22/09 – Ensaio sobre memória e lucidez, em constante oposição.

Esta emissão de Setembro foi parca em novidades; ou então não, talvez as tenha tido, até sob a forma dos BROCKHAMPTON ou Amnesia Scanner, mas não houve uma ideia central ao longo da hora, que guiasse todo o programa como uma espécie de narrativa.

Na verdade entretanto saiu a quinta etapa da saga Everywhere at The End of Time, da autoria da autori aosdiasoda auto da autsDDDDDDDDDDDhttps://thecaretaker.bandcamp.com/album/everywhere-at-the-end-of-time os demónios de DEan Blutn

E depois, John Coltrane na sua fase mais selvagem e libertada, música reunida no disco Ascension, de 1966; e Grandmaster Flash; e no hip-hop de hoje Celestaphone.

E depois, saltos de um lado ao outro.

Saltos de um lado ao outro.

Saltos de um lado ao outro.

1. Dean Blunt – Blow (BLACK METAL, 2014)
2. Velvet Underground – Sunday Morning (Velvet Underground and Nico, 1967)
3. Dean Blunt – NBA (SOUL ON FIRE, 2018)
// The Caretaker – Stage 5 Advanced plaque entanglements (Everywhere at the end of time – Stage 5, 2018)
4. Avantdale Bowling Club – F(r)iends (Avantdale Bowling Club, 2018)
// John Coltrane – Ascension Edition | Pt. 2 (Ascension, 1966)
5. Dean Blunt – PETTY WAP (Soul On Fire, 2018)
// Various Artists – cloudhopper (⛽, 2018)
// sanatur a deo – jazz hands! (music from the other side of the fence, 2017)
6. Grandmaster Flash – White Lines (The Message, 1982)
// Carly Rae Jepsen – I Really Like You (E•MO•TION, 2015)
// Amnesia Scanner – Another Life (Another Life, 2018)
7. Dean Blunt – Molly & Aquafina (BLACK METAL, 2014)
// The Caretaker – Sudden time regression into isolation (Everywhere at the end of time – Stage 5, 2018)
8. Celestaphone – Ghoul (Tying Up Loose Friends, 2018)
9. Kate Bush – The Wedding List (Never for Ever, 1990)
10. Dean Blunt – BEEFA (FT POISON ANNA) (SOUL ON FIRE, 2018)
// France Gall – Faut-Il Que Je T’Aime (Baby Pop, 1966)
// BROCKHAMPTON – J’ouvert (Iridescence, 2018)
11. The Isley Brothers – Don’t Let Me Be Lonely Tonight (3+3, 1973)
// The Caretaker – Stage 5 Synapse retrogenesis (Everywhere at the end of time – Stage 5, 2018)
12. Claude Debussy – La fille aux cheveux de lin, L. 117/8
13. Dino Valente – Something New (Dino Valente, 1968)

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15/09 – Experimentação equestre, sons da ásia, pop vanguardista, voz e ambiente.

Perdemos o .mp3 original desta emissão; como tal, o que aqui fica registado é o que a Rádio Lisboa captou no seu sistema, sendo que a montagem inicial se perdeu pelos caminhos cibernéticos – podem ouvi-la completa, se interessar, aqui. De resto, é uma emissão permeada pela nossa presença no Milhões de Festa, e por isso começamos com a referência à música de Gazelle Twin, uma amostra do seu portentoso novo disco PASTORAL, editado recentemente. Rapidamente passámos o foco para a música e a carreira de Kink Gong, com quem conversámos em Barcelos. Sob este pseudónimo existe Laurent Jeanneau, um artista que se tem dedicado a field recordings, com especial incidência nas tribos da Ásia recôndita. A este propósito, foi compilado o disco Music of Northern Laos, que aqui escutámos amplamente e recomendamos.

Ao longo da emissão, ainda passámos pela música nova dos Low, que surpreenderam no rumo tomado este ano, e por um dos discos da carreira de Mica Levi sob Micachu: chama-se Jewellery e é brilhante. E eventualmente, parte do auditório sugeriu uma experiência sónica, que fizemos ao som de Akha; usando o feedback da própria emissão, regurgitámos o som até diluirmos estas vozes no ruído digital, concluindo a profecia de Jeanneau sobre os povos que entretanto desapareceram. E mais outras coisas. Foi uma hora gira. Espero que gostem!

