Um ano moral; o cinema que 2016 me deu.

Esta, caros leitores, conta-se como a segunda tentativa de produzir um pequeno resumo do meu ano em cinema. A primeira, recheada de boas intenções, perdeu-se num ridículo ziguezaguear ensaístico entre a intrínseca moralidade no cinema que orienta subtilmente as suas narrativas, e defendia eu, se herdará da sua própria relação com a humanidade.

Ora, seria um belíssimo raciocínio a seguir, como exercício puramente retórico, mas, devido à sua abstracção, também extremamente contraproducente. Denuncia, no entanto, uma das variadas teorias subjacentes a esta arte que aqui nos chama –  o cinema – e a sua multiplicidade interpretativa; perceber este meio artístico, as suas funções, origens, e correntes, permite-nos, como consequência, extrair mais de cada um dos seus filmes.

No último ano, descartei quase por completo o cinema contemporâneo. Dos 69 filmes que registei neste ano, cerca de dois terços serão prévios a 1980 – clássicos, portanto. Por um lado, sem que medisse as consequências deste afastamento, não contactei com o cinema de autor que se fez neste ano, nem no passado – isto, porque, entre outros motivos, em Portugal recebemos os filmes com um atraso considerável.


image-w240Faz hoje um ano que vi (e revi, em menos de 24 horas) L’Avventura, de Michelangelo Antonioni, que me abriu as portas do seu cinema. Desde então e no presente ano, consumi grande parte da sua filmografia mais moderna e mediática, que enquadro desde 1960 a 1975. São filmes de uma beleza visual extraordinária, cuja lentidão é atenuada, e contrastada, pelos seus riquíssimos diálogos. E é aí que reside a sua arte; a ténue narrativa presente nada sustenta sobre si, e a sua existência não tem arcaboiço, sequer, para justificar a passagem do tempo: existe, só e apenas, quase como uma distracção.

Perdi-me com Antonioni; dele li várias entrevistas e declarações, e revi alguns filmes com a faixa de comentário, tudo como tentativa de entrever mais nos filmes que produziu.

articleinlineEm traços gerais, houve mais dois realizadores que acompanhei neste ano: completei o pouco que havia visto de Alfred Hitchcock com mais três peças da sua filmografia (Rope, Dial M For Murder, e I Confess), todos estranhamente obcecados com a ideia de culpa, com o fetiche do crime, que são afinal motifs quase obrigatórios nas histórias que foi filmando; e ainda Éric Rohmer e os seus filmes morais, todos filmados entre 1967 e 1972 (La Collectionneuse, Ma Nuit Chez Maud, Le Genou de Claire, e L’amour l’après-midi). Dois cineastas extremamente distintos (um, o rei do suspense e da adrenalina, o outro, circunscrito à pacata França e às vidas das suas personagens), que até ao tema no qual comungam – a moralidade – se lhe referem sob perspectivas diferentes: Rohmer conhece o Bem, e batalha para que as suas personagens não lho fujam; Hitchcock delicia-se com a perversão humana, com o saciar do desejo, com o crime, e o sangue.

Ainda, como não confio ainda na minha orientação no mundo do cinema, aceitei alguns guias, pequenos roteiros: o óptimo podcast de Pedro Mexia na Antena 3 (que entretanto terminou – é uma pena!), assim como o seu compêndio de crónicas publicado na Tinta da China, que me levaram à carreira do contemporâneo Noah Baumbach e a alguns filmes singulares da história do cinema (Sudden Rain, Laura, El ángel exterminador, etc.); e ainda o cineclube Lucky Star, em Braga, que todas as semanas recordava mais um capítulo na imensa história do cinema americano – a eles lhes devo os belíssimos Canyon Passage, Five Easy Pieces, e Summer of 42’, entre outros.

artoff6678Tudo o resto foram felizes encontros fortuitos, e suas consequências – também assim se constrói o nosso próprio cânone. Lembro-me da forte impressão deixada por Superstar: The Karen Carpenter Story (sobre o qual há um rascunho por publicar…) da autoria de Todd Haynes, que aqui se apresenta como um irreverente iconoclasta experimental; Pixels, na sua patetice, nem é dos pontos mais baixos da carreira de Adam Sandler; Rosemary’s Baby e Videodrome são dois pedaços muito sinistros do cinema americano, absolutamente icónicos; Les Parapluies de Cherbourg foi uma muito agradável surpresa, um musical francês belíssimo, cândido, extraordinário! A Matter of Life and Death, com um actor de quem apenas conhecia a voz, conta a história de um homem literalmente entre a vida e a morte, com alguns excelentes pormenores técnicos pelo meio (vejam-no, pelo menos, para assistir ao mannequin challenge 60 anos antes de o fazermos nós!); e, por último, o filme de Natal que me levou às lágrimas, ainda na toada mística de A Matter of Life and Death, da autoria de Frank Capra e com James Stewart no papel principal, It’s a Wonderful Life!

E cá está: em palavras breves, sem almejar a superiores teorias do cinema, um breve resumo do que foi o meu ano com o cinema. Que 2017 seja tão, ou mais rico – para vós também!

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