Uma leviana retrospectiva do ano de 2016.

Passou, de rajada e sem que tivesse dado conta, mais um aglomerado de doze meses. Ainda ontem escrevia pensamentos semelhantes para o ano transacto. Por entre os livros, os filmes, a música, e a televisão, fica aqui um pequeno rescaldo de alguns momentos e pensamentos marcantes. Tive um ano bastante aceitável; espero que, em retrospectiva, o vosso tenha sido tão bom ou melhor. PS: confesso que a ordem é altamente irrelevante.

10. Coura foi dos LCD Soundsystem.

Não estive presente no início, no durante, nem no final (?) da carreira discográfica dos LCD Soundsystem; e confesso-me não conhecedor do seu repertório. Guiado apenas pela efusiva opinião de um amigo, fiz por não perder o seu concerto no auditório natural de Coura, que me surpreendeu – muito. Em palco, uma banda irrepreensível, irreverente e com uma química irresistível entre todos os membros, liderados pelo ícone James Murphy. Sintetizaram, em cerca de duas horas de concerto, uma carreira inteira. E foi óptimo. Ficou no ouvido a magnífica rant em Losing My Edge, com um olhar muito atento sobre a música das décadas passadas. Uma banda de melómanos, para melómanos, e um dos melhores momentos do ano.

9. Radiohead e a apresentação de A Moon Shaped Pool.

radiohead-nosalive2016-kp-6O concerto no NOS Alive – apenas a minha segunda oportunidade de poder ver os britânicos, e a primeira que pude concretizar – veio com o mote de apresentar o mais recente disco, A Moon Shaped Pool. Ao vivo, é uma experiência agridoce: para um disco que vive dos seus momentos de silêncio, não há rédea que impeça o público de querer fazer parte dessa comunhão. Não me recordo muito do concerto, talvez pela intensidade e pelo cansaço acumulado de horas a fio na fila da frente, mas terá sido belíssimo. Não caio no erro de o tentar justificar, mas os Radiohead são, indubitavelmente, dos projectos musicais mais importantes desde que a música é gravada. A noite foi deles, e de quem esteve lá também.

8. A queda do what.cd; a ascensão das cabeças da hidra.

Para os leigos, o what.cd foi o maior directório digital de música que existiu, e que facilitava o acesso aos trabalhos mais obscuros, recônditos, e difíceis de encontrar – tinha muito perto de tudo, impecavelmente organizado, com um catálogo análogo ao que havia sido a Biblioteca de Alexandria há mais de dois mil anos. O acervo completo da nossa produção cultural será sempre comparável a uma utopia, mas não se pode julgar quem, ainda assim, o tenta. Quase dez anos depois da sua génese, o what.cd colapsou após uma intrusão das autoridades francesas protectoras dos direitos de autor, num desaparecimento rápido, indolor, quase belo, e assistiu-se, nos dias seguintes, a uma espécie de elegia colectiva cibernética por tudo o que ali foi alcançado. Em menos de uma semana, surgiram pelo menos três alternativas, mostrando que são irrisórias as tentativas de bloquear este movimento. A hidra – ou melhor dizendo, o porco vive. Long live oink!

7. A conversa com um ícone da música alemã, Michael Rother.

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Fotografia de Henrique Almeida

Quando o nome foi anunciado, a prioridade foi imediatamente chegar à conversa com o alemão Michael Rother. Músico de especial preponderância na década de 70, esteve no epicentro do movimento que denominamos de krautrock e que acabou por influenciar grande parte da música subsequente. Havia muito por falar: as circunstâncias que levaram a um tão pronunciado boom cultural, o retiro dos Harmonia em Forst, o trabalho com Brian Eno – entre outros. Infelizmente, o tempo não o permitiu. Mas ficou na memória um momento específico: fascinado pelo concerto que o cair da chuva em catadupa provocava no telhado da sala onde conversávamos, deixou-se levar pela sua envolvência, e antes que o soubesse, a conversa havia terminado aí. Não havia como o fazer voltar. Descobri que Rother não é um músico particularmente difícil de chegar à fala com, o que é extraordinariamente agradável dado tratar-se de algo como uma lenda viva.

