A Winged Victory for the Sullen no Auditório Adelina Caravana.

Este post cumpre apenas o intuito de juntar neste blog os vários artigos que fui escrevendo, e que por vezes se espalham entre vários outros sites. Neste caso, foi escrito originalmente para o Arte-Factos, a propósito do concerto do grupo em Braga. Foram dois artigos – um, sobre a curta carreira da banda, e outro com a recensão do concerto.


A Winged Victory for the Sullen apresentam-se em concerto, em Braga.

©Nick & Chloé
©Nick & Chloé

Há muito que devemos ao acaso do acontecimento, ao encontro fortuito, à oportunidade inesperada, dos quais advêm, e não são raros os exemplos, grandes exemplos de criações artísticas. De uma semelhante ocasião nasceram os A Winged Victory for the Sullen, dum lado Adam Wiltzie, do outro Dustin O’Halloran, em Bolonha, quando Wiltzie actuou num concerto dos Sparklehorse de Mark Linous. No final, foram apresentados por um amigo comum. Sabemos agora, pela força do projecto que ambos criaram, que era um encontro predestinado.

A história musical de Wiltzie começou no passado século, com o grupo Stars of The Lid, em colaboração com Brian McBride, editando maioritariamente pela Kranky – uma etiqueta de referência. Deste projecto, assinalo o disco “The Tired Sounds of Stars of the Lid”: um marco da transgressão entre o ambient e o drone que perpetua uma abstracção envolvente, etérea, a partir da manipulação do som de instrumentos musicais numa composição sinfónica. Dustin O’Halloran, por sua vez, trabalha mais no concreto, com os seus vários trabalhos em piano, mais discretos que opulentos, sem nunca lhe entregar o protagonismo completo; envolve-o numa teia de sons clássicos, que o complementam. Ouça-se, a exemplo, o seu mais recente álbum, que data de 2011. “Lumiere”, é o seu nome.

A-Winged-Victory-For-The-SullenO projecto conjunto ficou assente logo após o primeiro encontro, e chamar-se-ia Winged Victory for the Sullen. Estrearam o resultado do trabalho conjunto em 2011, com um disco homónimo editado pela Erased Tapes (onde figuram Nils Frahm, Ólafur Arnalds, e Peter Broderick). É um óptimo álbum. O’Halloran ao piano, Wiltzie a cargo das decorações, convidam-nos à contemplação atenta das composições minimalistas, que se desdobram e se expandem sem quebrar o doce encanto da melancolia. É um diálogo entre os dois, como uma simbiose entre músicos que não ocupam o mesmo espaço, e cujas intervenções se complementam e engrandecem quando vistas no todo. “Às vezes, invertemos os papéis; é a verdadeira definição de colaboração. Eu a escrever as partes de piano, e o Dustin a compor a ambiência. Desprendemo-nos dos nossos egos e encontrámos uma forma de confiar um no outro. Tenho a certeza que se pode ouvir isso, no disco”, disse Wiltzie à publicação online TinyMixTapes.

atmosVolvidos 3 anos, 2014 viu-os lançar dois trabalhos: Primeiro, o EP Atomos VII, e, logo de seguida, o álbum Atomos. Desta vez, o disco foi criado de uma forma quase programática, já que foi comissionado pelo coreógrafo Wayne McGregor para acompanhamento musical do seu espectáculo do mesmo nome; no entanto, ambos músicos dizem ter tido uma enorme liberdade no processo, já que compuseram apenas tendo em conta pequenos pedaços de inspiração – como filmes, fotografias, ou frases: “E se entrassem no buraco negro e saíssem pelo outro lado?”, perguntou, a dada altura, McGregor. Entretanto, é um registo menos tímido, no qual as cordas têm um papel mais determinante e a música é, de uma forma geral, mais interventiva. São dois álbuns diferentes.

Agora, é altura de os ver ao vivo. Hoje, em Lisboa, no Teatro Maria Matos. Amanhã, será em Braga, no gnration. Depois, a última oportunidade de os ver este ano será na Madeira, no Madeiradig.

A Winged Victory For The Sullen no Auditório Adelina Caravana (04/12/2015)

awvfts em braga 1

Faz hoje uma semana que os A Winged Victory For The Sullen se apresentaram em Braga. A organização do concerto ficou a cargo do gnration, embora não tenha acontecido na sua Blackbox. Desta vez, deu-se no Auditório Adelina Caravana, uma sala de lugares sentados pertencente ao Conservatório de Música Calouste Gulbenkian.

O grupo formado por Adam Wiltzie, encarregue das teclas e da guitarra eléctrica (cujo som é totalmente transfigurado), e Dustin O’Halloran, no piano (e numa espécie de modulador?), trouxe mais três músicos, que os acompanharam no violino, viola e violoncelo – instrumentos nucleares no segundo álbum da banda, Atomos, que foi tocado na íntegra. Como constatado na antevisão ao concerto, é um disco mais opulento, mais parco em contemplação, mas que foi composto inicialmente como acompanhamento musical a uma coreografia de Wayne McGregor; a própria edição em disco das composições foi apenas equacionada mais tarde.

Do concerto, há momentos que guardo em maior estima: quando os cinco músicos contribuíam para a edificação de algo maior, os sons se tornavam articulados e ganhavam vida, e sentíamos o frisson que outros nesta área, como Tim Hecker no drone ambient, Gavin Bryars na composição mais clássica, nos provocam frequentemente. Infelizmente, não aconteceu muitas vezes ao longo de quase duas horas de concerto, quando os motivos se repetiam, as cordas entravam e saíam sem grande critério, e a música, esse todo, parecia desorientada e sem personalidade. Será culpa da matéria prima que sustentou o concerto, o álbum Atomos, que em muitos aspectos seguiu numa direcção diferente do seu antecessor?

awvfts em braga 2

Entretanto, e sem equacionar argumentos mais subjectivos, parece-me ter encontrado uma justificação, uma diferença apenas visível nas letras pequenas de cada um dos discos: no primeiro, havia Hildur Guðnadóttir no violoncelo e Peter Broderick no violino; Nils Frahm supervisionou as gravações (um papel que será delegado a Ben Frost no segundo álbum). Será a falta destas contribuições suficiente motivo para me afastar do resultado de Atomos?

São considerações pertinentes, mas tudo isto é inconsequente perante a sala quase cheia que, no final, saiu satisfeita com a obra de Wiltzie e O’Halloran; muitos lhes agradeceram, já no átrio do Conservatório, pela música que trouxeram a Braga. Deixo os meus preciosismos musicais de lado (e que são, afinal, uma questão de gosto): é bom que um projecto relativamente underground, de um género sem espaço em rádios e spotify’s afins, consiga encher uma sala de Braga e satisfazer o seu público; melhor ainda é saber que esta cidade tão culturalmente caduca, por vezes, cimenta assertivamente esta vontade de trazer e ouvir música, seja de onde for.

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