Regresso dos Ermo com Lo-Fi Moda, espelho para o ser humano contemporâneo.

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Considere-se o conflito quotidiano a que nos submetemos a todo o momento: o choque violento entre a nossa individualidade, e tudo o que o mundo lhe atira indiscriminadamente. O Homem do presente século viu e aceitou que se lhe impusesse um ritmo frenético de atenção e disponibilidade, a única forma possível de acompanhar o incessante cavalgar da informação global. O smartphone é o necessário portal (uma extraordinária muleta!) que descodifica tudo o que em redor se manifesta: o tweet é a nova microexpressão; a selfie autoafirma; a imagem em movimento, tenha cinco segundos ou quatro minutos, subjuga o olhar e a atenção a seu bel-prazer, e torna-nos incapacitados. Estamos reféns deste paradigma. O que resta do humano após o assalto do digital?

O novo trabalho dos Ermo, Lo-Fi Moda, não é necessariamente uma resposta, mas insere-se certamente num espaço que se abre entre nós e a máquina, seja esse fruto de um empurrão ou de um abraço – de repulsa, ou de aceitação. Diz-nos a sua press release que o disco “retrata o comportamento humano, engolido pelo mundo digital”, ficando em aberto a mesmíssima questão. Lembrando Vem Por Aqui (2013), o registo que nos colocou em reflexão sobre Portugal e fruto directo de uma vida à parte da nação centralizada, percebemos-lhe um sentimento colectivo; Amor Vezes Quatro (2015) cantou sobre a multiplicidade do amor, entreabrindo assim uma porta para a experiência individual; agora, em Lo-Fi Moda, parece termos entrado definitivamente numa subjectividade ilimitada: o âmago de um ser pensante, e contemporâneo.

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“Não achamos que seja um afunilar das nossas preocupações, porque parece bué isso: começámos num colectivo e estamos num prisma cada vez mais pessoal [no Lo-Fi Moda]”. Ouço-os através do Skype, acabados de chegar à Madeira, onde actuariam – “e por esse mesmo motivo acreditamos que se possa aplicar ainda um maior número de pessoas.” Independentemente do destino último do seu caminho, em direcção a uma maior ou menor abrangência, o trajecto tomou contornos mais ininteligíveis e abstractos. “Acho que agora conseguimos fazer realmente músicas que conseguem suscitar diversos tipos de interpretação. […] quando entras em territórios mais pessoais e quando começas a falar em termos mais subjectivos, acabas por encontrar algo que também é colectivo na maneira como pode ser interpretado.

Este novo Lo-Fi Moda, editado pela sublabel NorteSul sob a alçada da Valentim de Carvalho, promete um choque a vários níveis com quem os segue desde o repto do último disco. ‘Vem nadar ao mar que enterra’, faixa que o abre, oferece-nos uma voz mergulhada em auto-tune, um instrumental abrasivo, espasmódico e desconcertante, e palavras que são, ainda assim, um convite para “molhar os pés na areia”. O confronto de dois elementos distintos, numa base simultaneamente profunda e movediça, e a impressão de nunca ser terra firme onde assentar os pés; é como uma preparação para o que aí vem. As paisagens de índole nomádica, a instrumentação esparsa que permitia terreno privilegiado à voz – já aqui não estão. O conforto é um privilégio do qual abdicaram definitivamente.

 “A cena da temática não foi definida; foi algo que veio ao nosso encontro. Algo que queríamos dizer, que estávamos a sentir. Foi uma fase de transição também nas nossas vidas, e isso reflecte-se também no disco.”

Habituaram-nos, noutros registos, a participar numa espécie de dissidência contra um mal comum, e nós do lado onde nos era fácil perpetrar a identificação. Mas desta vez a voz de Lo-Fi Moda é mais confrontacional e deixa pouca margem para a empatia. “É um disco com uma personagem redonda. São sempre as mesmas pessoas, e embora não digam sempre as mesmas cenas, é a mesma forma de falar das coisas”. O seu sujeito, embora polifónico e distinto de música para música, tem uma génese comum; é uma voz trespassada pela desconfiança e cinismo, a fazer lembrar o homem das Notas do Subterrâneo de Dostoiévski, em vertiginoso descontrolo emocional; mantém-se a toada verrinosa, mas partindo de um sujeito que já é ele próprio condicionado pelo que o atormenta. “Pusemos mais de nós no disco”, salientam, em relação a trabalhos anteriores, e com um método de trabalho diferente. A tour ao Brasil “foi um momento em que reparas que estiveste de olhos fechados nos últimos anos, e não estás no sítio onde querias estar”; um choque frontal com o que podiam dar, à distância apenas de uma injecção de profissionalismo. Talvez, especulamos, tenha sido essa a grande diferença; um método de trabalho que lhes invadiu o quotidiano e lhes permitiu captar o sentimento intrínseco da sua experiência imediata. Chegaram onde haviam apenas tocado a superfície em tentativas anteriores.

