Memórias e resenha de um NOS Primavera Sound 2017.

Mais um ano volvido, e mais uma obrigatória peregrinação ao Parque da Cidade, em Junho, para o ver transformado em recinto de um dos mais relevantes festivais da Europa; transforma-se o Parque, e o Porto também, para destino de reencontros e novos conhecimentos, descoberta e _______. O festival contou a sua sexta edição, um número já respeitável e que obriga à retrospectiva de anos anteriores. Aqui está: fomos imensamente felizes, no passado. Também o fomos, este ano.

Como habitual, o alinhamento para o irmão catalão, donde provêm todos os artistas com destino ao Porto, deixou-nos a esperança de que pudéssemos receber junto de nós nomes que nunca por cá passaram, e outros que justificavam um regresso: não houve Arcade Fire, Annette Peacock, os Zombies, a própria Solange e Frank Ocean – este, nem em Barcelona apareceu -, mas tivemos Flying Lotus, na ressaca do extraordinário You’re Dead!; Aphex Twin, que poucos acreditaram possível; Death Grips, que haviam cancelado o concerto na primeira iteração do festival na cidade Invicta, no longínquo 2012. E outros, menores ou tão grandes como estes, que fizeram de 2017 uma edição obrigatória.

Por entre as emissões diárias do programa que se sobrepuseram a vários concertos, a azáfama habitual e as pausas necessárias para o comer e beber, cortámos nas gorduras e fomos directos ao que se afigurava relevante. Neste formato louco no qual assenta o Primavera, com horários repletos, pontuais, e concertos ligeiramente mais curtos que o habitual, guardamos, por outro lado, a vantagem de nos serem garantida prestações intensas, com todos os minutos contados.

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O primeiro dia, o que habitualmente reserva apenas dois palcos principais em alternância, traria, ao dobrar da meia-noite, um dos nomes que mais antecipámos: Flying Lotus, o nome sob o qual actua Steven Ellison, na sua segunda viagem pelo nosso país – esteve no Super Bock Super Rock, ainda no Meco, no ano de 2012.  E quando, do outro lado do recinto, se fizeram ouvir os primeiros momentos de Theme, faixa inicial do seu mais recente disco, You’re Dead! – contamos já 3 anos desde que o lançou, e é a base para o seu set, a cuja arquitectura jazz, alicerçada nos teclados ondulatórios de Herbie Hancock, volta por entre as deambulações electrónicas dançáveis noutros discos e horizontes – outros, como nós, rapidamente acudiram à chamada, de tal forma que o palco secundário pareceu pequeno para tamanha manifestação. Mesmo nos momentos iniciais, fora do espectro da sua discografia, ouviu-se o convite à música de Angelo Badalamenti, o guru que arquitectou a identidade sónica de Twin Peaks, remisturada e recontextualizada para o universo electrónico. Um dos raros momentos que denunciam a contemporaneidade de Steven Ellison, que afinal habita e vive o mesmo espaço e tempo que os restantes. Fisicamente, a sua figura fica no intervalo deixado em aberto entre uma tela transparente colocada à sua frente e as costas do palco, onde projectará – com notável capacidade técnica – psicadelismos vários e excertos do seu novo filme Kuso, a estrear (talvez não por cá) este ano, que refere a conteúdos mais gráficos, e de uma índole provocadora: recordamos figuras humanas que se envolvem e encetam actos grotescos, gore e violência gratuita musicadas pelo seu último disco. Foi demais para alguns. E que mais dizer? Desde há já algum tempo que estamos profundamente encantados com esta personagem: divide-se em Lotus e em Captain Murphy, a partir do qual se lança para cantar rimas; gere a sua própria editora, a Brainfeeder, e influencia, ainda que subliminarmente, as carreiras de Kendrick Lamar, Kamasi Washington, e outros tantos, como uma espécie de guru espiritual, sempre um passo à frente dos restantes, um navegador do astral plane que regressa de quando em vez para partilhar as novidades intergaláctico-espaciais; e aqui, no Porto, constatamos a sua mestria como artista não circunscrito apenas à música, mas devoto à imagem, ao flow do concerto, ao mundo em redor – por isso, um artista proficiente nos sete ofícios.

