India: Matri Bhumi – Roberto Rossellini

“É um pouco como se estivéssemos na Índia como turistas (…) somos discretos e atentos, e observamos por muito tempo, intensivamente, comungando com um mundo que nenhum livro nos proporcionaria”

1118full-india--matri-bhumi-posterA citação é de Tag Gallagher, biógrafo do realizador Roberto Rossellini. Numa fase mais discreta da carreira do italiano, o primeiro-ministro da Índia à data, Jawaharlal Nehru, terá convidado o italiano a realizar um filme sobre o país. Por um lado, Nehru desejava um documentário convencional, que mostrasse ao mundo uma nova Índia, globalizada, e um atractivo ponto turístico; Rossellini…não sabemos muito bem. India: Matri Buhmi, que data de 1959, até começa a jogar pelas regras, com belos planos das ruas movimentadas, dos mares viajados, e da azáfama cosmopolita e multiracial que dá vida à capital Mumbai. No entanto, é Sol de pouca dura: em breve, dá-se a transição para a Índia rural, na qual a tecnologia é ainda rudimentar e mero auxílio, como a força animal, da sobrevivência dos povos. A Índia globalizada não interessa a Rossellini, alguém que, ao longo da carreira, sempre primou por mostrar o genuíno através da sua lente.

A partir daqui, o italiano opta por dividir a narrativa em segmentos menores, e cada qual impregnado de apontamentos neo-realistas, teimosamente intrínsecos ao trabalho do realizador: os actores não são profissionais, e o ténue lado ficcional é tal que não interfere na genuinidade do objecto documentado. Como exemplo, o primeiro destes segmentos mostra-nos como os elefantes foram domesticados, “através da simpatia e não da força”, e o auxílio que prestam em troca da servidão dos aldeães; vemos também um pedido de mão e o respectivo ritual de matrimónio. Estas tradições e características reais são tudo o que Rossellini quis captar, e vêm a propósito de uma história de amor entre dois aldeões – um lado ficcional que se justifica.

Assim se distingue a abordagem de Rossellini, mostrando o real como envolvência de uma ficção que é simultaneamente plausível e inconsequente. Respeitando as distâncias culturais entre si e o povo indiano, optou por nunca legendar os diálogos, guiando-nos, ao invés, pela narração pessoal das personagens (em italiano, posteriormente legendadas). Esta decisão conserva um deliberado distanciamento entre o realizador e o objecto de filmagem – as paisagens, as acções, a cultura – de modo que a sua intervenção, no acto de filmagem, nunca influencie a legitimidade do que vemos.

Há um determinante pormenor técnico: o filme India: Matri Buhmi foi recentemente restaurado digitalmente e apresenta as paisagens exóticas indianas na melhor forma possível – uma iniciativa levada a cabo pela fantástica Criterion Collection e a Cinética di Bologna. India, sendo um filme extremamente visual e repleto de fantástica fotografia, é um achado absolutamente obrigatório tanto para os que apreciam este tipo de cinema, como para quem se deleita com documentários sobre a natureza.

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Roberto Rossellini – Europa 51

220px-Europa_'51_posterHavia, na Europa cinquentista, um movimento cinematográfico paralelo ao cinema americano de Hollywood. Ao invés de cinema de entretenimento, idílico e luminoso, sempre cadente para um final feliz, este neo-realismo, que albergou, até, o Aniki-Bobó do nosso Manoel de Oliveira, marca a diferença nas narrativas que escolhe para contar. Sempre retratos de uma realidade não fantasiosa, como também pelo método de produção, recorrendo a não-actores, recrutados nas ruas, e predominantemente filmados ao ar livre, no campo ou nos subúrbios, fora dos sets profissionais; assim surge o neo-realismo, como documento histórico e retrato genuíno de sociedades. Entre os seus maiores dinamizadores consta o italiano Roberto Rossellini, a cujos filmes, pelas novas tecnologias de tratamento de imagem, foi dado um novo fôlego.

Em Europa 51, temos a exímia Ingrid Bergman, sua esposa (e com quem encetou uma das mais bonitas histórias de amor no cinema), figura de proa do elenco, no papel de Irene Girard, uma jovem, mãe, e casada com um bem-sucedido homem de negócios. O seu filho, de 7 ou 8 anos, à imagem de muitas outras imberbes personagens de Rossellini, extravasa um singular sentido de alienação e inocência, como se nascesse para um outro mundo que não este. Em breve consuma o seu suicídio, abalo maioral na vida da sua progenitora, e catalisador para uma profunda mudança na sua índole. Tudo isto acontece, de facto, nos primeiros 20 minutos de filme. Uma forma inusitada – pela força das imagens – de introduzir uma história.

A morte do filho impõe-lhe uma forte responsabilidade de dar sentido à sua vida, e é precisamente esta jornada que acompanhamos, localizada na Itália do pós-Segunda Guerra, também ela na necessidade de se reerguer dos destroços. Ao longo do filme, há breves laivos de uma subjacente ideologia comunista, rapidamente ultrapassados por uma ideologia assente no bem e no amor pelo próximo, na igualdade, etcetera etcetera; mais interessante, é a filmagem lúgubre de Rosselini, o retrato neo-realista desta Itália, a jornada espiritual de Irene contra as contradições do conforto da sociedade pensada apenas para alguns.

Europa 51 não pertence ao cânone essencial de Rossellini – mais rapidamente pensamos nos filmes Germannia, Anno Zero e Roma, Città Apperta -, mas estão presentes neste filme de 1952 elementos comuns à sua filmografia. Poder-se-á dizer de uma estrutura mais acessível, alicerçado na personagem afável de Irene, e decalcado na linearidade de uma comingof-age espiritual, sem nunca pôr de parte os ingredientes do neo-realismo. Será, digamos assim, dos filmes menos “crus” e mais aproximados à filosofia hollywoodesca que lhe conhecemos, e, por isso, um excelente ponto de partida para quem não conhecer o seu cinema. Recomendado.