6. Kanye West e Frank Ocean.

Semelhantes no mediatismo que atraem, e tão diferentes na postura que mantêm: Kanye um alarve social, (tão) próximo da insanidade mental, enquanto que Frank é frio, comedido, metódico; ambos com lançamentos ímpares, independentes, que abalaram 2016 para melhor, mas absolutamente heterogéneos na forma de se expressar: para um, fervorosos tweets endiabrados, para outro, uma quase canónica entrevista ao New York Times. De um, tudo se sabe; do outro, apenas o essencial. Para o bem e para o mal, são dois artistas que representam faces opostas da mesma moeda, e são, nas variadas facetas das suas personas, um pertinente reflexo do mundo que vivemos. Dois artistas profundamente distintos que comungam na sua humanidade: afinal, apenas desejam um pouco de paz, um pouco de amor – não tão distantes de cada um de nós, portanto.

5. Charlie Brooker e Black Mirror.

affiche-black-mirror-2011-1.jpgEste foi o ano no qual Black Mirror, através da Netflix, se deu a conhecer ao mundo, e completou a sua afirmação como uma das melhores produções televisivas de sempre. Toda a operação foi comandada pelo britânico Charlie Brooker, um guionista que já havia feito trabalhos irreverentes no meio (Dead Set, Nathan Barley), e que aqui levou a tecnologia ao seu limite – às vezes, num futuro não muito distante de nós -, num universo criado a partir do célebre “what if?” e terminando sempre na análise às suas implicações sociais. Tivemos de tudo: ciber-ataques a cidadãos comuns, uma sociedade que gira à volta de ratings individuais, e os efeitos quotidianos de uma memória permanente, on demand. É sátira, comédia, e drama, mas também um sério aviso de que a máquina é tão menos benigna quanto maiores forem as suas capacidades. E o futuro pode estar mais próximo do que pensamos.

4. Serviço Público na televisão.

Já foi um destaque no ano passado, e volto a mencioná-lo este ano: embora não seja perfeito, o trabalho que a RTP2 faz pelo cinema é assinalável. Este ano tivemos, por exemplo, ciclos de Quentin Tarantino e Andrei Tarkovsky. Os horários são apropriados, a divulgação suficiente – caso, por sorte, se mude a vida a uma única pessoa que seja, terá valido a pena. Mais ainda: parece que a RTP vai apostar na produção de televisão nacional, o que é óptimo. A cultura – em particular, a cinematográfica – é salutar e necessária. Que a valorizemos como tal.

3. David Bowie, Prince, Leonard Cohen, e Pauline Oliveros formam uma banda no céu.

Há duas coisas inevitáveis na vida: a morte, e os impostos. Diz-se algo deste género. E as estrelas na terra não são excepção. Estamos permanentemente ligados e vivemos, em tempo real, tudo o que se passa no mundo; inevitavelmente, a morte de quem vemos como maiores-que-a-vida tocam-nos especialmente. Bowie despediu-se em grande estilo; Cohen sabia-o e não fez caso disso. Prince estava demasiado ocupado a ser uma superstar, e Oliveros vive, ainda, dentro do espaço que criou dentro do som. 2016 foi um ano terrível em certos aspectos, mas não neste em particular. Nada há mais natural do que trocar uma estrela na terra por um lugar brilhante no céu.