Simplesmente, agora embrenhámo-nos mais no que estávamos a fazer, por isso talvez soe tudo mais junto”. Dificilmente encontraremos, como foi seu objectivo, alguma referência explícita a uma influência do mundo digital nas suas letras, mas talvez seja possível fazê-lo na arquitectura sonora deste disco – talvez seja a altura na sua carreira em que a música e a lírica melhor se complementaram, e esta era, como dizem, uma “das metas que tínhamos para este segundo disco: ter sons cada vez mais complexos; crescer em termos líricos, também, para que deixasse de ser tudo tão óbvio. Fazer com que as músicas não fossem de sentido único”. O extenso uso do auto-tune, presente em virtualmente todas as músicas, aproxima o homem da máquina e desumaniza-o, e a electrónica fragmentada, dissonante, segue a toada preconizada por Holly Herndon, Oneohtrix Point Never, Arca – e até numa noção mais conceptual, partilham terreno com o colectivo da PC Music e a génese do vaporwave – e coloca-os em diálogo directo com os pensam o confronto entre estes dois mundos; é algo que está a acontecer agora mesmo, na música contemporânea.

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Os Ermo estão absolutamente sintonizados com o que acontece na cena internacional, o que é interessante quando contrastado com o início da sua carreira. A música pop – por quem admitem ser permeados embora “não vamos apontar para lá, nem vamos dizer que não vamos mergulhar lá – mas é um lá, e é possível lá estar” – é uma perniciosa intromissão nas nossas vidas, e cada vez de mais nebulosa definição: somos obrigados a considerar nela nomes como Drake e grande falange do hip-hop, a infindável torrente de trap supérfluo, e quase tudo o que lide com a impressão egoísta do ser humano. A música e a sua indústria são agora regidas por outras influências, e tendências pouco ortodoxas. Lo-Fi Moda reclama em justo direito ser incluído nesse cânone incerto, mesmo que a partir de um lugar periférico.

“Tentar deitar algo cá para fora que fale profundamente dum lugar que seja nosso. Talvez por isso seja mais difícil compreender uma linha geral que atravesse todas as músicas. Veio directo de experiências pessoais e daquilo que queríamos dizer, sem rodeios. É menos literatura, e mais literal; não dissidência política, mas derrame pessoal, um conjunto de insatisfações.

Vem Por Aqui assumiu-se como uma condensação e progressão lógica do que haviam feito desde o seu início até então; e Amor Vezes Quatro foi um exercício que nos devia ter chegado bem mais cedo, mas que se complicou em vários impasses de edição. Seguiu-se um interregno criativo desde 2015, no qual um disco inteiro foi para o lixo, e uma tour recente ao Brasil. A renúncia ao passado, tanto a nível musical como temático, faz parte do processo de constante reinvenção. “Um dos princípios que temos desde o início e que nos esforçamos por manter é que cada trabalho tem que ser diferente, e no próximo disco, que não existe ainda, vai ser uma abordagem diferente de certeza. Dentro do que é o Lo-Fi Moda, já demos as nove canções que tínhamos a dar, com a formula explícita de todas as maneiras possíveis, e por isso vamos tentar uma cena nova e diferente no próximo trabalho”. Depois de um primeiro disco que foi, ele próprio, a afirmação de uma enorme capacidade, tudo o que adveio e advirá de seguida será sempre a afirmação de uma outra coisa qualquer; mas nunca a afirmação do projecto, que se consumou há muito. Até que nos troquem as voltas mais uma vez, ficamos com Lo-Fi Moda, esta espécie de espelho abstracto que reflecte algo informado pela nossa individualidade. E o que vemos não é bonito, mas, enfim!, é o que somos.

Edição 91 – Nomes dos anos 80, o novo de Tim Hecker, e a dor de Heather Leigh.

Mais uma emissão d’A Mosca!

Para dar início às hostilidades, os ‘sons futurísticos’ de Sun Ra, com um dos registos mais antigos e simultaneamente acessíveis do grupo. Data de 1961, e foi gravado maioritariamente com Sun Ra ao piano.