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Ouviu-se material de Cosmogramma, um dos seus trabalhos mais experimentais de 2011, e uma especial atenção às batidas – a dada altura, admite que “uma miúda no backstage pediu que tocasse os beats” -, mas sem esquecer as pinceladas do jazz, orgânicas e complementares à electrónica, embora sempre num plano abstracto, de inefáveis contornos. Havia proposto exactamente isto em You’re Dead!, e sabíamos já ao que vínhamos: extravasar os limites do humano, pensar-nos depois da morte, desprovidos do físico, desgarrados do intelecto: e restamo-nos com exactamente o quê? O onírico e o espiritual são aqui sinónimos, e axiomas pelo qual se rege o universo de Ellison. Somos tentados, ainda assim, a projectar alguma positividade na sua música, e se não alegria, pelo menos encanto, ou algo ainda menos concreto, ao qual nos agarramos. Fechou o concerto ao som de Never Catch Me, colaboração com Kendrick Lamar que teve uma reacção extraordinária, e depois despediu-se ao som de The Protest: “We will live on, forever, and ever” , que parece o chavão ideal para terminar a actuação.

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Capa de You’re Dead!

Se Flying Lotus é uma espécie de peregrinação espiritual, Aphex Twin agarra-nos na cloud nine da nossa paz de espírito e coloca-nos num outro sítio. Ininteligível; mais abstracto e paranóico; cerebral, igualmente provocador. Estamos agora no terceiro e último dia, e para nós o último concerto, aguardado num lugar relativamente próximo ao palco principal – bastante maior, e com mais público, que o palco de Steven. Atrás duma eventual mesa de mistura, nas costas do coordenador-de-cerimónias inglês, uma mão cheia de telas dispostas sob intencional geometria, de distintos tamanhos, permitiam imaginar a parede interior de um pavilhão industrial, as telas como janelas, e Richard D. James como anfitrião de um ambiente que lhe será certamente familiar. Afigura-se difícil a tentativa de reconstruir o concerto de memória, sobretudo quando se trata de um artista cujo catálogo não me é de todo reconhecível; um incauto como eu julgaria que fôssemos ouvir obras do seu catálogo discográfico, mas sei agora que se cingiu aos remixes e a criações mais underground. Nada contra. Recordo-me da maquinalidade da sua música, pouquíssimo orgânica, e das imagens que nos eram dirigidas; uma experiência intensa, mesmo a um nível físico – mais uma vez, e como aconteceu ao longo dos dias em vários concertos, socorremo-nos de tampões auditivos para evitar males maiores.

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Engoliam-nos as batidas e os pontuais momentos melódicos, devedores a uma série de microcosmos electrónicos, e as figuras projectadas revelavam-se abstractas, desaguando, por vezes, no símbolo característico do projecto do britânico. Após várias iterações e mutações deste processo, surgiam caras – caras humanas – que se actualizavam não à habitual velocidade fílmica dos 24fps, mas pausadamente, lentamente, profanadas pelo glitch, percorrendo o que julgámos ser o público das primeiras filas. Talvez não fosse. Mas, levados pela paranóia, pelo drone vermelho e verde que nos sobrevoava perniciosamente, imaginámo-nos susceptíveis ao olho que tudo vê, imortalizados num fugaz momento para um palco NOS repleto. Ainda envoltos no universo de Richard D. James, bombardeados pela viciosa circularidade da música (?) que nos debitava, vimos: uma das faces projectadas, atrelada a uma camisola com o símbolo icónico de Aphex Twin, mostrou-se sorridente; a marcha interrompeu-se. Momentos depois, dadas mais algumas voltas neste circuito circular sonoro, o mesmo vulto estava agora irreconhecível, e no lugar do seu sorriso, uma horrível contracção da face pontuada por uma súbita violência na música.

