Damien Chazelle – Whiplash

whiplashDe vez em quando, há filmes que traçam o seu caminho alheios às regras e padrões da indústria cinematográfica, ganhando um reconhecimento, digamos assim, mais meritoso. Neste caso, estávamos em finais do ano passado, e via-se, aqui e ali, burburinhos cibernéticos sobre a next-big-thing, um projecto de baixo orçamento (3.000.000$) que tomou Hollywood de assalto; daí aos Óscares foi um pequeno passo, dado com a maior das facilidades. O seu nome é Whiplash, ao que em português se justapôs Nos Limites, e estreou esta semana passada em território luso.

Assim começa: Andrew encontra-se no final da adolescência e ambiciona entrar na elite mundial dos bateristas de Jazz; uma proposição com tanto de heróica como de improvável, pelo que a sua dedicação é exaustiva, no limiar da obsessão. A ascensão ao topo dava-se a um passo lento mas assertivo, até ao dia em que um exigente e louco professor do conservatório, Fletcher, lhe anuncia a possibilidade de se juntar à sua banda. É este o tónico da narrativa, traiçoeiro na sua simplicidade. Porque embora este tipo de situação – um rapaz banal almeja o topo, superando as dificuldades em busca de um final feliz – esteja sobejamente retratado, Damien Chazelle é incansável na fuga ao cliché e à história linear, justificando a crítica extremamente positiva à história que escreveu.

No entanto, muitas boas histórias morrem na praia à custa de medianas execuções, um erro ao qual Chazelle fugiu com mestria. Num filme assumidamente musical, há a tentação de entrar no facilitismo e utilizar as cenas musicais como meros dispositivos narrativos, nos quais o protagonista é intocável, onde nada demais acontece além de uma confirmação do seu progresso. Em Whiplash, estas cenas são fulcrais. Além de serem imprevisíveis, houve mestria na sua filmagem e edição, pautando-se por uma intensidade fora do comum que também contribui para o próprio desenvolvimento das personagens: é assim que conferimos a determinação obsessiva de Andrew, como também a loucura e a exigência dos métodos do mentor Fletcher. Como tal, junta-se a boa premissa a uma execução condizente, dando azo a um filme cujo passo seguinte não é sempre o mais óbvio.

E no final – depois de nos recompormos daqueles brutais últimos 20 minutos – levanta-se a questão: será Andrew vítima de um abuso incomensurável, tal como os restantes membros da banda, ou justifica-se a extrema insanidade de Fletcher como uma requisito para chegar ao topo? Tematicamente, acaba por haver algumas semelhanças com Frank, do qual já aqui falamos. E ainda que não interessasse este último dilema, Whiplash, por seu próprio mérito, cimenta-se como uma grande surpresa de 2014 e mais dinâmico e imprevisível que muitos filmes de acção. Fica, para mais tarde recordar, a fantástica actuação de J.K. Simmons no papel de Fletcher, que inclusive lhe poderá valer um Oscar, e também a expectativa pelo próximo trabalho do realizador Damien Chazelle. Whiplash estará nos cinemas durante os próximos tempos. Vejam-no!

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Nicolas Winding Refn – Only God Forgives

Only-God-Forgives-Character-Poster-Ryan-GoslingHouve, no ido ano de 2011, um filme que se destacou dos demais pela sua irreverência, fantástica história e cinematografia, e uma icónica banda sonora – foi Drive, um bem sucedido exercício de cinema por parte de Nicolas Winding Refn, com um irrepreensível Ryan Gosling no seu papel principal. Mantendo Gosling como protagonista deste Only God Forgives, as expectativas para o seguinte filme do realizador dinamarquês tornaram-se demasiado altas, e no rescaldo do seu lançamento, temos uma crítica predominantemente negativa e um público confuso quanto à real mensagem do filme: ingredientes suficientes para se considerar um fracasso.

A sinopse: Julien e Billy, erradicados numa soturna e misteriosa Banguecoque, mantêm um clube de muay-thay como fachada para um negócio de tráfico de droga. Entretanto, Billy mata uma jovem de 14 anos, despoletando uma surreal cadeia de vingança e contra-vingança, envolvendo um chefe de polícia corrupto, Chang, e Crystal, mãe dos dois irmãos. A história desenvolve uma aura de tragédia grega, onde tudo tem proporções épicas e determinantes. No lado técnico, aperfeiçoa-se em Only God Forgives o estilo cinematográfico de Drive – longos, bonitos planos e com predominância da cor, complementados pelos icónicos néons de Banguecoque, e, claro, a apropriadíssima banda sonora, que goza de um maior protagonismo na história. Gosling cumpre num papel que não exigia muito de si, assim como o resto do elenco.

