gente em que consiste o nosso projecto. Ainda assim, vai ser, de certeza absoluta, interessante para quem já nos segue, pelo que o convite também a vós se estende.

Até já!

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A Mosca – 68º Edição

Já não conseguimos viver sem A Mosca.

Esta semana, o mote foi lançado pela revista britânica The Wire, especializada em música experimental, periférica e alternativa, e que é sempre um óptimo ponto de partida para refrescar os ouvidos. Na contracapa de uma das emissões que nos chegou, este mês, vi um álbum que prontamente me despertou a atenção: Nu Yorica! Culture Clash in New York City, com o explicativo subtítulo Experiments in Latin Music 1970-77. Como o nome indica, é uma compilação de nomes que, na década de 70, se destacaram no enorme melting pot nova-iorquino, numa fusão entre as influências latinas dos imigrantes, e a própria cultura americana. Daí, estavam lançadas as bases para irmos descobrir Sly & The Family Stone, nome basilar do funk (e de outras coisas também, a explorar numas próximas empreitadas), e recuperar os Parliament; embora já repetentes no programa, o ímpeto de os ouvir foi mais forte – e vem a propósito, também, do concerto de George Clinton no último Glastonbury (actuou ao mesmo tempo que Kanye West). Seguiram-se Nujabes, o lendário beatmaker nipónico cuja carreira é um marco no hip-hop instrumental, e, na mesma onda, descobrimos Floyd the Locsmif. Bem talentoso! A partir daqui, deixamos as batidas para trilhar territórios diferentes – uma das proposições essenciais deste projecto. Primeiro, passámos pela obra de Steve Reich – dose dupla, neste programa – a propósito de uma antologia que reúne vários trabalhos do compositor contemporâneo americano. Neste seu registo, é possível constatar a enorme flexibilidade musical que apresenta, e fica prometido voltarmos à sua carreira em breve. Também em dose dupla, tivemos Vashti Bunyan, outra repetente no programa; em primeiro lugar, uma colaboração com os Animal Collective: dois nomes singulares no mundo da música e cuja colaboração merece muito ser ouvida. Para terminar, passagem pelos obrigatórios Radiohead, e, para terminar, outra vez Steve Reich. Que óptima semana. E já falta pouco para a próxima emissão! Até já.

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A Mosca – 60º Edição

O início da emissão ficou entregue ao americano Gil Scott-Heron. O seu segundo álbum, Pieces of a Man (1971), foi uma das descobertas dos últimos dias e pôs-me em contacto com toda a sua carreira, e consequente importância no mundo musical e social. Já está prometido revisitar a sua carreira – rica e extensa -, mas até lá recomenda-se este álbum: um registo sincero, socialmente consciente e quase confessional, nos quais a extravagante instrumentação está no topo de forma. Prosseguindo a linha da soul, seguem-se Cody ChestnuTT Mayer Hawthorne, sendo que a este último cheguei através do documentário Our Vinyl Weighs a Ton, do qual falei na passada semana. Há sempre espaço para ouvir um dos álbuns da minha vida – In Rainbows (2007), dos britânicos Radiohead, e do qual se ouviu Nude – e complementámo-lo devidamente com a francesa Colleen e a sua delicada música com base em loops, que se afirmam inocentes e contemplativos. Havendo uma linha delineadora da emissão, traça-se aqui, porque se segue uma jornada pelo jazz de 2015. Primeiro, os The Breathing Effect apresentam o seu registo, muito sólido, que não puxa tanto ao virtuosismo como apenas nos pede um pouco da nossa atenção, mas logo de seguida, um dos álbuns do ano: Kamasi Washington, que já conhecemos de dois outros registos que por aqui passaram (To Pimp a Butterfly You’re Dead!), preparou um épico de quase três horas (!) e cuja completa digestão é demorada, mas nunca penosa – antes pelo contrário. Uma verdadeira viagem que marcou, seguramente, esta emissão. Na ressaca deste fantástico álbum passámos por um outro que será, também, um dos pontos altos do ano: o trabalho, muito recente também, da americana Timbre. De seu nome Sun and Moon, lida com a dualidade dos dois astros, reflectindo-se, claro, na música e na sua abordagem. Um duplo registo que merece a nossa atenção o mais rápido possível. Para terminar, recorda-se o sempre bem-vindo Tim Hecker – desta vez, o mote terá sido o seu registo de 2012, Ravedeath, 1972. Foi mais uma semana. Volto, com mais uma óptima hora de música, na próxima madrugada de segunda para terça-feira. Até já!