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Se essa pessoa ali estivesse, naquele preciso momento, seria uma autêntica expressão de dor e sofrimento; e a rápida justaposição entre as duas facetas relativizou todo o espectáculo do britânico, a sua ambiguidade emocional, e deixou descoberta uma possível opinião sua sobre quem actualmente somos e o nosso desmesurado culto da mediatização e da imagem. O ângulo confirmou-se mais tarde, quando surgiram os rostos de várias personalidades portuguesas, desde Salvador Sobral a Lili Caneças, passando por Jorge Jesus, e o Emplastro. Ou então não: talvez seja tudo uma conjectura levada demasiado longe. De qualquer forma, ficámos com a sua música, e a experiência, e os seus discos, e tudo se completa mutuamente e isso é mais que suficiente.

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Há um termo que albergará estes dois primeiros nomes: residem ambos sob o espectro da música electrónica, seja o que isso for no século XXI, porque, curiosamente, ainda há espaço e argumentos para lhe encaixarmos também os Death Grips. E não será o único ângulo comum entre os três.

Estes americanos são muito provavelmente um dos mais estranhos, absurdos, erráticos projectos artísticos que conseguiram irromper pelo mainstream adentro, mas não aquele que se julga pela métrica de discos vendidos, e seguidores no Facebook; o mito dos Death Grips habita nos sussurros entre conhecidos – “já ouviste aquilo?” -, na internet e seus derivados, numa contra-cultura cada vez mais relevante oposta à, generalizemos, condição humana pós-capitalista. E o encontro estava marcado para o palco . (ponto, ex-palco ATP), uma espécie de portal físico para as mais inclassificáveis experiências neste festival: aqui, já havíamos visto Swans e Shellac, a redefinir os limites, linguagem, e languidez do rock, e seguir-se-iam os The Make-Up, para nos purificar a alma e perdoar os pecados. A própria geografia do palco remete para algo único, envolvendo-o, circunscrito, por uma muralha de árvores, e suficiente tempo despendido neste espaço – uma medida distinta para entidades distintas – há-de fazer duvidar que estamos num dos mais mediáticos festivais europeus, que se pagou para aqui estar, que a escassas centenas de metros há música que vai bem com o momento de selfie, instagram-ável, e há uma ironia demasiado óbvia que não chega sequer a ter o encanto da subtileza entre tudo isto e a vincada identidade dos Death Grips.

A expectativa pré-concerto não durou muito, e nem nos foi dado muito tempo para regozijar a chegada dos três integrantes do projecto; prontamente se dissolveu a integridade da organização humana nas fileiras mais próximas do palco, por culpa das imediatas movimentações tectónicas que se deram, a um ritmo alucinante, em todas as direcções a partir de um centro comum. Éramos gente, pessoas, antes de tudo isto começar; agora, apenas massa, em constante movimento e transmissão – não apenas libertação – de energia. Nada mais. Sem que haja qualquer tipo de interacção com o público, tanto no espectáculo como fora dele, estabelece-se esta comunicação de contornos quase primitivos, íntimos e simultaneamente extrínsecos, em ambos reduzida ao essencial, entre o grupo e a sua audiência. E é algo de estranho mas muito interessante de acompanhar, caso por hipótese ainda nos reste essa presença de espírito. Impressiona a energia e a força de Zach Hill na percussão, e a importância que tem a justaposição do seu contributo com o de Andy Morin, responsável por toda a componente electrónica: tudo muito alto, muito visceral e violento, erguem-se autênticas muralhas de barulho indiscernível, nas quais mergulham a voz de MC Ride, complemento à sua densidade, e até as luzes de palco pretendem ignorar a impossibilidade física do acto e contribuem para esta amálgama de desorientação física, psicológica, e ao que tudo indica até existencial. Tudo isto é absolutamente único: dias antes, no palco principal, os Run The Jewels lidavam com uma audiência de superior magnitude, mas qualquer indício que tenham deixado de rebeldia ou atitude contra-sistema se afigura ridícula junto do que estes três representam e levam a cabo: os Death Grips tiveram toda a gente sob o seu domínio e comando, e o resultado foi um caos apenas ligeiramente controlado. Não ficámos até ao fim do ritual; um pouco antes do final, aproximámos as mãos ao chão para reunir os cacos da nossa personalidade; aferimos o nome nos documentos oficiais, para confirmar; e finalmente, saímos renovados – ou algo do género.

