Uma leviana retrospectiva do ano de 2016.

Passou, de rajada e sem que tivesse dado conta, mais um aglomerado de doze meses. Ainda ontem escrevia pensamentos semelhantes para o ano transacto. Por entre os livros, os filmes, a música, e a televisão, fica aqui um pequeno rescaldo de alguns momentos e pensamentos marcantes. Tive um ano bastante aceitável; espero que, em retrospectiva, o vosso tenha sido tão bom ou melhor. PS: confesso que a ordem é altamente irrelevante.

10. Coura foi dos LCD Soundsystem.

Não estive presente no início, no durante, nem no final (?) da carreira discográfica dos LCD Soundsystem; e confesso-me não conhecedor do seu repertório. Guiado apenas pela efusiva opinião de um amigo, fiz por não perder o seu concerto no auditório natural de Coura, que me surpreendeu – muito. Em palco, uma banda irrepreensível, irreverente e com uma química irresistível entre todos os membros, liderados pelo ícone James Murphy. Sintetizaram, em cerca de duas horas de concerto, uma carreira inteira. E foi óptimo. Ficou no ouvido a magnífica rant em Losing My Edge, com um olhar muito atento sobre a música das décadas passadas. Uma banda de melómanos, para melómanos, e um dos melhores momentos do ano.

9. Radiohead e a apresentação de A Moon Shaped Pool.

radiohead-nosalive2016-kp-6O concerto no NOS Alive – apenas a minha segunda oportunidade de poder ver os britânicos, e a primeira que pude concretizar – veio com o mote de apresentar o mais recente disco, A Moon Shaped Pool. Ao vivo, é uma experiência agridoce: para um disco que vive dos seus momentos de silêncio, não há rédea que impeça o público de querer fazer parte dessa comunhão. Não me recordo muito do concerto, talvez pela intensidade e pelo cansaço acumulado de horas a fio na fila da frente, mas terá sido belíssimo. Não caio no erro de o tentar justificar, mas os Radiohead são, indubitavelmente, dos projectos musicais mais importantes desde que a música é gravada. A noite foi deles, e de quem esteve lá também.

8. A queda do what.cd; a ascensão das cabeças da hidra.

Para os leigos, o what.cd foi o maior directório digital de música que existiu, e que facilitava o acesso aos trabalhos mais obscuros, recônditos, e difíceis de encontrar – tinha muito perto de tudo, impecavelmente organizado, com um catálogo análogo ao que havia sido a Biblioteca de Alexandria há mais de dois mil anos. O acervo completo da nossa produção cultural será sempre comparável a uma utopia, mas não se pode julgar quem, ainda assim, o tenta. Quase dez anos depois da sua génese, o what.cd colapsou após uma intrusão das autoridades francesas protectoras dos direitos de autor, num desaparecimento rápido, indolor, quase belo, e assistiu-se, nos dias seguintes, a uma espécie de elegia colectiva cibernética por tudo o que ali foi alcançado. Em menos de uma semana, surgiram pelo menos três alternativas, mostrando que são irrisórias as tentativas de bloquear este movimento. A hidra – ou melhor dizendo, o porco vive. Long live oink!

7. A conversa com um ícone da música alemã, Michael Rother.

img_3695
Fotografia de Henrique Almeida

Quando o nome foi anunciado, a prioridade foi imediatamente chegar à conversa com o alemão Michael Rother. Músico de especial preponderância na década de 70, esteve no epicentro do movimento que denominamos de krautrock e que acabou por influenciar grande parte da música subsequente. Havia muito por falar: as circunstâncias que levaram a um tão pronunciado boom cultural, o retiro dos Harmonia em Forst, o trabalho com Brian Eno – entre outros. Infelizmente, o tempo não o permitiu. Mas ficou na memória um momento específico: fascinado pelo concerto que o cair da chuva em catadupa provocava no telhado da sala onde conversávamos, deixou-se levar pela sua envolvência, e antes que o soubesse, a conversa havia terminado aí. Não havia como o fazer voltar. Descobri que Rother não é um músico particularmente difícil de chegar à fala com, o que é extraordinariamente agradável dado tratar-se de algo como uma lenda viva.

6. Kanye West e Frank Ocean.

Semelhantes no mediatismo que atraem, e tão diferentes na postura que mantêm: Kanye um alarve social, (tão) próximo da insanidade mental, enquanto que Frank é frio, comedido, metódico; ambos com lançamentos ímpares, independentes, que abalaram 2016 para melhor, mas absolutamente heterogéneos na forma de se expressar: para um, fervorosos tweets endiabrados, para outro, uma quase canónica entrevista ao New York Times. De um, tudo se sabe; do outro, apenas o essencial. Para o bem e para o mal, são dois artistas que representam faces opostas da mesma moeda, e são, nas variadas facetas das suas personas, um pertinente reflexo do mundo que vivemos. Dois artistas profundamente distintos que comungam na sua humanidade: afinal, apenas desejam um pouco de paz, um pouco de amor – não tão distantes de cada um de nós, portanto.

