O romântico segundo Les Parapluies de Cherbourg.

Este texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo Porque Jorrais de Mim Lágrimas, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

Les_Parapluies_De_Cherbourg_ae85490b-7331-4634-99c7-0ae7149fc741Depois do caos, paranóia e absurdidade dos dois primeiros filmes, mudámos radicalmente. De país, de continente, de estética, e de ideais. Para trás, ficam os Estados Unidos e o sonho que permeia o universo de Hollywood; chegamos à França, década de 60, fustigada pela ideia da guerra na Argélia e embebida numa ideia de cinema tradicionalmente mais realista que o Americano.

São considerações a ter em conta no cinema de Jacques Demy, que nos traz Les Parapluies de Cherbourg, cujo argumento escreveu e realizou, lançado no ano de 1964. É a história de Geneviève e Guy, um jovem casal apaixonado que pretende ficar junto para sempre, num universo musical onde tudo – tudo! – se canta. Não é maravilhoso? É, pois. Demy, um enorme aficcionado do musical americano, acreditou ser possível transladar o sonho para a Europa, provando que o feito não é exclusivo de Hollywood.

Ora, o filme alude, por exemplo, à magia de Singin’ in the Rain – como não pensar nos guardas-chuvas como tema comum? – e adopta, prolongando até para lá do habitual, a entrega ao imaginário do filme romântico. Pensar num musical é, antes de mais, estabelecer novas regras para o mundo que nos chega, onde não se estranha que se fale a cantar, que todos sorriam e dancem, que os problemas se resolvam com uma bela canção. Tudo isso e mais ainda acontece em Les Parapluies de Cherbourg, mas com um twist que denuncia não estarmos em território de Hollywood: quando a turbulenta realidade da guerra irrompe pelo sonho adentro, nem a música nem o sonho salvam o amor. É cruel – mas é mesmo assim a vida.

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Catherine Deneuve e a sua irmã Françoise Dorléac, no set de Les Demoiselles de Rochefort com Gene Kelly.

O cinema de Demy é, portanto, um cinema agridoce. Evoca o romantismo americano e adapta-o à tradição europeia (nem sempre: Les Demoiselles de Rochefort (1967) é puro e inocente, e é possivelmente o melhor musical francês), sendo mestre na arte de criar o sonho e de explorar os seus limites. Amores desencontrados, a guerra, a conquista do sonho: temas recorrentes do seu cinema que aqui são condensados. Mais: atente-se nas cores garridas, nos belíssimos cenários, na orquestração de Michel Legrand, que contribuem para que este seja um dos mais depurados objectos estéticos do cinema.

Um último pormenor revela-nos a cândida visão que Demy teve para o seu cinema. Várias das suas personagens existem em continuidade nos seus vários filmes: Lola existe em Lola, pois claro, mas também tangencialmente em Les Parapluies de Cherbourg, mencionada por Roland Cassard (de Lola também), e volta a aparecer em Model Shop, anos mais tarde e já em território americano. Como se, na verdade, as suas personagens vivessem fora do ecrã, Demy convida-nos a imaginar que nós, também, fazemos parte de um filme enorme, grandioso, um pouco ridículo mas profundamente apaixonante.

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Jacques Demy num dos seus icónicos locais de filmagem, presente em Lola e, mais tarde, em Les Parapluies de Cherbourg.

mais sobre Les Parapluies de Cherbourg: O sonho em La La Land, uma carta de amor ao cinema romântico.

 

A semana em cinema (24 de fev a 04 de mar)

Serve esta crónica para documentar os filmes que vi na última semana. Assim, perpetuo-os além da minha memória, e em mais do entradas no diário cinematográfico que mantenho. Alguns destes filmes – senão todos – mereceriam um destaque único; mas não acredito que lhes dedicasse o tempo necessário, e acabariam por ser esquecidos. E mais, não houve nenhum critério que unificasse estes quatro filmes, pelo que foram escolhas razoavelmente soltas e aleatórias.

belle_de_jour_xlg.jpgBelle de Jour (Luís Buñuel, 1967) – Quando se pensa em Buñuel, é inevitável a desconfortável imagem de um olho atravessado por uma lâmina; é a cena marcante do seu Un Chien Andalou (1927), a colaboração surrealista em curta metragem entre Buñuel e Salvador Dali. Depois, há ainda El ángel exterminador (1962), já em longa, um desconcertante retrato de uma noite na casa da alta burguesia. A sua narrativa é simples, mas sustentada num mundo fantástico: os convidados não podem sair da sala por acção de uma força fantástica e inexplicável que os mantém presos naquele serão absurdo. Nada parece fazer grande sentido, mas deixamo-nos ficar. Quanto a Belle de Jour – que tem Catherine Deneuve no papel principal, uma das mais encantadoras actrizes francesas de sempre, e que no mesmo ano estivera em Les Demoiselles de Rochefort -, chega, mostra-se, e parte outra vez sem nunca explicar as ambiguidades da narrativa, e, em consequência, não nos permite distinguir o real do surreal; e entre esses dois estados, dividido entre os dois, fica o plano onírico, o teatro dos sonhos, porventura a grande chave para este filme. Deneuve interpreta Séverine, uma cândida recém casada, esposa de um médico proeminente, a quem não concede o toque físico, íntimo, e muito menos o sexual; mas o seu amor, esse, é incondicional. Mas depois de um almoço com o marido e uma amiga, onde encontram Henri Husson, um indivíduo desbocado e impulsivo que lhe provoca uma estranha repulsa, ela muda, como se influenciada pela estranha invectiva deste homem. Evitá-lo-á (mesmo depois de este lhe mandar flores a casa) até ao dia em que este lhe fala de um bordel; e convida-a, e ela pondera, e vai: e se, durante toda a vida, se chamou Séverine, será agora, durante a tarde, Belle de Jour. Toda a narrativa parece impregnada do tal surrealismo, sobretudo na veleidade das acções de Séverine. Mas Belle de Jour, o filme, carece de uma segunda visualização, onde se tornam evidentes os truques e manhas que Buñuel nos atira, intercalados na acção, por forma de desejos, fantasias, e reminiscências de Séverine. E talvez tenhamos uma resposta à pergunta, o que é real, no filme? E isso importa, sequer? Pelo meio, fica o cliente chinês, com a sua estranha proposta; o milionário que a contrata para simular um velório; a cadeira de rodas que o seu marido contempla, deixada ao abandono no meio do passeio, já perto do final do filme: é real, ou uma intromissão do real no sonho – e, se sim, quais as suas implicações em tudo o que se passa antes? Mesmo que estas questões não nos interessem, Belle du Jour vale por Deneuve, que o carrega, e por todo o espectáculo erótico, onírico, até existencial, que Buñuel orquestra em seu redor.

