Caminhos levantados por Infinite Jest, o titânico, infinito entretenimento de David Foster Wallace.

Artigo publicado originalmente na 10º edição do log/CeSIUM, a revista do CeSIUM – Centro de Estudantes de Engenharia Informática da Universidade do Minho.

iu-2.jpegNão me recordo da primeira vez que ouvi falar de Infinite Jest, o titânico e  hermético livro publicado no final do sec. XX – não foi assim há tanto tempo, 1996 – nos Estados Unidos da América. São cerca de mil páginas em letra miúda, que a edição original da  Little, Brown and Company reúne num objecto grosseiramente adequado à leitura casual; na sua capa, uma fotografia de belos exemplares de nuvens que contrastam o azul do céu e lhe conferem uma aparência sóbria e digna; a sua natureza e propósito são parte stock photo, parte meditação existencial. Infinite Jest – ou A Piada Infinita, com uma excelente tradução e edição no nosso português pela Quetzal – desdobra-se em significados a que alude o seu título: uma história irónica e levemente humorística, cíclica e enciclopédica, em mordaz comentário à estranha América dos nineties.

O seu autor, David Foster Wallace, é recordado pelo estilo cínico e estranhamente cerebral, capaz de um distanciamento descritivo notável. Pois bem, a sua carreira edificou-se não no registo de romance mas no domínio do ensaio, onde, desse período, há textos que se emanciparam da restante obra: por exemplo, um que escreveu sobre o apelo estético do jogo de Roger Federer (o ténis era uma das obsessões do autor), ou até o famosíssimo discurso na universidade americana Kenyon College, This is Water, dirigido aos alunos que graduaram no ano de 2005: uma miríade de conselhos para uma vida melhor, sob a forma de parábolas e hipotéticas situações quotidianas, inserida no contexto social e económico americano. 

Neste discurso, entretanto editado num formato de livro de bolso, a reflexão começa em torno da conversa entre dois peixes: “como está a água?”, pergunta um a seu amigo. A pergunta assalta-o, pela sua estranheza, e prontamente é desbloqueada uma torrencial linha de pensamento sobre uma necessária consciência para tudo o que constitui a nossa vida imediata, passada agora entre centros comerciais, urgências temporais, e experiências que são profundamente alienantes em relação à nossa natureza humana. Todas estas preocupações estão resumidas num excerto do texto que sintetiza várias dimensões da preocupação fosteriana: 

None of this is about morality, or religion, or dogma, or big fancy questions of life after death. The capital-T Truth is about life before death. It is about making it to thirty, or maybe fifty, without wanting to shoot yourself in the head. It is about simple awareness — awareness of what is so real and essential, so hidden in plain sight all around us, that we have to keep reminding ourselves, over and over: “This is water, this is water.

É a conclusão de uma amálgama de considerações estranhamente prescientes do geist do presente século, pese embora todas as pistas dadas por uma modernização tecnológica da qual Foster Wallace foi testemunha: sentiu o poder hipnótico e voyeurístico da televisão (uma atracção que entretanto se transladou para as redes sociais); foi a tempo de viver a internet – embora não a internet na qual essa primeira se transformou; e estudou, com desconfiança e distanciamento, a necessidade de apaziguamento consumista da cultura ocidental. Acima de tudo, identificou com perspicácia o tédio moderno, e a indústria do entretenimento como um vício nefasto para o suprimir. 

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Aquando do seu lançamento, Infinite Jest prontamente caiu no goto dos seus tempos e foi assimilado tanto pela crítica como pelo seu público. Os boards da internet elevaram-no a um estatuto de objecto mitológico, e foi amplamente dissecado, relido e discutido à luz de uma tradição literária carregada por Thomas Pynchon e pelo irlandês James Joyce. É certo que a obra adopta alguns traços do pós-modernismo literário — como sejam a abstracção de uma temporalidade linear, ou a multiplicidade de pontos de vista narrativos e informação concatenada — mas é na própria estrutura que reside a sua mais proeminente característica, porventura uma influência da embriónica internet: a exagerada (e frequentemente frustrante) hipertextualidade, cuja função é unir uma miríade de ideias justapostas sem necessária linearidade consequencial, e que remete num qualquer dado momento para vários outros pontos da obra.