5. Charlie Brooker e Black Mirror.

affiche-black-mirror-2011-1.jpgEste foi o ano no qual Black Mirror, através da Netflix, se deu a conhecer ao mundo, e completou a sua afirmação como uma das melhores produções televisivas de sempre. Toda a operação foi comandada pelo britânico Charlie Brooker, um guionista que já havia feito trabalhos irreverentes no meio (Dead Set, Nathan Barley), e que aqui levou a tecnologia ao seu limite – às vezes, num futuro não muito distante de nós -, num universo criado a partir do célebre “what if?” e terminando sempre na análise às suas implicações sociais. Tivemos de tudo: ciber-ataques a cidadãos comuns, uma sociedade que gira à volta de ratings individuais, e os efeitos quotidianos de uma memória permanente, on demand. É sátira, comédia, e drama, mas também um sério aviso de que a máquina é tão menos benigna quanto maiores forem as suas capacidades. E o futuro pode estar mais próximo do que pensamos.

4. Serviço Público na televisão.

Já foi um destaque no ano passado, e volto a mencioná-lo este ano: embora não seja perfeito, o trabalho que a RTP2 faz pelo cinema é assinalável. Este ano tivemos, por exemplo, ciclos de Quentin Tarantino e Andrei Tarkovsky. Os horários são apropriados, a divulgação suficiente – caso, por sorte, se mude a vida a uma única pessoa que seja, terá valido a pena. Mais ainda: parece que a RTP vai apostar na produção de televisão nacional, o que é óptimo. A cultura – em particular, a cinematográfica – é salutar e necessária. Que a valorizemos como tal.

3. David Bowie, Prince, Leonard Cohen, e Pauline Oliveros formam uma banda no céu.

Há duas coisas inevitáveis na vida: a morte, e os impostos. Diz-se algo deste género. E as estrelas na terra não são excepção. Estamos permanentemente ligados e vivemos, em tempo real, tudo o que se passa no mundo; inevitavelmente, a morte de quem vemos como maiores-que-a-vida tocam-nos especialmente. Bowie despediu-se em grande estilo; Cohen sabia-o e não fez caso disso. Prince estava demasiado ocupado a ser uma superstar, e Oliveros vive, ainda, dentro do espaço que criou dentro do som. 2016 foi um ano terrível em certos aspectos, mas não neste em particular. Nada há mais natural do que trocar uma estrela na terra por um lugar brilhante no céu.

2. O não-cinema de 2016.

large_slml8aeque2sazz4dqnahqnyeyqConsegui terminar o ano sem ver nenhum filme elegível para o top anual do Arte-Factos (ok, não é bem verdade: vi, no início do ano, Creed, The Big Short, e mais recentemente Lemonade, que acompanha o disco da Beyoncé). Não que não tenham saído bons filmes, o que seria manifestamente mentira, mas mantenho-me no muito de bom que há nos anos que ficaram para trás: revisitei o apartamento de L.B. Jefferies, com vista para os prédios da frente, onde Hitchcock estabeleceu um tratado sobre o voyeurismo; com Truffaut, descobri os filmes da sua vida e percorri as linhas que desenham o amor e a amizade – será tudo o mesmo? – em Jules et Jim; o meu francês melhorou com os diálogos de Éric Rohmer, e Antonioni foi o meu professor de italiano existencial. O cinema é das artes canónicas cuja história é mais recente: vamos, facilmente, às origens com os irmãos Lumière, até aos tempos de hoje, e é um privilégio que o possamos fazer à distância de uns cliques. A distância que afinal nos separa da Itália pós-guerra de Rosselini, dos retratos sociais do Japão por Ozu – a vida dos outros que podemos viver como se fosse a nossa.

1. A relevância da televisão, ou “The reports of my death have been greatly exaggerated”.

E, entre tudo o que aconteceu este ano, é engraçado ver como a televisão se quer reinventar e produzir novos conteúdos. A televisão, ainda que seja à base de som e imagem, é profundamente distinta do cinema, e estabelece nessas diferenças um enorme leque de qualidades: os Monty Python nascem dum formato televisivo; Seinfeld nasceu de um formato televisivo; The Wire, os Sopranos, e outros – enfim, já sabem onde quero chegar. Por pouco, perdíamos este meio, mas assistimos, com a Netflix, Amazon, HBO, etc. ao renascer do formato de entretenimento. Há espaço para tudo, e para todos, desde que tenhamos critério e boa crítica. Tenha Mark Twain dito ipsis verbis ou aproximado q.b., são agora as palavras deste meio para os que lhe traçavam o obituário precipitado.

130120-feature-foot-900x368

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s