Barry Jenkins filma uma vida, à luz da raça e do seu meio: eis Moonlight.

r-2436278-1283951326-jpegA referência a Every Nigga is a Star, que ouvimos antes de uma qualquer imagem, dificilmente é inocente: no início de 2015, no disco To Pimp a Butterflya voz de Boris Gardiner também foi apropriada por Kendrick Lamar; um não subtil aviso que denunciava a mensagem central do excelente trabalho do rapper americano. O mesmo se pode dizer do filme de Barry Jenkins: intencionalmente precedido pela mensagem de Gardiner, lança-se no ataque à raça e à identidade pessoal do indivíduo; e depois de terminado Moonlight, dele saímos com a história de um homem, generalizada para além da sua negritude, mas estudada à luz da sua raça e do seu meio.

MoonlightPoster02.jpgE este filme, também ele, é um produto de quem é Barry Jenkins, o seu realizador. Um negro que reflecte no seu trabalho a luta histórica, violenta e actual de um povo e de uma cultura nos Estados Unidos da América – e que se estende, pelas palavras de uma das suas personagens, a todos os negros do mundo. Um problema centenário, e tremendamente interessante dum ponto de vista cultural: no último século, dele advieram duas das ramificações musicais mais relevantes dos últimos cem anos, o jazz, e o hip-hop, e que carregam uma enorme dimensão histórica fruto da sua própria singular origem. Quanto ao primeiro, vejamos como a discussão sobre La La Land, outro fortíssimo candidato aos Oscars deste ano, foi contaminada pela falta de noção histórica deste género musical: reclamou-se a ironia de salvar o jazz através da visão de um branco (a personagem de Ryan Gosling), num filme sobre brancos, realizado pelo branco Damien Chazelle; e com o hip-hop, jazz partilha o berço, uma íntima consequência do trajecto e da história dos negros em reflexão e revolta. É frequente falar-se de uma luta, que em inglês se torna struggle, e que difere do termo fight – mais visceral, mais físico, e mais comprometido com a violência.

Em Moonlight, há uma omissão de todos estes problemas, pelo menos de uma forma explícita, para aparecerem mascarados em vários pontos do seu enredo. A acção está localizada em Miami, num bairro suburbano onde a droga se vende de dia, na rua, e as moradias abandonadas são pontos de consumo de crack. Decorre num período incerto, mas por muitos factores dedutível, algures na década de 80, ou 90. Chiron, ainda um menino, conhece Juan depois de fugir de alguns bullies, e entabula-se uma forte amizade que lhe proporciona a experiência de um pai que nunca teve.

Juan, que é na verdade um emigrante cubano, vai simbolizar alguns dos temas recorrentes ao longo do filme. É ele que introduz Chiron ao mar, à sua imensidão de espaço e ao distinto marulhar das suas ondas, o ensina a nadar e assim a dominá-lo; logo após, incute-lhe a responsabilidade de descobrir quem ele é, de edificar a sua personalidade, sem a influência de outros. Mas há um momento, quando Chiron é confrontado com a sua homossexualidade – mesmo que através de uma violência que não consegue entender, quando, na escola, lhe chamam faggot -, que recorre à cuidadosa explicação de Juan; mas, ainda no mesmo jantar, confronta-o com o facto de ser o dealer que vende o crack à mãe do menino, que, por sua vez, é a causa de precisar fugir de casa recorrentemente.

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Esta manifesta hipocrisia não é um problema simples nem será tema explícito de Moonlight – que prefere acompanhar a vida de Chiron até à idade adulta, num intervalo temporal que ultrapassa o normal coming of age, tal como Boyhood o havia alargado, em 2014, no mais ambicioso filme de Richard Linklater – mas este tema geral está sempre presente e permanentemente aludido a, como a consequência que, a seu tempo, será também a sua causa: a comunidade que se canibaliza a si própria. E Chiron seguirá, adolescência fora, em confronto com o fantasma da droga e da sexualidade, até que chega finalmente ao estado da idade adulta. O filme, esse, convida-nos a aferir o seu crescimento, de menino a homem feito, e confrontar a pessoa que se formou.

d47a5880Curiosamente, o disco a que alude (ainda que inconscientemente, embora seja improvável que a referência a To Pimp a Butterfly tenha passado despercebida ao realizador) estabelece a mesma metáfora na sua narrativa: a lagarta que haverá de se tornar borboleta num mundo feio, incoerente e impuro. Por isso, não é descabido que se considere Moonlight juntamente com a obra de Kendrick Lamar, dado que provêm de lugares semelhantes. Mas almejarão um destino, ou até uma mensagem, igual também? Em comum, há a questão do orgulho, tanto do indivíduo como da sua raça e da sua cultura, mas a mensagem será porventura mais complexa nas letras do rapper (basta recordar o monólogo no final de I Love Myself, agressivo e realista para com a actualidade dos negros da América). Dado o final de Moonlight, parece haver redenção para o indivíduo, mas não para a comunidade – e talvez se possa supor que uma não está necessariamente ligada à outra.

É interessante que o filme levante estas questões, e defendo que este subtexto paralelo é intencional. Caso o vejamos como obra solitária, não deixa de haver uma série de méritos do filme e do seu realizador, Barry Jenkins. À primeira vista, será evidente o cuidado com a fotografia, abrangente e expressiva, que em momento algum se limita a cumprir o suficiente; a câmera joga com semelhante responsabilidade, e temo-la sabedora dos limites da sua expressão: vibra e oscila despreocupadamente nos momentos de maior liberdade de Chiron (quando corre e brinca, quando nada, com Juan, no mar de Miami), mas restringe-se, quase se intimida, nos momentos de maior tensão. Os três actores funcionam magistralmente seja a manifestarem as lutas interiores de Chiron, como quando articulam todos os sentimentos no arco maior que engloba as distintas fases da vida da personagem; e todo o restante elenco nivela por cima a sua tarefa. Há coragem no representar de duas minorias em simultâneo (os negros, e os homossexuais), e inteligência na forma como permite que a maior história da comunidade perpasse a narrativa da vida de Chiron.

Com interesse, se segue agora o consequente contraste entre Moonlight La La Land na contenda dos Oscars. São filmes profundamente distintos mas com uma linha comum na realidade que representam da América, ainda que menos intencional no trabalho de Damien Chazelle. Este drama à parte, Barry Jenkins filmou algo do qual se poderá justamente orgulhar, um trabalho que será relevante seja hoje, amanhã, ou nos vários anos de vida que lhe adivinhamos.

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