1. // início //
2. Gazelle Twin – Hobby Horse (PASTORAL, 2018)
3. Kink Gong – Ba (Dian Long, 2018)
4. Kink Gong – Wo (Dian Long, 2018)
// excerto da entrevista com Kink Gong, gravada no Milhões de Festa
// White Hmong – Queej (Music of Northern Laos, 2018)
5. Akha – Chuluba (Music of Northern Laos, 2018)
6. Micachu – Calculator (Jewellery, 2009)
// Kim Sung Jae – So To Say (As I Told You)
// excerto da entrevista com Kink Gong, gravada no Milhões de Festa
// Khmu Ou – Tot (Music of Northern Laos, 2018)
7. Bit – Protect The Forest (Music of Northern Laos, 2018)
8. Low – July (Things We Lost In The Fire, 2001)
9. Low – Fly (Double Negative, 2018)
10. Akha – Chuluba – (Music of Northern Laos, 2018)
11. Mary Lou Williams – St. Martin de Porres (Black Christ of the Andes, 1964)
// Mary Lou Williams – It Ain’t Necessarily So (Black Christ of the Andes, 1964)
12. Grandmaster Flash & the Furious Five – Message (The Message, 1982) | sugestão da Porto Calling.
13. Micachu – Just In Case (Jewellery, 2009)
14. Micachu – Curly Teeth (Jewellery, 2009)
15. Micachu – Golden Phone (Jewellery, 2009)
16. Kink Gong – Bai Street Dance (Dian Long, 2018)
// Kink Gong – China Soundscape (Dian Long, 2018)

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08/09 – Rentrée com experimentação, silêncio, pop hip pop e é bom estar de volta.

Depois da última emissão de Julho, fizemos um hiato que se interrompeu apenas em Setembro (exceptuando o material que gravámos em Paredes de Coura); e como tal, voltámos às emissões cheios de vontade e coisas a experimentar.

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E tudo isso é evidente nesta primeira emissão, achamos, onde é tudo maioritariamente de 2018 e a ordem natural do programa foi invertida; começámos em território mais experimental, desde felicita (cortesia PC Music) a Dedekind Cut, em estéticas que normalmente reservamos para a acalmia do final. Desta vez não foi assim e ainda bem, e prestámos toda a atenção possível a estes nomes que marcam 2018 (novo disco de Yves Tumor, ok?).

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Quanto à música pop, estamos bem entregues a meesh, que não sendo revolucionária se enquadra bem na estética que bem apreciamos. Seguem-se os Dirty Projectors, com o seu belíssimo novo disco, e uma outra experiência que fizeram com Björk. E as Let’s Eat Grandma, aqui produzidas por SOPHIE, e mais Yves Tumor (que vai estar pelo Le Guess Who?, na Holanda!). Até ao final, demos a ouvir um dos discos que sairá vencedor de 2018 – serpentwithfeet (também no Le Guess Who?) combina toda a energia e a devoção da soul com uma vontade notável de chegar a novos territórios; e é um disco que se revela e nos conquista apenas após algumas audições, de uma sensibilidade notável, quase litúrgico. Até ao final, há hip-hop: tentamos resgatar J. Cole e a sua balada das ignóbeis críticas que se lhe apontam; passámos por JPEGMAFIA, nome de excelência na vertente mais arriscada do hip-hop actual, e como esquecer Mac Miller, que iria passar nesta emissão de qualquer forma tivesse ou não sido divulgada a notícia da sua morte: Swimming é um disco do caraças e entusiasmou-nos imenso. Fechámos como começámos, ao som de felicita, aqui acompanhado por Caroline Polachek.