2. O não-cinema de 2016.

large_slml8aeque2sazz4dqnahqnyeyqConsegui terminar o ano sem ver nenhum filme elegível para o top anual do Arte-Factos (ok, não é bem verdade: vi, no início do ano, Creed, The Big Short, e mais recentemente Lemonade, que acompanha o disco da Beyoncé). Não que não tenham saído bons filmes, o que seria manifestamente mentira, mas mantenho-me no muito de bom que há nos anos que ficaram para trás: revisitei o apartamento de L.B. Jefferies, com vista para os prédios da frente, onde Hitchcock estabeleceu um tratado sobre o voyeurismo; com Truffaut, descobri os filmes da sua vida e percorri as linhas que desenham o amor e a amizade – será tudo o mesmo? – em Jules et Jim; o meu francês melhorou com os diálogos de Éric Rohmer, e Antonioni foi o meu professor de italiano existencial. O cinema é das artes canónicas cuja história é mais recente: vamos, facilmente, às origens com os irmãos Lumière, até aos tempos de hoje, e é um privilégio que o possamos fazer à distância de uns cliques. A distância que afinal nos separa da Itália pós-guerra de Rosselini, dos retratos sociais do Japão por Ozu – a vida dos outros que podemos viver como se fosse a nossa.

1. A relevância da televisão, ou “The reports of my death have been greatly exaggerated”.

E, entre tudo o que aconteceu este ano, é engraçado ver como a televisão se quer reinventar e produzir novos conteúdos. A televisão, ainda que seja à base de som e imagem, é profundamente distinta do cinema, e estabelece nessas diferenças um enorme leque de qualidades: os Monty Python nascem dum formato televisivo; Seinfeld nasceu de um formato televisivo; The Wire, os Sopranos, e outros – enfim, já sabem onde quero chegar. Por pouco, perdíamos este meio, mas assistimos, com a Netflix, Amazon, HBO, etc. ao renascer do formato de entretenimento. Há espaço para tudo, e para todos, desde que tenhamos critério e boa crítica. Tenha Mark Twain dito ipsis verbis ou aproximado q.b., são agora as palavras deste meio para os que lhe traçavam o obituário precipitado.

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O meu 2015.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO ARTE-FACTOS]

Ah, agora sim! Desta vez, não me limito ao cinema de 2015, e permito-me a uma reflexão sobre o ano que agora termina. Escolhi duas mãos cheias de destaques dos últimos doze meses, e que a mim me encheram o mundo – uns mais que outros, claro, e houve algumas batotas pelo meio. Conta a intenção! Além disso, optei por não os ordenar de forma específica. Embora não sejam todos equivalentes, foram todos, à sua maneira, essenciais para o último ano. Comecemos!

1.  O primeiro destaque vai para o espaço semanal “Já Vi Este Filme”, na RTP2, que, desde Setembro, tem feito alguns ciclos de cinema mais alternativos aos Sábados, com comentário prévio e posterior ao filme. Por lá, já passaram estreias de Roberto Rossellini, Yasujirō Ozu, etc. Esta atenção à cultura não é de agora – embora me pareça que tem havido algum desinvestimento nesse sentido – e fico feliz por saber que todas as semanas há um filme novo, em sinal aberto, para os que se interessam. Se são muitos ou poucos, já são outros quinhentos, mas fica a intenção – oxalá a reforcem!

Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de 'Dog Day Afternoon'.
Sidney Lumet com Al Pacino nas gravações de ‘Dog Day Afternoon’.

2.  E, já que falamos de cinema, só este ano vi pouco mais de 150 filmes. Fiz algum esforço para manter o ritmo ao longo do ano, por ser um meio que muito me interessa (e daí que me tenha juntado ao projecto do Arte-Factos!). Desses, pouquíssimos foram os filmes contemporâneos, já que a maior parte pertence ao século passado, e já desisti da ideia de organizar a lista dos favoritos: são demasiados. Mas descobri e aprendi muita coisa, e espero poder, ao longo dos próximos tempos, transmitir um pouco que seja deste meu fascínio. Para que este ponto não passe como apenas um devaneio egoísta, deixo-vos a recomendação do livro Making Movies, de Sidney Lumet, um realizador americano que, infelizmente, parece ser caracterizado como um cineasta de “segunda linha”, e que redigiu um óptimo livro sobre a feitura de um filme, intercalado com momentos de análise e explicação técnica de cenas do seu próprio trabalho.