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Uma reflexão sobre a nossa televisão, apoiada em The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

A televisão é o meio de comunicação mais mal aproveitado no nosso país: todos os dias é-nos facultada programação da pior espécie, como são os programas de tarde da televisão generalista, vácuos em termos de informação e péssimos no que toca ao entretimento, ou, pior ainda no horário nobre, as novelas recicladas, sem chama, e que em nada se descatam das demais; o cúmulo da falta de brio e mau gosto nas grelhas televisivas nacionais tem o seu expoente nos terríveis reality shows, essência dos quais não é mais que assistir, num deleite grotesco de falsa superioridade, às trivialidades quotidianas de pessoas sem interesse nem objectivos, mesquinhas e idiotas. O desolador panorama da televisão nacional reflecte a inércia de quem não se identifica com a mediocridade dos conteúdos, como também de quem se conforma e é paulatinamente amolecido e estupidificado. Forma-se um ciclo em que todos perdem, embora uns mais que outros. A audiência televisiva portuguesa, pela falta de alternativas, sai mais prejudicada. Adiante.

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Nas últimas semanas gerou-se um burburinho em território americano, por causa da última série televisiva do canal HBO – na América, os canais são simultaneamente produtores de conteúdo, funcionando em sistema pay-per-view, um pouco à semelhança dos canais por cabo em Portugal. Desta vez, não se falou de séries como Os Sopranos, Game of Thrones ou The Wire, todas da HBO, mas de um documentário criminal realizado por Andrew Jarecki, com base na história do milionário Robert Durst. Não vou entrar em pormenores para não estragar a vossa experiência, porque, tal como escreveu Miguel Esteves Cardoso na sua crónica diária no Público, o melhor é entrar em The Jinx sem qualquer ideia do que o documentário trata. Evitamos, assim, falar do seu conteúdo, mas podemos perfeitamente abordar as suas implicações.

Por motivos evidentes a quem já viu a série, a obra de Andrew Jarecki recebeu uma fortíssima ovação – pela fantástica produção, pelo “ritmo” da história, pela conclusão do documentário – embora também houvesse uma pequena mas incisiva vaga de jornalistas (e não só) que questionaram a falaciosa linha temporal na qual os acontecimentos foram relatados; isto é, há determinados momentos no documentário, sobre os quais se tiram conclusões e se apoia a narrativa, cuja ordem de acontecimentos não corresponde ao que aconteceu na vida real. Este problema justifica-se com a necessidade de ligar eventos na história para que haja um dramatismo mais forte, embora levante uma série de questões éticas – jornalísticas e não só – às quais Jarecki terá certamente que responder. No entanto, não é esta, de todo, a minha área, e pomos este problema de lado admitindo que, pese embora The Jinx seja um marco para a televisão estadunidense, tem o seu quê de sensacionalista e corriqueiro.

“Documentary can educate. It can enlighten. But it’s also an art and the product of humans and their very real prejudices, opinions, subjectivities. It’s our responsibility to interrogate it with the same ferocity and mindfulness with which we approach any other attempt to transform the world around us into art that moves us.”  Anne Helen Petersen, sobre The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

Tomando, sem pensar demasiado, este documentário pelo que ele é, temos uma das melhores e mais mediáticas produções americanas dos últimos anos, ora não fosse o país do Tio Sam o expoente máximo do bom conteúdo televisivo (e logo atrás, na sua sombra, as terras de Sua Majestade). E voltando ao assunto do início: há umas semanas, aquando da visita de João Salaviza à cidade de Braga, falou-se, entre outros, da falta de cultura filmográfica, chamemos-lhe assim, da sociedade portuguesa. O realizador, puxando obviamente a brasa à sua sardinha, reiterou a necessidade de haver bom conteúdo televisivo (e bem produzido, sobretudo) que mostrasse novos horizontes no panorama da cultura e, consequentemente, criasse espaço para o cinema português. É este o repto de quem já foi aos mais reputados festivais de cinema internacionais (entre eles, a Meca do cinema independente, o Festival de Cannes) ganhar reputadíssimos prémios.

Embora The Jinx seja, como já o disse, sensacionalista e corriqueiro, não deixa de ser uma produção cinematográfica; uma exigência televisiva da qual nos temos distanciado nos últimos anos. A oferta da televisão actual é enorme, mas parca em qualidade, e estamos viciados pela gratuidade do conteúdo que, para apelar às audiências, é necessariamente vácuo e esquizofrénico – somos, portanto, escravos do zapping. O ciclo vicioso onde nos inserimos tem consequências: sofremos nós pela falta de cultura, televisiva e não só, mas sofre também quem dela quer viver – onde se incluem escritores, actores, cineastas e músicos. Não esqueçamos, sobretudo, que a cultura é absolutamente necessária ao desenvolvimento sadio da sociedade, e a sua actual realidade é um lastimável reflexo do que vivemos como portugueses.