Uma reflexão sobre a nossa televisão, apoiada em The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

A televisão é o meio de comunicação mais mal aproveitado no nosso país: todos os dias é-nos facultada programação da pior espécie, como são os programas de tarde da televisão generalista, vácuos em termos de informação e péssimos no que toca ao entretimento, ou, pior ainda no horário nobre, as novelas recicladas, sem chama, e que em nada se descatam das demais; o cúmulo da falta de brio e mau gosto nas grelhas televisivas nacionais tem o seu expoente nos terríveis reality shows, essência dos quais não é mais que assistir, num deleite grotesco de falsa superioridade, às trivialidades quotidianas de pessoas sem interesse nem objectivos, mesquinhas e idiotas. O desolador panorama da televisão nacional reflecte a inércia de quem não se identifica com a mediocridade dos conteúdos, como também de quem se conforma e é paulatinamente amolecido e estupidificado. Forma-se um ciclo em que todos perdem, embora uns mais que outros. A audiência televisiva portuguesa, pela falta de alternativas, sai mais prejudicada. Adiante.

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Nas últimas semanas gerou-se um burburinho em território americano, por causa da última série televisiva do canal HBO – na América, os canais são simultaneamente produtores de conteúdo, funcionando em sistema pay-per-view, um pouco à semelhança dos canais por cabo em Portugal. Desta vez, não se falou de séries como Os Sopranos, Game of Thrones ou The Wire, todas da HBO, mas de um documentário criminal realizado por Andrew Jarecki, com base na história do milionário Robert Durst. Não vou entrar em pormenores para não estragar a vossa experiência, porque, tal como escreveu Miguel Esteves Cardoso na sua crónica diária no Público, o melhor é entrar em The Jinx sem qualquer ideia do que o documentário trata. Evitamos, assim, falar do seu conteúdo, mas podemos perfeitamente abordar as suas implicações.

Por motivos evidentes a quem já viu a série, a obra de Andrew Jarecki recebeu uma fortíssima ovação – pela fantástica produção, pelo “ritmo” da história, pela conclusão do documentário – embora também houvesse uma pequena mas incisiva vaga de jornalistas (e não só) que questionaram a falaciosa linha temporal na qual os acontecimentos foram relatados; isto é, há determinados momentos no documentário, sobre os quais se tiram conclusões e se apoia a narrativa, cuja ordem de acontecimentos não corresponde ao que aconteceu na vida real. Este problema justifica-se com a necessidade de ligar eventos na história para que haja um dramatismo mais forte, embora levante uma série de questões éticas – jornalísticas e não só – às quais Jarecki terá certamente que responder. No entanto, não é esta, de todo, a minha área, e pomos este problema de lado admitindo que, pese embora The Jinx seja um marco para a televisão estadunidense, tem o seu quê de sensacionalista e corriqueiro.

“Documentary can educate. It can enlighten. But it’s also an art and the product of humans and their very real prejudices, opinions, subjectivities. It’s our responsibility to interrogate it with the same ferocity and mindfulness with which we approach any other attempt to transform the world around us into art that moves us.”  Anne Helen Petersen, sobre The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

Tomando, sem pensar demasiado, este documentário pelo que ele é, temos uma das melhores e mais mediáticas produções americanas dos últimos anos, ora não fosse o país do Tio Sam o expoente máximo do bom conteúdo televisivo (e logo atrás, na sua sombra, as terras de Sua Majestade). E voltando ao assunto do início: há umas semanas, aquando da visita de João Salaviza à cidade de Braga, falou-se, entre outros, da falta de cultura filmográfica, chamemos-lhe assim, da sociedade portuguesa. O realizador, puxando obviamente a brasa à sua sardinha, reiterou a necessidade de haver bom conteúdo televisivo (e bem produzido, sobretudo) que mostrasse novos horizontes no panorama da cultura e, consequentemente, criasse espaço para o cinema português. É este o repto de quem já foi aos mais reputados festivais de cinema internacionais (entre eles, a Meca do cinema independente, o Festival de Cannes) ganhar reputadíssimos prémios.

