De Niro e Scorsese entram num bar; o cinismo narrativo do Rei da Comédia.

the-king-of-comedy.21773.jpgPoderia vir carregado de um enorme simbolismo, mas, tanto quanto me lembro, a primeira escolha cinemática do ano – e logo no final de tarde do primeiro dia de Janeiro – foi uma espécie de feliz acaso, motivado pela aposta segura que é o cinema de Martin Scorsese. The King of Comedy é um produto do que erroneamente supus ser a sua infernal década de 70, que nos trouxe Taxi Driver, New York, New York, e Mean Streets – até Raging Bull, se errarmos até 1980 -, e tudo se deveu à presença de Robert de Niro no papel principal. Afinal, precede After Hours, já nos anos 80, tendo chegado às salas no ano de 1983. Quando estes dois nomes se juntam, à memória assoma a impressão das ruas nova-iorquinas, musicadas por Bernard Herrmann e o seus sopros sombrios, as luzes, os néons, reflectidos nos charcos da chuva na estrada, a raiva e a errática obsessão de Travis Bickle, noite adentro ao volante do seu táxi. Há traços dessa personagem no auto-intitulado Rei da Comédia (e antes, no Jimmy Doyle de New York, New York), sem que saibamos a fonte da insistência nessa personalidade perniciosa, determinada, a roçar o lunático. Assim também o é Rupert Pupkin, um comediante amador, que crê ser o mais genial comediante da sua época, pudesse apenas romper pela hierarquia do entretenimento e provar o seu real valor; e irá lutar por essa oportunidade. Enclausurado pelo seu ego, é através dele que toldará todas as suas impressões e acções, um caminho que, a nós, tanto se mostra salutar determinação como delirante loucura, completamente desfasada da realidade. Se, nesse sentido, Pupkin é uma extensão de Travis Bickle, há nos dois uma distinta diferença traçada pela mão de Scorsese, que lhe junta mais uma dimensão pela forma do próprio filme: em Taxi Driver, a acção apresentou-se linear, contada por uma lente narrativa que por nada julgaríamos parcial; a câmera narra, apenas, a vida e as escolhas de Bickle. A questão parece até ser pouco relevante, mas vejamos como, em relação à história de Pupkin, a narrativa do filme nos é apresentada de uma forma não-linear, e o seu impacto na audiência alimenta a dúvida entre a realidade categórica e a ilusão de Rupert Pupkin.

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Concretizemos: Pupkin ambicionava chegar ao topo da comédia, e isto significa ser o Rei no late night show de maior audiência da televisão; por isso, identificou como prioridade estabelecer contacto com Jerry Langford (interpretado por Jerry Lewis), director e apresentador do programa. E aqui, Scorsese tomou a escolha editorial de mostrar cenas com Jerry fora da sua linearidade, e que levanta, em suspenso, a possibilidade de as mesmas serem produto da imaginação de Rupert Pupkin. Assim, Scorsese é, além do autor do filme, manifesto cúmplice no criar da suspeita que o público levanta em relação a Pupkin, e a toda a história. Este processo de ter um narrador de pouca confiança não é inédito nem muito menos revolucionário, nem no cinema nem no maior arco que a literatura compreende, mas resulta e torna The King of Comedy bem mais interessante do que seria sem esta decisão; e quanto à similitude com a personagem de Travis Bickle, surpreende que o autor do guião original não seja Paul Schrader, mas sim Paul D. Zimmermann, um guionista muito menos prolífico que o anterior.

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Jerry Lewis, De Niro, e Martin Scorsese, na altura de The King of Comedy.

Depois, além de seguir a acção de Pupkin, Scorsese envereda numa velada crítica à televisão e ao conceito de celebridade, cujo cinismo terá sido, porventura, um dos motivos para o tardio (e ainda algo parco) reconhecimento deste filme na sua filmografia e, numa perspectiva mais abrangente, no próprio cinema Americano (por outro lado, Sidney Lumet teve mais sucesso com o extraordinário Network, de 1976, igualmente cínico). Por isso, desenganem-se os que o consideram um trabalho menos importante ou merecedor de pouca atenção: está aqui uma progressão do estudo que nos trouxe Travis Bickle e que continua, por exemplo, em New York, New York (do qual falaremos em breve), tanto a nível de construção de personagem como na própria apresentação da narrativa, enquanto entretém e convida à reflexão. É um importante passo na eclética e multifacetada filmografia de Scorsese; e, por isso, também indispensável.

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