Depois, dedicámos algum tempo aos anos 80 e à pluralidade de tendências deste período. Chamámos os Tom Tom Club, grupo afecto aos Talking Heads e com o qual partilha alguns membros – e muita da sonoridade densa e declaradamente rítmica; os The Cleaners from Venus, e a belíssima Wivenhoe Bells II, do disco ‘Cleaners from Midnight’ (1982),  que nos convida a revisitar a sua extensa carreira num futuro próximo; os Minutemen, nome marcante do rock alternativo americano, dividido entre a estrutura punk à la The Wire e a vontade de explorar outras texturas tão predominante no pós-punk. Podiam ter sido a sugestão da Porto Callingque desta vez nos trouxe os Tuxedomoon e a sua In a Matter of Speaking, do disco ‘Holy Wars’ (1985).

Ainda antes de passar à música mais experimental, recordámos um disco dos The Zombies, ‘Odessey and Oracle’ (1968), cujas músicas são um autêntico hino à pop densamente orquestrada – chamam-lhe pop barroca.

A passada semana fica marcada pelo lançamento do novo trabalho de Tim Hecker, que opera as texturas que já vinha a descobrir no seu disco anterior, ‘Virgins’ (2013). Deste novo ‘Love Streams’ (2016) ouvimos duas músicas. É um belíssimo disco. Para terminar, um trabalho devastador de Heather Leigh, que aqui colabora com Peter Brötzmann. Ela canta e usa a guitarra, ele toca o saxofone, e todo o disco está imerso numa sempre presente dor que Leigh vai tentando exorcisar. Foi a melhor forma de terminar esta emissão, e muito se recomenda que a ouçam até ao fim. Que belo momento!

Voltamos para a semana! Na madrugada de sexta-feira para Sábado, com a emissão em directo na Rádio Lisboa, e no Sábado seguinte com a emissão 92 do programa. Até já!


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Edição 90 – Feminismo dos Le Tigre, desafios à pop, e electrónica espacial.

Mais uma edição d’A Mosca!

Começámos com a recentemente recuperada música de Ata Kak, pseudónimo artístico do rapper (num sentido muito abrangente da palavra) Atta-Owusu; a sua história é interessante, assim como o é em igual medida a sua música – uma mistura de rap, música americana dos anos 90, e sons tradicionalmente africanos. Seguiu-se a interventiva música dos Le Tigre, histerismo punk q.b., cujo álbum de estreia de uma curta carreira é um poço de boas memórias e música muito divertida.

A sugestão da Porto Calling leva-nos ao imaginário do poeta/músico John Cooper Clarke, intimamente ligado à cena punk, que nos canta I Don’t Want To Be Nice no disco de 1978, Disguise In Love. 

Depois, entramos em território mais arriscado. Recuperámos um disco de 2015, Forgiveness, dos misteriosos Goodbye que parecem não ter muito interesse em fazer música fácil – embora pareça que conseguiriam, bastando querer. Apelam à electrónica dissonante e experimental – chega, por vezes, a ser abrasiva – sem nunca perder de vista a noção musical da pop. O resultado é estranho, mas estranhamente chamativo: o disco tem uma mão cheia de excelentes músicas, das quais ouvimos duas óptimas amostras. Além disso, ainda houve tempo para ouvir uma música dos 18+, um grupo muito interessante e extremamente crítico dos cânones estabelecidos da pop.

Dada a entrada na electrónica, daí não mais saímos até ao final da emissão. Fomos ao baú buscar dois nomes que marcaram o panorama da electrónica experimental da década de 60: primeiro, os Silver Apples – que até começaram como um projecto de rock – e o uso de instrumentos da física, os osciladores, na sua música; segundo, os White Noise, grupo britânico que contou com a participação de Delia Derbyshire em algumas das composições. Estes últimos estiveram intimamente ligados às experiências da BBC Audio Workshop, e o seu disco An Electric Storm é um portento no que toca a colagens sonoras, e todas as técnicas que na altura eram possíveis com a manipulação de fitas (diz-se, até, que este disco tem mais cortes que o Sgt. Peppers!).

Para terminar, fomos brevemente assaltados pela melancolia de John Cale, ex-Velvet Underground, e uma quase balada do seu disco A Music For a New SocietyFoi a melhor forma de terminar esta semana.

Voltamos em breve, com mais uma emissão; até lá, esperamos que se divirtam muito com esta!

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Edição 88 – The Life of Pablo, a irreverência de Annette Peacock, e o activismo entre o jazz e o hip-hop.

Voltámos!

