Filmar o mundano e, portanto, a vida; Linklater e a sua estética do banal.

Este texto serviu de folha de sala para a primeira sessão do ciclo A palavra é de prata e abunda riqueza, organizado pel’A Mosca com o apoio da Escola de Ciências da Universidade do Minho.

Para iniciar um novo ciclo, deixamos para trás o território europeu — prolífico no arrojo formal, nas ideias sobre a própria identidade do cinema —, e seguimos uma outra vez para o continente americano. Estamos no sul do país, em Austin, capital do Texas; dobrámos a década – 1990, o primeiro de dez anos essenciais na nossa história moderna -, e há uma vontade, enorme, de fazer cinema.

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Fazer cinema, e fazê-lo porque se pode: se assinalámos que a geração do ciclo anterior havia sido a primeira a crescer com o cinema, foi apenas na seguinte que o filme ficou verdadeiramente acessível — porque ao contrário de outros mediums, o cinema depende do financiamento, e a capacidade de realizar ou não um filme residiu, outrora, na disponibilidade de uma produtora. Slacker tornou-se uma das mais determinantes produções americanas muito pelo simbólico orçamento que reuniu: apenas cerca de $20.000, uma irrisória quantia quando comparada com virtualmente qualquer filme de um estúdio.

Neste filme, cristalizou-se uma estética que parte do seminal My Dinner With André (de Louis Malle, 1981; literalmente, dois amigos que conversam ao jantar, durante duas horas — e extraordinariamente interessante!) e passa pelas deambulações comico-existenciais de Seinfeld, o “show about nothing”; nesse sentido, Slacker não é verdadeiramente uma inovação (a própria estrutura narrativa, que segue sem compromisso várias situações, poderá associar-se a Le Fantôme de la Liberté, de Buñuel, 1974), sendo antes um objecto de várias valências, um conjunto de ideias cujo total é maior e mais completo que a soma das suas partes.

A maior parte do elenco é constituída por gente de Austin, predominantemente músicos e outros artistas; e os diálogos, embora previamente escritos, foram-no em colaboração entre Linklater e os seus actores. Estabelece-se, assim, um particular realismo que capta o ethos de uma época e de uma geografia, parte-documentário de indivíduos slackers, definidos por Linklater como

“pessoas que rejeitam a sociedade antes que a sociedade os rejeite a elas; pessoas que, em última análise, são responsáveis por elas próprias, e não desperdiçam o seu tempo em domínios que nada têm a ver com o que elas são, nem com o que podem almejar vir a ser um dia”.

Assim, fica patente uma homenagem a um modo de estar na vida, e a uma especial forma de ver e estar no mundo que é transversal a grande parte do cinema de Linklater: a predilecção pelo diálogo e situações mundanas, o dia-na-vida, a importância dos sonhos, a liberdade narrativa. Depois de Slacker, produzirá filmes essenciais como a mágica trilogia Before, o surreal Waking Life, e o inolvidável, amplamente propenso à citação Dazed and Confused. Linklater especializou-se a filmar o banal e é também para isso que se inventou o cinema.

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Para explorar mais caminhos que precedem e se descobriram depois de Slacker:

Before Sunrise (R. Linklater, 1995) | a devoção à longa conversa num contexto a dois;
Waking Life (R. Linklater, 2001) | a estrutura narrativa de Slacker aplicada aos sonhos, e tematicamente mais coerente;
Diner (Barry Levinson, 1982) | um grupo de amigos e as suas relações, plotless, mas extraordinariamente divertido;
My Dinner With André (Louis Malle, 1981) | o diálogo como (quase) única dinâmica do filme, e próximo de alguma filosofia;
Le Feu Follet (Louis Malle, 1963) | o desespero racional na procura dum sentido na vida, em mais um belíssimo filme de Louis Malle;
Gummo (Harmony Korine, 1997) | mais fragmentado, mais experimental, mais intenso – um dos inclassificáveis da década de 90.

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