43091-art-angels3. Felizmente, não só de cinema viveu o meu 2015. Antes pelo contrário! Em relação à música deste ano, de entre os óptimos discos que foram saindo (o incontornável To Pimp a Butterfly, Simple Songs de Jim O’Rourke, a colaboração entre Colin Stetson e Sarah Neufeld, etc.), há um que tenho que destacar: Art Angels, da americana Grimes. Ora, não é o melhor álbum que ouvi este ano, mas apanhou-me de surpresa com o assumido ataque à pop açucarada, irrequieta, e esquizóide, e que veio para não mais me deixar em sossego. Sou agora uma vítima do poptimism que tem assolado a imprensa especializada nos últimos tempos, na senda de encontrar, no comercial e no efémero, um retrato do nosso contemporâneo (a Hotline Bling não entra nesta recensão). Não é – repito – o melhor que ouvi este ano, mas deixou-me intrigado e instigou-me a reformular a minha abordagem a certos artistas e géneros. Sempre bom.

4. Ainda na música, e numa posição diametralmente oposta à do último destaque, recupero o concerto de Oren Ambarchi, na última edição do festival Semibreve, em Braga. Mesmo sem acompanhar de perto a carreira do artista australiano, havia ouvido a sua colaboração com Jim O’Rourke, no disco Behold, e era o seu concerto que mais ansiava neste ano de Semibreve. Não me desapontou. O seu trabalho improvisacional na transfiguração (e desfiguração) da guitarra, e a edificação de algo tão intenso, energético e opulento, tudo isso foi amplamente contemplado, e escrutinado, no assalto à nossa audição durante os cerca de 50 minutos de concerto. Não sei se alguma vez conseguiu replicar essa experiência em disco. Não sei, sequer, se vale a pena tentar. Guardo a repetição da experiência para um breve futuro!

Retirado do Facebook do Gnration.
Retirado do Facebook do Gnration.

5. E já que falámos do Semibreve, quero relembrar a sessão de conversa com Hans-Joachim Röedelius, patrocinada, no âmbito do festival, pela publicação britânica The Wire. Se a mim me fascinou, e apenas o conheço há relativamente pouco tempo, imagino os que de certa forma cresceram na companhia da música dos Cluster e da electrónica que parece de outro mundo mas, não, que afinal vive bem perto, na Alemanha. Falou-nos de tudo um pouco. E foi, realmente, um ano de boas conversas: atém do alemão, é impossível esquecer-me da entrevista que fiz ao B Fachada, e muito nervosa e inexperimentemente, ao Peter Kember, ambas em Braga; e também ao Allen Halloween, que me provou ser uma das personalidades mais importantes deste último ano (a não esquecer o seu álbum Híbrido!).

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Retirado do Facebook do Gnration.

6. E tudo isto vem a propósito porque quero destacar, de uma forma mais abrangente, o último ano cultural que tivemos em Braga. Não destaco nenhum nome em particular porque me esqueceria, inevitavelmente, de alguém, mas tivemos um óptimo ano de concertos para todos os gostos e idades, além de uma série de iniciativas ligadas à música e à cultura em geral. E no âmbito do cinema, que a mim me interessa sobremaneira, foi interessante (com muita margem para mais), sobretudo devido ao trabalho realizado no Theatro Circo – pena a sessão única, e esgotada, das Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes.

©Alfred Dunhill
©Alfred Dunhill

7. Salientei algumas entrevistas, mas nem sempre uma conversa se faz de diálogo: às vezes, ganhamos muito mais se soubermos escutar. Acontece que ao longo deste último ano, explorei, a espaços, a eclética carreira do músico Brian Eno (ele fez de tudo! Basta atentar nos anos de 1977-1978), que foi convidado pela BBC Radio a conduzir uma palestra sobre a arte e a cultura, num evento de homenagem ao radialista John Peel. Ao longo de uma hora, discorreu sobre o papel da arte, da cultura, e a nossa forma de lidar com a criação artística, e tem considerações bem interessantes a fazer sobre o tema. Por vezes, neste tipo de díalogos, corre-se o perigo de os tornar herméticos e algo inacessíveis, e desta vez não aconteceu: Eno fez muito bem o seu trabalho de casa, e foi claro e divertido ao longo de toda a conversa. Foram momentos muito bem passados e, por isso, destaco-a aqui.