1. felicita – hej! (hej!, 2018)
// Naked City – The Sicilian Clan (Naked City, 1989)
// wee 💦 – sanatur a deo (悲劇の前に – WE WRITE WITH LAMENTS & EXPLOSIONS, 2018)
2. Yves Tumor – faith in nothing Except In Salvation (Safe In The Hands of Love, 2018)
3. felicita – coughing up amber (hej!, 2018)
// Dedekind Cut – MMXIX (Tahoe, 2018)
4. Dedekind Cut – De-Civilization (Tahoe, 2018)
5. meesh – More Than Friends (2018)
6. Dirty Projectors – What Is The Time (Lamp Lit Prose, 2018)
7. Dirty Projectors + Björk – Beautiful Mother (Mount Wittenberg Orca, 2011)
// Let’s Eat Grandma – Hot Pink (I’m All Ears, 2018)
8. Let’s Eat Grandma – It’s Not Just Me (I’m All Ears, 2018)
9. Yves Tumor – Licking An Orchid (feat. James K) (Safe In The Hands of Love, 2018)
// Yves Tumor – Recognizing the Enemy (Safe In The Hands of Love, 2018)
10. Stiff Little Fingers – Alternative Ulster (Inflammable Material, 1989) | sugestão da Porto Calling.
11. serpentwithfeet – whisper (serpentwithfeet, 2018)
12. serpentwithfeet – mourning song (serpentwithfeet, 2018)
13. Mac Miller – Ladders (Swimming, 2018)
14. J. Cole – Foldin Clothes (4 Your Eyez Only, 2016)
15. JPEGMAFIA – 1539 N. Calvert (Veteran, 2018)
16. JPEGMAFIA – Real Nega (Veteran, 2018)
17. JPEGMAFIA – My Thoughts on Neogaf Dying (Radio Edit) (Veteran, 2018)
18. felicita – marzipan (feat. Caroline Polachek) (hej!, 2018)

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21/07 – Desafio de Julho em volta ao mundo, com bom wordplay.

Como explicado na emissão anteriormente arquivada, o mês de Julho foi algo atípico dado ter-me desafiado a ouvir 30 discos novos na minha colecção. Desta emissão, apenas dois (blondeThe Undertones, sugestão da Porto Calling) não fazem parte dessa selecção.

Evidentemente, não conseguiria sobreviver sem um disco pop, e o homónimo de Christina Aguilera foi o escolhido. Não é um álbum brilhante, mas tem alguns bons momentos devidamente dissecados na emissão. E depois, entramos em três discos de compilações, o primeiro sul-africano e o segundo norte-americano, que referem a dois períodos e estilos bem distintos, e um último que reúne a música do Myanmar, com registos absolutamente surreais. Vale a pena ouvir, se gostam de coisas estranhas.

E mal passámos da supra-mencionada recomendação da Porto Calling, a hora desagua na música dos Autechre, electrónica exploratória, e termina da melhor forma possível com uma passagem pelo disco noise de Aaron Dilloway. E é isto!

1. Frank Ocean – Solo (blonde, 2016)
2. Christina Aguilera – Genie in a Bottle (Christina Aguilera, 1999)
3. Christina Aguilera – Love For All Seasons (Christina Aguilera, 1999)
4. Zoom – Wayawaya (Gumba Fire: Bubblegum Soul & Synth Boogie In 1980s South Africa, 2018)
5. Condry Ziqubu – She’s Impossible (Gumba Fire: Bubblegum Soul & Synth Boogie In 1980s South Africa, 2018)
6. Blue Sky Boys – Will You Miss Me When I’m Gone? (I Don’t Feel At Home In This World Anymore, 2007)
7. Unknown Artist – Sorban Palid (I Don’t Feel At Home In This World Anymore, 2007)
8. Mike Hanapi’s Ilima Islanders – Hilo Hula (I Don’t Feel At Home In This World Anymore, 2007)
9. Marika Papagika – Zmirneikos Balos (I Don’t Feel At Home In This World Anymore, 2007)
10. Luan Moe – Elephant Dragon (Princess Nicotine: Folk And Pop Music Of Myanmar, 2014)
11. Sein Sah Thin – Really Strange And Weird Things (Princess Nicotine: Folk And Pop Music Of Myanmar, 2014)
12. The Undertones – Teenage Kicks (The Undertones, 1979) | sugestão da Porto Calling.
13. Autechre – C/Pach (Tri Repetae, 1995)
14. Aaron Dilloway – Labyrinths & Jokes (Modern Jester, 2008 – reedição 2013)
15. Aaron Dilloway – Shatter All Organized Activities (Eat The Rich) (Modern Jester, 2008 – reedição 2013)

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O real e o mítico através dos espelhos em Orphée, de Jean Cocteau.

