Música dentro do muro: Michael Rother sobre si próprio.

[ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE; FOTOGRAFIA DE HENRIQUE ALMEIDA; EM SUMA, UM DOS MAIS BONITOS MOMENTOS DA VIDA DA MOSCA]

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Pensemos na Alemanha do início dos anos 70, ainda separada entre Este e Oeste como consequência da Segunda Grande Guerra. Um país separado no seu coração geográfico, Berlim; um povo dividido, sujeito a diferentes governos e influências. É, também, uma época especial por ter sido um pequeno micro-cosmos de excelente música, um caldeirão criativo que fervilhava em pequenas bandas e projectos artísticos. Se hoje, com reverência, falamos dos Kraftwerk, grupo seminal da electrónica, dos Can, dos NEU!, ou dos Faust – alicerces que ainda hoje são aproveitados, apreendidos e reciclados pelas novas gerações -, devemo-lo a um fenómeno que ultrapassa o simples acaso. Na altura, o frenesim não permitia apurar a singular importância do que se passava; a crítica britânica, vítima de uma falácia provocada pelo distanciamento à origem, chamar-lhes-ia a todos eles krautrock, uma piada (de algum mau gosto) que pegou e hoje designa genericamente os projectos alemães desse período sem grande utilidade na classificação da sua estética musical (que tão distinta é entre, por exemplo, uns NEU! e uns Popol Vuh).

Por isso, quando nos chegou a notícia do regresso de Rother a Portugal – já passou mais de um ano desde que actuou no Milhões de Festa, como relembrou, entre canções, no gnration -, chegar à fala com ele era tão ou mais importante que (re-)ouvir a sua música. Na época, a sua participação foi  crucial: afinal de contas, viveu aquela altura em todas as suas dimensões sociais e culturais. Integrou os Kraftwerk, os NEU!, e os Harmonia, e prosseguiu, depois, numa prolífica carreira a solo; além disso, conviveu com Klaus Dinger, Dieter Möbius, Hans-Joachim Roedelius, e chegou a estar apalavrado uma colaboração com David Bowie, à altura da sua trilogia de Berlim, que não se deu por questões alheias a Rother e afectas a problemas contratuais. Tudo isto recapitularemos: há muito para contar na história do alemão.

Vimo-lo depois do seu lanche de meio da tarde; uma figura de indumentária escura, com bons modos e trato. Por entre cumprimentos, foi informado do cancelamento de uma entrevista, e o seu gáudio, imediato, no qual se entreveio algum cansaço: “Que bom! Tenho feito tantas, mas tantas entrevistas, e têm sido dias cansativos… Estou um bocado cansado”. Rother, recordemos, é agora um sexagenário e tem calcorreado o mundo para interpretar alguns clássicos com outros dois músicos. Há uns anos, fez um excelente retrato da sua carreira para a Red Bull Music Academy, entrevistado por Hanna Bächer. Procurámos um local confortável, e escolhemos o átrio coberto do gnration.

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Sentados, recordaríamos 1968, quando a Alemanha de Oeste estava mais próxima do mundo ocidental, e culturalmente ligada aos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Por esta altura, deu-se um fortíssimo protesto da comunidade universitária que reivindicava, entre outros, o despedimento de professores outrora com ligações ao partido nazi, o fim da guerra do Vietname, “e uma profunda preocupação com os direitos dos negros nos Estados Unidos”, relembra Rother. “Éramos muito próximos da América e tudo aquilo nos impressionava, assim como a brutalidade do Vietname. Não fazia sentido. Nessa altura, muitos dos meus amigos – que sempre foram mais velhos que eu -, escolhiam manifestar-se dessa forma. Eu tentei sempre seguir o outro caminho”. Este choque com a sociedade envolvente levou, entre outras coisas, a uma quebra assumida com os cânones culturais dos países de língua inglesa.