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Parque da Cidade, início de Junho de 2017, Porto: destino de reencontros e novos conhecimentos, descoberta e _______. Três dias atípicos enquadrados numa espécie de limbo, já que é demasiado cedo para se pensar em férias, e tarde o suficiente para que reste a impressão de um Verão despreocupado, de horários flexíveis, de gáudio e lazer e tudo o que daí advém de mais positivo. A praia oferece-se para um curto banho de Sol ainda antes de se pensar numa sombra do Parque, e provavelmente já se arriscou uma mariscada do outro mundo, em Matosinhos. O dia, cujo início deixou a impressão de alvorada, promete.

O Domingo convida a reflexões invariavelmente banhadas por uma estranha nostalgia, fresca e ainda detalhada, passível de uma reorganização, e de comparações com outras experiências. Trocam-se impressões das decisões difíceis, tomadas por impulso e intuição, ao longo dos últimos dias.

O NOS Primavera Sound, embora dê a impressão de estar cada vez maior, ainda é – e esperemos que assim continue – um belíssimo sítio para se estar. A lotação quase sempre esgotada dá margem de manobra para não nos sintamos claustrofóbicos na confusão; os quatro palcos operam em simultâneo e obrigam ao constante fluxo de gente a navegar de um lado para o outro – desmistifica-se a ideia de um concerto total, do início ao fim, para uma mais flexível rotina de rotação entre diferentes espectáculos. Só assim se torna possível que, em simultâneo, possa haver algo muito próximo de um motim com os Death Grips, e, a apenas algumas centenas de metros, Weyes Blood e a sua folk pastoral, próxima de uma América que se perde na translação, e ainda os Metronomy, no palco principal, a puxar dos galões para se leve a sério a leviandade que a todos oferecem; dum lado os Swans em meditação profunda, visceral, apocalíptica, do outro Bon Iver com pretensões de transformar a geografia do palco num casulo íntimo, de proximidade, e a candura emo de Julien Baker – tão sozinha para um espaço tão grande a circundá-la, exposta de uma forma que poucos ousam, e há mesmo algo de especial naquilo que nos traz, estamos dispostos a justificar.

Tudo tido em conta, seis edições desde, e incluíndo, o mítico ano de 2012, continua um dos mais especiais momentos de cada ano, sempre subjectivo, e único. Um festival bem organizado, ciente das exigências do mercado da música (que existe, não haja ilusões, e sem demérito para a sua genuinidade), cada vez mais em linha com as preocupações urbanas e ambientais – basta recordar a infeliz visão de outros anos, nos palcos principais, com o relvado imundo e submerso sob copos descartáveis de plástico, que não mais voltou a acontecer (que bom!) -, e em comedida expansão, devidamente planeada. O festival e a cidade merecem. E para o ano, havemos de cá ser felizes outra vez.

©Hugo Lima | www.huglima.com

Um encontro com crocodilos ao ritmo de Pernadas; concerto no gnration.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE]

É costume dizer-se que bom filho a casa torna. Na verdade, pode não ser o provérbio mais apropriado: nem Pernadas é bracarense, nem o gnration – onde se estreou a actuar -, será uma referência para o músico. No entanto, há cerca de um ano, ocupou o palco do Theatro Circo, no Festival Para Gente Sentada, que decorreu em Braga, para proporcionar um dos concertos mais surpreendentes da noite. Com a sua trupe de sete músicos em palco, o mote foi How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, o primeiro disco em nome próprio, de uma sonoridade eclética, bem preenchida, mas extremamente acessível.

