A fantasia onírica de Fellini, tanto inocente como provocador; declaração sincera, autobiográfica.

Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo A verdade, só a verdade e nada mais que a verdade, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

8_1_2_otto_e_mezzo-307830622-large.jpgHoje terminamos mais um ciclo, que lida directamente com o conceito de realidade fílmica: a veracidade das imagens que se nos apresentam, a sua coerência quanto a uma narrativa central, ou, no fundo, a fronteira entre sonho e realidade. , literalmente o oitavo (e meio) filme de Federico Fellini, é uma experiência que ignora os limites entre as três categorias que, segundo o italiano, a mente humana habita: são elas o passado, o presente, e o condicional.

Este último domínio de fabricação criativa é uma das características centrais do filme, por tão importante se assumir na estrutura narrativa de Otto e Mezzo; as cenas fluem ligadas por associações livres, ou por simples capricho, e caberá ao espectador entender – ou ignorar, sorvendo a imagem em bruto – o motivo destas transições. O contacto com o mundo e a linguagem dos sonhos é imenso, e turva a compreensão imediata deste filme.

Antes de , houve ainda La Dolce Vita (1960), e ambos integram um trajecto que alienou muitos dos admiradores do italiano; os que conheceram Fellini como um integrante da corrente neo-realista italiana — que versava, essencialmente, sobre retratos realistas e socialmente conscientes dos estratos mais pobres da Itália pós-guerra — e que notaram o seu progressivo afastamento. Esse movimento de rejeição dos trâmites estritamente realistas da representação é semelhante (embora não equivalente) ao de um outro brilhante cineasta italiano, Michelangelo Antonioni. Chamemos-lhe progresso em direcção a outros campos estéticos.

Por este motivo, a obra de Fellini tem uma gradual cisão entre o real definitivo, e o real profanado pelos vários outros universos possíveis da experiência humana: abriu as portas donde jorra o universo onírico e fantasioso, que permite representações de medo, de ansiedade, de desejo, de formas mais intuitivas e menos explícitas.

Otto e Mezzo, em particular, reflecte de uma forma muito directa a vida do próprio Fellini. A braços com a pressão de produzir mais um filme, e desprovido de ideias ou de um rumo criativo, sentiu-se perdido, e ansioso, duvidando da sua própria função e capacidade como artista. Otto e Mezzo é a história de um cineasta nestes termos. Guido não é Fellini, mas há muito de Fellini no filme, por ser seu autor e produtor de todas as ideias e cenas que nos são apresentadas. Close-up iludiu-nos quanto à verdade do filme; ilude-nos quanto a isso também, e todo o resto.

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