Os últimos tempos não têm sido fáceis no que toca à gestão do tempo. Como tal, dedicámos o início do programa ao disco que marcou o início de Fevereiro: The Life of Pablo, de Kanye West. Ficámos com a primeira música do disco, assim como a opinião sobre o trabalho e, também, a análise ao que pode mudar depois de um lançamento tão inusitado. Depois, a vez de ouvir Donnie Trumpet & The Social Experiment, juntamente com a voz de Chance The Rapper, no trabalho Surf de 2015. De volta ao corrente ano, espreitámos Painting With dos Animal Collective (que havia sido antecipado há algumas edições atrás).

Desta vez, a recomendação da Porto Calling traz-nos os The Music Machine, grupo que editou o seu primeiro disco em 1966. Uma mistura de composições originais com covers, a pedido da editora, apresentam-nos uma das primeiras iterações pelo garage rock. É a sugestão da melhor loja de vinil do país, no Porto.

Seguimos com a música da americana Annette Peacock, nome essencial dum jazz experimental, sem medo de se ligar a outras correntes da música – entre as quais a força do blues, e a irreverência do rock. Começou a gravar nos finais da década de 60, juntamente com Paul Bley – outro enormíssimo músico – e é de um dos seus primeiros trabalhos gravados que ouvimos A Loss of Consciousness. Um disco pioneiro no que toca ao uso do sintetizador Moog na modulação da voz. Vale a pena ouvir! Seguimos com uma outra música do seu álbum mais marcante – I’m The One, de 1972.

A descoberta da semana ficou dividida entre Annette Peacock e a fantástica colaboração entre dois grandes nomes contemporãneos: Vijay Iyer, músico de jazz, e Mike Ladd. Inspirados num manifesto escrito por Jafar Panahi, realizador iraniano (com uma carreira obrigatória, desde The Mirror a Taxi), que teve problemas com os serviços de imigração nos EUA, criam um vívido cenário no disco In What Language?, de 2003, sobre multiculturalidade e a globalização. Um poderoso portento musical dirigido por Iyer e pautado pelas cortantes letras Ladd.

Para terminar, não esquecer que no próximo dia 4 de Março, há concerto na Casa da Música, com a Sinfonia Nº1 em Ré Maior, Titã, Lieder eines fahrenden Gesellen, todas elas composições de Gustav Mahler; depois, a leitura de um breve poema de Manuel Alegre, ‘Cão Como Nós’; e, para terminar em grande, uma música do novíssimo disco dos peixe : avião, que partilha o nome do álbum: Peso Morto.

Foi assim que passámos uma belíssima hora. Espero que gostem, e que voltem para a próxima! Até já.

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Edição 83 – A música conceptual de James Ferraro, e a devoção de Alice Coltrane.

Esta semana, o programa começa com música nova de Animal Collective – um single que segue com a segunda mudança bem metida sem nunca abrandar, e dedicado a um psicadelismo soalheiro e mexido – e Car Seat Headrest, o projecto de Will Toledo que tem dado que falar nos últimos tempos. Segue-se o projecto-colaboração entre Prince Fatty Mutant Hi-Fi, que desenharam a banda-sonora de um filme que ainda não existe; a existir, seria um daqueles antigos westerns, carregados de efeitos especiais à Star Wars e muitos tetriminos à mistura. É um óptimo disco, muito interessante na abordagem que fazem, pegando em várias influências, e sempre divertido.

Passamos ao destaque desta emissão, James Ferraro, cujo novo LP deste ano revolve conceptualmente na Los Angeles dos anos 90. É uma abordagem que remonta ao seu registo de 2011, Far Side Virtual: desde então, deu-se uma mudança no âmbito musical no artista, e todos os seus discos passaram a ter uma forte componente conceptual. Juntamente com um outro álbum de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never/Chuck Person’s Eccojams Vol. 1), Far Side Virtual ajudou a definir os alicerces sonoros do vaporwave, através do extenso uso de samples e da re-apropriação de sons para criar música com um fortíssimo poder narrativo. Além disso, e aqui demarca-se do trabalho de Lopatin, Far Side Virtual pode entender-se como uma forma de crítica ao consumismo desenfreado, à nossa dependência tecnológica, e à falsidade materialista que tomou conta das nossas vidas. O próprio explica-o melhor: “If you really want to understand Far Side, first off, listen to Claude Debussy, and secondly, go into a frozen yogurt shop. Afterwards, go into an Apple store and just fool around, hang out in there. Afterwards, go to Starbucks and get a gift card. They have a book there on the history of Starbucks—buy this book and go home. If you do all these things you’ll understand what Far Side Virtual is—because people kind of live in it already”.