8. Também aconteceu de, este ano, finalmente ter abraçado algumas novas tecnologias de difusão de conteúdos, principalmente os podcasts e os e-books (tenho, finalmente, um e-reader – e não, não é um kindle). No primeiro caso, é uma consequência lógica da minha actividade em rádio, e que me ajudou a perceber (e a produzir) uma outra forma de trabalhar o áudio. Não vou à procura de programas de música – devia? há sugestões? – mas sim de programas de conversa e que saibam aproveitar as capacidades da sonoplastia. Quanto aos e-books, usufruí, sobretudo, de literatura em inglês, devido à falta de oferta: no nosso país, é um formato extremamente mal aproveitado, chegando, por vezes, ao ridículo de nos ser oferecida a versão digital mais cara que a versão física. Não se enganem: eu adoro livros em papel. O cheiro, o tacto, o peso de um livro, são insubstituíveis. Contudo, isto é algo a rever pela indústria nos próximos tempos, e oxalá seja para breve.

9. Isto leva-nos ao único destaque literário que tenho para este ano. Li algumas coisas – não tanto quanto devia – e, entre os pouco mais de dez livros (que podiam ser cem, ou mil), há um que sobressai: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Comprei-o depois de uma breve sugestão, não sei bem a propósito de quê, porque, em boa verdade, ainda não havia lido nada thomas mann montanha magicacomo a obra do alemão. E falo tanto da componente narrativa, como da própria dimensão do tomo. A premissa é simples: Hans Castorp, homem de engenharia, prático e mundano, planeia passar três semanas num sanatório onde se tratam doenças do foro respiratório, e “acaba por lá ficar sete anos, nem longos, nem breves, herméticos tão-só”. Segue-se um romance na tradição de bildungsroman, documento da passagem e da formação humana de Castorp nessa montanha. As minhas palavras, mais por parca capacidade do que risco de redundância, não lhe fazem justiça. Aprendam sobre a vida e sobre o tempo, com Castorp e Mann.

10. Para terminar, permito-me uma consideração sobre o espírito crítico que tentei desenvolver, ao longo deste último ano, na apreciação do meu consumo cultural. A cultura – e, por extensão, a arte – podem-no ser de várias formas e por vários motivos, mas dificilmente as consideraria como um meio de escape ao nosso quotidiano. A arte vive, também, da intensidade da experiência humana e, como tal, é dela indissociável. Consumi-la leva-nos sempre um passo adiante no conhecimento em relação à nossa história, e intrínsecas motivações, e, para mim, é algo demasiado valioso para   que não a tente apreender ao longo dos dias.

Este foi o meu primeiro ano de Arte-Factos, e espero ter contribuído positivamente para uma comunidade à qual nada falta para se tornar uma referência. A eles, e a vocês, um muito obrigado, e que 2016 seja tão bom, ou melhor ainda, que este último ano!

A palestra de Brian Eno sobre o papel da arte e cultura.

BrianEno_EBJohn Peel foi uma enormíssima personalidade da rádio britânica BBC, a quem muitas vezes se comparou o “nosso” António Sérgio na capacidade de trazer música diferente aos seus ouvintes. Em sua honra, a BBC organiza, anualmente, uma palestra onde convida uma personalidade musical a discutir música, ou assuntos relacionados com cultura; e para este ano, depois de nomes como Iggy Pop ou Pete Townshend, foi a vez de Brian Eno.

O artista britânico tem uma das carreiras mais importantes na história da música moderna – ou melhor, de toda a história da música -, com um contributo enorme na definição do silêncio como elemento activo, a atenção à produção da sua música, e as imensas colaborações com outros artistas. A exemplo da sua polivalência musical, basta reparar que, no ano de 1978, foi autor de um dos álbuns mais influentes da música ambientMusic For Airports 1, como foi responsável pela curadoria da compilação No New York, um dos marcos do movimento musical no-wave. E podemos também mencionar o seu trabalho como produtor de David Bowie, ou no álbum Remain In Light, dos Talking Heads.

