O abismo moral a partir da face; um ensaio surreal sobre identidade, violência e amor.

Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo Ponhamos as máscaras no teatro da vida, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

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Capa de Tanin No Kao (1966) na edição da Criterion.

Este ciclo termina com um dos mais fascinantes realizadores japoneses. Hiroshi Teshigahara (1927-2001), embora com uma não muito prolífica carreira, deixou uma mão cheia de obras que, em simultâneo, se enraízam profundamente na cultura japonesa como apontam a novas direcções, sejam elas o Ocidente ou a arte experimental de vanguarda.

Em retrospectiva, identifica-se uma ténue ligação entre vários cineastas – entre eles, Teshigahara – que terão constituído uma espécie de nouvelle vague japonesa. Se pensarmos na sua congénere francesa, alguns motivos comuns são evidentes. A vontade de experimentar formalmente, assim como a renúncia ao estilo e convenções anteriores, já seriam, por si só, argumento a seu favor; mas há ainda uma sensibilidade especial partilhada que advirá das consequências da Segunda Grande Guerra.

Esse tema é directamente evocado durante o filme, mas os problemas de identidade são, em Teshigahara, mais profundos (vão além da identidade japonesa, como nação); e produziu uma excelente tetralogia envolvendo essa questão. Daí nos chega Tanin No Kao, em estreita colaboração com Kobo Abe, autor do livro original e co-argumentista do filme, e Toru Takemitsu, músico que compôs a banda sonora (em boa verdade, ambos participaram em mais processos do filme, mas assim ficaram creditados).

A ideia de moralidade é imediatamente abordada, quando a personagem principal — cuja cara se esconde, por estar desfigurada — fantasia com o papel do indivíduo na sociedade. Se a mulher teve um papel importante em certo cinema japonês (no de Ozu, por exemplo, como parte da tradicional estrutura familiar), aqui apresenta-se emancipada e independente, no que constitui uma modernização do seu retrato. O filme é profundamente simbólico, no seu jogo de espelhos, reflexos e duplicidades (ou duplicações), e cheio de diálogos riquíssimos; muito dificilmente se revelará totalmente à primeira visualização.

A história do cinema japonês fica incompleta sem uma menção a Teshigahara, que produziu uma série de obras únicas; mas a mais ampla história do medium, assim como todos os cinéfilos que apenas agora o descobrem, ficam-lhe gratos pelo seu trabalho. É um cinema meticuloso e forte, contido, profundo. Os seus filmes são experiências e é mesmo assim que gostamos do nosso cinema.

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Para explorar mais caminhos sugeridos pelo ciclo:

Suna no Onna (The Woman in the Dunes, 1964) | outro filme obrigatório de Teshigahara, intensíssimo, erótico, visceral, um portento;
Persona (Ingmar Bergman, 1966) | uma associação imediata – curiosamente, ambos são do mesmo ano;
Les Yeux Sans Visage (Georges Franju, 1960)| a face é um factor comum, e é um dos filmes mais singulares do cinema francês;
Tetsuo (Shin’ya Tsukamoto, 1989) | sugestão do público da sessão! ainda dentro do cinema japonês, a tender para mais visceralidade.

 

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