Quanto ao seu novo disco, Skid Row, segue esta linha de música cinemática e evoca a Los Angeles dos anos 90, e, ao contrário de Far Side VirtualFerraro alinha numa espécie de r’n’b mutilado, que, na minha opinião, não é de fácil audição. Possivelmente, o registo em que a experiência correu menos bem, mas, quanto a isso, o tempo o dirá.

Há ainda tempo para a fantástica música de Alice Coltrane, que, numa segunda fase da sua carreira, se dedicou à música religiosa e de devoção. Mas não se enganem! Não deixa de ser um óptimo registo e onde Alice continua a encantar. Damos destaque ao seu álbum Divine Songs – e, com este título, está tudo dito. Para a fase final, reservámos Glenn Branca, num dos seus trabalhos menos conhecidos, no qual compõe para orquestra e com o intuito de servir como acompanhamento musical a uma coreografia. Terminámos com os A Winged Victory for the Sullen e um dos melhores temas do seu primeiro álbum, muito diferente do Atomos que vieram apresentar a Braga na última sexta feira – para melhor, diga-se!

Assim passou mais uma semana! Não se esqueçam que podem subscrever A Mosca e receber os podcasts mal estejam disponíveis!

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A mágica música de William Basinski

Há uns dias, pude escrever sobre um artista que muito admiro, e que me expôs a uma abordagem diferente ao mundo da música. O primeiro contacto, claro, foi com o seu The Disintegration Loops, há uns anos – muito antes de descobrir as referências que pautaram o seu trabalho (confessou-nos a música de Brian Eno, John Cage e Steve Reich). Como tal, a entrevista a propósito do seu concerto, a realizar-se no Amplifest deste próximo fim-de-semana, serviu para confirmar o seu estatuto de artista de excelência, e descortinar as origens de uma tão singular abordagem ao som. Este ano, apresenta-nos o seu novo trabalho The Deluge.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO ARTE-FACTOS]

O novo álbum de William Basinski, The Deluge, que será apresentado em breve.
O novo álbum de William Basinski, The Deluge, que será apresentado em breve.

Nos próximos dias 19 e 20 de Setembro, realiza-se mais uma edição do Amplifest na cidade invicta. De entre os vários nomes que recheiam o cartaz, há um que tem especial destaque: o norte-americano William Basinski. Embora não seja a primeira vez que vem a Portugal – passou por cá há dois anos, na Culturgest -, a sua singular carreira é sempre bem recebida. Hoje, lembramos a sua música. De cariz abstracto e improvisado, é simultaneamente um ponto de procura e descoberta, um delicado jogo no qual a memória, o tempo e o espaço são protagonistas. Para traçar um retrato mais fidedigno do seu trajecto, o próprio deu uma preciosa ajuda.

William nasceu em 1958 e viveu a sua infância na América do Norte; e quando relata a sua primeira grande descoberta musical, é difícil surpreendermo-nos – “foi quando me deixaram ficar acordado até tarde, para poder ver os Beatles no Ed Sullivan Show. Foi como uma explosão em todos os nossos cérebros!”. Mais tarde, já na adolescência, aproximou-se mais seriamente da música quando integrou a banda da escola secundária, tocando o clarinete. Seguiu-se o saxofone, numa abordagem mais ligada ao jazz; mas a sua carreira nos instrumentos ortodoxos tinha os seus dias contados.

Basinski começou a compor sozinho em 1976, sendo que as suas grandes influências musicais surgiriam apenas dois anos mais tarde. Steve Reich, nas manipulações de loops e na translacção das mesmas para um contexto de orquesta; John Cage, e a mentalidade de total experimentação que pautou a sua carreira – “his complete freedom to do almost anything and get away with it!”, diz-nos Basinski; e, por último mas não menos importante, Brian Eno e o seu seminal “Music For Airports” – “The peaceful and gentle melancholy just blew my mind”.  

Foi a partir destas influências que Basinski alicerçou a sua sonoridade e método de composição. Desde 1978, houve muita experimentação com fitas e loops, na tentativa de encontrar uma voz, ou um processo. E, por volta dos anos 80, aconteceu: os cabos metálicos do seu apartamento captavam audivelmente o som de uma rádio local, que passava uma espécie de musak de cordas; como na altura tinha a ideia de criar um mellotron caseiro, gravou alguns excertos em fita. Estava encontrado o catalisador para o momento epifânico: estas fitas, quando reproduzidas a uma menor velocidade, distorciam-se e espaçavam a música. Simultaneamente, “aparecia este súbito, enorme poço de melancolia, como se através de um microscópio descobrisse uma bactéria escondida…foi uma descoberta fascinante”.