Nesta última quarta-feira, dia 3 de Outubro, iniciámos o ciclo O tempo perguntou ao sonho, no Auditório da Escola de Ciências da Universidade do Minho. Para primeiro filme (que estreou também a temporada) recuperámos Orphée, de Jean Cocteau. Centrado numa versão moderna do mito de Orfeu, abre uma geometria entre o poeta, Eurídice, e a Morte, que os separa – mas não como no mito tradicional, no qual Eurídice mergulha primeiro no submundo e Orfeu a resgata, impelido pelo amor que os une. Desta vez, as motivações de Orfeu são reenquadradas num mundo que é, também ele, mais moderno: é a Paris dos anos 50, com um café onde se reúnem os poetas da vanguarda, os carros e as motas e o rádio a contribuir para o frenesim da civilização urbana. Um mundo onde até o amor se moderniza e progride.

“It is by the impossibility of doing the same thing twice and by the new blood that is infused into the old frame that the poet is judged.”

No final de Orphée, com o casal de volta à realidade e mergulhado num amor mútuo, mais são as perguntas que respostas embora, em jeito de paradoxo, este seja um dos filmes mais estritamente visuais do cânone do cinema. O que aconteceu ao certo? Quem é Cégeste, quem é Orphée? Eurydice, a esposa enfadonha e aborrecida – e A Morte, omnipresente e manipulativa? Cocteau falou, alguns anos depois de ter estreado o filme, sobre as entranhas da narrativa, mas nunca esclareceu as motivações de todas as personagens. Ao comparar, por exemplo, o guião com o que mais tarde veio a ser diálogo no filme, há discrepâncias entre ‘la mort’ e ‘ma mort’, dito por Eurydice e Cégeste, quando a Princesa (a Morte) chega para os levar; e estas questões abrem ainda mais o âmbito interpretativo de toda a acção.

“Realism in unreality is a constant pitfall. People can always tell me that this is possible, or that is impossible; but do we understand anything about the workings of fate? This is the mysterious mechanism that I have tried to make tangible. […] There is nothing more vulgar than works that set out to prove something. Orphée, naturally, avoids even the appearance of trying to prove anything.”

A magia do Orphée de Cocteau reside na subversão do mito, sustentada na sua modernização e na experiência pessoal do artista Cocteau; e há uma porta para entrever outros significados na relação entre os vários símbolos inscritos nas personagens.

Tomemos, por exemplo, o primeiro contacto de Orphée com A Morte que acontece logo no início do filme, no Café des Poètes, e Cégeste morre. Este poeta é-nos introduzido como um artista venerado, uma figura emergente e unanimemente adorada entre os seus pares; e essa imagem contrasta com a de Orphée, bruto e algo resignado com a sua condição de artista. Este contraste pode e deve ser tido em conta ao longo de todo o filme, porque é Cégeste quem escreve as mensagens de rádio; são dele as palavras que tanto fascinam Orphée.

Mas vejamos o papel d’A Morte neste evento fatal. O carro que transporta Cégeste é seu, e a ideia de aparecer no café terá sido também, provavelmente, sua – afinal é ela que perde a guarda dos seus poemas e os deixa à disposição de outros, bola de neve de eventos que conduz à luta no café. Quando A Morte convida a companhia de Orphée, no carro, já o põe a caminho do mundo inferior; mas ao contrário do mito, não vai em busca da sua amada: vai a convite d’A Morte, que o prende de seguida através da beleza estética, que por sua vez vêm, claro, pelas palavras de Cégeste.

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Segundo Mark Polizzotti no ensaio da Criterion, Jean Marais, ou Orphée, havia terminado a sua relação com Cocteau aquando das filmagens; e o actor Edouard Dermithe, que representa Cégeste, seria o actual companheiro do realizador. Este triângulo que se translada da vida pessoal para a projecção artística poderá ter um papel na relativização de Eurydice, ou da figura feminina em geral, que nunca é, talvez excepto no final (e de forma agridoce, como revela o olhar de Heurtebise), a idealização do sonho matrimonial, por assim dizer. Daí, uma modernização da heterogeneidade binária do mito.

“With Orphée, I decided to take the risk of making a film as if cinematography could permit itself the luxury of waiting—as if it was the art which it ought to be. […] All arts can and must wait. They may even wait to live until after the artist is dead. Only the ridiculous costs of cinematography force it to instant success, so it is satisfied with being mere entertainment.”