Como tal, a palestra do último dia 27 de Setembro tinha tudo para ser algo realmente especial. E foi! Eno dedicou grande parte da sua hora ao tema da cultura e da arte. Definiu esse conceito de uma forma genial – a arte é “tudo o que não temos que fazer” – e expôs todo o consequente raciocínio de uma forma clara, envolvente, e progressivamente mais abrangente: ao longo da palestra, abordou temas como a errada percepção de que a arte e a cultura são menores, em contextos financeiros e de progresso da sociedade, em relação à ciência; da necessidade humana de recuperar a imaginação livre e recreativa da infância, através do sentimento de abstracção que, por exemplo, a leitura de um livro nos concede; a capacidade que o ser humano tem de desenvolver empatia com outras realidades de vida por meio da arte; e, para finalizar o rol de exemplos, o seu positivismo refrescante em relação ao futuro da humanidade, repleta de automação e tecnologia, onde todos serão artistas por não terem nenhuma outra necessidade mais imediata.

A gravação da conversa ficou documentada em áudio, e está, durante os próximos 22 dias, disponível em streaming no site da BBC. Podem ouvi-la aqui; se preferirem, a transcrição completa em formato texto também está online aqui. Além disso, na próxima emissão d’A Mosca, vamos recuperar alguns momentos da sua carreira, assim como alguns excertos desta sua palestra.

“When you go into a gallery, you might see a most shocking picture. But actually you can leave the gallery. When you listen to a terrifying radio play you can switch the radio off. So one of the things about art is it offers a safe place for you to have quite extreme and rather dangerous feelings.” 

A Wikipedia como ‘força do mal’.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO OBLI]

Desde a sua génese, em 2001, a Wikipedia assumiu-se como um portal de referência, e, justamente ou não, leva o rótulo de informação fiável, e de qualidade. Neste momento, é de esperar que uma qualquer pesquisa no Google devolva uma página da Wikipedia logo no primeiro resultado; para encontrar uma alternativa ao portal americano, por vezes é necessário chegar à segunda ou terceira páginas. No entanto, nos últimos anos tem havido uma crescente preocupação com a “monopolização” do conhecimento por parte da Wikipedia – uma das vozes desta oposição é a de Piero Scaruffi, “renascentista” contemporâneo, que mantém o seu website em scaruffi.com.

Levantaram-se questões relevantes. Como sabemos, a Wikipedia, ao contrário de uma enciclopédia convencional – a ferramenta que veio substituir nos tempos modernos -, é editada por qualquer pessoa, independentemente do seu grau académico e interesses pessoais; algo que não sucede na redacção de uma enciclopédia, onde há um maior escrutínio no conteúdo, e cujo processo é mais fidedigno. Um dos passos marcantes no percurso da Wikipedia deu-se em 2002, quando o seu co-fundador Larry Sanger (que, entretanto, abandonou o projecto), preocupado com o crescente amadorismo dos artigos, propôs recrutar nomes académicos para a escrita de artigos especializados. O outro co-fundador, Jimmy Wales, que agora lidera e dá a cara pelo projecto, não concordou.

Jimmy Wales diz, a dada altura, numa entrevista: “Às vezes, alguém que estudou um dado tema durante a vida inteira publica um artigo. Passado um pouco, um rapaz de 17 anos edita o artigo – na maioria das vezes, este último está correcto”. É uma constatação perigosa, que define a abordagem da Wikipedia aos longo dos últimos anos. A informação rápida (wiki significa ‘rápido’ na língua havaiana, e pedia deriva de enciclopédia) é o grande mote, e o seu lema – sum of all human knowledge – inspira uma bela imagem, embora simultaneamente utópica.