Pois bem: um ano volvido, Braga foi novamente anfitriã da sua música. Desta vez, precisamente no gnration, o músico propôs Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them, um dos dois discos que lançou no passado dia 23 de Setembro. A expectativa poderia medir-se pela afluência ao concerto: à hora marcada, a Blackbox estava muito bem preenchida e o seu palco, habituado a não mais que três ou quatro músicos de uma assentada só, pareceu multiplicar-se (uma ilusão, apenas) para albergar toda a parafernália; uma bateria, dois saxofones, uma flauta e trompete, guitarras várias, sintetizador, e baixo eléctrico. Para os manejar, um ensemble de dez músicos, incluindo o próprio Pernadas, encarregue da guitarra e, simultaneamente, o nosso mestre-de-cerimónias.

Ainda assim, o público respondia sem considerar as chatas questões de composição. Depois da avalanche rítmica de “Problem Number 6”, viajámos para “Valley In the Ocean” a soar como uma balada de outros tempos como se tivesse sido composta na plácida contemplação intergaláctica, o seu sintetizador meloso como orientador da viagem. Quando, através dele, Margarida modula a sua voz para um belíssimo efeito, todos agradecem a si próprios a decisão de ali estar, presentes na constatação de que a música é uma grandiosa arte e fantástico veículo de emoções. Ciente do singular momento, Bruno Pernadas toma os interregnos para apresentar o disco, a banda, e o nome de cada canção. Aproveitou e agradeceu ao técnico de som e a Luís Fernandes, director do gnration, pela – perguntámos entretanto a razão – aposta num grupo tão numeroso.

No palco, o grupo reunido por Bruno Pernadas é exímio; mais do que interpretar as canções, esta reunião tomou contornos de “festa”, um encontro entre amigos sob o pretexto de dar vida a este disco. Se, ao ouvi-los em casa, nos arrebatamos com a imensa variedade da música, o intangível sentimento de maravilha – como se fôssemos crianças outra vez a descobrir sons e melodias -, em concerto podemos, além de a ouvir, constatar o crescimento das canções, ou a sua materializaçãoEvidentemente, a escola na composição que o jazz proporcionou, mais o facto de serem todos músicos competentes, faz com que tudo, esta espécie de química entre todos os intérpretes – a comunhão musical -, pareça extraordinariamente fácil. E a sua diversidade é imensa: quando, em “Galaxy”,passámos pela marcha dos sopros e as vozes, em coro, hipnóticas, tudo um bom revivalismo de uma época musical passada, custa crer que é o mesmo grupo a puxar a brasa ao rock em “Ya Ya Breathe” com uma intensidade pulsante que suplantaria muitos aspirantes a shoegazers. Isto não é jazznem pop: é um statement de devoção à música, mais uma vez, como arte.

A Winged Victory for the Sullen no Auditório Adelina Caravana.

Este post cumpre apenas o intuito de juntar neste blog os vários artigos que fui escrevendo, e que por vezes se espalham entre vários outros sites. Neste caso, foi escrito originalmente para o Arte-Factos, a propósito do concerto do grupo em Braga. Foram dois artigos – um, sobre a curta carreira da banda, e outro com a recensão do concerto.


A Winged Victory for the Sullen apresentam-se em concerto, em Braga.

©Nick & Chloé
©Nick & Chloé

Há muito que devemos ao acaso do acontecimento, ao encontro fortuito, à oportunidade inesperada, dos quais advêm, e não são raros os exemplos, grandes exemplos de criações artísticas. De uma semelhante ocasião nasceram os A Winged Victory for the Sullen, dum lado Adam Wiltzie, do outro Dustin O’Halloran, em Bolonha, quando Wiltzie actuou num concerto dos Sparklehorse de Mark Linous. No final, foram apresentados por um amigo comum. Sabemos agora, pela força do projecto que ambos criaram, que era um encontro predestinado.