De forma mais esclarecida, Cocteau fala de três aspectos que quis presentes como temas de Orphée:

  1. The successive deaths through which a poet must pass before he becomes, in that admirable line from Mallarmé, tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change—changed into himself at last by eternity.
  2. The theme of immortality: the person who represents Orphée’s Death sacrifices herself and abolishes herself to make the poet immortal.
  3. Mirrors: we watch ourselves grow old in mirrors. They bring us closer to death.

Talvez consigamos, a partir desta tripla chave, entrever maiores significados em Orphée. A ideia das mortes sucessivas, por exemplo, é evidente nas sucessivas passagens de Orfeu pelos espelhos, pelo mundo inferior, cada vez mais privado dos elementos importantes à sua estadia terrena.

Mas, caso não consigamos, há sempre a bruta beleza estética do filme, intemporal. Foi a primeira proposta do ano. Seguimos, na próxima quarta-feira, com Rumble Fish, de Francis Ford Coppola.

A folha de sala da sessão de Orphée está disponível aqui.

 

13/07 – Recordações nacionais, ainda amigos de Kanye e coisas selvagens.

O salto temporal até esta emissão justifica-se a dois tempos: no dia 30, chegámos atrasados para a emissão e não conseguimos entrar no ar (e fizemos um dj set incrível de 30 minutos para audiência privada, está em .mp3 para divulgar um dia, se quiserem muito); no dia 6, a emissão transladou-se para Roriz para a cobertura do Souto Rock (um .mp3 que entretanto se perdeu, prioridades, enfim – um belíssimo programa).

Por isso, dia 13 foi a primeira emissão depois de ATA, o que de resto se nota bastante bem pelo início e alguns outros momentos e a recordação de B Fachada é certeira: onde anda este senhor que tão mal nos habituou? Tempos áureos, em 2009, quando queria ser o Zappa português.

Ainda amigos de Kanye, pois, porque seguimos com Teyana Taylor, que se mexe e bem se mexe no rnb e lançou, com produção kanyewestiana, o mini-disco KTSE (vale a pena dar uma escuta. Ou duas). Assim como o disco seguinte, Tha Carter III, que veio no seguimento de “Alexandre procura perceber o trap”: é um disco obrigatório de Lil Wayne, editado há 10 anos, donde tirámos duas enormíssimas faixas. A Milli, em particular, é um autêntico clássico, e todo o disco ajuda a entender o desaguar numa estética tão desleixada e algo primitiva, liricamente.

O salto para a sugestão da Porto Calling é precedido por um apontamento de Blonde, o disco de Frank Ocean que vai-se a ver há quanto tempo foi e já passam dois anos. Entrou de fininho disfarçado de mancha homogénea, para trás ficou a pop apurada de Channel Orange, e ensinou-nos a apreciar o esqueleto de um rnb despojado, lânguido e quase privado. Disco essencial dos tempos modernos, e o seu autor uma das mais relevantes personalidades da pop contemporânea. Mas depois veio Screaming Jay Hawkins: se Frank sussurra em falsete auto-tunado, Jay Hawkins grita e estrebucha e canta os segredos do amor bem alto, e é poderoso e é gutural e é uma sugestão tremenda: devemo-la à Porto Calling! E antes de prosseguir, mais um pouco de Frank Ocean, a intersectar os Carpenters, porque é deles, e Stevie Wonder, porque é ele. E Van Morrison, senhoras e senhores, que iria actuar em breve no EDP CoolJazz.

Relembro que neste mês de Julho me autopropus um desafio ao qual não dei o devido seguimento. Consistiu em fazer toda a minha audição à volta de 30 novos discos na minha biblioteca (entretanto desaparecida, rip itunes library 2010-2018) e tentar daí resolver o problema da demasiada oferta, ao invés mergulhar numa sólida e diversa colecção de discos. Não correu muito bem – sobretudo porque se infiltrou o Blonde, que redescobri nesse mês porque AEA; mas é daí que vem o nome de Shirley Nanette, um disco da soul perdida da década de 70, mimoso e bonito e a merecer que o descubram também; já o nome seguinte, Allen Ginsberg, não será surpresa para quem está familiarizado com os seus amigos (a geração beat, pessoal), e surge aqui a declamar um dos seus poemas reunidos em Howl. Seminal.

