A Mosca, e notas de uma semana passada – 1 a 7 de Março

Mais uma semana, e mais uma crónica. Desta vez, um filme ficou de fora: Citizenfour (Laura Poitras, 2014). É um impressionante documentário sobre o gigante polvo que é a agência de inteligência americana (NSA), mas que terá o seu devido destaque numa data próxima. Assim sendo, ficam aqui as recomendações para esta semana.


A Mosca – 53º Emissão

Nesta semana, decidimos explorar África e as raízes de um género que cuja influência atravessou continentes e parámos na Nigéria de Fela Kuti, cuja música foi determinante na identidade do género do afrobeat. É com ele que começa a nossa emissão, para depois passarmos na música psicadélica dos The Zombies e do escocês Donovan. De seguida, conhecemos o trabalho musical da artista Joanna Newsom, ao ouvir a primeira faixa do seu épico de 3 discos, o álbum Have One On Me (2010). A electrónica fica muito bem representada pelos esforços do sempre energético Thundercat, baixista colaborador de longa data de Flying Lotus, e também de Nicolas Jaar, a cujo álbum Space Is Only Noise (2010) prevejo um merecidíssimo lugar na história dos grandes álbuns do género. A partir daqui, entramos em caminhos mais introspectivos: primeiro, com o instrumental japonês de Toshifumi Hinata, para logo a seguir sermos surpreendidos pela honestidade brutal de Benjamin Clementine, que lançou um álbum este ano. A terminar, David Sylvian traz uma amostra do seu álbum Blemish (2003), mas as honras de fecho de emissão ficam a cargo de Delia Derbyshire. O fantástico trabalho que desempenhou como radialista e sonoplasta na BBC Radio não poderá nunca ficar esquecido e avivamos a memória colectiva ao trazer uma das suas criações, Inventions For Radio: Dreams (1964), ao meio onde seriam originalmente difundidas – a rádio. É esta a nossa proposta para esta semana. Espero que gostem!

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Cinema

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Burn After Reading (The Coen Brothers, 2008) – Para abrir a semana, revi um filme que já havia visto por volta de 2008. No entanto, tinha uma pequena ideia – que se veio a confirmar – de que Burn After Reading é uma das mais incríveis, idiotas comédias que já vi. Colaborando com os irmãos Coen, está uma enorme lista de actores de primeira linha (George Clooney, Brad Pitt, John Malkovich, etc.), cujas personagens dão por si envoltas numa paranóica trama sobre documentos confidenciais – embora os mesmos documentos não sejam assim tão importantes. Parar para pensar não é uma característica de nenhuma das personagens, e o que sucede é o típico efeito bola de neve, de acções e consequências cada vez mais hilariantes e bizarras. Embora seja uma pequena paródia às vidas idiotas das personagens de Burn After Reading, há uma subtil crítica a um estilo muito americano de vida, mas o filme ganha precisamente por nunca levar essa ideia muito a sério. Para quem gosta de boas comédias, ou de francas tentativas, tem aqui uma boa aposta. E façam-no, quanto mais não seja pelas geniais prestações de todo o seu elenco.

CapaYestasemanaArena, Cerro Negro e Rafa (João Salaviza; 2009, 2012 e 2012) – Esta passada semana, Braga teve a oportunidade de acolher o realizador português João Salaviza, no Cineclube Aurélio da Paz dos Reis. Consigo, trouxe as suas três curtas (Arena, que mostra um dia na vida de alguém em prisão domiciliária; Cerro Negro, a documentar o encontro de dois emigrantes brasileiros; e, finalmente, Rafa, a história de um rapaz cuja mãe foi presa) que compõem uma trilogia. E qual a temática comum? Pessoalmente, diria que se tratam de curtas metragens sobre pessoas marginalizadas, portugueses num âmbito mais geral que a mera nacionalidade, e sobre os quais não rezam os livros de história. Simultaneamente, são a confirmação de um olhar muito particular no mundo do cinema português e exigem toda a atenção para o resto da sua carreira. Ainda este ano, sairá, em princípio, a sua primeira longa-metragem. Cá estaremos para a ver!

The_Great_Dictator

The Great Dictator (Charlie Chaplin, 1940) – Numa jornada ao passado do cinema, encontrei-me com o famoso filme de Charlie Chaplin. O actor, que também realiza esta obra, representa duas personagens distintas: uma, a do barbeiro judeu, e a outra, a do implacável ditador do país imaginário de Tomainia, numa altura em que os judeus começavam a ser perseguidos na Alemanha em prol da supremacia da raça ariana. Surpreendeu-me a actualidade do humor de Charlie Chaplin, uma certa magia nos seus desajeitados movimentos e que, felizemnte, aguentou o teste do tempo. Mas são outros motivos que colocam este filme num lugar muito especial da história do cinema: tendo demorado cerca de dois anos em produção, a ideia principal de satirizar a pessoa de Hitler foi reconsiderada quando o ditador alemão procedeu à invasão da França e Dinamarca. Ainda assim, Chaplin, motivado por Roosevelt, foi avante, e ainda bem que o fez, pois foi difundida a fenomenal mensagem do final, sob a forma de um discurso da autoria de Charlie Chaplin – que, verdade seja dita, desencarna completamente a personagem de barbeiro judeu. Mais tarde, foi sabido que Hitler terá visto o filme – não só uma, mas duas vezes – e Charlie Chaplin admitiu dar tudo para saber a sua opinião. Nunca chegou a saber, mas é difícil imaginar que não tivesse tido impacto algum no ditador alemão. O filme recomenda-se pela inocência do seu enredo, pela descoberta da história do cinema, e ainda recomendo, aos que gostaram, The Kid e City of Lights, também da autoria do realizador americano.

leviathan_poster1Leviathan (Andrey Zvyagintsev, 2014) – O cinema russo, fruto da sociedade restrita e opressiva que de certa forma representa, tem tendência a ser extremamente metafórico e com uma faceta muito interpretativa. Neste caso, Andrey Zvyagintsev opta por uma abordagem mais directa e filma o que, no meu entender, é a ingrata vida de muita da população russa. Kolya, pai de família, vive com o filho e a namorada numa pacata casa junto à lagoa, uma propriedade construída pela família e da qual é, em pleno direito, proprietário. Tudo muda quando as pressões autárquicas, corruptas na sua essência, exercem a influência necessária para ficar com o terreno, e fica desta forma dado o mote para o filme. O que vemos a seguir é um retrato acinzentado, e muito bem filmado, da decadência desta família, numa alegórica referência bíblica que se desenrola, principalmente, na segunda parte da trama. Não ter conhecimento destas referências não impede, de forma alguma, a fruição do filme, que apenas pela sua narrativa possui uma mensagem fortíssima e de imensa importância, sobretudo no panorama da actual política russa.
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