Embora The Jinx seja, como já o disse, sensacionalista e corriqueiro, não deixa de ser uma produção cinematográfica; uma exigência televisiva da qual nos temos distanciado nos últimos anos. A oferta da televisão actual é enorme, mas parca em qualidade, e estamos viciados pela gratuidade do conteúdo que, para apelar às audiências, é necessariamente vácuo e esquizofrénico – somos, portanto, escravos do zapping. O ciclo vicioso onde nos inserimos tem consequências: sofremos nós pela falta de cultura, televisiva e não só, mas sofre também quem dela quer viver – onde se incluem escritores, actores, cineastas e músicos. Não esqueçamos, sobretudo, que a cultura é absolutamente necessária ao desenvolvimento sadio da sociedade, e a sua actual realidade é um lastimável reflexo do que vivemos como portugueses.

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A Mosca, e notas de uma semana passada – 1 a 7 de Março

Mais uma semana, e mais uma crónica. Desta vez, um filme ficou de fora: Citizenfour (Laura Poitras, 2014). É um impressionante documentário sobre o gigante polvo que é a agência de inteligência americana (NSA), mas que terá o seu devido destaque numa data próxima. Assim sendo, ficam aqui as recomendações para esta semana.


A Mosca – 53º Emissão

Nesta semana, decidimos explorar África e as raízes de um género que cuja influência atravessou continentes e parámos na Nigéria de Fela Kuti, cuja música foi determinante na identidade do género do afrobeat. É com ele que começa a nossa emissão, para depois passarmos na música psicadélica dos The Zombies e do escocês Donovan. De seguida, conhecemos o trabalho musical da artista Joanna Newsom, ao ouvir a primeira faixa do seu épico de 3 discos, o álbum Have One On Me (2010). A electrónica fica muito bem representada pelos esforços do sempre energético Thundercat, baixista colaborador de longa data de Flying Lotus, e também de Nicolas Jaar, a cujo álbum Space Is Only Noise (2010) prevejo um merecidíssimo lugar na história dos grandes álbuns do género. A partir daqui, entramos em caminhos mais introspectivos: primeiro, com o instrumental japonês de Toshifumi Hinata, para logo a seguir sermos surpreendidos pela honestidade brutal de Benjamin Clementine, que lançou um álbum este ano. A terminar, David Sylvian traz uma amostra do seu álbum Blemish (2003), mas as honras de fecho de emissão ficam a cargo de Delia Derbyshire. O fantástico trabalho que desempenhou como radialista e sonoplasta na BBC Radio não poderá nunca ficar esquecido e avivamos a memória colectiva ao trazer uma das suas criações, Inventions For Radio: Dreams (1964), ao meio onde seriam originalmente difundidas – a rádio. É esta a nossa proposta para esta semana. Espero que gostem!

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Cinema

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Burn After Reading (The Coen Brothers, 2008) – Para abrir a semana, revi um filme que já havia visto por volta de 2008. No entanto, tinha uma pequena ideia – que se veio a confirmar – de que Burn After Reading é uma das mais incríveis, idiotas comédias que já vi. Colaborando com os irmãos Coen, está uma enorme lista de actores de primeira linha (George Clooney, Brad Pitt, John Malkovich, etc.), cujas personagens dão por si envoltas numa paranóica trama sobre documentos confidenciais – embora os mesmos documentos não sejam assim tão importantes. Parar para pensar não é uma característica de nenhuma das personagens, e o que sucede é o típico efeito bola de neve, de acções e consequências cada vez mais hilariantes e bizarras. Embora seja uma pequena paródia às vidas idiotas das personagens de Burn After Reading, há uma subtil crítica a um estilo muito americano de vida, mas o filme ganha precisamente por nunca levar essa ideia muito a sério. Para quem gosta de boas comédias, ou de francas tentativas, tem aqui uma boa aposta. E façam-no, quanto mais não seja pelas geniais prestações de todo o seu elenco.