A história musical de Wiltzie começou no passado século, com o grupo Stars of The Lid, em colaboração com Brian McBride, editando maioritariamente pela Kranky – uma etiqueta de referência. Deste projecto, assinalo o disco “The Tired Sounds of Stars of the Lid”: um marco da transgressão entre o ambient e o drone que perpetua uma abstracção envolvente, etérea, a partir da manipulação do som de instrumentos musicais numa composição sinfónica. Dustin O’Halloran, por sua vez, trabalha mais no concreto, com os seus vários trabalhos em piano, mais discretos que opulentos, sem nunca lhe entregar o protagonismo completo; envolve-o numa teia de sons clássicos, que o complementam. Ouça-se, a exemplo, o seu mais recente álbum, que data de 2011. “Lumiere”, é o seu nome.

A-Winged-Victory-For-The-SullenO projecto conjunto ficou assente logo após o primeiro encontro, e chamar-se-ia Winged Victory for the Sullen. Estrearam o resultado do trabalho conjunto em 2011, com um disco homónimo editado pela Erased Tapes (onde figuram Nils Frahm, Ólafur Arnalds, e Peter Broderick). É um óptimo álbum. O’Halloran ao piano, Wiltzie a cargo das decorações, convidam-nos à contemplação atenta das composições minimalistas, que se desdobram e se expandem sem quebrar o doce encanto da melancolia. É um diálogo entre os dois, como uma simbiose entre músicos que não ocupam o mesmo espaço, e cujas intervenções se complementam e engrandecem quando vistas no todo. “Às vezes, invertemos os papéis; é a verdadeira definição de colaboração. Eu a escrever as partes de piano, e o Dustin a compor a ambiência. Desprendemo-nos dos nossos egos e encontrámos uma forma de confiar um no outro. Tenho a certeza que se pode ouvir isso, no disco”, disse Wiltzie à publicação online TinyMixTapes.

atmosVolvidos 3 anos, 2014 viu-os lançar dois trabalhos: Primeiro, o EP Atomos VII, e, logo de seguida, o álbum Atomos. Desta vez, o disco foi criado de uma forma quase programática, já que foi comissionado pelo coreógrafo Wayne McGregor para acompanhamento musical do seu espectáculo do mesmo nome; no entanto, ambos músicos dizem ter tido uma enorme liberdade no processo, já que compuseram apenas tendo em conta pequenos pedaços de inspiração – como filmes, fotografias, ou frases: “E se entrassem no buraco negro e saíssem pelo outro lado?”, perguntou, a dada altura, McGregor. Entretanto, é um registo menos tímido, no qual as cordas têm um papel mais determinante e a música é, de uma forma geral, mais interventiva. São dois álbuns diferentes.

Agora, é altura de os ver ao vivo. Hoje, em Lisboa, no Teatro Maria Matos. Amanhã, será em Braga, no gnration. Depois, a última oportunidade de os ver este ano será na Madeira, no Madeiradig.

A Winged Victory For The Sullen no Auditório Adelina Caravana (04/12/2015)

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Faz hoje uma semana que os A Winged Victory For The Sullen se apresentaram em Braga. A organização do concerto ficou a cargo do gnration, embora não tenha acontecido na sua Blackbox. Desta vez, deu-se no Auditório Adelina Caravana, uma sala de lugares sentados pertencente ao Conservatório de Música Calouste Gulbenkian.

O grupo formado por Adam Wiltzie, encarregue das teclas e da guitarra eléctrica (cujo som é totalmente transfigurado), e Dustin O’Halloran, no piano (e numa espécie de modulador?), trouxe mais três músicos, que os acompanharam no violino, viola e violoncelo – instrumentos nucleares no segundo álbum da banda, Atomos, que foi tocado na íntegra. Como constatado na antevisão ao concerto, é um disco mais opulento, mais parco em contemplação, mas que foi composto inicialmente como acompanhamento musical a uma coreografia de Wayne McGregor; a própria edição em disco das composições foi apenas equacionada mais tarde.

