David Byrne entrevista Thom Yorke, circa In Rainbows.

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Parece bom demais para ser verdade – mas aconteceu. Em 2007, um mês depois do lançamento online (e exclusivo) de In Rainbows, juntaram-se dois titãs da música moderna para uma conversa requisitada pela Wired (sim, essa mesmo; a revista de tecnologia e novas tendências culturais). Como sabemos, este foi um lançamento de proporções inéditas, dada a escala dos Radiohead – na altura, já uma banda de enorme projecção, com Ok Computer Kid A estabelecidos como grandes acontecimentos pela crítica – e foi o primeiro grito, dos muitos que se seguiram, de rebelião contra uma indústria cada vez mais canibal e parasitária com os artistas. Hoje, provavelmente não existiria Bandcamp se a experiência dos britânicos tivesse corrido mal. Pelo contrário, somaram mais dinheiro com In Rainbows do que com os royalties dos anteriores discos, em digital – todos somados.

No entanto, um encontro entre dois tão singulares artistas, e dada a manifesta influência de um sobre o outro – afinal, houve dedo dos Talking Heads no nome para a banda de Yorke -, houve muito a tratar.  Falou-se do processo de composição, e das forças criativas dos artistas. Do que se dá ao público num concerto ao vivo, e o que este devolve em troca, numa permutação ininteligível, mas, segundo ambos, absolutamente real. A perenidade do conceito de álbum, e, um dos meus segmentos favoritos, a importância da música para o Homem. Pode ler-se a transcrição da conversa – e ouvir-se – no link. Para aqui, selecciono apenas alguns excertos, livremente traduzidos (e extensamente profanados) para comodidade do leitor; embora, claro, recomende que se leia a entrevista na íntegra.

Pergunta David Byrne: “[em relação às músicas do In Rainbows] Já as tocaram ao vivo?”

“Sim, todas excepto a “Reckoner”, que foi como um “oh, okay, então vamos adicioná-la à lista” à última hora, porque era mesmo boa. Foi uma das poucas vezes em que foi escrita em cima do joelho, de forma algo inesperada. Uma das ocasiões em que sabíamos que tínhamos encontrado muito bom – nem tivemos tempo para pensar muito no assunto. Simplesmente acontece. E acontece enquanto estamos no estúdio. E vamos tendo imensas ideias e não há realmente tempo para as desmontar. Então, simplesmente acontece. E três dias depois, ouves e pensas “ahm–donde é que isto veio?” E não sabes muito bem se era aquilo que querias ao certo, mas já é demasiado tarde porque todos a adoram.”

O que achas que o público leva de um concerto, que seja diferente do que ouvem no disco? Acho que levam todo o tipo de coisas diferentes – uma delas é simplesmente estarem todos juntos (…) é uma coisa colectiva, parece-me. E, vou dizê-lo, com vocês há uma espécie de introspecção colectiva – algo como, estão todos juntos, então são sociais, mas depois a música é mais…interior. Pelo menos para mim.”

Bem, acho que que há uma vontade colectiva para que isso aconteça. E, depois, obviamente,… no disco é muito difícil evitar aquele sentimento em que todas as notas vão ser escrutinadas, ou tudo o que acontece vai ser re-avaliado, mas isso não acontece ao vivo. Estás de volta, ou voltas à energia original, espera-se, do que escreveste. Mas é um bocado cliché, não é? Se calhar não estamos, de facto, a ir a lado algum…”

Ok – e se é isso que eles recebem – algo que, na verdade, não conseguimos explicar – então o que é que vocês lhes dão?

“Hum – uau. Hmm…”

Bem, como acabaste de dizer, parece que estão a dar, ou melhor, que o público tem uma espécie de vislumbre emocional sobre donde as músicas vieram numa primeira instância. (…) de certa forma, é-lhes permitido experienciar a criação artística.”

“Bom, eu suponho que, como tudo – como com todas as músicas que adoras – é como uma cassete de vídeo, não é? Como um filme dum certo período da tua vida, ou algo assim, que vês outra vez. Como aquele estranho sentimento onde o tempo – há esta cena estranha com o tempo. Se a música ao vivo correr bem, perdes-te no tempo. Estás a pensar no presente, e no passado, e no futuro e etc. – eu tenho isso. Mas recebes toda a tua energia e assim através deles, do público. (…) E tu sabes – tenho a certeza que sabes – quando vais para o palco e sentes – pode ser qualquer pessoa no público. Pode literalmente ser apenas uma pessoa no público, que quer muito que corra mal. E vai afectar-te -“

“- sim. E depois pensas, toca para aquele que quer ouvir“.