Para fechar, duas incursões na discografia de Amnesia Scanner, que entretanto lançou o seu disco e lá chegaremos, oh se lá chegaremos. Até já.

1. B Fachada – Mimi 3 (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado, 2009)
2. Teyana Taylor – Gonna Love Me (KTSE, 2018)
3. Teyana Taylor – WTP (KTSE, 2018)
4. Lil Wayne – Mr. Carter (feat. Jay-Z) (Tha Carter III, 2008)
5. Lil Wayne – A Milli (Tha Carter III, 2008)
6. Frank Ocean – Self Control (Blonde, 2016)
7. Screaming Jay Hawkins – I Put a Spell On You (At Home with Screamin’ Jay Hawkins, 1958) | sugestão da Porto Calling.
8. Screaming Jay Hawkins – You Made Me Love You (I Didn’t Want to Do It) (At Home with Screamin’ Jay Hawkins, 1958)
9. Frank Ocean – Close To You (Blonde, 2016)
10. Van Morrison – The Way Young Lovers Do (Astral Weeks, 1968)
11. Shirley Nanette – Heaven on Earth (Never Coming Back, 1973)
12. Shirley Nanette – I’m So Glad (Never Coming Back, 1973)
13. Allen Ginsberg – A Supermarket in California (Howl, 1959)
14. Amnesia Scanner ft. Pan Daijing – AS Chaos (2018)
15. Amnesia Scanner – AS Chingy (AS, 2016)

13_07 - Recordações nacionais, ainda amigos de Kanye e coisas selvagens.

06/23 – Fenómenos, punk experimental e ensaios de silêncio e riso.

A emissão desta semana começa com – pasme-se – mais uma música de Kanye West. Que nem foi uma estreia. Perdemos a vergonha toda neste mês. Logo de seguida, XXXTENTACION, na semana em que foi violentamente assassinado; e pegámos nisso para pensar um pouco sobre as violentas e virulentas personalidades de cada um dos artistas.

Segue-se Michael Jackson, não só mas também a propósito de um ad-lib da canção Remember the Time, e seguimos com Lift Yourself, single contagioso de Kanye, mais uma vez, ele que dominou absolutamente este mês de Junho. Prometemos não voltar a acontecer. Há ainda música nova dos Death Grips, com o novo disco Year of the Snitch, e ainda uma passagem pela música de Babyfather (projecto que integra Dean Blunt): portanto, duas escutas de hip-hop mais periférico e experimental.

Depois, mudamos de registo para a música das Raincoats, grupo inglês que actuaria, no dia 29, em Braga (e um pouco por todo o país). A sua música é uma espécie de ilha no fervoroso mundo criativo do pós-punk, e por isso são um dos grupos mais queridos dessa época. Fica o registo de Lola, uma cover dos The Kinks, mais Fairytale in the Supermarket, um dos seus melhores singles, e ainda uma amostra de Odyshape, o disco que se salienta da sua discografia.

Terminámos a emissão com um registo experimental de Ashley Paul, antes de fecharmos com um registo gravado da comédia de Bill Hicks. E é isto.

1. Kanye West – Violent Crimes (ye, 2018)
2. XXXTENTACION – I don’t even speak spanish lol (?, 2018)
3. XXXTENTACION – Jocelyn Flores (17, 2018)
4. Michael Jackson – Remember The Time (Dangerous, 1991)
5. Kanye West – Lift Yourself
6. Death Grips – (Year of the Snitch, 2018)
7. Babyfather – Motivation (BBF Hosted by DJ Escrow, 2016)
8. The Raincoats – Lola (The Raincoats, 1979) | sugestão da Porto Calling.
9. The Raincoats – Fairytale in the Supermarket (The Raincoats, 1979)
10. The Raincoats – Family Treat (Odyshape, 1981)
11. Ashley Paul – Two Ships (Lost In Shadows, 2018)
12. Bill Hicks – (Arizona Bay, 1997)

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16/06 – Ainda amigos de Kanye, pop futurista e guitarras endiabradas.

