Ser, sendo outra pessoa: o jogo de máscaras de Jim Carrey e Andy Kaufman, por Milos Forman.

Este texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo Ponhamos as máscaras no teatro da vida, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

man-on-the-moon-5491b7b4a612e.jpgO novo ciclo que hoje inicia evoca imediatamente uma ideia que explorámos com Persona, de Ingmar Bergman — uma das mais marcantes sessões que tivemos. Com estas duas propostas, pretendemos aprofundar a ideia de personalidade flexível e indefinida; e, por hoje, centramo-nos na vida de Andy Kaufman, magistralmente interpretado por Jim Carrey.

Andy Kaufman (1949-1984) teve uma importantíssima presença na cultura americana dos anos 70 e 80. Fez muita carreira em late night shows (SNL, Letterman, etc.) e construiu actuações à volta de personalidades que criava ou emulava: o emigrante desajeitado (mais tarde Latka, em Taxi), a maravilhosa imitação de Elvis Presley, o intempestivo Tony Clifton, entre outros. Não era, segundo o próprio, um comediante; antes um “song-and-dance-man”.

Ao longo da sua carreira performativa preferiu a confusão à gargalhada, e o seu público adaptava- se a essa exposição, em bruto, de emoções primárias, incongruentes, despidas da noção crítica de serem espectáculo. Por entre as várias personagens que fazia, e as drásticas oscilações de tom dentro do mesmo acto, foi impossível descortinar o real do fictício: onde começa e termina Andy Kaufman; quão dele é verdadeiro e genuíno? Por isto, foi sempre uma personagem inclassificável na cultura americana, um alguém que sempre se esquivou à definição normativa.

Quando surgiu a possibilidade de fazer este filme, Jim Carrey entregou a sua candidatura e conseguiu o papel — certamente, um dos actores mais apropriados para representar este papel. Mas as filmagens foram intensas: Carrey insistiu em não largar a personagem em momento algum, incluindo fora das rodagens; e como no filme se recriam várias das cenas emblemáticas da carreira de Andy, há um interessante conflito entre a personagem de Jim Carrey e todos os outros actores que estiveram nas situações originais. Como se Carrey vivesse, agindo desprovido da sua própria identidade, a vida de outrem. Uma vida que, na larga parte relevante, já havia sido passada em frente às câmeras de televisão.

Esta meta-interacção é um dos factores mais interessantes de Man on the Moon, jogando nos vários níveis entre realidade e ficção; mas muitos sentiram que a verdadeira performance ocorreufora do filme, nos bastidores e no quotidiano de filmagens. Ficou tudo documentado num outro filme que entretanto estreou (produção Netflix), narrado por Jim Carrey e com amplo uso de imagens dos bastidores: Jim & Andy: The Great Beyond (2017), que completa o filme de Milos Forman.

Os anos passam, mas a presença de Andy Kaufman, e a indelével influência das suas rotinas, são ainda uma inspiração e uma referência em muitos projectos que se afirmam como vanguardistas, sobretudo no meio televisivo. Recuperamo-lo hoje, com a ajuda de Jim Carrey.

Van Dyke & Company

 

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