A verdade da câmera e dos momentos: o realizador como instigador de perdão e arrependimento, num amplo retrato do Irão.

iur.jpegEste texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo A verdade, só a verdade e nada mais que a verdade, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

O novo ciclo que hoje começamos lida directamente com uma das questões mais interessantes do estudo fílmico. Porque o cinema é imagem — e a imagem não mente — consideramo-lo um dos registos de veículo de verdade mais fidedignos que conhecemos. Veremos, em Close-up, o quão manipuladora uma imagem pode ser; e, em simultâneo, confirmaremos a poderosa força emocional de uma simples cena.

Close-up é uma história muito singular de entre todo o cânone do cinema mundial. Conta Kiarostami, seu realizador, que soube da narrativa motriz através de uma pequena coluna num jornal: uma entrevista com alguém que se fez passar por um cineasta junto de uma família incauta. A motivação por trás desta acção interessou-o profundamente, e deu nota ao seu produtor de que queria explorar essa situação. E início de tudo dá-se numa visita à prisão, quando, pela primeira vez, Kiarostami fala com o prevaricador Hossain Sabzian; toda a cena foi captada pelas câmeras e está presente no filme. Nesse sentido, é captada uma acção genuína; real, se preferirmos.

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Mas a definição deste filme turva-se em virtualmente todos os momentos — é documentário? É ficção? O acordo entre Kiarostami, Sabzian e a família visada pressupôs voltar a filmar todas as interacções relevantes para contar a história. Por isso, reencenou-se, por exemplo, o primeiro encontro de Sabzian com a matriarca, num autocarro, e muitas outras situações. Foi durante o planeamento desses momento que Kiarostami se apercebeu da dificuldade em filmar histórias passadas, porque cada um tinha a sua versão dos factos; o que constitui, para todos os efeitos, uma verdade própria.
Por isso, uma das evidências será que é impossível filmar (genuinamente) histórias passadas. Mas Kiarostami leva-nos mais longe: é impossível desconsiderar o papel activo de um realizador no enquadramento da realidade que capta, profanando-a. A dada altura no filme, está numa posição de interferência directa no julgamento de Sabzian — e fá-lo no papel de cineasta, intervindo numa acção civil. É um dos momentos centrais do filme, que nos traz realidade em bruto dentro de tanta outra fabricação.

Além disto, Abbas Kiarostami é um realizador que tem um papel importantíssimo no cinema iraniano (um que hoje, infelizmente, não poderemos explorar). Mas ficamos com Close-up. Significa, no jargão cinematográfico, a técnica de enquadrar uma face na totalidade da tela; sentimo-nos mais próximos e íntimos da personagem. Esta é uma outra forma de manipulação. O cinema está cheio delas. O cinema, muito dificilmente, poderá ser realidade. Ou é demasiada realidade? São questões que nos assolam durante e após este filme, que merece e obriga a visualizações repetidas.

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