William Basinski

Desde então, o compositor americano tem dedicado uma carreira inteira à gravação e exploração dos loops, desacelerando-os, repetindo-os, entregando-lhes uma capacidade de expressão que não tinham originalmente. São milhares de gravações passíveis de serem exploradas, embora haja um processo de selecção prévio: “Alguns estão prontos para produção, despertando um interesse imediato e que me impele a buscar-lhe a essência através de uma ou outra técnica. Mas esta é uma excepção. Naturalmente, há imensos loops terríveis que nunca serão utilizados, e outros onde acabo por gravar por cima”. 

As duas décadas que se seguiram, marcadas por pontuais exposições ou pequenos concertos, serviram para aprimorar um estilo nunca exclusivamente musical, e nem sempre compreendidos pelo público em geral; os artistas teriam uma maior facilidade, supõe Basinski, porque “eram pintores e também trabalhavam em lonas de grande escala. Todos fazíamos trabalhos semelhantes”. E, por volta desta altura, em 1997, compila o que se tornaria o primeiro álbum de estúdio, Shortwavemusic, com o aval de Carsten Nicolai – ou Alva Noto – na sua própria Raster-Noton.

Mas por muito que o evitemos, a cronologia da carreira do americano converge para a data que marcou, indelével e irreversivelmente, o panorama político, histórico, e cultural do século XXI. Em 2001, decidiu atacar o arquivo de loops que havia guardado ao longo dos anos; muitos deles gravados em fita analógica, claro. “Então, estava pronto. Configurei o sintetizador para compor uma nova peça, ouço um qualquer padrão de instrumento de sopro, e começo a gravar. Fui buscar café, e quando voltei apercebi-me que algo estava a mudar…o que se passava?”. Com o tempo, muitas das fitas ficaram marcadas com o pó, e o processo de extracção da gravação, no qual a fita está em constante movimento, provocava uma desintegração audível do seu conteúdo. “Tive que confirmar que estava mesmo a gravar, e pensei “Meu Deus, o que vai acontecer?” E durante cerca de uma hora, a melodia desfez-se mesmo em frente aos meus ouvidos…e olhos. Basinski, siderado pela sua acidental descoberta – a segunda da sua carreira -, planeou extrair os restantes loops. “O mais profundo, para mim, foi a sua natureza redentora; o facto de que a vida e a morte de cada uma destas melodias estava gravada, tanto no físico como na memória.” Era uma renovada esperança para o americano, que estava desempregado e perto de ser despejado da sua residência. Estávamos no dia 10 de Setembro, de 2001.

The Disintegration Loops, um álbum de concepção quase programática, é o mais conhecido trabalho de Basinski.
The Disintegration Loops, um álbum de concepção quase programática, é o mais conhecido trabalho de Basinski.

Quando, no dia seguinte, as torres caíram, Basinski tinha uma vista privilegiada para o Ground Zero, através do terraço do seu prédio. E entre o avião que voava baixo demais, e o primeiro impacto nas torres, a vida dos norte-americanos nunca mais seria a mesma. Impelido por um qualquer sentido de admiração da poética catástrofe, colocou um loop a tocar; e enquanto ardiam as duas torres, a fita revolvia em si própria, metamorfoseando uma melodia para que fosse apenas som. “De repente, todo o mundo mudou. Tomou todo um novo significado. À medida que os dias e meses passavam, as pessoas entravam na sua própria desintegração em medo, terror e ansiedade”. E então, uma terceira epifania musical criou os seus The Disintegration Loops – a definitiva banda sonora de um mundo em destruição.

Desde então, Basinski tem evitado falar do assunto, suspendendo um silêncio depois de terminar a história; e, em boa verdade, nunca permitiu que a sua carreira musical estagnasse. Há pouco tempo, e no âmbito dos 10 anos do atentado às Torres Gémeas, teve a oportunidade de os ouvir adaptados a música de orquestra de câmara, composta por Maxim Moston, em dois concertos que dificilmente esquecerá. Mas este ano editou The Deluge, que repete a fórmula do loop, sem redundar no mesmo destino. É este o trabalho que nos vem apresentar ao Amplifest, munido dos seus dois gravadores, um computador, e o vídeo preparado pelo seu companheiro James Elaine.