CapaYestasemanaArena, Cerro Negro e Rafa (João Salaviza; 2009, 2012 e 2012) – Esta passada semana, Braga teve a oportunidade de acolher o realizador português João Salaviza, no Cineclube Aurélio da Paz dos Reis. Consigo, trouxe as suas três curtas (Arena, que mostra um dia na vida de alguém em prisão domiciliária; Cerro Negro, a documentar o encontro de dois emigrantes brasileiros; e, finalmente, Rafa, a história de um rapaz cuja mãe foi presa) que compõem uma trilogia. E qual a temática comum? Pessoalmente, diria que se tratam de curtas metragens sobre pessoas marginalizadas, portugueses num âmbito mais geral que a mera nacionalidade, e sobre os quais não rezam os livros de história. Simultaneamente, são a confirmação de um olhar muito particular no mundo do cinema português e exigem toda a atenção para o resto da sua carreira. Ainda este ano, sairá, em princípio, a sua primeira longa-metragem. Cá estaremos para a ver!

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The Great Dictator (Charlie Chaplin, 1940) – Numa jornada ao passado do cinema, encontrei-me com o famoso filme de Charlie Chaplin. O actor, que também realiza esta obra, representa duas personagens distintas: uma, a do barbeiro judeu, e a outra, a do implacável ditador do país imaginário de Tomainia, numa altura em que os judeus começavam a ser perseguidos na Alemanha em prol da supremacia da raça ariana. Surpreendeu-me a actualidade do humor de Charlie Chaplin, uma certa magia nos seus desajeitados movimentos e que, felizemnte, aguentou o teste do tempo. Mas são outros motivos que colocam este filme num lugar muito especial da história do cinema: tendo demorado cerca de dois anos em produção, a ideia principal de satirizar a pessoa de Hitler foi reconsiderada quando o ditador alemão procedeu à invasão da França e Dinamarca. Ainda assim, Chaplin, motivado por Roosevelt, foi avante, e ainda bem que o fez, pois foi difundida a fenomenal mensagem do final, sob a forma de um discurso da autoria de Charlie Chaplin – que, verdade seja dita, desencarna completamente a personagem de barbeiro judeu. Mais tarde, foi sabido que Hitler terá visto o filme – não só uma, mas duas vezes – e Charlie Chaplin admitiu dar tudo para saber a sua opinião. Nunca chegou a saber, mas é difícil imaginar que não tivesse tido impacto algum no ditador alemão. O filme recomenda-se pela inocência do seu enredo, pela descoberta da história do cinema, e ainda recomendo, aos que gostaram, The Kid e City of Lights, também da autoria do realizador americano.

leviathan_poster1Leviathan (Andrey Zvyagintsev, 2014) – O cinema russo, fruto da sociedade restrita e opressiva que de certa forma representa, tem tendência a ser extremamente metafórico e com uma faceta muito interpretativa. Neste caso, Andrey Zvyagintsev opta por uma abordagem mais directa e filma o que, no meu entender, é a ingrata vida de muita da população russa. Kolya, pai de família, vive com o filho e a namorada numa pacata casa junto à lagoa, uma propriedade construída pela família e da qual é, em pleno direito, proprietário. Tudo muda quando as pressões autárquicas, corruptas na sua essência, exercem a influência necessária para ficar com o terreno, e fica desta forma dado o mote para o filme. O que vemos a seguir é um retrato acinzentado, e muito bem filmado, da decadência desta família, numa alegórica referência bíblica que se desenrola, principalmente, na segunda parte da trama. Não ter conhecimento destas referências não impede, de forma alguma, a fruição do filme, que apenas pela sua narrativa possui uma mensagem fortíssima e de imensa importância, sobretudo no panorama da actual política russa.