Seguindo o raciocínio, e sem resvalar para o espinhoso terreno da filosofia, recordemos o problema da verdade, que é objectiva e categórica. Será legítima a premissa deste projecto, sem o auxílio de académicos especializados? É pertinente. Ou, por outras palavras, poderá equiparar-se o conhecimento de cem pessoas, sem estudos, ao de um académico? E basta olharmos as estatísticas para ficarmos (negativamente) impressionados: se contarmos os cerca de 30.000 editores activos, um número que tem declinado cada vez mais, são mais de 4 milhões de artigos (só na língua inglesa) que precisam de manutenção. À procura da soma de todo o conhecimento humano, corremos o risco de nos enganarmos ainda mais.

Para além deste problema – atenuado quando se usa a Wikipedia como um ponto de partida, e nunca como finalidade – há um outro, de igual gravidade e também efusivo. Nos bastidores de redacção de artigos, há uma luta constante nos bastidores sem se chegar a um consenso, ou, pior ainda, um artigo redigido com apenas um ponto de vista dominante (basta pensarmos em questões sensíveis como a religião e a política). Por isso, o percurso da Wikipedia tem-se pautado por alguns maus momentos. Fora a remoção de certos artigos, mais publicitários que informativos, ou os ocasionais atritos provocados pelos artigos mais sensíveis – na língua inglesa, entre estes contam-se George W. Bush, o anarquismo, e Muhammad -, em 2005 estalou o verniz da credibilidade da Wikipedia: o estudante universitário Virgil Griffith utilizou o seu programa WikiScanner para cruzar endereços IP de editores anónimos com as sedes de várias empresas, e o seu programa devolveu imensos resultados: entre outras coisas, descobriu-se que a Apple editava a página da Microsoft e vice-versa. Até rivais políticos o faziam! (e pasmem-se: houve até, na instalações da CIA, quem se dedicasse a aperfeiçoar a página sobre lutas de lightsabers). Tudo isto apenas vem a confirmar algo que há muito se suspeitava, que a Wikipedia, por trás da idílica premissa, serve, ainda que de forma não intencional, interesses menos evidentes.

Mas tudo isto não seria problemático, caso não houvesse uma realidade maior que ultrapassa a existência da Wikipedia: cada vez mais, e parece uma característica dos tempos que vivemos, a informação torna-se efémera e pouco contestada, como se fosse refém da real intenção de quem a publica. Isto, porque muitos se satisfazem apenas com as primeiras linhas de uma notícia ou artigo; apenas uma ínfima fatia do público utiliza a Wikipedia como é suposto (consultando as devidas fontes e aprofundando a pesquisa). Por outras palavras, a manipulação (intencional, ou não) é facilitada. A verdade perdeu a sua relevância.

Para concluir, não esqueçamos as portas que este projecto conseguiu abrir. Afinal de contas, para países em desenvolvimento e de pouco acesso a uma educação própria, este tipo de páginas assume uma maior importância. Para ler superficialmente ou iniciar uma pesquisa, também serve o propósito. Por outro lado, é importante uma utilização sensata desta ferramenta. O verdadeiro conhecimento obtém-se de uma forma activa, inquisitiva, e com espírito crítico. As intenções da Wikipedia são tão nobres e bem intencionadas como utópicas. E puxando outra vez o argumento de Scaruffi, e caso a fundação Wikimedia não aja de forma mais activa na manutenção do projecto, a Wikipedia será, certamente, usada como uma “força do mal”.

Uma reflexão sobre a nossa televisão, apoiada em The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

A televisão é o meio de comunicação mais mal aproveitado no nosso país: todos os dias é-nos facultada programação da pior espécie, como são os programas de tarde da televisão generalista, vácuos em termos de informação e péssimos no que toca ao entretimento, ou, pior ainda no horário nobre, as novelas recicladas, sem chama, e que em nada se descatam das demais; o cúmulo da falta de brio e mau gosto nas grelhas televisivas nacionais tem o seu expoente nos terríveis reality shows, essência dos quais não é mais que assistir, num deleite grotesco de falsa superioridade, às trivialidades quotidianas de pessoas sem interesse nem objectivos, mesquinhas e idiotas. O desolador panorama da televisão nacional reflecte a inércia de quem não se identifica com a mediocridade dos conteúdos, como também de quem se conforma e é paulatinamente amolecido e estupidificado. Forma-se um ciclo em que todos perdem, embora uns mais que outros. A audiência televisiva portuguesa, pela falta de alternativas, sai mais prejudicada. Adiante.

