A paranóia e o isolamento; um homem de vidro como projectado por Ford Coppola.

Este texto serviu de folha de sala para a segunda sessão do ciclo A palavra é de prata e abunda riqueza, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

“I think I want to do a film about eavesdropping and privacy, and I want to make it about the guy who does it rather than about the people it’s being done to”. Francis Ford Coppola, sobre The Conversation.

Francis Ford Coppola é um dos mais reverenciados realizadores americanos, e na sua eclética filmografia destaca-se automaticamente The Godfather, megalómana produção e justamente um dos destaques da Hollywood dos anos 70. Foi, no entanto, um agridoce acidente: Ford Coppola fê-lo apenas pelo dinheiro (e recebeu muito), endividou-se mais tarde (geriu-o mal), e hoje assume que o caminho dos grandes estúdios o separou dos filmes “pessoais”, que sempre preferiu. Trabalhos como The Rain People (1969), ou este The Conversation.

A ideia geradora do filme partiu de uma conversa com um amigo – “sabias que hoje se podem gravar conversas com microfones à distância?” – e que deu origem, precisamente, à sua primeira cena. Harry Caul, aqui magistralmente interpretado por Gene Hackman, é um detective privado contratado para gravar conversas, e fá-lo com mestria. A invasão da privacidade que o seu trabalho acarreta pesa-lhe na consciência, e ele próprio é um irremediável paranóico — mesmo que a sua vida pessoal seja praticamente inexistente.

Ford Coppola viu aí um problema: a personagem de Hackman será talvez demasiado aborrecida para sustentar a narrativa. Soube corrigir-se. Se é um filme “pessoal”, como categoriza Ford Coppola, é-o porque acima de tudo se traça um finíssimo retrato dum homem alienado, mas a partir de terreno familiar: Harry Caul é, em vários momentos, demarcado a partir da vida do próprio realizador, que é simultaneamente argumentista de The Conversation. Os momentos de fraqueza, ou de alguma vulnerabilidade emocional por parte de Caul, são roubados directamente à vida de Ford Coppola; tudo o resto é construção silenciosa e metódica — repetitiva.

O filme construir-se-á nesse processo de repetição. A fita gravada com diálogo entre duas vozes ouve-se uma e outra vez, mas nunca da mesma forma — aqui, a referência ao problema perceptivo em Blow-Up (1966, já referenciado em Slacker), de Antonioni, é evidente. Mas a vida continua enquanto tudo o resto acontece. Caul não pode ser apenas um agente passivo, porque tem que viver também, e a poderosa engrenagem que requisitou as gravações promete consequências para breve. O detective resolver-se-á algures entre o seu profissionalismo e a sua consciência.

(…mas o que aconteceu, de facto, aqui?)

The Conversation é a história de um detective privado que escuta as vidas dos outros, sem a possibilidade de viver a sua própria. Mais do que um filme de espionagem, ou um devaneio de teor orwelliano, é um retrato de uma individualidade fragmentada, onde cada um de nós poderá rever parte de si.

 

The-Conversation-Francis-Ford-Coppola-Gene-Hackman
Ford Coppola e Hackman nas filmagens de The Conversation.

Para explorar mais caminhos sugeridos por de The Conversation:

Blow-Up (M. Antonioni, 1966) | o clássico (mais pausado e cerebral) que desbravou caminho, temática e estilisticamente, para The Conversation;
Blow Out (Brian De Palma, 1981) | uma demarcação do tema presente em The Conversation, aplicado ao thriller;
Marty (Delbert Mann, 1955) | escrito por Paddy Chayefsky (que já conhecemos de Network), para um retrato de um homem alienado e solitário, num outro contexto formal;
Dog Day Afternoon (Sidney Lumet, 1978) | um exercício de tensão e paciência, completíssimo, com Al Pacino e John Cazale (que vimos em The Conversation, também);
Rear Window (Alfred Hitchcock, 1954) | um absoluto clássico e um marco do cinema voyeurístico – e um poderoso tratado sobre tensão, desejo, individualidade.
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