O caminho alternativo de Rother aparece recorrentemente, um que trilhou várias e de distintas formas ao longo da carreira, como uma negação à violência do nosso mundo. Pouco mais tarde, participaria nos primórdios dos Kraftwerk, seminal grupo da electrónica que, à altura, ainda direccionava a sua música a outras paragens (recorde-se um famosíssimo concerto na televisão alemã), onde conhecerá Klaus Dinger, e entabula-se entre eles uma química musical que terá expressão no primeiro disco dos NEU!, gravado em apenas quatro noites com o produtor Conny Plank. “Hallogallo”, faixa-chave do álbum, sintetiza nos seus 10 minutos o ímpeto cavalgante, o drive repetitivo, ambos características associadas aos NEU!, mas serão, porventura, fruto da influência da música paquistanesa em Rother, que caracterizou um dia como “uma interminável corrente de música em direcção ao horizonte”.

“Na altura não ouvia nada do que se passava à nossa volta e queríamos explicitamente romper com o que se fazia na América e na Grã-Bretanha”, diz-nos. “Era apenas eu, o Klaus, e o Conny, e experimentámos muita coisa: sem grande preparação, tocar e aferir o resultado. Na “Im Gluck”, por exemplo, o som da água é o Klaus e a namorada no meio do rio, a remar”. Uma impressão que reaparece em “Lieber Honig”, a fechar o disco, mais a guitarra solitária que acompanha a voz rumo a nada em específico – estão apenas , artefactos sonoros singulares que, posteriormente, se transformam em algo mais. Dinger, percebemos, foi como uma outra face da mesma moeda, um complemento às composições de Rother onde raramente se encontravam.

entrevista_michael_rother11.jpgEm concerto, constatamo-lo, com mais um guitarrista e baterista em palco, nos espectáculos que tem feito nos últimos anos: são, respectivamente, Franz Bargmann, que com os Camera ainda continua o legado do kraut, e Hans Lampe, colaborador de Dinger no seu projecto posterior, os La Düsseldorf. Exibindo o orgulho NEU!iano num autocolante do seu computador, recupera as composições mais melodiosas  – “Hallogallo”, “Neuschnee”, “E-Musik”, por exemplo -, e leva-as todas a bom porto; a elas, e ao público, de idades heterogéneas e com muitos a fazerem mais quilómetros que o habitual. Os NEU! têm ainda um repertório perfeitamente actual e musicalmente interessante, indo mais além do interesse histórico que algumas das composições terão.

Depois dos primeiros dois discos com Klaus Dinger, dá-se mais um acontecimento fortuito que o leva a juntar-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Möbius, os Cluster, na idílica Forst, Alemanha rural. Aqui, além de produzir dois discos – e ainda se editou um terceiro, já em 2007, com algumas gravações recuperadas das sessões com Brian Eno -, os três viveram em pacífica comunhão, longe da azáfama citadina e livres para tocar a seu bel-prazer. “Foram, de facto, tempos fantásticos. Éramos absolutamente livres e a natureza fascinava-nos: cortávamos lenha, cozinhávamos e ouvíamos os pássaros.” Hoje, é aí que Rother mantém a sua residência, e discorre sobre esses tempos, perdido entre as suas memórias, já esquecido da pergunta inicial: “Tocávamos quando queríamos e éramos muito amigos.” Inevitavelmente, recordámos Roedelius, que esteve em Braga no ano passado, e falou, também, dessa altura com reverência. “De todos, ele foi o que gostou mais, possivelmente. Foi, para ele, uma altura muito especial – ele romantiza muito esses tempos”. De Roedelius, rapidamente chegámos a Dieter Mobius, seu companheiro nos Harmonia e que viria a falecer no ano passado.

“Foi complicado. Eu não sabia que ele estava doente e foi tudo muito rápido. Ele era um óptimo músico, e um bom amigo. Com o Klaus, as coisas eram diferentes: ele era muito intempestivo, mais agressivo e nem sempre estivemos em bons termos.” Klaus Dinger, depois de NEU! 75, o terceiro do grupo gravado já depois do período em Forst, lançou-se, tal como Rother, numa carreira a solo; no entanto, desagradaria o seu colega ao editar, sem aviso prévio e em dúbias condições contratuais, um disco de gravações inéditas dos NEU!, no Japão. “Houve uma altura em que o Klaus queria muita coisa. Teve muitos problemas com drogas e sempre quis ser mais famoso do que era. Ele já partiu e a passagem do tempo faz-nos esquecer alguns pormenores enquanto glorifica outros. Dentro de mim, sinto que cheguei a uma paz com ele”. É a inevitável acção do tempo que leva à conclusão que Rother é, passados estes anos, um dos últimos da sua geração. E ele, claro, sabe-o. “Sim, é verdade…e é difícil, sabes, aperceberes-te que, com os anos, as pessoas de quem mais gostas vão desaparecendo. Simplesmente, é assim a vida –  ainda hoje, todos os dias, me lembro do Dieter e sinto-o presente comigo. E na minha música, também. É, talvez, uma forma de apaziguamento.”