As emissões da Mosca continuam pelo mês de Junho fora, mas indelevelmente marcadas pela (omni)presença de Kanye West. Poderíamos um dia explorar, mais a fundo, a sua persona e a sua influência; e talvez indagar um pouco mais a verdadeira natureza deste fenómeno. Mas parece-nos, cada vez mais, que ele se esgota e se reduz quando o consideramos maior do que a sua música, onde ele brilha de facto e tem maior controlo na sua expressão. Neste mês, produziu Pusha T e colaborou com Kid Cudi no projecto Kids See Ghosts. Ouvimos ambos, antes de recuperarmos mais uma faixa do belíssimo ye.

Depois, celebrámos a chegada do novo disco de SOPHIE, híbrido pop experimental que desafia géneros (haha pun intended); e ainda fomos picar o novo trabalho de Klein, que há uns meses deu um concerto de, tipo, vinte minutos no Porto. Ainda havemos de resolver isso com ela. São ambos trabalhos que merecem escuta atenta.

A linha que separa a primeira parte do programa da segunda é deixada a cargo da Porto Calling, que nos traz African Head Charge. Porque depois, a exploração é feita a partir de guitarras. Com Michael Yonkers Band, descobrimos experimentação suja com as capacidades eléctricas do instrumento, tudo gravado ainda na década de 60; com Rhys Chatham, a orquestração das guitarras, na onda do que havia sido perpetrado por Glenn Branca.

1. Pusha T – If You Know You Know (DAYTONA, 2018)
2. Kids See Ghosts – Feel The Love (ft. Pusha T) (Kids See Ghosts, 2018)
3. Kanye West – Ghost Town (ye, 2018)
4. SOPHIE – Infatuation (Oil of Every Pearl’s Un-Insides, 2018)
5. SOPHIE – Immaterial (Oil of Every Pearl’s Un-Insides, 2018)
6. Klein – Sleeping (CC, 2018)
7. African Head Charge – Off the Beaten Track (Trevor Jackson Presents: Science Fiction Dancehall Classics, 2015) | sugestão da Porto Calling.
8. Michael Yonkers Band – Boy in the sandbox (Microminiature Love, 1968, lançado em 2003)
9. Michael Yonkers Band – Puppeting (Microminiature Love, 1968, lançado em 2003)
10. Rhys Chatham – Waterloo, No. 2
11. Rhys Chatham – An angel moves too fast to see

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02/06 – Novo de Kanye, música pop e deambulação acessível.

Na primeira emissão de Junho, abrimos com um nome que seria recorrente ao longo de todo o mês: Kanye West. Ora não ele tivesse querido isto mesmo – lançou quatro projectos pela Def Jam, a história editora, e todos sob a sua batuta criativa, fruto duma residência musical em Wyoming. ye é o único que assina em nome próprio, com apenas sete faixas, e aparecerá ao longo deste mês. Desta vez, ficámos com Violent Crimes.

Segue-se Natalie Prass e o seu (menos interessante nesta fase) ex-colega Matthew E. White. Há uns anos (2015?) estiveram envolvidos na mesma editora, que tinha a sua própria banda residente, salvo erro liderada por Matthew; daí surgiram belíssimos discos, como o homónimo de Natalie, que recuperámos, e que até chegou a apresentar em Paredes de Coura, no mesmo ano ou no seguinte. No entanto, 2018 faz-nos chegar uma Natalie diferente, mais devota à pop – e teria tudo para ser uma boa notícia (não digo que não é) mas perdeu-se a qualidade e o aprumo dos arranjos que tanto adorámos no primeiro disco. É assim a vida.

É uma aproximação ao estilo de Janelle Monáe, que tem um óptimo trabalho novo, que ouvimos; logo de seguida, breve passagem por Father John Misty a propósito da sua vinda ao NOS Primavera Sound.

Porto Calling recomenda Flux of Pink Indians, antes de entrarmos numa fase final algo irregular e não-tão-experimental-assim. Primeiro com James Blake: um dos nomes obrigatórios para compreender alguma da música pós-2010, no que toca a electrónica e arranjos vocais modernos – seria bonito dedicar-lhe uma emissão, mas basta que ouçam o seu primeiro álbum homónimo de 2010; dele escutámos nova música para este ano, assim como um outro projecto mais discreto, e que produziu apenas uma canção, chamado Trimbal. Dentro ainda do hip-hop, breve passagem pela colaboração entre Jean Grae Quelle Chris, para terminar, em grande, com o novo disco de Oneohtrix Point Never. Chama-se Age Of. É óptimo.