A intenção da sua música é retirar ao tempo o seu poder, e envolver o público numa hermética bolha de ar; e The Deluge, sem a carga programática que acompanhou os Disintegration Loops, será um óptimo mote para a experiência.

A Mosca – 69º Edição

Esta semana, decidimos partir da música popular brasileria. Como tal, fomos explorar a carreira de Gilberto Gil, cujo álbum de 1969, Cérebro Eletrônico, prontamente nos impressionou. É um registo que tanto bebe da tropicália, como da experimentação. Isso agrada-nos! Depois, prosseguimos com a banda de funk americana, os The Meters, para mais tarde aterrarmos na música de Del tha Funkee Homosapien – um enormíssimo nome no hip-hop que justifica toda a atenção. Logo a seguir, revisitamos a carreira de Gang Starr, grupo que continha Guru (já por cá passou com o seu projecto Jazzmatazz) e DJ Premier. Pondo o hip-hop de parte, é altura de ouvir Bobby Womack. Há alguns anos lançou o seu derradeiro registo de estúdio, mas fomos em busca do seu trabalho de 1971, de nome Communication. De entre todas as canções, escolhemos uma interpretação de um êxito de Burt Bacharach – poderão ouvir porquê, no podcast. A partir daqui, entramos noutros terrenos musicais. Primeiro, os Stereolab, ainda numa fase inicial da carreira, com a sua música barulhenta e de muita textura; depois, os Animal Collective (talvez, a par dos Radiohead, a banda que mais figura no nosso programa?). Há ainda tempo para dois trabalhos de 2015 – o novo single dos Beach House e um trabalho de electrónica mais vanguardista da autoria de Kara-Lis Coverdale (recomendadíssimo!). Para terminar a emissão, voltamos ao ponto de partida: primeiro, ainda no registo Cérebro Eletrônico e, logo a seguir, um excerto de uma actuação ao vivo de Gilberto, com a sua música “Cálice”. Vale a pena ouvir!

Mas não é tudo, por hoje: relembramos que amanhã, a partir das 4h, A Mosca vai ter uma emissão muito especial – a primeira fora do horário das madrugadas! Será em directo, e dada a possibilidade de termos mais ouvintes, vamos relembrar alguns trabalhos que por cá passaram, na perspectiva de mostrar a mais gente em que consiste o nosso projecto. Ainda assim, vai ser, de certeza absoluta, interessante para quem já nos segue, pelo que o convite também a vós se estende.

Até já!

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A Mosca – 68º Edição

Já não conseguimos viver sem A Mosca.

Esta semana, o mote foi lançado pela revista britânica The Wire, especializada em música experimental, periférica e alternativa, e que é sempre um óptimo ponto de partida para refrescar os ouvidos. Na contracapa de uma das emissões que nos chegou, este mês, vi um álbum que prontamente me despertou a atenção: Nu Yorica! Culture Clash in New York City, com o explicativo subtítulo Experiments in Latin Music 1970-77. Como o nome indica, é uma compilação de nomes que, na década de 70, se destacaram no enorme melting pot nova-iorquino, numa fusão entre as influências latinas dos imigrantes, e a própria cultura americana. Daí, estavam lançadas as bases para irmos descobrir Sly & The Family Stone, nome basilar do funk (e de outras coisas também, a explorar numas próximas empreitadas), e recuperar os Parliament; embora já repetentes no programa, o ímpeto de os ouvir foi mais forte – e vem a propósito, também, do concerto de George Clinton no último Glastonbury (actuou ao mesmo tempo que Kanye West). Seguiram-se Nujabes, o lendário beatmaker nipónico cuja carreira é um marco no hip-hop instrumental, e, na mesma onda, descobrimos Floyd the Locsmif. Bem talentoso! A partir daqui, deixamos as batidas para trilhar territórios diferentes – uma das proposições essenciais deste projecto. Primeiro, passámos pela obra de Steve Reich – dose dupla, neste programa – a propósito de uma antologia que reúne vários trabalhos do compositor contemporâneo americano. Neste seu registo, é possível constatar a enorme flexibilidade musical que apresenta, e fica prometido voltarmos à sua carreira em breve. Também em dose dupla, tivemos Vashti Bunyan, outra repetente no programa; em primeiro lugar, uma colaboração com os Animal Collective: dois nomes singulares no mundo da música e cuja colaboração merece muito ser ouvida. Para terminar, passagem pelos obrigatórios Radiohead, e, para terminar, outra vez Steve Reich. Que óptima semana. E já falta pouco para a próxima emissão! Até já.

