Edição 86 – Homenagem ao Camaleão, ritmos endiabrados, e um pouco de hip-hop.

Esta semana, deixámos as honras de abertura a David Bowie. Importantíssimo numa certa altura da minha vida, quando comecei a interessar-me mais por música, fiquei imediatamente conquistado pelo seu The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, que data de 1972. É um óptimo disco – um clássico! -, obrigatório nesta emissão.

Depois, segue-se uma tremenda sequência com os Talking Heads, de quem ouvimos dois distintos trabalhos, e os Liquid Liquid; estes, menos mediáticos, mas no curto espaço de tempo que durou a sua carreira, lançaram um punhado de boas músicas. Recordamos duas.

Ainda a mensagem do nosso patrocinador, a Porto Calling, que nos traz os The Fall e uma música do seu primeiro disco.

Lembrando que na próxima sexta-feira, dia 22, há concerto no Theatro Circo, recuperámos Allen Halloween e o seu mais recente disco, Híbrido, absolutamente obrigatório. Com ele, trazemos uma das suas grandes influências: os brasileiros Racionais MC’s, muito importantes no cânone do rap cantado na língua portuguesa.

Para terminar, ainda o mais recente trabalho de MiloSo The Flies Won’t Come, que, embora não tão denso e imaginativo como o seu duplo EP de 2011, tem a capacidade de criar os seus próprios fãs. Espero que vocês sintam o mesmo. A emissão fecha como abriu – na companhia de David Bowie – recuperando o seu álbum de 1977, Low, que contou com a colaboração de Brian Eno.

86

Anúncios

A conversa com Allen Halloween.

A música portuguesa de 2015 fica indelevelmente marcada pelo lançamento do álbum de Allen Halloween, Híbrido, que conta como terceiro na carreira do rapper. Alguns conhecê-lo-ão apenas da música Dia de um dread de 16 anos, que remonta ao ano de 2006. Outros, nunca o ouviram devido à imagem gangsta, justamente ou não, que lhe é associada. E há quem não queira nada a ver com o assunto porque é hip-hop, mas com esses tenhamos paciência!

Ao longo dos anos, Allen vem cimentando o seu lugar como uma das maiores referências no hip-hop cantado em português, a quem se lhe reconhece um talento ímpar na arte de contar histórias, frequentemente retratadas a partir de uma perspectiva pessoal (e há óptimos exemplos no seu novo álbum, que ouvimos ao longo da entrevista). A persona artística Allen Halloween é indissociável do homem Allen Pires Sanhá, e é dotada de uma credibilidade rara no nosso hip-hop; este contacto privilegiado com a realidade, crua e cruelmente como a viveu ou viu ser vivida, é estranha a muitos dos que o ouvem, e choca – repugna até – muito do seu auditório.

A experiência para quem fica é extremamente enriquecedora. Halloween nunca foi, e muito menos o é agora, um artista unidimensional. As suas letras estão carregadas de comentário social e convicções políticas, e, musicalmente, atingiu uma maturidade que lhe permite pescar várias influências e construir um som ímpar no hip-hop nacional.

Na conversa, falou-se de muito: desde o seu novo álbum, às influências (e, mais particularmente, o rapper General D), e também temas que o próprio levanta nas músicas de Híbrido – entre eles, o conceito de livre arbítrio no Homem.

No último ano, de entre todas as entrevistas que pude realizar, esta foi especial. Pela importância de Allen Halloween na nossa cultura musical, e pela conversa que proporcionou. E agora que A Mosca chega a mais ouvidos, faço questão de a partilhar uma outra vez, e espero que dela gostem tanto como eu gostei de a fazer.

Até já!

(ouvimos, durante a entrevista, Karapinhas ao Ataque de General D e os Karapinhas, Jesus Loves MeLivre Arbítrio, e Marmita Boy de Allen Halloween)

allen_alloween_mosca-2.png