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Nas últimas semanas gerou-se um burburinho em território americano, por causa da última série televisiva do canal HBO – na América, os canais são simultaneamente produtores de conteúdo, funcionando em sistema pay-per-view, um pouco à semelhança dos canais por cabo em Portugal. Desta vez, não se falou de séries como Os Sopranos, Game of Thrones ou The Wire, todas da HBO, mas de um documentário criminal realizado por Andrew Jarecki, com base na história do milionário Robert Durst. Não vou entrar em pormenores para não estragar a vossa experiência, porque, tal como escreveu Miguel Esteves Cardoso na sua crónica diária no Público, o melhor é entrar em The Jinx sem qualquer ideia do que o documentário trata. Evitamos, assim, falar do seu conteúdo, mas podemos perfeitamente abordar as suas implicações.

Por motivos evidentes a quem já viu a série, a obra de Andrew Jarecki recebeu uma fortíssima ovação – pela fantástica produção, pelo “ritmo” da história, pela conclusão do documentário – embora também houvesse uma pequena mas incisiva vaga de jornalistas (e não só) que questionaram a falaciosa linha temporal na qual os acontecimentos foram relatados; isto é, há determinados momentos no documentário, sobre os quais se tiram conclusões e se apoia a narrativa, cuja ordem de acontecimentos não corresponde ao que aconteceu na vida real. Este problema justifica-se com a necessidade de ligar eventos na história para que haja um dramatismo mais forte, embora levante uma série de questões éticas – jornalísticas e não só – às quais Jarecki terá certamente que responder. No entanto, não é esta, de todo, a minha área, e pomos este problema de lado admitindo que, pese embora The Jinx seja um marco para a televisão estadunidense, tem o seu quê de sensacionalista e corriqueiro.

“Documentary can educate. It can enlighten. But it’s also an art and the product of humans and their very real prejudices, opinions, subjectivities. It’s our responsibility to interrogate it with the same ferocity and mindfulness with which we approach any other attempt to transform the world around us into art that moves us.”  Anne Helen Petersen, sobre The Jinx: Life and Deaths of Robert Durst.

Tomando, sem pensar demasiado, este documentário pelo que ele é, temos uma das melhores e mais mediáticas produções americanas dos últimos anos, ora não fosse o país do Tio Sam o expoente máximo do bom conteúdo televisivo (e logo atrás, na sua sombra, as terras de Sua Majestade). E voltando ao assunto do início: há umas semanas, aquando da visita de João Salaviza à cidade de Braga, falou-se, entre outros, da falta de cultura filmográfica, chamemos-lhe assim, da sociedade portuguesa. O realizador, puxando obviamente a brasa à sua sardinha, reiterou a necessidade de haver bom conteúdo televisivo (e bem produzido, sobretudo) que mostrasse novos horizontes no panorama da cultura e, consequentemente, criasse espaço para o cinema português. É este o repto de quem já foi aos mais reputados festivais de cinema internacionais (entre eles, a Meca do cinema independente, o Festival de Cannes) ganhar reputadíssimos prémios.

Embora The Jinx seja, como já o disse, sensacionalista e corriqueiro, não deixa de ser uma produção cinematográfica; uma exigência televisiva da qual nos temos distanciado nos últimos anos. A oferta da televisão actual é enorme, mas parca em qualidade, e estamos viciados pela gratuidade do conteúdo que, para apelar às audiências, é necessariamente vácuo e esquizofrénico – somos, portanto, escravos do zapping. O ciclo vicioso onde nos inserimos tem consequências: sofremos nós pela falta de cultura, televisiva e não só, mas sofre também quem dela quer viver – onde se incluem escritores, actores, cineastas e músicos. Não esqueçamos, sobretudo, que a cultura é absolutamente necessária ao desenvolvimento sadio da sociedade, e a sua actual realidade é um lastimável reflexo do que vivemos como portugueses.