1. Kanye West – Violent Crimes (ye, 2018)
2. Natalie Prass – Your Fool (Natalie Prass, 2015)
3. Matthew E. White & Flo Morrissey ‎- Thinking About You (Gentlewomen, Ruby Man, 2017)
4. Natalie Prass – Oh My (The Future and the Past, 2018)
5. Janelle Monáe – Dirty Computer (Dirty Computer, 2018)
6. Janelle Monáe – Make Me Feel (Dirty Computer, 2018)
7. Father John Misty – Total Entertainment Forever (Pure Comedy, 2017)
8. Flux of Pink Indians – Is There Anybody There (Strive To Survive Causing Least Suffering Possible, 1983) | sugestão da Porto Calling.
9. James Blake – If The Car Beside You Moves Ahead (2018)
10. Trimbal – Confidence Boost (2012)
11. Jean Grae & Quelle Chris – Doing Better Than Ever (Everything’s Fine, 2018)
12. Oneohtrix Point Never – Babylon (Age Of, 2018)

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25/05 – Mais novidades de 2018, e memória de Glenn Branca.

Nesta emissão, ocupámos a primeira parte com algo que nunca imaginámos passar – porque, caramba, Arctic Monkeys -, mas justificou-se dada a estranhíssima ambivalência nas opiniões de quem ouviu o seu novo disco. Deste lado, não estando emocionalmente investidos na causa, inevitavelmente apoiamos o caminho da experimentação: e portanto, good job fellas! Seguem-se duas (recentes) repetentes, Kali Uchis clairo, a primeira com um dos melhores discos deste 2018, e a segunda parece ser uma tipa fixe que faz música bacana. Argumentos mais que suficientes.

Screen Shot 2018-08-28 at 23.11.25.pngDepois, uma estadia mais demorada pelo novo disco de A$AP Rocky. Chega depois de um lânguido At.Long.Last.A$AP (2015), e conta com uma lista de colaborações e co-produções extensa o suficiente para acompanhar toda a extensão deste post. Entre eles, a surpresa: Dean Blunt (ai, coração), que canta além de produzir, e figura em pelo menos duas das três faixas que ouvimos. No fundo, é uma obra que parece um exercício de estilo, plural e eclético, com belíssimos momentos – pena que, dado um disco destes, não o consiga transportar para os espectáculos ao vivo (como no último NOS Primavera Sound).

Porto Calling recomenda os senhores que deram um dos concertos do ano em Portugal: abram alas aos Shame. De seguida, e até ao final da emissão, dedicamo-nos à música de Glenn Branca, músico falecido neste ano, e um dos mais influentes compositores para guitarra. Levantámos o véu sobre o início das suas experiências com os The Static e os Theoretical Girls, numa fase ainda extraordinariamente virulenta e energética; a sua carreira tende, mais tarde, para composições mais cerebrais com a guitarra em destaque. Sem Branca, não haveria Sonic Youth (por exemplo, entre vários); e passo a passo depura-se a sua central importância no rock moderno e seus derivados. Um dos grandes.

1. Arctic Monkeys – Tranquility Base Hotel + Casino (Tranquility Base Hotel & Casino, 2018)
2. Kali Uchis – In My Dreams (Isolation, 2018)
3. clairo – Pretty Girl (diary 001, 2018)
4. A$AP Rocky – Gunz N Butter (feat. Juicy J) (TESTING, 2018)
5. A$AP Rocky – Calldrops (feat. Kodak Black) (TESTING, 2018)
6. A$AP Rocky – Purity (feat. Frank Ocean) (TESTING, 2018)
7. Shame – Concrete (Songs of Praise, 2018) | sugestão da Porto Calling.
8. The Static – Don’t Let Me Stop You (Songs ’77-’79, 1996)
9. Theoretical Girls – No More Sex (Theoretical Girls, 2002)
10. Glenn Branca – 2nd Movement (Symphony No. 5 (Describing Planes Of An Expanding Hypersphere), 1995)
11. Glenn Branca – Lightfield (In Consonance) (The Ascension, 1981)

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