Do concerto, há momentos que guardo em maior estima: quando os cinco músicos contribuíam para a edificação de algo maior, os sons se tornavam articulados e ganhavam vida, e sentíamos o frisson que outros nesta área, como Tim Hecker no drone ambient, Gavin Bryars na composição mais clássica, nos provocam frequentemente. Infelizmente, não aconteceu muitas vezes ao longo de quase duas horas de concerto, quando os motivos se repetiam, as cordas entravam e saíam sem grande critério, e a música, esse todo, parecia desorientada e sem personalidade. Será culpa da matéria prima que sustentou o concerto, o álbum Atomos, que em muitos aspectos seguiu numa direcção diferente do seu antecessor?

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Entretanto, e sem equacionar argumentos mais subjectivos, parece-me ter encontrado uma justificação, uma diferença apenas visível nas letras pequenas de cada um dos discos: no primeiro, havia Hildur Guðnadóttir no violoncelo e Peter Broderick no violino; Nils Frahm supervisionou as gravações (um papel que será delegado a Ben Frost no segundo álbum). Será a falta destas contribuições suficiente motivo para me afastar do resultado de Atomos?

São considerações pertinentes, mas tudo isto é inconsequente perante a sala quase cheia que, no final, saiu satisfeita com a obra de Wiltzie e O’Halloran; muitos lhes agradeceram, já no átrio do Conservatório, pela música que trouxeram a Braga. Deixo os meus preciosismos musicais de lado (e que são, afinal, uma questão de gosto): é bom que um projecto relativamente underground, de um género sem espaço em rádios e spotify’s afins, consiga encher uma sala de Braga e satisfazer o seu público; melhor ainda é saber que esta cidade tão culturalmente caduca, por vezes, cimenta assertivamente esta vontade de trazer e ouvir música, seja de onde for.

B Fachada em Braga: o ponta-de-lança da gnration d’ouro.

[ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA TRACKER MAGAZINE]

Mais português que nunca – assim nos prometeram o espectáculo de B Fachada, no passado Sábado, no gnration. Levanta-se a questão: como ser ainda mais português quando se o é em pleno, e ciente dessa condição?

Dada a hora marcada, ainda o pátio exterior do gnration aguardava a chegada do seu público. Um espaço exterior confortável, de formato rectangular, envolvido pelas galerias do edifício; além disso, inteligentemente desnivelado – pense-se na inclinação de Paredes de Coura – para que não haja maus lugares. No chão, a convidar o sentar, espalhavam-se algumas almofadas à disposição – um bom pormenor da organização. Atribui-se a responsabilidade do atraso, devidamente acautelado, à selecção nacional de futebol, que não marcou o golo da vitória sobre os croatas mais cedo.

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Quando temos o recinto mais composto, lá nos surge o artista: t-shirt básica, o conforto da calça de fato de treino, e um copo bem cheio de, nada indicando o contrário, uma bela pomada. Estamos todos à vontade, no conforto de jogar em casa. Não era preciso, mas o tio B agradece a presença – e a preferência, em detrimento da buzinas afectas à festa nacional (que mal se ouviram – especulamos que só, eventualmente, a partir duma hipotética meia-final). Braga foi a nossa Fátima, e o Fachada ambos fado e futebol.

0003369244_10A acompanhá-lo, vieram guitarra eléctrica e uma parafernália electrónica de sintetizadores/samplers/etc, donde são disparados os corpos instrumentais das músicas – muito importantes, por exemplo, no mais recente trabalho, o terceiro

disco homónimo B Fachada. A primeira música que ouvimos, ‘Camuflado’, define este disco, com um tecido musical remendado, complexo, muito interessante e bem produzido (por vezes, menos intensamente e dadas as devidas diferenças, a fazer lembrar “colagens sonoras”, ou ‘plunderphonics’, como lhe chama o jornalismo musical – ouça-se ‘Pifarinho’). No final de cada música, por entre os aplausos e alguns mais eufóricos assobios, trocava entre guitarra e teclas e contraía o rosto de modo afirmativo, com confiança, uma espécie de aprovação como quem confirma um resultado, de certa forma, já esperado – algo como, “porra, que esta correu bem”. Por ele, e por nós, correram todas.