“Portanto, o que dás…o que estás a dar – eu não sei. É um concerto, não é? Estás a tocar. Mas, de vez em quando, quando tocas – acontece, por vezes – há aqueles momentos, whoosh, de algo que corre – mas é isso. Não há pior do que, digamos, ir em tour e as coisas correm bem, e as expectativas das pessoas começam a aumentar, e sentes essa pressão – que aconteça algo, esse whoosh. E não vai acontecer. E depois páras.”

Às vezes não acontece – e é apenas preciso esse minuto, ou segundo, ou instante, para acontecer, para confirmar esse “sim!” – um tipo de transcendência, ou o que seja, e depois pode acontecer – e podemos avançar”.

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David Byrne à esquerda, Thom Yorke ao centro, ambos na altura da gravação da conversa.

“O que é a música? O que faz pelas pessoas? O que tiram da música? Para que serve? (…) Para mim, é como uma estranha mistura – é como quando a ouves, como um indivíduo, e a música evoca, ou faz ligações na tua cabeça, neuro-ligações, ou emoções, ou o que seja – que são únicas para ti. É isso.”

“Ela abre alguma coisa, a usar a sua matemática, ou lá o que é. Mas abre algo, a tua consciência – ou o que quer que lhe queiras chamar – e altera o suficiente para que consigas ver além das tuas quatro paredes (…)  quer dizer, os piores momentos na tua vida, pelo menos para mim, é quando não consegues encontrar música que gostes durante, digamos, um ano, ou assim. É tipo – merda! (…) e é bom voltar atrás para as coisas antigas, mas é preciso – e não só quando és músico – ter aquele entusiasmo, de “encontrei algo que diz alguma coisa”, sabes? E, com a música, acontece muito mais rapidamente do que com a arte em geral. Com outro tipo de arte é difícil – não é algo que possas replicar numa revista; não a consegues multiplicar digitalmente duma forma eficaz. Tem a ver com a situação onde está, a tua relação com ela, etc., mas com a música é muito pessoal, e muito fácil de encontrar, e de levar contigo.”

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Convidados à conversa sobre Radiohead.

Relembrar o momento em que ouvimos, pela primeira vez, aquela música. Do início ao fim, e dado o fim, voltar ao início. A música, e depois o disco. De tanto o fazer, risca-se o CD e o vinil – há que comprar um outro, claro.

Depois, restam os prévios e os próximos, de estúdio e em concerto, de singles a longas durações; subjacente e subentendido, assume-se o compromisso de acompanhar a actividade seus músicos. Oferecemos o nosso tempo e a nossa atenção, e, em troca, apenas a música.

Para hoje, temos três convidados, a quem agradeço a sua disponibilidade e a pronta vontade de participar nesta emissão especial, dedicada aos britânicos Radiohead. Falámos da sua música, do seu significado no panorama musical/comercial da época (desde 1993, com Pablo Honey, até o mais recente The King of Limbs, datado de 2011), e, talvez mais interessante ainda, a importância que a sua música teve na vida de cada um. Temos Tiago Castro, da Rádio Radar e músico com o projecto Acid Acid; Luís Fernandes, integrante dos peixe : avião, activo na electrónica de cariz mais experimental, e responsável pela programação do espaço gnration; e, last but not the least, Márcio Alfama de Freitas, também músico, dos bracarenses Dead Men Talking, com uma interessante passagem pelo jornalismo, e actualmente a cargo da programação cultural da Fnac de Braga e Guimarães.

A conversa é pontuada pela música, de vários discos e distintas fases da carreira dos Radiohead, e pelas diferentes histórias e opiniões dos convidados. Além disso, escolheram, cada um, duas músicas para apresentar. Curiosamente (ou não) há uma maior incidência nos dois álbuns que marcarão, certamente, a música nas próximas décadas.

Mais não posso fazer para vos convencer. Quer gostem, ou não, dos britânicos, há muito para descobrir aqui na nossa companhia.

Este é o segundo programa dedicado aos Radiohead. No primeiro, foi dada atenção a um pouco de cada fase da sua carreira. Além disso, A Mosca, um programa de rádio da minha autoria, está disponível em rss feed e na loja do iTunes, para fácil subscrição.

Espero que gostem!

 

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Excerto da entrevista a Kamasi Washington [Pitchfork]

Kamasi Washington, músico natural de LA, que lançou, recentemente, o seu registo de nome The Epic; tal como o nome indica, estamos perante um trabalho diferente. The Epic tem quase três horas – ! – de música, em permanente expansão criativa tendo como epicentro o jazz. Além disso, editou pela Brainfeeder, liderada por Flying Lotus, e participou, também, no último álbum de Kendrick Lamar, To Pimp a Butterfly. Aqui, um excerto da sua entrevista à publicação americana Pitchfork, que pode ser lida na íntegra aqui.Screen Shot 2015-06-13 at 13.33.26