Edição 95 – O cantautor sec. XXI, a conversa com Emanuel Graça, e último de O’Rourke.

A Mosca voltou – e trouxe companhia.

Ainda antes: em semana de Radiohead (a edição 95 estreou à meia-noite de dia 8 (para 9) na Rádio Lisboa), lembrámos a sua complicada-de-assimilar fase do The King of Limbs (2011), ainda que volvidos 5 anos e já não tão heterogénea com o resto da sua discografia. A música que ouvimos, Staircase, lado B de um single conjunto com The Daily Mail, consta num registo lançado no mesmo ano, mas muitos meses depois de The King of Limbs. Hoje, sabemos que não a tocaram ao vivo (nem seria previsível), mas podem escutar aqui uma incrível performance no Saturday Night Live.

Depois, destaca-se o californiano Lucas W. Nathan, que dá corpo a Jerry Paper – segundo o próprio, na sua página do Bandcamp, «Jerry Paper is the entity that inhabits Lucas W. Nathan’s body when he is grooving». Nele encaixámos o epíteto de cantautor do séc. XXI na perfeição. Munido de recortes electrónicos (sintetizadores melosos, batida no perigoso limiar vanguardista/foleiro), escreve e canta a angústia e a adaptação da condição humana à globalização:

Digital precision / More human than human / Tools made of information / help me to be / more than human

Can’t discern / the difference / between the code / and my world

Estas palavras ouvem-se na letra de Chameleon World, incluída no disco Big Pop For Chameleon World (2014). Ainda que absurdamente irónica nas suas intenções, partilha com outras correntes – uma das associações imediatas é o vaporwave – uma certa ingenuidade, como se tudo fosse um planeado embuste para facilitar a assimilação deste novo paradigma de vivência. Não se distingue entre o assertivo ataque crítico e a vontade de eliminar, o mais rápido possível, as linhas entre real e imaginário. Para cimentar esta dúvida, e como tem sido habitual nestas manifestações artísticas, há uma transversalidade na qual se inclui o digital e a informática: o disco complementa-se com um videojogo (que podem encontrar aqui, adaptado a Windows e Mac).

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A sua carreira discográfica conta com nove registos, tendo o mais antigo a data de 2012. É um documento duma metamorfose que não desagua necessariamente em Big Pop: já neste ano, lançou Toon Time Raw! em colaboração com os Easy Feelings Unlimited (já lá vamos)É necessariamente um trabalho diferente, dado que quase nunca a música é atribuída a outra entidade que não Jerry Paper / Lucas W. Nathan.

What are you currently listening to?

Matt [dos BADBADNOTGOOD]: Jerry Paper. It’s really sweet. It’s like the Beach Boys meets Ariel Pink, but with some weird synths. Really neat.

na PrefixMag

Na verdade, os Easy Feelings Unlimited são os BADBADNOTGOOD (I know, right?!); os canadianos, por um qualquer motivo (suspeito que terão achado que a música foge muito ao jazz/hip-hop que lhes conhecemos), preferiram manter uma espécie de anonimato. Deste registo ouvimos Stargazers, que não é necessariamente o ponto de partida ideal, mas é provável que este não exista de todo. É um disco muito eclético (vem à cabeça Mac deMarco, bossa-nova, jazz romântico, etc.). Fica aqui uma pequena introdução à música de Jerry Paper, que será – faço aqui a aposta – um dos nomes a recordar como revisão desta década.

Depois, segue-se a participação do Emanuel Graça (ex-Música sem Merdas) no nosso programa. As suas palavras foram gravadas ainda antes do NOS Primavera Sound, quando lhe pedi algumas sugestões de artistas a não perder. Das cinco que seleccionou – Destroyer, Bardo Pond, Tortoise, Julia Holter, Dinosaur Jr. – ficámos com as três primeiras. Foi o mote para falarmos de um dos primeiros discos dos Destroyer e a distância para trabalhos mais recentes, como o magistral Kaputt (2011); tentámos enfiar o maior número de analogias sexuais possíveis a propósito dos Bardo Pond, e deles ouvimos uma actuação nas John Peel Sessions; e os Tortoise serviram como ponto de partida para mencionar a incrível onda criativa britânica, e o epíteto post-rock sob o qual se tutelaram vários projectos dos anos 80/90 britânicos. Recomendo muito que ouçam este excerto.

Para terminar o programa (e, mais uma vez, muita da música transita para a próxima emissão), ficamos com uma pequena amostra da muito recente colaboração entre dois titãs da música experimental/exploratória: Jim O’Rourke, o versátil músico ex-Gastr del Sol/por-um-breve-período Sonic Youth com Fennesz, mais dedicado à electrónica e aos limites sónicos da guitarra. O trabalho conjunto tem o nome de It’s Hard For Me to Say I’m Sorry, cortesia da Editions Mego.

Voltamos o mais rápido possível – o mundo da música não pára nem espera por nós.

95

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