“Zecas e Fraternidades a sujar-me o babete / Gastámos a flor da vontade a preparar o come back / […] Ponho o camuflado a render consequentemente a malta paga para ver”

O seu concerto não incide, em particular, neste disco – os alinhamentos vão um pouco ao sabor da música que tocou imediatamente antes. Por isso, ao vivo temos a oportunidade de revisitar grande parte da sua carreira, e aferir a sua evolução – ou transformação – entre as várias fases (temáticas, musicais, líricas) que atravessou ao longo de catorze registos discográficos (em 7 anos). Simultaneamente, enquanto a música é interpretada, não se inibe de libertar a expressividade da sua persona, que sempre nos chega como extremamente genuína, na entoação das palavras cantadas e nas incontidas gargalhadas que fogem entre alguns versos, cúmplices com o público, reflexo da dimensão verdadeiramente cómica de alguns dos seus escritos.

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Recorde-se, como porventura o exemplo mais flagarante, o insolente e amoral contador de histórias em É Pra Meninos (2010), um disco de instrumentação pertencente ao imaginário infantil, circunstância que dá às narrativas uma simplicidade enganadora e subliminar; no entanto, tememos pelos miúdos que ouviram ‘Questões de Moral’ ao crescer – uma possível geração de perigosos revolucionários.

A dimensão lírica da sua música é, de facto, uma das mais importantes características a apontar: não é, como por vezes transparece noutros músicos, uma muleta de aceitação ou de comodidade, para se cantarem banalidades. A língua portuguesa enriquece com o cantautor; há conta, peso, e medida na poesia (ou prosa?) do tio B, heterogénea até em períodos curtíssimos de tempo: leia-se (e ouça-se!) o a3768835108_10Fachada romântico circa Dezembro de 2009, no primeiro homónimo, e o contraste com Um Fim de Semana no Pónei Dourado, gravado apenas entre «sexta-feira 23 de janeiro e a segunda 26», ainda no mesmo ano. Dando um pequeno salto cronológico, chegamos a insurreição épica de Deus, Pátria e Família, em 2011, apenas uma faixa ininterrupta de 20 minutos, e já imensamente virado para uma crítica social. Sem nunca esquecer a criatividade musical, claro.

E, pelo meio do concerto, apresenta-nos um pouco à história da música portuguesa, e a algumas das suas raízes: de José Afonso, uma directa e assumida influência (a vários níveis), cantou ‘Os Vampiros’. ’Tenho Barcos Tenho Remos’, esta última – parcialmente cantada sem amplificação, num belíssimo momento – foi interpretada pelo mesmo Zeca ainda no disco d’Os Vampiros, para a qual compôs apenas a música. A letra, e a muito própria interpretação vocal, remonta à canção popular alentejana. Cantou ainda uma terceira, uma adaptação do ‘Hino da Maria da Fonte’, historicamente relevante para a região minhota. São momentos retirados a um importante extracto cultural português, que muitos influenciou, e seguirá o Tio Bernardo essa tradição, não necessariamente colinear, mas com um importante denominador comum.

 

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Enquanto tudo isto acontecia, a timidez da audiência, nitidamente segregada ao longo de várias gerações, ia paulatinamente quebrando ao longo do concerto – bamboleou-se o tronco ao som de ‘Dá Mais Música à Bófia’ e trocaram-se risos e memórias nostálgicas com as rebeldes ‘Questões de Moral’; fosse este um espectáculo em pé, e a matriz dançável e mais electrónica de tendência africana, muito presente em Criôlo, de 2012, poderia ter arrancado uma ginga mais arriscada aos presentes.

Acusando o cansaço de quem não tem o pulmão de bola, este homem de família prepara uma saída incólume, sem a maçada de um encore (receberíamo-lo de bom grado), ao som da já clássica ‘Quem Quer Fumar com o B Fachada’. Despede-se com um sincero agradecimento; nós ficámos saciados e de coração cheio. O convite ficou por aceitar, numa futura ocasião. Depois, fomos para casa – há que respeitar a hora dos patinhos. É pra meninos.

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