Neste exercício de abundante produção literária, Foster Wallace chegou a ideias especialmente prescientes e reveladoras tanto da natureza humana que lhe era contemporânea, como de uma natural evolução que se deu nos últimos anos. A dada altura na obra, descreve com pormenor um sistema de videochamada recentemente implementado neste universo; a tecnologia e hábitos da sua utilização chegam-nos narrados na sua característica prosa coloquial; e escalando lenta e assertivamente o nível de absurdidade – embora, para nós infelizmente, ainda distante da inverosimilhança -, relata de que forma o sistema evoluiu e seguidamente implodiu, munido da força analítica e meticulosa que lhe conhecíamos dos seus ensaios. Descreveu, em 1996, toda a influência da obsessão com a nossa representação digital, a propagação de avatares, a crescente alienação da imagem do eu. Esta é uma obra, como disse, perpassada por ironia e cinismo, como se todas as vidas fossem representadas sob a sombra de uma latente melancolia existencial.

Neste universo, declaradamente distópico e absurdo, habita um rol de personagens densas e tridimensionais, grande parte delas dependente de algo e virtualmente todas a braços com as vicissitudes da vida contemporânea. A sociedade do consumo e do entretenimento é palco de fundo para Hal Incandenza, um adolescente exímio no ténis mas viciado em erva; para Don Gately, um intimidante ex-criminoso entretanto frequentador dos Alcoólicos Anónimos; para Joelle Van Dyne, uma jovem radialista cuja face é tão impressionante que a cobre de um véu opaco para que nunca lha possam ver. Aqui, os Estados Unidos já não existem — toda a América do Norte passa a ser uma enorme federação —, os anos deixam de se contar pela ordem gregoriana porque são agora patrocinados por grandes empresas, e há um diabólico grupo terrorista, de pretensões separatistas em relação ao Quebéc e a  mencionada federação, que aterroriza a ordem geopolítica e planeia alienar toda a população americana com uma mortalmente eficaz forma de entretenimento: um vídeo tão absurdamente cativante que retém ad aeternum a atenção de quem o vê — uma  megalómana maquinação à qual Infinite Jest, no fundo, não é totalmente alheia. 

Mas há ainda um aspecto relevante para explicar uma relativa perenidade da obra, e das ideias do seu autor, nos cânones literários: a relação formal com as correntes que o precedem, das quais assinalo especialmente o pós-modernismo, um género de escrita largamente característico do século XX e do qual podemos tomar como exemplo Slaughterhouse Five, de Vonnegut, ou Catch-22, de Joseph Heller (que comungam na representação da guerra). Foster Wallace identificou o sentimento irónico que perpassa grande parte desta produção literária, e que sustenta o distanciamento quanto às (frequentemente absurdas) agruras da vida; mais ainda, apontou a nossa dependência da ironia como forma de lidar com a vida. Num seu ensaio de 1993, “E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction”, escreveu: “The next real literary “rebels” in this country might well emerge as some weird bunch of anti-rebels, born oglers who dare somehow to back away from ironic watching, […] who treat of plain old untrendy human troubles and emotions in U.S. life with reverence and conviction. Who eschew self-consciousness and hip fatigue.” É à luz desta ideia que podemos reconsiderar a sua obra: o eu fragmentado, existencialmente fatigado, amplamente explorado na literatura pós-moderna como desajustado do sentido da vida, existe em Infinite Jest não como um indivíduo repartido e desagregado, mas como um conjunto de individualidades validadas por si só, especiais e únicas, singularmente afirmadas e enredadas numa imperfeita tapeçaria humana. O distanciamento emocional dá lugar a uma arrebatadora sinceridade.

Foster Wallace preconizou, então, um possível futuro para a arte que reflecte e reage em função de um paradigma existencial que se alterou nas últimas décadas. Vivemos mais depressa, e mais deslocados. Consumimos e deixamo-nos consumir. Reagimos com distância emocional, e rodeamo-nos de muletas significantes que nos auxiliam e toldam a percepção e interacção com o mundo (o vaporwave, por exemplo, permitiu-nos chegar a termos com a experiência consumista em massa; os memes envolvem-nos em meta-referências que nos recordam, a todo o momento, da transversalidade das ideias cibernéticas; as redes sociais permitem-nos, finalmente, controlar a percepção exterior de nós próprios). Recuperamos This is Water, e é evidente a pouca ortodoxia e o pessimismo latente do discurso do autor aos recém-graduados; há a sempre presente preocupação não com a forma de viver a vida, mas como suportar a vida. O fardo da consciência é um dado inescapável; cabe-nos a nós saber lidar com as suas imposições. E é assim que, neste caminho alternativo a Infinite Jest, damos de caras com esta espécie de tragédia da consciência moderna – uma à qual, em última instância, Foster Wallace renunciou.

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