edge_of_seventeenThe Edge of Seventeen (Kelly Fremon Craig, 2016) – The Edge of Seventeen é um filme que não chegou ainda a Portugal, mas cuja crítica internacional, sobejamente positiva, o tornou interessante. O filme revolve à volta de Nadine, a típica personagem da narrativa coming-of-age: uma adolescência incompreendida, o isolamento em relação aos seus pares, e a necessidade de afirmar a sua individualidade. E tudo isto consta em The Edge of Seventeen, pelo que não inova nesse campo – se é que inova em um qualquer outro, além de ter sido escrito e realizado por uma mulher, o que não é muito habitual, e talvez explique o seu ponto de vista extremamente feminino, proeminente até bem além da primeira metade do filme – uma longa analepse, que contextualiza a acção presente – onde Nadine é o eixo de virtualmente todas as cenas: aqui descobrimos o trauma da morte do seu pai, o maior confidente, e a consequente alienação no seio da própria família, enquanto a melhor amiga namora o seu irmão e a mãe se recompõe da solidão com encontros desastrosos no OkCupid. O guião do filme oscila permanentemente entre a comédia (nos diálogos, nas expressões, nas situações) e a tensão dramática subjacente aos dados que nos foram lançados; simultaneamente, envolvemo-nos emocionalmente com a sua personagem principal – e talvez o filme dependa dessa relação, que vem preparando desde o início. De resto, talvez o seu final não seja brilhante, mas, chegando a este ponto, já fruímos de muito o que o filme oferece. The Edge of Seventeen não traz nada de especialmente novo ao cinema, mas é um exercício divertido e uma lufada de ar fresco no circuito mais comercial. Fica um último destaque para o nome mais mediático do elenco, Woody Harrelson, a quem o papel encaixa que nem uma luva.

The_Last_Picture_Show_(movie_poster).jpgThe Last Picture Show (Peter Bogdanovich, 1971) – Mais um coming-of-age, mas, este, de um outro campeonato (e tem ainda Jeff Bridges, e Cybil Shepard!). Situado na América do interior, numa vila pacata do estado do Texas, filmou-se os anos 50 à luz da década de 70. A câmera gira sempre à volta de Sonny, um dos miúdos da vila, ao longo de eventos cuja relevância não vai além de serem pequenos excertos de vida. A escola secundária está a acabar; viaja-se no automóvel dos pais, fazem-se bailes com toda a vila, pensa-se o futuro com a incerteza de quem nem no presente tem segurança. Tudo isto, sem que notemos uma qualquer especial linha narrativa – porventura, porque nada de especial acontece nestes quotidianos – embora não seja esta razão para enganos: é assim que conhecemos a vila, as suas pessoas e lugares, e as convolutas dinâmicas entre eles. Em The Last Picture Show, há histórias por contar e outras que a custo se revelam, que se estendem bem para lá do Texas do meio do século. Este filme parte de uma adaptação literária, e, talvez assim se explique a sua extraordinária riqueza. A rever, num futuro breve.

b6d6c77779d6d0f9cc19b85dcc3fe7cd.jpgClose-Up (Abbas Kiarostami, 1990) E, para terminar a semana, um dos filmes que há mais tempo estava pendente na minha infindável lista. É um estranho exercício de realismo. O filme propõe-se a gravar o julgamento de Hossain Sabzian, que no final da década de 80 foi apanhado a fazer-se passar por Makhmalbaf , um realizador iraniano, para se imiscuir no seio de uma família que o acolheu. Portanto, é um documentário na medida em que filma acontecimentos reais – e, neste caso, até de índole criminal. Por outro lado, Kiarostami pediu a todos os intervenientes do crime que recriassem, mas desta vez para as câmeras, tudo o que havia despoletado a situação. E, aí, passamos à esfera da ficção. É mesmo um estranho, embora muito interessante, exercício que oscila entre o documentário e a ficção. Caso queiram arriscar, façam-no: é mais um do tipo de filmes que ficam connosco bem além de terem acabado.