Um encontro com crocodilos ao ritmo de Pernadas; concerto no gnration.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA TRACKER MAGAZINE]

É costume dizer-se que bom filho a casa torna. Na verdade, pode não ser o provérbio mais apropriado: nem Pernadas é bracarense, nem o gnration – onde se estreou a actuar -, será uma referência para o músico. No entanto, há cerca de um ano, ocupou o palco do Theatro Circo, no Festival Para Gente Sentada, que decorreu em Braga, para proporcionar um dos concertos mais surpreendentes da noite. Com a sua trupe de sete músicos em palco, o mote foi How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, o primeiro disco em nome próprio, de uma sonoridade eclética, bem preenchida, mas extremamente acessível.

Pois bem: um ano volvido, Braga foi novamente anfitriã da sua música. Desta vez, precisamente no gnration, o músico propôs Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them, um dos dois discos que lançou no passado dia 23 de Setembro. A expectativa poderia medir-se pela afluência ao concerto: à hora marcada, a Blackbox estava muito bem preenchida e o seu palco, habituado a não mais que três ou quatro músicos de uma assentada só, pareceu multiplicar-se (uma ilusão, apenas) para albergar toda a parafernália; uma bateria, dois saxofones, uma flauta e trompete, guitarras várias, sintetizador, e baixo eléctrico. Para os manejar, um ensemble de dez músicos, incluindo o próprio Pernadas, encarregue da guitarra e, simultaneamente, o nosso mestre-de-cerimónias.

Ainda assim, o público respondia sem considerar as chatas questões de composição. Depois da avalanche rítmica de “Problem Number 6”, viajámos para “Valley In the Ocean” a soar como uma balada de outros tempos como se tivesse sido composta na plácida contemplação intergaláctica, o seu sintetizador meloso como orientador da viagem. Quando, através dele, Margarida modula a sua voz para um belíssimo efeito, todos agradecem a si próprios a decisão de ali estar, presentes na constatação de que a música é uma grandiosa arte e fantástico veículo de emoções. Ciente do singular momento, Bruno Pernadas toma os interregnos para apresentar o disco, a banda, e o nome de cada canção. Aproveitou e agradeceu ao técnico de som e a Luís Fernandes, director do gnration, pela – perguntámos entretanto a razão – aposta num grupo tão numeroso.

No palco, o grupo reunido por Bruno Pernadas é exímio; mais do que interpretar as canções, esta reunião tomou contornos de “festa”, um encontro entre amigos sob o pretexto de dar vida a este disco. Se, ao ouvi-los em casa, nos arrebatamos com a imensa variedade da música, o intangível sentimento de maravilha – como se fôssemos crianças outra vez a descobrir sons e melodias -, em concerto podemos, além de a ouvir, constatar o crescimento das canções, ou a sua materializaçãoEvidentemente, a escola na composição que o jazz proporcionou, mais o facto de serem todos músicos competentes, faz com que tudo, esta espécie de química entre todos os intérpretes – a comunhão musical -, pareça extraordinariamente fácil. E a sua diversidade é imensa: quando, em “Galaxy”,passámos pela marcha dos sopros e as vozes, em coro, hipnóticas, tudo um bom revivalismo de uma época musical passada, custa crer que é o mesmo grupo a puxar a brasa ao rock em “Ya Ya Breathe” com uma intensidade pulsante que suplantaria muitos aspirantes a shoegazers. Isto não é jazznem pop: é um statement de devoção à música, mais uma vez, como arte.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s