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A Mosca – 67º Edição

Mais uma emissão d’A Mosca! Infelizmente, o tempo foi o nosso maior inimigo, e convocámos a boa música para o derrotar. Abrimos o programa com o novo trabalho de Thundercat, editado na passada semana. A seguir, uma visita a uma das suas influências pelo lado funk e no trabalho de sintetizadores, o grande Stevie Wonder, e a nova música continua com Ducktails, que nos surpreenderam, em 2013, com o seu The Flower Lane. Voltando à velha guarda do jazz, recuperámos um trabalho de Alice Coltrane (que óptima família, estes Coltrane!); logo a seguir, um trabalho que há muito pedia destaque no nosso programa: os gigantes Godspeed You! Black Emperor. Deles ouvimos Static, do épico Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven (2000). Para terminar, uma curta incursão pelo imaginário de Bob Desper, cantautor esquecido dos anos 70, e, para fechar, a primeira Gnossienne do francês Erik Satie. Mais uma semana. Para a semana há surpresas!

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A Mosca (63º, 64º, 65º e 66º Edições) – Podcasts em dia!

Tardou, mas chegaram! Aqui ficam disponíveis os quatro últimos podcasts das emissões d’A Mosca, programa pertencente à antena da Rádio Universitária do Minho. Neste último mês, fomos verdadeiramente ecléticos: poucos foram os géneros onde não deitamos a atenção. Na 63º emissão, contamos logo a abrir com a soul sensual de Marvin Gaye, para seguirmos em agradáveis terrenos de jazz e funk (destacam-se os Mahavishnu Orchestra e Curtis Mayfield, respectivamente). Depois, krautrock da melhor formada – cortesia dos Can – passando por dois incontornáveis, mas de discretas carreiras em vida, nomes da música folk, nomeadamente Jackson C. Frank e Nick Drake.

Na emissão 64º, recordações de bons concertos no NOS Primavera Sound (entre outros, ouvimos Slowdive, que voltam este ano a Portugal, no Festival Paredes de Coura!), deitando também um olho à country americana de Neil Young e da incrível Karen Dalton, cujo álbum In My Own Time (1971) já tem um lugar cativo nas nossas emissões.

Chegados à semana seguinte, perdemos a cabeça e embarcamos numa erudita excursão com grandes nomes do experimentalismo e do “pensar-fora-da-caixa”. Primeiro, os alemães Einstürzende Neubaten (dos melhores do NPS 2015), seguindo-se a trindade Frank Zappa, Miles Davis, e Herbie Hancock. Do primeiro, ouvimos-lhe um dos seus mais acessíveis e celebrados trabalhos – Uncle Meat (1969) -, enquanto que para os outros dois, entidades basilares do jazz, enveredámos em projectos seus mais periféricos. Do primeiro, o seu álbum On The Corner (1972), de recepção mista na crítica; quanto a Hancock, ouvimos Sextant (1973), no qual aborda, em ritmos exóticos e experimentais, uma mescla entre a electrónica e o jazz. Curiosamente, foram dois álbuns que precederam registos aclamadíssimos na carreira de ambos – falo de Bitches Brew e Headhunters, respectivamente. Esta foi uma emissão muito interessante – eclética, como sempre – em que passámos, mais tarde, pela música de Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Vale a pena ouvir.

Finalmente, na 66º emissão, algo mais ortodoxo. A entrada deve-se aos akron/family, que teimam em não desiludir, seguindo-se a música africana de Dorothy Ashby  (vale muito a pena ouvir o seu trabalho) e King Sunny Adé. Representamos também o hip-hop, através de Dr. Dre e o trabalho de estreia de Donny Trumpet & The Social Experiment, no qual contribui o nosso conhecido Chance The Rapper. Pelo caminho, Portishead, Joan Baez, o futurismo optimista de Squarepusher, e, para terminar, plunderphonics para uma vida melhor da autoria de People Like Us & The Jet Black Hair People.

Temos, assim, os nossos podcasts em dia e prometemos uma maior assiduidade nesse sentido. Foram, realmente, semanas complicadas e de muita atribulação. Em Julho, conto ter novidades em relação ao projecto do blog, como ao próprio programa, pelo que, até lá, têm imenso tempo para por a matéria em dia. Vamos entrar na maior força.

A próxima emissão d’A Mosca é na próxima Segunda-feira, a partir da 1h da madrugada – mas antes, no Domingo, às 21h, há emissão da Quintessência, com Duarte Matos e a música clássica. Agenda preenchida!

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