Por isso, não podia deixar de revisitar o repertório dos Harmonia, mais informado pela electrónica e pelo ambient, onde se pode, a exemplo, em “Dino” constatar a inconfundível presença de Rother. São composições que, tal como a música da sua infância no Paquistão, parecem surgir já distantes do seu início e desaparecem sem ter chegado a um fim – existem, apenas. Depois, ainda a meio do concerto, há um momento revelador e que sintetiza o que Rother traz aos seus projectos: passando por Flammende Hertzen, o seu primeiro disco a solo, recupera a faixa-título, uma em que a guitarra, absolutamente expressiva, persegue uma melodia simples, aberta, e luminosa, quase como uma música folk em que a voz é, desta vez apenas, cantada em seis cordas. Na tela por trás dos músicos, surge a imagem, inofensiva e até algo pirosa, de um mar – estamos, ainda que não intencionalmente, num território extremamente kitsch.

Será essa uma preocupação para Rother? Cremos que não. Desde há muito tempo, assume abertamente que a única característica que julga importante na sua música é “que venha do coração”. Nos NEU!, esquivava-se à fúria indomável de Klaus Dinger e não se retrata na frenética “Hero”, onde Dinger canta a revolta contra tudo e todos – terá sido aqui, aliás, que Bowie bebeu ideias para a sua homónima “Heroes”; com os Harmonia, perseguiria uma via mais experimental, mas não resistiu a reduzir a abstracção e conduzi-los a terrenos mais concretos e melódicos em Deluxe, o seu segundo disco. Mais tarde, em nome próprio, ver-se-ia livre para praticar a sua música nos moldes predilectos, como o fez sempre na sua carreira, perseguindo uma música simples e bela, desprovida de grandes artifícios formais. Compôs e tocou sempre com vista ao horizonte; fez-se sempre acompanhar pelo ritmo assertivo e dominante.

O domingo em que ouvimos Michael Rother em Braga, trouxe-nos um dia nublado, não muito frio, e com uma permanente ameaça de chuva. A dada altura, já no final da nossa conversa – o músico teria ainda que se preparar para o concerto, e não pudemos falar sobre Brian Eno, a música a solo e a influência da sua música na Alemanha natal -, o telhado coberto, mas transparente, sob o qual nos sentáramos, ameaçava-nos com o ritombar da água em queda, cujo barulho, aumentado pela acústica do edifício, tomava proporções de dilúvio bíblico; de modo que nos custava ouvir Rother, tal era a interferência. O próprio aperceber-se-ia e lentamente remeteu a sua atenção para o fenómeno. Os olhos pareciam revelar que nunca ouvira a chuva daquela forma e até nós nos sentimos impelidos a contemplar o momento – a partir daí, dificilmente teríamos a sua atenção outra vez. “Que som bonito!”, cortando o silêncio – e assim ficámos mais um pouco. Ali aconteceu algo, som como música, como o fora antes o marulhar da água em “I’m Gluck”, mais um momento fortuito que poderia, para Rother, ombrear com “Hallogallo” ou os momentos musicais dos Harmonia, ainda na floresta de Forst.

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O alemão é uma lenda viva, e respira vitalidade; está contente com o seu passado e orgulhoso do legado que deixou; como a sua música, parece-nos que Rother é um homem de prazeres simples. Nesse dia, muitos voltaram a casa satisfeitos com a música – intemporal e genuína, profunda influência para quase tudo o que ouvimos hoje. Houve história, e fez-se história, na nossa pequena cidade de Braga. Oxalá vejamos Michael mais vezes, e em breve.

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