Muitas das desilusões advieram de querer que Only God Forgives fosse um Drive 2, mas há uma decisão consciente de Nicolas Winding Refn para que não o seja. Aqui, o realizador não apostou na fórmula fácil e arriscou um meio termo entre as brutais e gratuitas cenas violentas de Tarantino, e o simbolismo pausado e metódico de David Lynch – do início ao fim, há uma forte dicotomia entre Chang (Deus) e Crystal (Diabo), além das  imensas referências ao complexo de Édipo, assumindo-o como uma temática central e indissociável à compreensão da obra. Vejamos; nas interacções de Crystal com Julian pressente-se uma estranha, incómoda tensão sexual, tanto na possessiva interacção física como nas considerações que tece quanto à sua relação com o irmão (“…Billy era o irmão mais velho e tinha uma pila maior…a do Julian nunca foi pequena, mas a do Billy…era enorme!”); há várias cenas simbólicas, presumidamente no imaginário de Julian, nas quais vemos mãos ao encontro da vagina, e posteriormente ao útero, para mais tarde consumar essa acção no próprio corpo de Crystal, assassinada; e, finalmente, sabemos por Crystal que Julian fugiu dos Estados Unidos por ter morto o próprio pai. Estas conclusões só são possíveis tendo conhecimento de antemão da psicologia Freudiana (que está, de resto, presente como motif em muitos exercícios de cinema), necessárias para a compreensão de várias cenas de Only God Forgives. Fosse Nolan o responsável por este filme, e garantiam-se trinta minutos adicionais de psicologia, como um manual de instruções – Refn, fiel ao lema ‘show, don’t tell’, esperava uma maior capacidade de interpretação por parte do seu público.

O grande problema da recepção crítica a Only God Forgives foi a ponte, ou a falta dela, entre público e realizador; foi dado um passo em frente (ou dois, ou três) quando muitos queriam que andasse para o lado e seguisse uma fórmula que se provou vencedora. Nicolas seguiu o seu instinto e fez o filme que queria fazer, em contraste com o que a audiência queria ver. Para mim, é um bom filme, que peca na surrealidade de alguns momentos e na falta de clareza nas suas intenções. A seu favor jogará o tempo; basta a Refn que continue traçando o seu caminho, para que daqui a uns anos se olhe para este filme com outros olhos – e com outras expectativas.

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Francis Ford Coppola – The Conversation

Sabem, caros leitores, aquele sentimento, distinto de tantos outros pela sua singularidade, que nos assola quando se desdobram os créditos no final de um bom filme? Um breve arrepio aqui, vestígios de um frisson ali, o aconchego de saber que mais uma obra ganhou o seu espaço no nosso imaginário arquivo cinéfilo. Constitui um vício, e talvez, arrisco, uma necessidade. Procuramo-lo sempre que nos sentamos na sala escura de uma sala de cinema, ou no quente do nosso lar, ou em qualquer outro lugar onde seja possível viver o sonho do filme. E há uma infinita distância entre os filmes que vemos, e os que vivemos. Uma essencial arte que está apenas ao alcance dos melhores.

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Pelo auspicioso começo deste texto, facilmente se entende a minha apreciação deste filme. E, sublinho-o enfaticamente, que grande filme. Se algo ainda houvesse a provar por parte de Ford Coppola, dois anos volvidos desde a estreia de The Godfather, The Conversation serviria de mote suficiente para o distinguir dos restantes realizadores da sua época; se a este filme lhe apontarmos os defeitos (que serão certamente poucos), as suas qualidades e deliciosos detalhes fazem tender para o seu lado a balança – a uma história simples, Ford Coppola extraiu todo o potencial; a apenas uma mão cheia de relevantes personagens, dá-lhes um sentido, personalidade e propósito (Harry Caul, representado por Gene Hackman, é uma das mais fascinantes personagens do cinema); na arte de contar uma história, o realizador americano assume-se como mestre.

O meu entusiasmo para com este filme é consequência, julgo eu, de uma característica que pessoalmente tenho procurado encontrar nas obras às quais assisto: gosto de me sentir imerso no mundo ao qual me entrego durante a duração do filme. E neste thriller de espionagem, que se lançou ao público numa época de ressaca do escândalo do Watergate, a imersão é realmente a palavra de ordem, provocada de uma forma exímia. Sente-se, deste o início, uma quase palpável tensão, como que um pressentimento de que algo vai, brevemente, acontecer – logo na cena inicial, um inusitado plano aéreo revela-nos uma avenida na qual passam centenas de pequenas pessoas, hesitando, a cada movimento, sobre qual devemos focar a nossa atenção. É quase um metafórico aviso do que se seguirá no filme: um calculado exercício de algo ao qual os americanos chamam de pacing, um jogo de paciência entre Caul e a sua gravação, e também uma reflexão no conflito moral que a espionagem acarreta.

Por horas e horas divagaria pelas várias qualidades que atribuo a este filme. Evitemos, ao máximo, que isso aconteça! Mas não me resigno a não recomendar que o vejam o mais rapidamente possível, e faço votos de que nele apreciem todos os pequenos detalhes que, na minha opinião, o elevam a um dos maiores exercícios de cinefilia de sempre. E remato esta minha crónica (que estava, há semanas, a ser construída) nesta romântica nota: eu cá não sou realizador de cinema. Mas se acaso o fosse, daqui a uns anos daria uma entrevista a um qualquer jornalista e dir-lhe-ia, sem dúvida alguma, que The Conversation é (ou seria) o meu pequeno manual de instruções, no que toca à arte de fazer bom cinema. E daí, o obrigatório agradecimento: obrigado, Francis Ford Coppola.

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